O CASAMENTO DE MENTIRINHA DE KATIE SIMPSON 

MINA FORD


Abas

Katie Simpson desistiu de amar. Depois de flagrar seu namorado com outra chegou  concluso de que relacionamentos simplesmente no valem a pena um momento difcil
de sua vida no qual ela precisa como nunca do apoio doa melhores amigos.
George, Janice e Sam, porm, esto ocupados demais com seus prprios problemas e interesses para darem a devida ateno a Katie. Janice comeou a freqentar velrios
em busca do seu homem ideal: bem velho e bem rico. Sam convive com uma idia fixa: um interesse inexplicvel por mulheres muito, muito magras. E George est  beira
do desespero porque o visto de David, seu namorado australiano, vai expirar.
Uma idia porm, pode salvar a ptria. J que Katie no quer mais se envolver seriamente com homens, por que no fazer um casamento de mentirinha com David para
que ele obtenha um visto permanente e possa ficar junto de George? Uma soluo e tanto.
Evidentemente, as coisas no correm como deveriam. Afinal Katie pode ter desistido do amor. Mas ser que o amor desistiu de Katie? O resultado  um romance muito
divertido e inteligente de uma das revelaes da nova literatura feminina britnica. Um livro sem meias-palavras, engraado e totalmente inovador.




Mina Ford estudou letras e viveu na Frana antes de aceitar um emprego em uma empresa de comunicao francesa sediada em Londres. Depois de muitos anos de fria
nos metrs lotados, resolveu fugir para a relativa paz e tranqilidade de Bath, onde escreveu este seu primeiro romance.

Capa de Glenda Rubinstein.


Contracapa


"Leitura obrigatria." - The Sun.

"Uma histria honesta e muito engraada." - Evening Herald.

"Literatura feminina provocadora." - The Daily Mirror.

"Momentos hilariantes." - Company.


Depois do fim traumtico de seu namoro, Katie Simpson precisa desesperadamente do apoio de seus amigos. Mas justo nessa hora eles esto mais preocupados com os prprios
problemas. Janice est em uma busca insana por um marido velho e rico. Sam no pensa em nada alm de mulheres extremamente magras. E George est em pnico. Pois
o visto de seu namorado australiano vai expirar.
Todos esto ocupados demais para pensar em Katie, at que ela resolve se casar. Ser apenas um truque para atrair novamente a ateno dos trs? Ou ela est mesmo
disposta a levar seu plano at o fim?
Um Romance de estria engraadssimo sobre uma mulher moderna e inteligente que tem mais preocupaes e interesses do que ir s compras ou o prximo namorado.







PRLOGO









- Eu vou me casar.
- O qu?
Queixos pairam sobre o assoalho enquanto meus amigos digerem a ltima novidade. Para ser honesta, eu mesma estou um tanto chocada.
H seis meses, jurei que comeria meu prprio cabelo e me sufocaria com uma bola de plo entes de me render. Mastigaria pedaos de unha cortada antes de comprar o 
enorme vestido de merengue, apertar meus ps, sempre  vontade, em um sapatinho de salto idiota e permitir que um homem-porco-cachorro de casaca de brocado me arrastasse, 
gritando e me debatendo, para o altar. Agora, olhe s para mim. Katie Simpson, solteirona convicta, prestes a abrir mo de minha preciosa independncia e me transformando 
em Senhora...
Buggeration.
H? Senhora o qu?
Por mais surpreendente que seja, com toda a agitao louca dos ltimos dias, nunca me ocorreu perguntar que porcaria  o sobrenome dele, fico repetindo para mim 
mesma que no faz a menor diferena. Podia ser Pratt ou Shufflebotton, d tudo no mesmo. Podia ser Clutterbuck ou Blenkishop, realmente, tanto faz, foda-se.
At parece que eu tenho a inteno de us-lo de verdade, pelo amor de Deus.
Bom, pelo menos no durante um bom tempo.
Mas estou me adiantando...








UM







Primeiro de janeiro. Quatro meses, trs semanas e dois dias se passaram desde que eu entrei no banheiro de Jake Carpenter e deparei com Frase Calcinha de Peixe, 
a Motoqueira de Balham, agarrada ao suporte de toalhas com as pernas escancaradas, calcinha fio-dental cor de cereja, bem vulgar, pendurada em um p, e a bunda branquela 
de Jake subindo e descendo como uma britadeira entre as coxas bronzeadas. Afundo-me no sof molenga de camura cor de caramelo. Tiro um resto de esmalte verde-limo 
com purpurina que sobrou na unha do dedo do p e dou uma olhada no anncio de classificados pessoais, que rabisquei ontem  noite em um mao de cigarros, sob efeito 
de vodca barata.
"Ruiva desajeitada que ficou para titia, viciada em bacon e com uma estranha obsesso por gays, procura homem heterossexual com jeito de gay que no seja ruivo e 
odeie esportes para relacionamento srio. Manacos por TV, viciados em Playstation, que tenha fetiche pela me ou cabeludos tipo cientista louco nem precisam se 
dar ao trabalho de responder."
Dou um golo no Milk-shake de banana, arregao o pijama xadrez desajeitado para eliminar um plo encravado da canela e examino meu anncio mais uma vez. Da transformo 
o papel em uma bolinha e, com um lance, acerto na lata de lixo.
E tomo a deciso inabalvel de continuar solteira.
Daqui por diante, sou uma mulher de uma noite s.
Aquele negcio de dizer que eu sou ruiva no  uma informao muito precisa. Faz pouco tempo que meu cabelo ganhou a cor de Nectarina. Bom, era o que dizia na caixa 
- mas, depois de ver o resultado, acho que seria apropriado batizar a cor de Tangerina Non.
A parte que fala que estou  procura de um homem tambm no PE absolutamente verdadeira. Eu posso at ser solteira, mas no tenho nada a ver com aquelas coitadas 
desesperadas que a gente v pelos bares jogando o cabelo de um alado para o outro e se afogando em taas de Chardonnay porque tm a bunda grande e esto sem namorado.
Eu, no.
No estou dizendo que seja perfeita. s vezes, sou a maior vaca. J tive fama de fazer xixi na escova de dente de quem me enchia a pacincia. Tenho fascnio mrbido 
por noticias de tragdias horrorosas no jornal.  comum ficar uma semana sem tomar banho. Pois , eu tenho l os meus defeitos.
E meu pssimo gosto por homens com certeza est bem no comeo da lista.
Sou um horror para escolher homem. Para comear, meu gayzmetro veio com defeito. Sou admiradora serial de gays. Se me aparece pela frente um homossexual galopante, 
eu tento seduzi-lo. Meu critrio de seleo  reconhecidamente ruim. De acordo com a minha Ficha Pessoal Amorosa, j cruzei com o cara certo trs vezes. Ah, o primeiro 
cuidava bem de mim, bem mesmo, comprava bugigangas quando eu estava deprimida e no era nem um pouco egosta na cama.
Ou, pelo menos, era o que eu pensava.
S fui descobrir o que ele queria de verdade quando abri meu presente de aniversrio de 24 anos. Rasguei o papel cor-de-rosa brilhante toda animada, e fiquei absolutamente 
chocada ao me ver boquiaberta diante de um conjunto cravejado de coleira e uma guia de cachorro. E da ele me bateu com aquilo. Disse que sempre achou que eu era 
um pouco comportada demais na cama. Parece que eu o deixaria com muito mais teso se me dispusesse a ficar de quatro de vez em quando e latir um pouquinho.
S consegui soltar um "au" bem fraquinho antes de me desmanchar em lgrimas, pegar o casaco e sair dali sem olhar para trs. 
Apaixonei-me pelo Senhor Cara Certo Nmero Dois por uma razo muito simples. Ele comia rpido. E isso fazia com que eu parecesse positivamente delicada quando amos 
a restaurantes. Infelizmente, no demorou at que aquele jeito dele de devorar a comida me desse nos nervos e eu ansiasse por uma linha mais sotisficada de comportamento 
para a hora do jantar.
E da apareceu Jake. E eu simplesmente fui l e me apaixonei por ele. Caramba.
Eu me recuperei de cada relacionamento que tive o azar de experimentar. Desde que cheguei  puberdade, a agulha do meu Barmetro de Besteira tem estado permanentemente 
no nvel "Perigosamente Alto". J engoli tanta merda que seria uma boa candidata para terapia de choque de desintoxicao.
Depois daquele fiasco no banheiro, parecia que eu estava andando pelo esgoto.
Reconheo que j est mais di que na hora de eu me conformar com o agito da vida de solteira. Tudo bem,  verdade que as coisas neste momento no esto assim muito 
agitadas, mas tudo muda, no  mesmo? Pelo menos j sou bem grandinha para admitir que, na corrida do romance, eu no posso competir. No meu cardpio pessoal de 
namoro, Homem est em falta. J experimentei relacionamentos, e prefiro torta. Veja s toda a tristeza que Jake me causou. E nem d para comparar com o que os outros 
dois me aprontaram. Estou totalmente decidida. Os nicos homens que permitirei entrar na minha vida no futuro so Ronald Mcdonald, Senhor Kopenhagen e Senhor Kipling.
Com eles, no tem erro.
E j que estamos falando deste assunto, de modo que voc j sabe qual  minha posio em relao  comida, j vou logo dizendo que no fao regime. Em vez disso, 
prefiro carne de porco, torta, sanduches e chourio frito na banha. Engulo qualquer coisa, menos bala de anis e aquelas partes melequentas do ovo que parecem catarro. 
H dois anos, quando estava terminando com Tom, desisti de contar calorias. Tom era um poeta que trabalhava em uma loja de roupa de nen para fazer as mulheres pensarem 
que ele era um cara sensvel. Quando eu afinal resolvi que ele talvez no fosse o Senhor Cara Certo, mas que era Porra, Quase Isso, descobri que ele tinha sido preso 
por porte de GBH e que era casado.
O que imediatamente o transformou em Senhor Saia Fora da Minha Vida.
Eu me senti a maior otria. Engolia uma tortinha de morango atrs da outra e devorava potes de pudim mais rpido do que conseguia abrir a geladeira. Percebi que 
j tinha muito com o que me preocupar para perder tempo imaginando se ia ou no ter que esconder a barriga com uma daquelas calcinhas modeladoras. Eu teria bastante 
tempo para reclamar do meu peso quando tivesse verdadeiras bisnagas amarradas nas coxas e meus plos pbicos tivessem desaparecido sob camadas de banha iguais s 
do bonequinho da Michelin.
E foi a que conheci o Jake.
E de repente o mundo se transformou em um lugar mais feliz e mais brilhante.
Jake, homem de verdade, designer grfico e dono de um maravilhoso pnis avermelhado, infiltrou-se na minha vida h pouco mais de um ano, durante um lanamento de 
gel de cabelo em Kensington. Obviamente, eu preferiria morrer a ser vista em um evento de puxa-saco desses, mas esse especifico tinha sido organizado pelo meu amigo 
mais antigo, Sam. Quando nasceu, Sam foi abenoado com um sorriso igual ao daquelas moas que fazem natao sincronizada e com a capacidade extra de puxar o saco, 
de modo que estava no caminho certo para se transformar em fodo na empresa de relaes pblicas em que trabalhava no Noho (para quem no sabe,  assim que eu chamo 
a regio no fim de Tottenham Court Road). O lanamento marcava um ponto crucial na carreira dele, e implorou para que eu fosse, para engrossar o pblico. E apesar 
de eu preferir virar um frasco de desinfetante de privada goela abaixo de uma vez s, cumpri minha tarefa, fiz escova no cabelo, passei maquiagem at ficar com aparncia 
brilhante e me enfiei em um vestido verde-cido, s para ir l e ficar em p, na pontinha dos dedos, cheia de ansiedade e me sentindo mais deslocada do que um cara 
que no fez circunciso no Chanuc, enquanto Sam corria de um lado para o outro com bandejas de petiscos que oferecia a hordas de meninas do marketing com vestidos 
justssimos. Como era de se esperar, foi o pior tipo de festa possvel: o tipo em que se bebe champanhe e que as pessoas se cumprimentam com beijinhos sem encostar 
no rosto umas das outras, em que todo mundo se odeia mas finge que no e em que todo mundo fica to obcecado com a aparncia que nem consegue se divertir.
Principalmente eu.
Fiquei no lugar que costumo ocupar nas festas, a pole-position do buf, devorando canaps de salmo com queijo cremoso com uma mo e tentando equilibrar um copo 
de gim fizz e um Marlboro Light na outra. Como sempre, fiquei me xingando em silncio por no ter colho para recusar convite nenhum. Sempre acontece isso comigo. 
Quando me chamam na chincha, fico tentando inventar alguma desculpa aceitvel antes de me render, dizendo aos sopetes que ficaria muito feliz em poder comparecer 
 festa de Ode s Virgens da Jemima ou  noitada temtica de Nux Vomica, ou qualquer porra de evento para o qual me convidem. Ento, quando a hora vai se aproximando, 
eu me vejo rezando por uma dose contagiosa de ebola e imaginando se vale a pena agentar a humilhao de ligar para a anfitri e mencionar a palavra diarria.
Na noite que conheci Jake, eu infelizmente estava saudvel como sempre. Estava com os peitos duros de frio naquele vestido minsculo e olhando para ningum em especial, 
quando senti um tapinha nas costas e me virei para deparar, a um centmetro do meu nariz, com um mostro de sete barrigas e cabelo Black power. Esse espcime raro 
no demorou em envolver meu peito esquerdo em uma conversa comprida a respeito de seu assunto preferido. Ele mesmo. Era negociador, segundo disse, e falou inchando 
tanto o peito que parecia ainda maior. Na Bolsa de Valores. O que  que ele negociava, precisamente, no fao a mnima idia. Mas contanto que no fosse fluidos 
corporais comigo, por mim, tudo bem.
De qualquer modo, torci para que meu peito estivesse ouvindo, caso ele fizesse alguma pergunta depois, porque  certeza absoluta que eu no estava escutando nenhuma 
palavra. Estava calculando quanto tempo eu demoraria para alcanar a sada. Ser que eu devia simplesmente ir correndo at l, ou seria melhor tirar os sapatos antes, 
para no cair de bunda no cho pelo caminho? Quando o Cabelo Black Power finalmente acabou de babar, lembrando-se dos modos por um instante e perguntando ao meu 
peito o que ele fazia, dei uma sacudida e gritei:
- Vamos l, responda ao moo.
Foi alto o suficiente para que um grupo de mooilas designers ao meu lado ouvisse. Pararam de fofocar um instante e tiraram a cabea daquele mundinho delas para 
ver quem era a louca que tinha dado um grito histrico daqueles em um lugar daqueles. Fiquei da cor de tomate maduro. Rezei para que o cho se transformasse em uma 
massa de pudim de maisena cor-de-rosa para que eu pudesse me afundar nele graciosamente.
Por milagre, a salvao veio na forma de um homem-fada de olhos brilhantes e cabelos encaracolados, que mandou na minha direo um sorriso conspiratrio entes de 
agarrar meu brao e dizer:
- Ah, voc est aqui, querida! Procurei por voc em todo lugar...
E ento, dando um sorrisinho que era pura malcia, fingiu que cochichava:
- Esse a ganha a vida tirando foto das pelancas dos outros. Voc no vai querer se meter com um cara desses, no ? Alias, meu nome  Jake. Como vai?
Foi o destino. Jake me salvou das paginas dos tablides e eu fiquei abobada. Ele me tirou da l e me levou para o Soho, para comer num chins gorduroso, e da me 
acompanhou at em casa para "tomar um caf". A partir da, eu virei uma exceo  regra da maldio do SAPO (Sexo Apressado na Primeira Oportunidade), que deixa 
bem que claro que, se voc  uma daquelas vagabundas que vai para a cama com um cara assim que o conhece,  absolutamente improvvel que v sair com ele de novo.
Mas Jake era bom demais para ser verdade. E o sexo era simplesmente maravilhoso.
No comeo.
Fizemos com que o Kama-Sutra se parecesse com desenho animado para criana. Transvamos em tudo que era lugar. Sob pilhas de casacos em festas, dando risadinhas 
como se fssemos adolescentes. No banheiro de um avio a caminho de Amsterd. Nenhuma pedra ficou no lugar durante nossa busca por Lugares Novos Para Trepar.
E Jake me ensinou muita coisa. Nunca soube que uma barra de Toblerone podia ser usada de tantas maneiras.
Por azar, toda aquela animao se desgastou rapidinho. Depois de seis meses, eu me pegava imaginando desenhos de coelhinhos e borboletas na sombra da bunda dele 
que subia e descia na parede, s para passar o tempo. Mas resolvi dar a ele e a sua tcnica aleatria o beneficio da duvida. Afinal de contas, era mais do que natural 
as coisas carem no lugar-comum depois de um tempo, no  mesmo?
Caramba, mas como  que eu ia saber? Mas uma coisa  preciso dizer. Se eu soubesse que Jake estava mandando ver na Fraser Calcinha de Peixe, eu tria feito mais do 
que imaginar bichinhos fofinhos durante a transa. Eu teria mesmo pedido que ele me passasse um cinzeiro para eu enfiar no traseiro dele.
Bom, mas no vou mais me meter nesse tipo de merda de novo. Estar solteira, digo a mim mesmo com firmeza, ser uma coisa maravilhosa. Pense s nas vantagens! Vou 
poder usar meus Levis rasgados - aqueles que Jake odiava, que deixam aparecer a bunda, todo dia, se eu quiser.
Vou poder deixar meus pentelhos crescerem at o joelho.
Assistir porcaria na TV sem precisar fingir que s estou sendo irnica.
Andar pelo apartamento coberta de clareador de buo.
E deixar resto de plo raspado na banheira  hora que eu quiser.
Ah, e j que estou falando nisso, tambm no vou mais precisar ficar toda ansiosa cada vez que o telefone toca e depois  s algum dos meus amigos. Talvez Janice, 
para contar a histria de um motorista de caminho que ela pegou em algum restaurante a quilo. Ou talvez George, ligando para falar detalhes horrveis sobre a tendinite. 
Ento, no final das contas, acho que a vida vai ficar bem mais fcil.
Meu primeiro dia de Solteirice Oficial coincide com o primeiro almoo de Fumantes e Escria. Vou me encontrar com meus trs amigos mais chegados para devorarmos 
pizza juntos. E se eu no apressar para me aprontar, vou chegar atrasada.
Que droga.
Vou arrastando os ps pelo corredor, derrubo meu copo de Milk-shake e fao um rio de meleca amarela que escorre pelo assoalho. Subo a escada correndo, arranco uns 
Doritos do caf da manh que sobraram nos meus cachos cor de laranja, pulo para dentro do chuveiro e me esfrego toda com meu sabonete lquido de grapefruit para 
eliminar o resto da minha ressaca de vodca. Espero alguns minutos para que minha mscara de algas faa efeito e logo saio correndo, escorregando no pntano em que 
transformei meu banheiro, enrolo-me em uma toalha de banho branca e vou em disparada para o quarto, quase tropeando em Graham e Shish Kebab, que esto enrolados 
no patamar da escada como se fossem dois croissants ruivos.
No d tempo de secar o cabelo com secador, o que significa que vou ficar com um halo de cachos em volta da cabea, como uma aliengena do Planeta Pbico. Passo 
uma montanha de condicionador antifrizz para compensar da melhor maneira possvel e encontro um fru-fru amarelo-limo para fazer um rabo de cavalo com toda aquela 
maaroca. Fico com cara de garotinha, mas no d tempo de me preocupar com isso agora. Jogo um p para dar um jeito na pele, que neste momento se parece com carne 
enlatada, e passo um pouco de rmel e uma camada de gloss nas locais indicados. Dou uma revirada na gaveta de calcinhas e s acho as que uso quando estou menstruada, 
mas hoje no faz mal, tendo em vista que as chances de ficar com algum so limitadas. Adiciono Levis desbotados, uma malha preta velha e justa, uma meia cor-de-rosa 
e uma outra horrorosa, cor de pssego, enfio um par de tnis que fedem a queijo e me dirijo para a escada, localizando as chaves, os cigarros, a bolsa e o celular 
no caminho at a porta.
O ar congelante ma golpeia direto no peito. Credo. As ruas de Balham esto desertas. Quem  sensato ficou em casa, bem quentinho, bem enroladinho na frente da TV, 
enterrando os ossos das ceias de fim de ano ou jogando alguma coisa. Tremendo, enfio as mos nos bolsas do casaco de couro bem gasto e vou caminhando rpido, passando 
direto pela pet shop, agradecendo a Deus por uma vez na vida ter me prevenido e ter um mao de cigarros novinho comigo, para no precisar me aventurar pelo ambiente 
mido da lojinha da esquina. Passo pela casa laranja cor de vomito, com aqueles azulejos verdes de redemoinhos, que normalmente se colocam em lareiras, no parapeito 
das janelas. Passo tambm pelo ptio deserto da escola e sob a Ponte do Coc de Pombo, ao lado da estao de metr. Passo por vrios bares de comida rabe e de hambrgueres 
at que, depois de alguns minutos, vejo o luminoso em nen cor-de-rosa da nossa pizzaria preferida brilhando e, j babando com o cheirinho do po de alho que toma 
conta do ar mido e poludo de Balham High Road, empurro a porta, entro e dou uma olhada,  procura dos meus trs melhores amigos no mundo.







DOIS





Como sempre, sou a ltima a chegar. L esto eles, j confortavelmente instalados na nossa mesa preferida de canto. Janice, escolhendo azeitonas e enchendo o cinzeiro 
com bitucas cobertas com o batom que  sua marca-registrada (Harlot Scarlet). Janice , absolutamente, minha melhor amiga, porque tem VMA que, na linguagem-Katie, 
significa Valor Muito Alto. Ela  quase vinte centmetros mais baixa do que eu, os peitos dela se parecem com bolas de praia, tem mais curvas do que uma pratada 
de espaguete e uma massa de cachos redondos no tom daqueles drops amarelos limo, bem estufados, para que parea mais alta. Janice  absolutamente engraada, no 
espera que os outros faam as piadas e, apesar de ela provavelmente descrever a si mesma, de maneira irritante, como uma pessoa de "muita personalidade" e poder 
ser terrivelmente mandona e um pouco desajeitada antes de mostrar seu lado amigo, eu a amo do fundo do corao, porque ela faz mesmo qualquer coisa para ver algum 
rir.
George, com um lado da bundinha linda erguida da cadeira de frmica enquanto procura o mao de cigarros coloridos no bolso traseiro, est empoleirado na frente dela. 
Vestido com uma camiseta cor de sorvete de morando agarradinha, calas prateadas justas e um par desajeitado de sapatilhas de ciclista, parece plido. Os olhos dele 
se afundaram quase at o fundo do crnio e ele est claramente detonado. O que no  surpresa nenhuma. Afinal,  primeiro de janeiro, e George  gay. Deve ter passado 
a noite de ontem se acabando com os doces dos clubes e danando ao som de Dana International.
- Passou a noite em claro, foi? - brinco com ele.
- Por acaso uma atriz internacional tem passaporte? - resmunga ele, mostrando a lngua.
Sorrio para ele e olho o outro lado da mesa, para Sam. Ele parece, preciso reconhecer, um tantinho desconfortvel. Mas nem precisa ser gnio para descobrir que  
porque Janice parece ter se colado com Super Bonder ao lado dele. Coitado de Sam. Janice gostou dele desde o dia que os apresentei, nos tempos de faculdade. Qualquer 
meno do nome dele na presena dela suscita, sem exceo, muitos comentrios e movimentos sugestivos do punho fechado com o brao para cima. Sam morre de medo dela. 
No tenho coragem de contar a Janice, mas ele j disse que preferia ir para a cama com a av. Ele diz que ela se parece demais com uma integrante de bandinha de 
colgio para o gosto dele, apesar de George achar que Sam deve ser uma bicha enrustida. Mas para George todos os homens so. Principalmente quando ele quer ir para 
a cama com algum deles.
George, devo dizer,  uma vadia com V maisculo.
Conheo Sam h muito mais tempo do que os outros dois. Janice e George so amigos de faculdade, ao passo que Sam e eu ramos vizinhos desde crianas. Passamos a 
infncia estragando os brinquedos um do outro, detonando o mximo que podamos tudo o que o outro tinha. Eu quebrei a bola de elstico dele; ele cortou fora as pernas 
da minha Sindy Jogadora de Futebol com um canivete. Ele pisou em cima do meu cavalinho de balano; eu joguei os rgos do jogo Operao dele na privada. Fomos expulsos 
juntos do playground por nos pendurarmos nas cordinhas da descarga do banheiro dos meninos (porque eu tive a idia), at que elas no agentaram e se soltaram. s 
vezes, a gente se divertia.
E outras vezes, no.
Quando tnhamos 4 anos, abri a cabea dele com uma pazinha de brincar no tanque de areia porque minha me deixou que ele sentasse no colo dela. O que, para mim, 
pareceu bem justo. O corte sangrou tanto que o cabelinho louro de anjo dele ficou todo cor-de-rosa. Chocada, proibi-o de contar isso a qualquer pessoa. S fui desmascarada 
quando nos sentamos para assistir televiso e minha me viu as borbulhas de sangue que iam se espalhando rapidamente pelo espaldar da cadeira de balano de palhinha. 
Ah, eu era totalmente a favor de compartilhar as coisas, desde que no fossem as porras das minhas coisas que estivessem sendo compartilhadas. Eu era filha nica, 
pelo amor de Deus. Eu era sensvel.
De algum modo, Sam e eu conseguimos continuar amigos. Acredito que o fato de o pai dele e minha me continuarem morando na mesma rua contribua para o fato: eles 
se visitam regularmente para tomar um drinque e trocam as coisas que plantam na hortinha do quintal quando lhes d na telha.
Sam mudou um pouco desde que ramos crianas. Agora ele tem 1,90 m e uma cabeleira loura que se recusa a ficar penteada, por mais que ele passe um monte de meleca 
carssima nela, e Sam se joga de corao em tudo que se prope a fazer. Aproveita a vida aos bocados, como se ela fosse uma enorme e deliciosa torta de ma. As 
mulheres o adoram. Ele diz: "Pula"; e elas perguntam: "Quer que eu pule s de calcinha?". Ele estala os dedos e elas vm correndo, todas molhadinhas. Acho que deve 
ser o entusiasmo dele. Porque no  especialmente bonito.
Est certo, tudo bem, teve uma poca que eu era meio a fim dele. Deixei ele pegar na ala do meu suti na frente do cinema quando tnhamos 14 anos. Mas foi s porque 
ele comprou para mim um saco tamanho-familia de bombons e deixou eu comer todos do tipo que eu gostava.
Ah, e tambm demos uns amassos na festa de formatura do ensino mdio. Mas para mim isso a tem o menor valor.
Ento Janice me v, d um pulo e me envolve em um enorme abrao de urso que cheira a Giorgio.
- Algum est com um cheirinho bom - digo, apertando as costas dela. - Sua perua de classe.
- E voc est linda - retribui ela, apresar de eu saber muito bem que estou parecendo um abacaxi ruivo gigante.
-  mesmo?
- Claro que sim. Meu Deus, Katie, voc  a perua mais sortuda por no ter peito.
- Hmmm... obrigada.
- Ah,  verdade - ela olha toda desanimada para o prprio peito, deixando o queixo cair como todas ns mulheres fazemos ao examinar o prprio decote. - Qualquer 
coisa que eu visto fica pendurada na ponta dos mamilos e fica parecendo que eu estou grvida.
- Voc est tima - digo.
E est mesmo. A blusa apertada de manga comprida enfatiza suas curvas e a barriga, achatada como uma panqueca. Mas d para ver que ela no acredita em mim nem um 
pouco.
Ns duas atribumos tanta insegurana ao lugar onde trabalha. Ela tem um emprego timo em uma agencia de publicidade. Mas, por azar,  obrigada a ficar o dia inteiro 
sentada ao lado de idiotas que ficam jogando o cabelo de um lado para o outro e soltam frases-feitas ridculas como: "Vamos ter que ver qual  a posio do cliente, 
Roger" ou "No sabemos bem o que esta aqui vai dar, Frank, vamos ter que arriscar e ver". Todas as mulheres que trabalham l usam preto e so to magras que nem 
tm bunda. Em breve, acho que vo ter que mandar acolchoar as tbuas de privada para no terem que encarar processos por danos fsicos no trabalho. Coitada de Janice, 
que  obrigada a trabalhar em um ambiente desprovido de bundas. O meio em que ela vive tem traseiros light. E a presso para ser magra  enorme. Ela j experimentou 
todas as dietas da moda que apareceram. Das protenas. Vigilantes do Peso. Do Elton John. O regime que deixava comer tudo que quisesse, desde que fosse s um de 
cada. Aerbica. Natao. Salto ornamental. Tentou at fazer com que eu me juntasse a ela na ginstica localizada. O que, claro, seria algo totalmente impossvel. 
Minha idia de exerccio  abaixar para colocar no forno uns croissants de chocolate e esquent-los bem. E tambm sou alrgica a roupas de ginstica, que colam tanto 
no corpo que acabem achatando a bunda.
No momento, est seguindo as recomendaes de um ou outro guru do regime que lhe aconselhou a no ter nenhum tipo de comida em casa. Mas no est dando muito certo. 
Quando chega a hora de dormir, o estmago dela ronca tanto que ela fica histrica e engole frascos inteiros de vitaminas e de pastilhas anticido, s para enganar 
a fome.
Coitadinha. No que ela tenha algum tipo de distrbio alimentar. Mas ela bem que gostaria de ter. fica louca da vida por no ter fora de vontade necessria para 
ser anorxica. Para ela, a anorexia  um objetivo impossvel.  mais ou menos como olhar um par de sapatos Dolce & Gabbana que ela sabe que nunca poder comprar, 
mesmo se guardar dinheiro durante uma dcada.
- Estou morto de fome - George tira um cigarro cor de tutti-frutti do mao e o examina cuidadosamente.
- No se preocupe - eu lhe asseguro -, combina direitinho com a sua camiseta. E voc, Sam? - pergunto quando ele me d um beijo estalado de Ano-novo na bochecha. 
- Voc est com fome? O que  que voc vai comer, seu canalha gordo?
- Pelo menos posso engordar se quiser - ele me provoca. - E isso significa que eu no ando por a parecendo um taco de hquei magricelo e ruivo.
- Ha h. Bom, vamos pedir. Eu poderia comer um boi inteiro.
- E eu tambm vou comer o que me der vontade - Janice olha para o cardpio com resignao, lutando contra sua vontade de parecer uma lambisgia versus seu desejo 
de comer torradinhas de queijo com alho, espaguete  carbonara e sorvete de chocolate.
- Faa isso mesmo - dou uma fora.
- Foda-se - concorda ela. - Depois eu posso vomitar se estiver a fim.
At parece.
Pedimos cogumelos recheados de mussarela, saladas bem temperadas e pizzas gigantes para todos e encomendamos mais uma garrafa de vinho branco. George pese duas pizzas. 
Ele est se sentindo to mal que pensa que est com meningite, ento fica achando que pode estar mesmo. Mas isso no  nenhuma novidade. Para comear, ele sai tanto 
 noite que est sempre completamente virado. E  hipocondraco clssico. Tem um enorme Livro dos sintomas em casa, que fica folhando aleatoriamente, convencendo 
a si mesmo de que tem sintomas furiosos de cada uma das doenas contidas ali. Aids aparece toda semana. Assim como enfisema. Na semana passada, estava absolutamente 
convencido de que estava com trombose vascular profunda. Na semana anterior, tinha sido doena da vaca louca. E j teve raquitismo e fraturas na canela s Deus sabe 
quantas vezes.
Eu adoro nossos jantares.  timo ver que meus trs melhores amigos se do to bem. E, enquanto esperamos a comida chegar, tagarelamos como matracas, cada um contando 
para os outros o que fez no Natal. Sam, com um bon de beisebol virado para trs na cabea, conta como a sobrinha gostou da casa de Barbie. E depois, com os olhos 
brilhando de tanta animao, arregala as mangas do moletom folgado e tagarela sobra a casa nova. Ele finalmente conseguiu se mudar na semana antes do Natal e no 
agenta esperar para comear a fazer a decorao.
- Espere s at voc ver, Ruiva - e pisca para mim. -  fantstica. Cheia de luz. E quando eu acabar de desencaixotar tudo, vou usar um dos quartos do andar de cima 
como escritrio.
- Para qu? - os olhes castanhos de George brilham, cheios de maldade. - Achei que voc fosse precisar de uma cama extra. Da voc j pode pegar a prxima vagabunda 
antes da anterior ir embora. Nem vai precisar esperar os lenis esfriarem.  s mandar a moa para a cama fria e pronto.
- Como se voc fosse santo - Janice sacode o cigarro e deixa cair um torro de cinzas dentro do meu copo de vinho. - Voc j ficou com mais homens do que a minha 
me, toda coradinha. E isso  algo de extraordinrio.
Tenho pena da me da Janice. Ela se recusa a contar quem  seu pai, e todos ns gostamos de dizer que  porque ela no sabe. O que deve ser, claro, completamente 
falso. E se voc pegar Janice de lado e perguntar srio, ela vai confessar que nunca viu a me com homem nenhum. Mas a gente prefere a histria da vagabunda.  bem 
mais divertida.
- Ser que eu posso continuar? - Sam est rindo.
- Agora eu. Agora eu. - brinco com ele.
- Vocs no querem saber por que eu preciso de um escritrio?
- No, no - continuo, acendendo um cigarro que pego de Janice e cutucando as costelas dele.
- Vou montar minha empresa - anuncia, orgulhoso.
- De qu? - pergunta George. - Acompanhante para mulheres?
- S que ningum ia ter que pagar - digo. - No  verdade, Sam?
- Depende da oferta. Obviamente posso fazer descontos para os meus melhores amigos. Mas vocs trs, seus chatos, claro que iam ter que pagar o preo cheio, de tanto 
que vocs me enchem o saco. Bom, mas o negcio  que alguns clientes da empresa em que eu trabalho no esto muito contentes, e tenho certeza de que consigo convenc-los 
a me contratar. Fico achando que eles esto a fim de um toque mais personalizado.
- Espero que no seja personalizado demais - Janice ri.
Sam revira os olhos em direo aos cus.
- Que legal - afirmo. - Apesar de ser uma coisa um tanto assustadoramente adulta. Vamos l, pessoal. Um brinde.  empresa de Sam.
Janice e eu tilintamos o copo cheias de entusiasmo, e ento George, louco para fofocar, acende mais um cigarro e conta como est rolando seu emprego no programa 
de encontros amorosos e culinria na TV. Na semana antes do Natal, um casal gay ganhou frias na Martinica por causa da fora de suas receitas de bife e torta de 
fgado.  compreensvel, estavam exultantes. E, na festa de comemorao que se seguiu ao programa, George conseguiu fazer com que se separassem.
- Peguei um perto do armrio de material de escritrio e levei o outro para o banheiro das mulheres - d risadinhas diablicas. - Mas acho que ter dado o numero 
do meu celular depois foi um pequeno erro.
- Para qual dos dois? - pergunta Janice.
- Para os dois - ri George. - Anotarem, cada um, em um post-it cor-de-rosa. Barry achou o meu numero no bolso de Steve e caiu a ficha. Ligaram do aeroporto. Parece 
que eu estraguei as frias. Quer dizer, s Deus sabe o que isso tem a ver comigo. Claro que toda a porcaria da culpa caiu em cima de mim. Eu me lembro muito bem 
de no ter prometido fidelidade a nenhum deles. Devem ter ficado putos da vida um com o outro.
- Voc falou com eles depois disso? - pergunta Sam.
- No - George joga a cabea para trs e solta fumaa pelo nariz, como se fosse um drago. - Fui passar o Natal na casa da minha me. Bebi vinho do Porto e limonada 
e joguei palavras cruzadas com ela. E joguei meu celular no laguinho.
- E voc contou para ela? - pergunto, toda sria de repente. George, apesar de ter quase 30 anos e ser mais afetado do que a pior bicha que voc conhece, continua 
recusando-se veementemente a contar para a me que  gay. Tem alguma coisa a ver o fato de ela ser idosa e de ele ser filho nico. Para mim, no passa de idiotice.
- No.
Sam serve mais vinho e todos concordamos que George tem muita sorte de no ter sido demitido. Janice diz que gostaria de ser demitida, porque detesta demais todo 
mundo no trabalho, e eu digo que vou ser demitida se no comear a escrever um texto que preciso entregar amanh. Ento brindamos de novo, entre um coro de votos 
de Feliz Ano-Novo. O que d corda a Janice mais uma vez.
- Resolues. Quem fez suas resolues de Ano-Novo? E no estou falando de coisas fteis, como mais Croissant no Caf da Manh - d a ultima tragada no cigarro e 
apaga a bituca no pratinho de manteiga.
Croissant no Caf da Manh  o eufemismo de Janice e Katie para sexo oral: j que no o recebemos com muita freqncia,  quase a mesma coisa que comer croissant 
no caf da manh em vez de torrada.
- Ou se livrar dos amigos por obrigao - continua ela. - No estou falando dessas coisas.
- O que  um amigo por obrigao? - pergunta Sam.
- So aqueles que vivem ligando - esclareo. - Voc nunca liga porque no faz a menor diferena se nunca mais voltar a v-los.
- Exatamente - concorda Janice. - Mas esse povo no se toca.
- Os porras se recusam a desaparecer - explico. - A nica maneira de se livrar deles  mandando matar.
- Quer dizer - Janice acende outro cigarro e engole mais vinho -, acho que todos ns deveramos pensar em alguma coisa que vai mudar a nossa vida neste ano.
- Tipo o qu? - pergunto. Para ela,  fcil falar. Ela tem uma carreira de verdade. Assim como Sam. A empresa de RP em que trabalha  provavelmente uma das trs 
melhores no pas. At George tem um melhor do que o meu. E ele nem precisa. Ele tem uma herana que vai lhe garantir tnis da DKNY at o fim da vida. Mas o trabalho 
dele de produtor no programa de TV (que tem algum nome bobo como Est Pronto Vamos Transar, sei l) consiste em botar um monte de gente para transar. E ele gosta 
bastante disso. Basta ver a histria de Steve e Barry. Ele pega a nata dos participantes gays, d o maior amasso neles no banheiro e depois joga fora, como um sanduche 
ruim. Parece que ele nem trabalha de verdade, tendo visto o nmero de e-mails que me manda todos os dias.
Alis, eu fao a mesma coisa.
Meu trabalho  uma porcaria. Simplesmente vou passando pela vida na esperana de, algum dia, encontrar alguma coisa que eu esteja a fim de fazer para pagar as contas.
Ainda no rolou.
- E a, vocs querem saber qual  a minha resoluo? - pergunta Janice. - Ou talvez no.
- No - diz George.
- Sim, queremos - eu digo. - No queremos, Sam?
- Claro.
Janice respira fundo, espalma as mos sobre a mesa e olha fixamente para ns.
- Neste ano - toma flego - vou me casar com um homem rico.
- Como  que voc sabe? - pergunta George.
- Porque vou me esforar para caralho - responde ela. -  por isso que eu sei. Chega de ficar com caras da minha idade.
- Do tipo que se orgulha do nmero de cervejas que consegue mamar em uma noite e passa o tempo sonhando com a Lara Croft e botando fogo nos peidos? - pergunto.
- Exatamente.
- Bom, Sam, ento voc est fora - dou uma risadinha.
Ser que estou imaginando coisas ou vi mesmo uma onda de alivio passar pelo rosto dele?
- No se preocupe - Janice d tapinhas carinhosos no joelho dele. - Desta vez vou apostar nos mais velhos.  o nico jeito. Vou atrs do ouro.
- Ouro velho - digo, pensativa.
- No estou nem a com a beleza - Janice divaga. - Mas tambm no quero nenhum gordo. Nem ruivo.
- Obrigada.
- Desculpe, Katie. No quis ofender.
- No ofendeu.
- Estou interessada em finanas, no em romance - prossegue ela. - De agora em diante,  ol carteira cheia, adeus pau duro. No d para ter tudo. Hoje em dia, a 
gente precisa encarar uma relao como um fundo de aplicaes alternativo. Ou um fundo TGCOP - morre de rir. - Transferncia de Gastos para a Conta de Outra Pessoa.
Sam parece chocado. Tambm, no  para menos. Janice  igualzinha a ele e George. Conhecida por se relacionar com os homens da mesma maneira que uma mosca se relaciona 
com a merda. Ela precisa de sexo regular e variado da mesma maneira que eu preciso de cigarros, chocolates e produtos de beleza em embalagens bonitas. Os ltimos 
trs namorados que teve deram o p na bunda dela porque a pegaram com outro. como  que ela vai ser fiel a um homem s? Especialmente se ele tiver idade suficiente 
para ser pai dela?
- Mas voc vai investir nos velhos de verdade? - George parece preocupado. - No, tipo, com incontinncia urinria e babando, n?
- Pode ser.
- Deus do Cu - ele revira os olhos. - Que baixaria.
- Vai se foder. - Janice cutuca Sam. - E voc, Sammo? Alguma resoluo? Alm da de ser dono do prprio nariz?
- Sei l. - Sam parece envergonhado. - Vou fazer 30 este ano. Talvez tenha chegado a hora de me comprometer com algum especial.
- Ah, ta, falou - morro de rir. - At parece! Se a gente guardasse as camisinhas que voc usou com todo mundo que comeu e largou, j teramos borracha suficiente 
para saltar de bungee jump de um penhasco. No v fingir que agora voc vai mudar. Voc no consegue, nem se tentar.
- O que aconteceu com a Pilaff? - pergunta George.
- Pia - Sam o corrige.
- Coitada da Paella - exclamo. - Ele deu o p na bunda dela.
- Para falar a verdade, ela  que me deu o p na bunda. - corrige ele de novo.
- S porque voc deixou bem claro que o contedo das calcinhas dela no interessava mais.
Pia era s mais uma de uma lista muito comprida das e muito magra das tontinhas de Sam. Durou trs meses, e eu a odiava apaixonadamente. Parcialmente porque ela 
era mignon e chique e ficava bem mesmo de cabelo curto, ao passo que eu no sou nada disso, mas tambm porque ficava batendo na tecla de que veio de Tenerife. O 
que, como eu tentei dizer a Sam vezes sem fim,  totalmente impossvel. Caralho, ningum vem de Tenerife. As pessoas s vo passar frias l.
Ainda assim, no posso deixar de sentir um pouco de pena daquela vaca. Qualquer um via que Sam no gostava dela de verdade. Ele me convidou para um jantar no dia 
do aniversario dela porque eu tinha acabado de levar um p na bunda. Para comear, ela deve ser meio tonta para ter se envolvido tanto com ele.
- Ela achou que ele estava ficando frio e o convidou para um passeio em Wandsworth Common - explico aos outros. - Queria conversar.
- Na verdade...
- Cala a boca, Sam. Deixa eu contar. Eu sei melhor do que voc.
- Isso porque voc inventa metade.
- Chiu. Bom, mas primeiro eles passaram em um barzinho e tomaram um vinho. Da, quando se sentaram para conversar, ele caiu no sono. A vaca esperou uma hora e meia 
at ele acordar. E quando ele acordou, adivinhem s?
- Ele mandou o velho "no  voc, sou eu" para cima dela e se mandou? - Janice arrisca um palpite.
- Na mosca. Que desperdcio de sbado  tarde. Ela devia ter ido fazer umas compras.
- Voc  um cafajeste, Sam - exclama Janice. Mas ela pisca os olhos quando fala. Os olhos dele se arregalam de pavor e ele se afasta levemente dela.
- Voc  um cafajeste, Sam - fao coro com Janice. - Voc  um mercenrio Ereo Rpida Instantnea, igualzinho aos outros.
- No sou.
-  sim. Voc no teria sado impune se fosse comigo, seu canalha - digo a ele, em termos nada questionveis. - Eu teria puxado seu pau para fora da cala e deixado 
voc l com ele pendurado. No que algum fosse notar, porque o seu parece um espaguete.
- E como  que voc sabe? - sorri maliciosamente.
Ele tem razo. Pode at ser que a gente se conhea a vida toda, mas eu no fao a mnima idia se o pau dele  ou no do tamanho do um salsicho. Mudo de assunto.
- E voc, George? Qual  a sua resoluo de Ano-Novo?
Por um segundo, George parece pensativo, o que no tem nada a ver com ele.
- Um beb - revela, com firmeza. - Queria ter um filho. Meu instinto maternal est se manifestando. Ontem  noite, mal consegui danar no clube porque a batida do 
meu relgio biolgico no estava combinando com a da pista.
Pelo amor de Deus.
- Eu vi um to fofinho outro dia no supermercado...
- Um relgio?
- Um beb - dia ele, desconsolado. - Que bochechinhas lindas, para algum to pequeno. E ele estava usando aquela coisinha fofa de cashemere da Gucci, com bolinhas. 
Acho que voc no se colocaria  minha disposio, no  mesmo, Katie? Tipo fornecer o forno para eu assar meu pozinho?
- V se foder - respondo. - No ia trepar com voc nem que voc fosse o ultimo homem na terra.
E nem  verdade. George  o tipo de cara que no se chutaria da cama por saltar um peido. Se ele fosse htero, seria um partido. Eu, por exemplo, ficaria com ele 
em um piscar de olhos. Para mim,  uma tragdia pessoal o fato de ele, como diz minha me, "pegar o outro nibus". Se ele me oferecesse a oportunidade de dar uma 
rapidinha, eu a agarraria de um salto. Mas acho que isso no  muito provvel. George sempre preferiu usar a porta de trs. No que diz respeito  perereca, ele passa 
longe.
- Pare de ser ridcula - ele joga na minha cara. - Voc no tem pnis. Por que  que eu ia querer transar com voc?
- O que voc quer, ento?
- Achei que a gente podia mandar fazer um - explica ele. - Igual queles gays da novela. Voc sempre disse que no queria ter filhos.
- E voc est coberto de razo - balbucio. - Dar  luz deixa a gente com veias de queijo gorgonzola nas pernas e cachos de uva pendurados na bunda.
- Pera, estamos comendo - reclama Sam, passando os dedos pelos cabelos desgrenhados, deixando-os ainda mais arrepiados.
- Do que voc est falando? - pergunta George, todo inocente.
- Estou dizendo - explico toda sria - que eu seria louca de tentar fazer passar o Empire State Building por um canudinho s para satisfazer o seu ego e carregar 
uma criana por a como se fosse uma bolsa Prada. A resposta  no, George. Nem pensar.
- Voc no agentaria o parto, George - observa Janice.
- A Katie tambm no - Sam engole uns bolinhos.
- Todo aquele sangue e os pontos fariam voc vomitar - lembro a George.
- Com os caras que voc j teve, provavelmente nem ia precisar de pontos - brinca Janice. - Seria a mesma coisa que passar o dedo em um tnel.
- E voc? - revido. - no sou eu quem fica na porta de grandes empresas para achar um partido. E se voc no gostasse da cara dele? - volto para George e meu beb 
por encomenda imaginrio. - Voc no ia poder devolver. No d simplesmente para encomendar um beb como se fosse uma pizza e da devolver se no gostar. E se sair 
feio que nem o co?
- Isso no vai acontecer - afirma, todo confiante. - Por sorte, tenho uma composio gentica exemplar, fofa. Ningum come hambrguer e batata frita barata na minha 
famlia.
Olho cheia de desejo para ele com seus quadris languidos, bceps musculosos, olhos cor de chocolate e cabelo pretssimo, cortado bem rente  cabea para ressaltar 
seu maxilar que parece ter sido esculpido.
- Tenho certeza que sim - afirmo. - Mas eu sou meio ruiva, caso voc no tenha reparado. E voc no ia querer que uma coisa desses estragasse a sua composio gentica 
preferida, no  mesmo?
- No d para ter certeza a cara que vai ter at sair. Nesse aspecto,  tipo uma tmbola gentica - Janice explica. George fica com cara de legume. Est claro que 
ele no faz a mnima idia di que  tmbola.
- Isso no  bem verdade - Sam faz um trejeito com o garfo e pega mais pizza. Reparo que ele escolheu o pedao com ovo. Que coisa mais tpica de homem. - Em breve 
vamos poder escolher a cara dos nossos filhos.
- Que maravilha - George se enche todo. - Eles vo vir com os traos adequados. O mundo vai ficar cheio de pessoas lindas. Iguaizinhas a mim.
- Isso parece horrvel - fao uma careta. - Vamos sofrer uma infestao de Bebs por Reembolso Postal. Embries para Viagem. O delivery vai adquirir um significado 
todo novo.
- Vai dar at para encomendar um estoque completo de partes sobressalentes, caso alguma coisa d errado com o beb - emenda Sam, com conhecimento de causa.
- Cale a boca, espetinho - digo.
- Eca. - Janice bebe mais vinho e, bbada, acende a ponta errada de um cigarro. Tipo Banco de Trocas Fetais.
- No vou ter um filho para voc, George, seja ele de grife ou no. - declaro. - Depois de nove meses, a novidade j vai estar desgastada e ele vai sobrar para mim. 
No se pode levar bebs a clubes, sabe? Nem que se vista os pobrezinhos com couro e lantejoulas.
- E voc, Katie? - Sam, engolindo torradas de alho, quer saber. - Qual  a sua resoluo?
Todo mundo se vira para me olhar.
-  mesmo - ecoa Janice. - Qual  a sua?
Durante um segundo, fico confusa. Da me lembro do meu Voto de Solteirice.
- Resolvi me divertir.
- O qu?
-  isso a. Sozinha. Estou abrindo mo de todos os relacionamentos - informo, bem  vontade. - No vou mais me incomodar com esse tipo de coisa, se vocs querem 
mesmo saber.
- Voc o qu? - Janice parece estupefata.
- Ah, pelo amor de Deus - murmura George. - Voc virou lesbica, no  mesmo? Voc virou a maior sapato e est com medo de contar para a gente.
- Eu disse que estou abrindo mo dos relacionamentos - explico. - No dos homens.
- E o sexo? - Janice parece horrorizada.
- Janice, voc  a ultima pessoa que vai vir me dizer que a gente precisa de um relacionamento para transar - respondo.
-  verdade - admite ela.
- Os caras que eu conheo so to teis quanto OBs de chocolate - avalio. - Portanto, vou seguir o principio do ACHo. Agir Como um Homem.
- O qu?
- Transar e dispensar. Trepar e jogar fora. Inflar e esvaziar. Agora s quero saber de ficadas de uma noite.
- Mas voc no vai se dar bem com isso - argumenta Janice. - Voc vai acabar dando trepadas beneficentes como se no houvesse amanh. Vai ficar com gente de quem 
tem pena. Olha s para aquele nerd de computador que voc catou na faculdade. Qual era mesmo o nome dele? Bruce?
- Bryan - balbucio atravs de dentes cerrados. - O nome dele era Bryan.
Vinho jorra das narinas de Janice. At Sam tenta no mijar nas calas de tanto rir.
- Bryan - Janice se mata de rir. - Ele usava umas cueconas de velho cor de mostarda e...
- Est bem, est bem - concordo com eles. - Foi absolutamente hilrio.
Passei uma semana na banheira, esfregando-me toda, cheia de vergonha, depois do Bryangate, e at hoje no tive permisso para esquecer. Ah, ele parecia bem bonitinho 
quando demos uns beijos na mesa de sinuca no bar do grmio estudantil. Mas quando chegamos ao quarto obscuro dele, os efeitos das sete cervejas variadas que eu consumira 
se amenizaram o bastante para que eu percebesse que o cabelo dele era escorrido e oleoso e que ele era coberto de espinhas. Mas, por ser do tipo que evita confrontos, 
achei que teria menos problemas se simplesmente tapasse o nariz e seguisse em frente.
Credo, talvez eles tenham razo. Sou pssima de ficar com qualquer cara.
Mas da, como  que eu vou saber se no experimentar?




TRS







Eu j disse como odeio o meu trabalho? Escrevo para uma revista feminina de estilo de vida, o que no  assim to glamouroso quanto parece. Para comear, a vida 
de firma no  para mim. Ah,  tima para roubar selos, fazer longos telefonemas pessoais, falar mal das roupas das revistas de celebridades e comparar recheios 
de sanduches, mas fora isso, no enxergo nenhuma vantagem do meu ponto de vista.
O que me salva  que s vezes me deixam trabalhar em casa. O que tambm no PE exatamente to fantstico quanto parece. No que eu fique recostada sobre lenis 
de grife com um laptop de ltima gerao, vestida com camisolinha azul-beb, tomando caf em xcaras enormes que fazem as mos parecer delicadas, como geralmente 
se faz nos seriados americanos. Eu tenho problemas motivacionais. Detesto ter que me acorrentar ao meu Mac geritrico acompanhada de uma caixa de bombons e de um 
ou dois caramelos de amndoas, fazendo fora para escrever alguma coisa inteligente e esperta, quando preferia estar de pijama na frente da TV, jogando pacincia 
e assistindo a um programa vagabundo que discute a bulimia das adolescentes. 
At agora.
Recentemente, percebi que de vez em quando at gosto de ir para o trabalho. Um pouquinho antes do Natal, a redao da revista Suki adquiriu seu prprio Sr. Pausa 
para uma Coca Light. Fresquinho, vindo da terra dos cangurus e Kylie Minogue, David (ou O David, como foi apelidado, devido a sua impressionante semelhana com a 
obra-prima igualmente tesuda de Michelangelo) est passando seu ano sabatico aqui, vindo desde Sidney, e se transformou na menina dos olhos de todo mundo desde que 
adentrou a redao. Ele senta bem na minha frente, o que me garante diversas oportunidades de paquera acanhada, e devo dizer que a vista melhorou consideravelmente, 
j que antes eu s enxergava um calendrio de gatos da Gorda Claire no pedao de parede estreito que separa minha mesa da mquina de caf.
Por causa disso, ando cuidando da aparncia mais do que de costume, hoje uso calas pretas de corte reto limpas e um top cor-de-rosa com gola em V que s fede um 
pouquinho a cigarro por causa da ltima vez que foi usado. At me maquio, para disfarar o efeito de ressaca da garrafa de vinho tinto da noite passada com uma base 
hidratante que est rodando no meu banheiro h sculos, e passei um pouco de blush rosado no lugar em que minhas bochechas foram vistas pela ltima vez, por volta 
de 1992. Ento me dirijo para o metr, onde passo quarenta minutos balanando de um lado para o outro na Linha da Tristeza, com o nariz enfiado no sovaco fedorento 
de algum. Pessoalmente, acho que deveria ser grtis andar de metr em Londres. Afinal, no tem absolutamente nada de agradvel na viagem. E no tem nada pior do 
que gastar quase cem libras todo ms s pelo prazer de ir trabalhar, sendo que eu preferia mil vezes estar aninhada embaixo do edredom com um saco de balas e um 
bom livro. Principalmente nesta poca do ano.
Deso na estao de Sloane Square e caminho todo o longo trajeto at o prdio da IBS Magazine, de modo que d para fumar um cigarro calmamente antes de entrar. A 
j conhecida onda gigantesca de letargia se abate sobre mim no segundo em que arrasto os ps para subir os degraus e cometo o delito de apagar o cigarro na parede 
ao lado da entrada. TAM alguma coisa agudamente deprimente em relao ao cheiro do prdio, de carpete novo misturado com respingos de caf velho, que me d vontade 
de dar meia-volta e fugir correndo para o mato.
Ou, pelo menos, para as lojas.
Marsha, a recepcionista txica, ergue os olhos do esmalte roxo que passa nas garras quando eu entro, fazendo uma careta para o alegre vaso de gordas papoulas vermelhas 
e rosas cor-de-rosa sobre o balco da recepo.
- Passou bem o Natal? - pergunto, mais por educao do que qualquer outra coisa. Na verdade, estou pouco me lixando para como foi a porra do Natal dela. Ela  to 
ensimesmada que nem deve ter notado que outras pessoas tambm passam o Natal. Deve achar que toda a temporada de festas de fim de ano  organizada s para ela. 
- Foi demais - ronrona. - Falei para voc que eu ia para as Maldivas?
- Umas mil vezes.
- Meu Bradley me pediu em casamento na praia. To romntico.
Enquanto fala, ela agita as mos um monte, de modo que no d para evitar enxergar o diamante do tamanho de Gibraltar que reflete o raio de sol que entra pela janela. 
No entanto, se ela acha mesmo que estou com inveja,  mais burra do que eu pensava. Eu preferia beber urina a encostar no Bradley Dela com uma vara de trs metros 
de comprimento. O Bradley de Marsha  to gostoso quanto bocadinho servido em cantina de escola. Ele usa loo aps barba demais e parece ter 12 anos. Na verdade, 
a prpria Marsha s se interessa por ele porque  bem equipado: milionrio. Ele trabalha em uma corretora na City, o distrito financeiro.  um bobalho dos piores 
que existem.
- Atrasa de novo - ento Marsha enquanto eu me arrasto miseravelmente at o elevador. - E voc tambm folgou bastante antes do Natal. Estourou todos os prazos. Imogen 
estava louca da vida.
 irritante essa mania que Marsha tem de me confundir com algum que d a mnima.
- Eu tive gastrenterite - minto.
- Ahhh, que sorte a sua - exala. - Aposto que perdeu um monte de peso. Bem a tempo das festas de fim de ano.
- Hmmm, ta.
A redao j est zunindo de tanta atividade. L est Melanie Lngua-Solta. Espalha fofoca igual a margarina barata sobre o po e  to inofensiva quanto uma aranha 
de jardim. Delilah, que tem pregas no pescoo de tanto fazer regime e est sempre com cara de quem engoliu um coquetel de gasolina e produto de limpeza. Audrey, 
que acabou de ter um par de gmeos e est com os peitos que parecem duas ogivas nucleares. Os homens se aglomeram ao redor dela igual a um enxame de moscas em volta 
de uma bosta de vaca fresquinha e ela diz que a gravidez fez maravilhas pela vida sexual dela. Hilary, que nunca fala mas cospe no sanduche do namorado toda vez 
que brigam. A Gorda Claire, com os braos pelancudos  mostra, como de costume. Ela gosta de toda a bobajada holstica que existe. Aromaterapia. Reiki. Todo tipo 
de feitio de ervas. No sei para qu.  obvio que no funciona. Se no, ela j teria conseguido dar um feng shui ou qualquer coisa assim na celulite dela, e sua 
bunda gigantesca j seria coisa do passado. Tem tambm a Serena Puxa-Saco, a maior bajuladora da redao. Ela passa tanto tempo agradando  editora que no sei como 
acha tempo para trabalhar.
Jabba, a Vagabunda, com todos os seus cem quilos, engolindo um bolinho glaceado.
E assim por diante.
- Oi, Katie - cumprimenta Audrey, limpando uma mancha de leite da blusa.
- Oi - respondo. - Os gmeos aproveitaram bem o primeiro Natal deles?
- Ah, aproveitaram sim - e imediatamente comea a falar com uma voz idiota de nen. - O Tobyzinho e o Teozinho se divertiram muito. Adoraram as luzes das fadinhas. 
Eu disse ao Jim: "Eles esto absorvendo tudo".
- Que amor - digo. O Tobyzinho e o Teozinho "esto absorvendo tudo" desde o nanossegundo que nasceram. J esto esperando ansiosamente o dia que um deles vai chegar 
em casa completamente bbado. Ou alto de cheirar cola. Audrey e Jim ficaro "to decepcionados..."
Claro que eu tenho total noo de que os dias de bebedeira do Tobyzinho e do Teozinho ainda vo demorar uns quinze anos para chegar. Ento, espero mesmo no estar 
presente na primeira vez que tomarem uma garrafa de vinho. E juro por Deus que, at l, no vou mais estar me matando para ganhar dez centavos por palavras para 
escrever para a Suki.  bem provvel que antes disso ocorra algum evento que v mudar a minha vida.
Coloco meu leite com groselha na mesa e estaciono a bunda na minha cadeira de rodinhas, pensando na possibilidade de ir buscar um sanduche de lingia na lanchonete 
l embaixo. J comi um croissant de chocolate de tamanho industrial, mas alguma coisa no trabalho faz com que eu tenha vontade de engolir comida o dia inteiro.
- Oi, Katie - a voz espessa e pastosa da Gorda Claire escorre de trs da mquina de Xerox. - Passou bem o feriado?
- No - balbucio, ligando meu i-Mac cor de uva. - E voc?
- Foi fantstico. - Ela abre seu sorriso gordo. - Encontrei o meu QI.
- Que gracinha - fao uma careta. - Estava olhando para voc do fundo de um saco de batata frita?
- O qu?
- Eu disse que voc deve estar mesmo feliz com isso.
- Ah. - Ela parece surpresa. - E estou mesmo. Voc devia experimentar. Eu me sinto to... to...
- Bom, que timo para voc. - Viro para o outro lado cheia de determinao e enterro a cabea em um monte de papel.
Credo, que coisa deprimente. Odeio o zumbido dos computadores, os telefones que no param de tocar, o burburinho irritante das conversas. Para falar a verdade, a 
conversa at que no seria to ruim se o pessoal no fosse to Eunuco do Humor. Este lugar  to divertido quanto a AIDS. A nica pessoa que j riu de uma piada 
que eu fiz foi David. O lindo e sexy David. s dez e meia ele entra no recinto, bastante ambrosiaco com uma blusa branqussima e Levis desbotadas, que se agarra 
cheia de seduo  bundinha lindinha dele. David consegue chegar todo dia ainda mais atrasado do que eu sem levar bronca, porque  homem. No tem nenhum homem na 
redao desde que o faxineiro, Maurice, foi embora. Um cara to comvel como David nunca tinha penetrado nos nossos domnios, de modo que no existe protocolo referente 
a atrasos masculinos ou ento ningum est nem a mesmo. Por conseguinte, David poderia arrancar os olhos da editora fora com as unhas que todo mundo ia ficar sorrindo 
com indulgncia. s vezes, quando ele est muito cansado, coloca um post-it na parte de trs da cabea que diz: "Por favor, me acorde s 14h." E da fica dormindo 
na mesa o horrio de almoo inteiro. Ns, o resto da redao, achamos que somos sortudas quando temos horrio de almoo.
Ao observ-lo sorver sua batida de caramelo e comer seu muffin duplo de chocolate, solto um gigantesco suspiro. Apesar de toda a lindeza de David, no consigo parar 
de me sentir pssima por ter que voltar a trabalhar.
- Oi, David - estrila Melanie Lngua-Solta.
- Oi.
- Ol, David - ronrona Serena Puxa-Saco, rebobinando a fita do gravardozinho dela para tirar uma entrevista.
- Oi - ele responde educadamente, antes de voltar a ateno para mim. Fico corada de alegria ao perceber que todo mundo da redao, principalmente Serena e Mel, 
ficou da cor de pimenta-malagueta de tanta raiva.
- Passou bem o Natal? - pergunta para mim.
Ouve-se uma respirao coletiva quando eu lano aquele tipo de olhar "E isso mesmo, ele fez uma pergunta para mim".
- O de sempre - respondo. - Tempo horrvel, presentes horrveis e programao da TV ainda mais horrvel. Se eu ouvir mais uma vez aquelas musiquinhas de Natal, vou 
gritar. E voc?
- O de sempre. - Ele sorri, mostrando uma fileira homognea de dentes muito brancos. - Tempo maravilhoso, presentes timos e nada de TV.
- Voc no tem TV? - digo, incrdula.
- Estava ocupado demais tomando banho de sol.
- Ah, voc voltou para a terra das Barbies, das praias e do sol que no pra de brilhar, n? - ofereo-lhe meu sorriso mais sedutor ciente de que todo mundo na redao 
est assistindo com uma inveja profunda. - Achei mesmo que voc estava um pouco bronzeado demais.
- Foi s uma semana.
- Ei, voc no tem motivo para ficar convencido, tambm - aviso. - Pode at ser que o tempo seja sempre timo por l, mas lembre-se de que vocs so culpados por 
um monte de seriados vagabundos que passam na TV. Portanto, acho que as coisas por l no devem ser to maravilhosas assim.
Ficamos conversando a respeito do feriado durante alguns minutos e da o telefone de David toca. Bom, quando isso acontece, eu tomo para mim a responsabilidade de 
escutar o mximo possvel. Nenhuma de ns conseguimos descobrir, at agora, se David tem ou no namorada. Mas, dessa vez, parece que ele est falando de trabalho. 
E passa horas falando disso, de modo que eu mando uns e-mails pessoais e me resigno a escrever o texto que deveria ter entregado antes do natal. Um artigo sobre 
creme brle.  meu servio inventar e testar receitas para a seo Lanche Chique no fim da revista. Claro que  a seo de menor relevncia, junto com todas as 
entrevistas com celebridades e as reportagens. Vem ainda depois das pginas e pginas, uma atrs da outra, de fotos de esmaltes derramado e batom esmigalhado, que 
formam As Melhores Dicas de Beleza do ms. Para falar a verdade, nunca achei que era isso que me sobraria para fazer. Eu queria ser chef quando estava na escola. 
Mas, quando sai da faculdade de culinria, no percebi que quando a gente quer algo de verdade, tem que dar a cara para bater e ir atrs do que deseja, em vez de 
ficar esperando que caia no seu colo. Ento, eu me perdi. Depois de meses de tentao, acabei aqui.
Escrevendo sobre comida em vez de cozinhar.
"Conseguir um creme brle  a mesma coisa que construir um relacionamento", digito, sombria. "Se a meleca de baunilha que fica por baixo no for forte o bastante 
para agentar a casquinha de caramelo dura e dourada, a estrutura toda vai afundar, molenga e flcida, igual a um..."
Meu Deus, olha s o que me faz pensar em pnis. Preciso me concentrar.
Pensando bem (olho para David), que diferena faz?
Passei tanto tempo testando receitas durante o feriado que tem caramelo saindo pelas minhas orelhas. Mas acho que finalmente consegui definir os ingredientes e o 
tempo certo. Por azar, os relacionamentos so um tantico mais complicados. Se eu tivesse a receita infalvel para essa faceta da vida, sairia pela rua dando risada. 
Mas como  que isso seria possvel? Nem posso seguir o exemplo dos meus pais. Papai deu no p quando eu tinha 14 anos. No me surpreendeu. Os alarmes de aviso da 
crise de meia-idade j tinham comeado a soar havia meses. Era 1984. ele tinha parado de aparar a grama nos fins de semana e, em vez disso, comeara a usar jeans 
stretch e polainas. Discos de Howard Jones e Nik Kershaw comearam a aparecer na sala com certa regularidade. Em um fim de semana, cheguei em casa do cinema (Os 
Caa-Fantasmas, caso voc se interesse) e descobri que ele tinha sumido durante uma ida  loja para comprar um freezer com mame. Ele desapareceu no ter ao norte 
de Finsbury Park com um filipino encomendado por reembolsa postal. Minha me ficou acabada. Logo ela, que tinha tanto orgulho de nunca ter comprado nada de um catalogo.
Acabo de escrever a introduo do meu artigo e ligo para Janice.
Ela est deprimida. Coitada de Janice. Ela trabalha de verdade, e trabalha muito. Ela morava em um lugar horrvel, freqentou uma escola horrvel e se matou de estudar 
para conseguir se formar no ensino mdio, a partir da, esforou-se mais um tanto at atingir a universidade. Onde me conheceu. Passamos o primeiro ano no mesmo 
dormitrio e depois dividimos uma antiga casa vitoriana perto de Southsea, em Portsmouth, onde ela de fato se abriu para mim a respeito de seu passado. Toda semana 
tnhamos uma conversa besta de menininha, quando ficvamos horas colocando o mundo em seu devido lugar com mscaras de lama no rosto, henna no cabelo e enormes copos 
de vinho na mo. Agora, ela  to bem cuidada e polida que ningum jamais diria que cresceu em um conjunto habitacional do pior tipo imaginvel. E ela quer que as 
coisas continuem exatamente assim.
- Se aquela porca com bunda de vespa vier cochichar mais uma vez no meu ouvido que eu preciso de um enorme creme com vitaminas, querida, vou fazer com que ela engula 
aquela porcaria de porta-cartoes rotativo dela. Vaca de peito chapado!
- Nem todas ns temos a sorte de ter peitos versteis o bastante para colocar um em cima de cada ombro e amarrar atrs como uma gola fofinha, sabia?
- Desculpa.
- Tente apenas ser um pouco mais sensvel em relao quelas entre ns que camos na fila do ovo frito quando estavam distribuindo peitos. - Espero que alguns elogios 
a deixem um pouquinho mais animada.
- Bom, eu nunca pedi para ter - responde, rspida. - Se quiser, pode ficar com os meus.
Ah, meu Deus. A Bunda de Vespa, chefe de Janice, tem um problema terrvel de autoconfiana (tem em demasia). Assim como a maioria das mulheres que trabalham na agncia 
dela. Janice no reconhece, mas sente que precisa ficar constantemente provando alguma coisa porque no se acha boa o suficiente.
- Achei que voc estivesse se dando superbem no trabalho. - Acendo um cigarro e jogo a fumaa de propsito na cara de Gorda Claire. - Voc recebe promoes e carros 
e aumentos e essas coisas o tempo todo. Olhe s para mim. Continuo na base dos dez centavos por palavra. Comparada a mim, voc  praticamente uma executiva.
- E esse  exatamente o problema - resmunga ela. - Ser a nica responsvel pela conta do creme anticelulite na bunda no  assim to glamouroso quanto parece. Para 
falar a verdade, est comeando a me deprimir.
- Por qu?
- Bom, parece que, quanto mais eu ganho, mais esperam que eu trabalhe.
- Que ridculo! - exclamo, chocada. - Todo mundo sabe que quando a gente chega ao topo, a nica tarefa a fazer  ficar mandando nos outros. Por que voc no manda 
ela enfiar o creme com vitaminas no lugar onde o sol no brilha e cair fora?
- No d - continua ela, tristonha. - Fiz certas escolhas na vida. Diferentemente de voc, comprei meu apartamento. E preciso pagar o financiamento. No tem como 
eu pensar em largar tudo at encontrar o Podre de Rico. Da eu digo a ela exatamente onde enfiar este precioso emprego. No buraquinho de mijar.
- Ai.
- Ah, Katie... - ela se lamenta. - O que  que eu vou fazer? Estou por aqui do meu emprego, e alm do mais minha me me convidou para um "ch" no domingo. E nem 
 ch da tarde,  jantar mesmo. O que significa que eu devo me sentar no topo daquele prdio ranoso e comer alguma coisa que passou do ponto e vem acompanhado de 
repolho ensopado. E voc sabe bem como isso me deixa deprimida.
- Voc quer que eu v com voc?
- No. Vou tentar escapar desta. S de olhar para aquele cubculo onde eu dormi os dezoito primeiros anos da minha vida j me d vontade de cortar o pescoo.
- Hmmm.
A me de Janice - Deus a abenoe - redecorou o antigo quarto de Janice recentemente. Achou exemplares de Elle Deco e outras revistas de decorao em um sebo e resolveu 
jogar tinta bem colorida nas paredes e espalhar almofadas felpudas pelo apartamento para ver se conseguia atrair Janice  casa dela com um pouco mais de freqncia. 
Mas agora que Janice conseguiu escapar, vai ser preciso um pouco mais do que uma lata de tinta Rosa Extico e algumas mantas com lantejoulas para arrast-la de volta 
a suas razes. Ela tem sua casa prpria agora; um pequeno osis de calma e linhas clean de que ela no abre mo por nada. Para falar a verdade,  meio triste.
- E aquela agncia de casamento em que me inscrevi foi um desastre total - prossegue ela.
- Ah, no!
- Ah, sim - suspira miseravelmente. - At agora, tomei caf da manh com o Baixinho Demais, almocei com o Ordinrio Demais... vou contar para voc, depois de ver 
ele ficar l coando o saco, nem deu para sonhar em pedir lingia... e jantei com o Cheio de Pintas Demais.
- Meu Deus.
- E da fui ver Cats com o Podre Demais... ele me fez dividir a conta... e Les Misrables com o Casado Demais. O que s serve para mostrar como eles so criteriosos 
com os clientes. J gastei tempo e dinheiro demais para comprar roupas novas para essa enxurrada de fracassados. Acho que vou partir para outra.
- Muito bem.
- Ento, voc vem comigo depois do trabalho?
- Para onde? A agncia de casamento? Mas eu no quero me casar.
- No. Outro lugar. Conto quando chegarmos l. Vamos nos encontrar no metr de Balham s seis e meia em ponto? Perto do ponto de txi da ponte Coc de Pombo.
-  uma ordem, no uma sugesto.
-  sim.
Pode ser. No tenho mais nada para fazer. E agora que a minha linha de raciocnio foi interrompida, no consigo me ver trabalhando muito nesta manh. Acho que vou 
ao banheiro tirar um cochilo.
Esgueiro-me para dentro do banheiro feminino, olhando furtivamente  direita e  esquerda para assegurar-me de que ningum me viu, entro em um reservado, abaixo 
a tampa da privada, estaciono meu traseiro firmemente em cima dela e recosto a cabea na parede de gesso fria. Geralmente, consigo ficar assim at uma hora, dependendo 
do trnsito do dia. s vezes, quando tem alguma reunio editorial importante, ou se um chef famoso ou um decorador da TV vem fazer uma visita, entra um monte de 
gente l ao mesmo tempo, tagarelando, jogando spray no cabelo, passando rmel e redelineando os lbios para se preparar para a visita, e  quase impossvel repousar 
os olhos. Mas, s vezes, uma boa meia-hora se passa antes que algum entre ali, e mesmo que entre, eu geralmente consigo ficar escondida. S no posso roncar, claro. 
Se eu ficar em silncio, as pessoas se imbuem de uma falsa noo de segurana. Acham que esto sozinhas. E pode ser bem reconfortante ouvir diretoras soltar peidos 
barulhentos e depois sair sem lavar as mos.
Mas, hoje, Melanie e Serena chegam matraqueando antes que eu tenha tampo de cochilar. Rapidamente, ergo os ps de modo que elas no possam me ver. A gente aprende 
muito a respeito da poltica da redao quando se esconde no reservado.
- Voc viu s? - Melanie comea a despejar, antes mesmo de a porta principal bater atrs dela.
- Vi. - A voz de Serena est um pouco distorcida por causa da careta que faz para passar o batom. - Ela  to pattica. Acha que est linda na foto. At parece que 
ele ia se interessar por algum como ela. Ele sorriu para mim no refeitrio outro dia.
Refeitrio? Que porra ela estava fazendo no refeitrio? Ela nem come...
- Ele segurou a porta da arte para mim quando eu estava carregando todos aqueles radinhos - dia Melanie, toda exibida. - Acho que ele gosta de mim.
- E ela nem  boa no que faz.
- Eu sei. Esto falando que vo mand-la embora.
- Quando?
- Logo.
No precisa ser nem boba para saber que elas esto falando do David. Afinal, ele  o nico homem da redao. Preguiosamente, fico imaginando quem ser "ela" que 
vai ser demitida. Pode ser qualquer uma. Afinal, todo mundo o paquera. E por ele ser to educado, todo mundo teve, em uma ou outra ocasio, a oportunidade de achar 
que talvez ele se interessasse por elas. As mulheres mais velhas ficam maternais perto dele e lhe oferecem bolinhos recheados de creme, que ele divide comigo, e 
as mais novas s ficam babando na bunda dele. Pode ser a Gorda Claire. Eu sei que houve uma certa animosidade porque ela acabou de receber um aumento desmerecido.
Mas antes de que eu possa assimilar qualquer outra informao, uma musiquinha robtica surge das profundezas da minha bolsa, em volume cada vez mais alto. Merda. 
A porra do celular. Remexo na bolsa tentando deslig-lo, mas no antes de Serena e Melanie darem no p em cima dos saltos nove, para a segurana da tela de computador 
das duas.
 o David.
- Obrigada - digo. - Estava agora mesmo escutando umas boas fofocas da redao e da voc tinha que estragar tudo.
- Cad voc?
- No banheiro. Estava tirando uma porcaria de um cochilo. 
Ele ri.
- Volte logo. Estou jogando Forca, mas e muito chato fazer isso sozinho.
- No d - digo, firmemente. - Estou cansada.
- Tem uma tortinha de cereja na minha gaveta.
Coloco-me de p e volto para a minha mesa onde, depois de trs partidas de Forca, David volta ao trabalho. Ele continua sendo o Rapaz Novo, ento, pelo menos tem 
que parecer interessado. A tarde se arrasta como uma lesma. George telefona uma vez, para perguntar se eu quero ir ao almoo de aniversrio da me dele em Kent daqui 
a umas semanas. Ela anda fazendo perguntas do tipo "Quando  que voc vai se casar?", que podem desaparecer se de vez em quando eu for l com ele e ns ficarmos 
nos abraando um pouco. Eu adora a me de George, de verdade, especialmente quando ela faz torta de ma com creme, mas acho que merece saber a verdade, portanto 
recuso.
- Por que voc no vai sozinho e conta logo que  um lindo e radiante homossexual? - pergunto. - Ser mesmo to difcil assim? Ela  bem bacana, sabia?
- No quero chatear minha me.
- No vai chatear.
- Ela  idosa. Pode ficar chocada. Pode desistir de respirar ou qualquer coisa assim. No consigo imaginar minha me caminhando por Turnbridge Wells usando uma camisa 
de tipo "Adoro meu filho gay". E ela no tem mais papai, est lembrada?
- Eu sei. - Pego um clipe e comeo a torc-lo em formas cmicas. - Mas ela tem os clubes de amigas e de ch. E, para ser honesta, acho que vai ser um alvio para 
ela descobrir por que voc usa aquele casaco cor de malva horroroso. Ela vai ficar bem.
- Sei l.
Da ele tenta mais uma vez fazer com que eu alugue para ele o meu tero um tempo. S nove meses, insiste. Ele no consegue perceber qual  o problema. Ser que eu 
estou sendo deliberadamente cabea-dura, s para irrit-lo? E nem vai ser um inquilino permanente. Entra e sai sem que eu nem mesmo perceba.
Mantenho minha posio com firmeza.
- No. No e NO. - George sabe ser bem convincente e eu no quero concordar sem querer, de repente.
- Credo, voc  to egosta - reclama. - Fico aqui o dia inteiro agentando esse monte de babaca que quer aparecer na TV e voc s me deixa deprimido. Voc sabe 
como essa porcaria de trabalho  difcil?
- Hmmm, para falar a verdade, sei sim.
- Sabe mesmo? Eu tenho que entrevistar peruas acabadas com pele cor de laranja e chinelinhos todos os dias da minha vida, querida. Gente que vem de umas famlias 
ordinrias e que fala TOALETE e SALA DE ESTAR. Gente que mora em uns barrancos e acha que est tudo bem.
- Olha s...
- Hoje, Linda, de Dunstable, veio aqui no estdio. A bunda dela  do tamanho de um sof de trs lugares. E Cherise, de Romford, que achava que espaguete em lata 
era, nas palavras dela, "chiquersimo".
- Olha, sinto muito por voc, mas...
- E Wayne, de Luton, achava que uma balaclava era algo que se colocava na cabea para segurar o cabelo. Voc sabia...
- George.
- Pois no?
- Vai se foder. - Coloco o telefone no gancho. O meu trabalho j  bem ruim sem ter que ficar ouvindo George do outro lado da linha reclamando do servio dele o 
dia inteiro. E vou dizer que o emprego dele no  nem um pouco extenuante. Ele s tem que ficar andando pelo estdio, conhecendo gente e batendo papo, fazendo perguntas 
a respeito de suas vidas pessoais para ver se so emocionantes o bastante para aparecer em um programa vespertino de TV. No  algo exatamente difcil. No  minha 
culpa se ele  um esnobe to filho da puta.
Passo o resto da tarde olhando para a tela do computador, desejando que minhas idias se desembaraassem sozinhas e se transformassem em um texto limpo e lcido. 
s vezes pego uns pedaos de papel e coloco na mesa de novo, para tentar parecer ocupada. Preparo xcaras de ch. Digo a mim mesma que vou riscar hoje do calendrio 
o comear tudo de novo amanh. Arranco uma casquinha da mo, ela cai no teclado e no consigo tirar a porcaria dela, mesmo passados horas cutucando as teclas com 
um clipe.
s cinco e meia em ponto, David recua a cadeira, desliga o monitor e pega a bolsa.
- Quer tomar um drinque?
Ele est falando comigo.
Olho em volta da redao e fico contente de ver que Melanie ficou absolutamente chocada.
- Tudo bem - respondo. - Seria timo.
Vamos ao bar de vodca que fica na esquina. Muito cromo e vidro e enormes sofs cor-de-rosa molengas. Sentindo-me frvola, peo logo uma dose dupla. Sabor de bala. 
David pede cereja negra, escolha que aprovo de todo o corao. Pelo menos ele no vai tirar o brilho da noite bebendo chope o tempo todo, como qualquer cara faria.
- E a, voc est gostando? - Pergunto. - Quer dizer, do trabalho. O que voc acha da Imogen?
Imogen  nossa editora.
- Tem culote. - observa ele.
Fico deliciada. Um homem de boa aparncia que sabe ser maldoso. Que coisa reconfortante.
- E as outras? - pergunto, enrolando minhas pernas uma em volta da outra, em um movimento que, espero, seja um pouco sexy. - Melanie?
- Usa acrlico demais.
- Serena?
- Tem cara de bunda de cachorro.
- Audrey?
- Meio sem sal, afinal, ela vai trabalhar com vmito no ombro.
Rio de tanta satisfao. Estamos nos entendendo to bem. No sei o que me deixa mais animada. A perspectiva de uma ficada ou a possibilidade de ter um parceiro de 
fofoca no trabalho. Quem sabe onde tudo isso vai dar? David pode ser minha primeira trepada e dispensada do ano.
Mas  claro que eu vou tratar o assunto com a mxima delicadeza. No vou ter coragem de dispens-lo com crueldade, porque preciso ficar sentada na frente dele o 
dia inteiro. O que  um pouco decepcionante, mas h outras maneiras de fazer com que uma ficada de uma noite no v em enfrente.
- Outra vodca?
- Ah, sim.
- A mesma?
- Desta vez, quero chocolate com laranja.
- E eu quero de limo - diz ele. - Um pouco menos enjoativa.
Fico observando quando ele se locomove at o bar. Nossa, ele  gostoso. Tem um daqueles pescoos bronzeados, macios, absolutamente msculos que d vontade de morder. 
O nico problema  que nos entendemos to rpido que quase me esqueo de que ele no  meu namorado de verdade. Portanto, no tenho permisso verdadeira para toc-lo 
ou acarici-lo. Percebe, estou me divertindo tanto com ele que abra-lo e me enrolar em volta dele simplesmente parece a coisa mais natural a se fazer.
- Ento, onde  que voc mora? - pergunto quando ele volta com as bebidas; chocolate com laranja como eu pedi e uma dupla de mirtilo para arrematar. J estou comeando 
a calcular a logstica da coisa toda. Para comear, ser que vai dar tempo de ele dar uma passadinha rpida em casa para trocar de roupa? Engolindo minha vodca de 
mirtilo, imagino, em uma nvoa, se ele est tentando me deixar bbada. Provavelmente. Deve ter passado todo o feriado juntando coragem para me convidar para um drinque.
- Earls Court.
- Eu sabia. - Dou risada, e seco os dois copos em uma rpida seqencia, j agitando a mo para chamar o garom. Preciso de um garom. No tenho condies de ir caminhando 
at o bar. Minhas pernas j esto bambas demais, apesar de eu no ter a mnima idia se isso acontece porque David me convidou para sair ou se  por causa da vodca. 
- Nem me diga - balbucio. - Voc divide uma casa com dez pessoas. Vocs fazem turnos para dormir.
- Desculpe decepcion-la - ri David. - Mas moro sozinho.
- Que atitude mais no-patritica, essa sua. - Inclinou-me sobre a lousinha e escolho outro sabor. - Vamos tomar duas, no, quatro vodcas de framboesa e algumas 
de caramelo, por favor.
s oito, j estamos os dois fora de di. E temos tanta coisa em comum que j comeo a me ver formando um casal com ele. Quer dizer, obviamente, no quero apressar 
as coisas. Ainda no nos vi morando juntos nem comprando eletrodomsticos juntos. E neste ano devo fugir da monogamia. Mas nunca se sabe, no  mesmo? Talvez o problema 
seja que o cara certo nunca tivesse aparecido antes. Ou isso, ou ele apareceu e era George, e portanto estava indisponvel para algum como eu.
Talvez David seja o cara certo. Quem sabe?
E da, penso, bbada, virando mais bebida goela abaixo. Que legaaaaaal.
s oito e meia, meu celular toca.  Janice.
- Caralho, cad voc, sua vaca?
- Em um bar - digo alegremente. - Com vodca. Muita vodca. Por qu? Quer vir?
- Voc tinha marcado de me encontrar - berra, claramente puta da vida. - Fiquei na porra do metr congelando a bunda durante uma hora. Voc tinha que ir ao Evergreen 
Club comigo.
- O qu? - grito. - Bom, onde  que fica? Estamos indo para a.
Bbada, resolvo que a idia de David e eu danando embaixo de um enorme globo espelhado de uma boate brega no sul de Londres  o que eu mais gostaria de fazer neste 
instante. E, por estar bbada, posso fazer exatamente o que quiser. Sou mais inteligente, mais rica e mais bonita do que qualquer outra pessoa do bar. E dou um pau 
em quem se atrever a dizer o contrario.
E tambm provavelmente estou mais bbada do que qualquer outra pessoa. Mas ela...
- No seja idiota - explode Janice. - Agora j est tarde. No  um clube para danar,  um clube social.
- Ah. No faz mal. Deve ser divertido, voc no acha? L vende bebida?  chique de matar? Voc  scia?
-  um clube para caras com mais de 60 anos, sua vaca louca. Estou caando o Podre de Rico.
- Bom, tome cuidado. - Dou risada. O efeito da vodca est causando um curto-circuito no meu crebro e, conseqentemente, a total ausncia de arrependimento. - Voc 
j conhece os perigos de ficar com pentelhos nos dentes.
- O qu?
- Imagine s que horror, ter dentes nos seus pentelhos. - Fico rindo enquanto David traz alguma coisa roxa com aparncia nociva para a mesa. - Cuidado.
Acho aquele ltimo "cuidado" to hilariante que comeo a rir. E da no consigo mais parar. Janice desliga o celular enojada e eu fico rindo sozinha. Estou me divertindo 
tanto que nem ligo para o fato de ela estar puta da vida comigo.
- Ela vai ficar bem. - Sorrio para David, virando o drinque roxo de uma vez s. - Ela sempre fica remoendo as coisas quando est junto com um cara. No que ns estejamos, 
sabe como , juntos.
- No. - Ele parece srio. Provavelmente um pouco nervoso. Dou um aperto na perna dele para deix-lo  vontade.
- Mas ns estamos nos divertindo, no estamos? - soluo
- Estamos.
Quando o bar fecha, estou to lesada que David, Deus o abenoe, fica preocupado que eu no consiga chegar em casa sozinha. Talvez, disse ele, todo preocupado, eu 
deva ir dormir na casa dele.
- Ai, ai - brinco. - Conheo seu truque.
Ele ri.  mais perto, diz. Assim no vou precisar chacoalhar na linha Northern inteira para chegar em casa. E  fcil ei trabalhar de manh da casa dele. Ele explica 
tudo tim-tim por tim-tim. Alm disso, ele tambm quer provar para mim que no divide a cama com uma centena de outros antpodes.
Quando chegamos  casa dele, j  meia-noite. E antes de eu me afundar no sof cor de banana elegante da cozinha dele, d tempo de notar que a casa dele  bem antimacho. 
Tem um monte de apetrechos de cozinha da Alessi. Uma torradeira cromada da Dualit. Um liquidificador clssico da Waring...
- Quanta coisa legal - articulo quando ele me entrega uma xcara de ch.
- Obrigado.
Ficamos no sof-banana um pouco, da David, de repente srio, olha para o relgio.
- Amanh tem reunio editorial - diz. - Acho que devemos ir dormir.
Bem como eu pensei. Ele est louco para ir para a cama.
Transbordo de ansiedade enquanto ele me conduz escada acima. Parece que ele passa uma quantidade insana de tempo no banheiro, escovando os dentes e passando fio 
dental neles, mas digo a mim mesma que  legal conhecer um cara que cuida da aparncia, e me concentro em examinar meus prprios dentes para ver se no sobrou nenhum 
pedacinho de espinafre.
Quando ele sai, uma toalhinha branca enrolada na cintura esguia e deliciosa, j estou na cama. Minhas roupas formam o montinho amassado no cho de sempre. Amaldioando 
a mim mesma porque minha calcinha e meu suti no combinam, tirei o suti cinza sujo e escondi embaixo da camisa. Conjeturei a respeito de ficar com a calcinha roxa, 
mas resolvi ser ousada e ficar com tudo  mostra. Sob os lenis, estou nua em plo.
Que ousadia!
Ele parece surpreso.
- Eu ia falar para voc dormir no quarto de hspedes - diz. - Mas...
- Ah, tudo bem - sorrio, toda corajosa. - Afinal, ns dois sabemos por que eu estou aqui. - Por que sujar outro conjunto de lenis? No que eu esteja, claro.
- No que voc esteja o qu?
- Suja. - Dou risada, inclinando-me perigosamente na direo dele quando ele se senta do lado dele na cama com uma cara desconcertada.
- Katie, eu...
- O qu? - Inclino tanto o corpo que, no estado de embriaguez em que me encontro, caio com a cabea no colo dele. 
- Eu...
- Aaah - digo, colocando a mo no pnis dele, e rindo. - Isso aqui  um pepino ou voc... Ah.
Digamos que ou ele  broxa ou no est nem um pouquinho excitado.
- Veja bem - diz com firmeza, afastando a minha mo.
- Tudo bem - apreso-me para reconfort-lo. - No quero me casar com voc, sabe como ...
- Katie...
- Isso  porque voc  obrigado a sentar na minha frente no trabalho? - fao uma tentativa. - Porque podemos esquecer tudo amanh, sabe como . Voc no vai precisar 
me namorar. Nem ficar me comprando coisas caras, nada disso. Eu deixo voc se safar na boa. No conto para ningum.
Apesar de talvez eu ter que pedir uma camiseta dele para ir trabalhar, claro. Uma que ele j usou alguma vez. Para que Melanie e Serena saibam.
- No. - Ele diz. - No  por causa disso.
- Ento, o que ? - estou estupefata.
- Bom...
- Ah, j entendi - digo. - Voc  casado. Voc tem uma Sheila esquentando a barriga no fogo l na sua terra. Bom, voc sabe o que dizem por a. O que os olhos no 
vem...
Credo. No d para acreditar que estou sendo to volvel.
-  porque eu sou gay.
- No faz mal - digo.
- Katie, eu sou gay - diz, segurando minhas mos com firmeza. E de repente eu me toco.
A cozinha linda. O visual imaculado. O senso de humor maravilhosamente picante.
Claro que ele  completamente gay. Quando  que um htero j foi assim to perfeito?
Puta que pariu.
Tudo pra. D para ouvir o trfego se movimentado l fora, mas tudo est muito distante. Ser que ele acabou mesmo de dizer o que eu acho que ele disse? Tudo parece 
surreal. Tipo um sonho esquisito.
- No  voc - ele se apressa a me reconfortar, ao perceber meu olhar de terror.
Como  que eu pude cometer um erro assim to bsico?
De novo.
- Voc no pode ser... - fao uma tentativa rpida e insana. Afinal, j cheguei at aqui. Eu que me dane se permitir que ele me escape por entre os dedos desse jeito.
- Por que no?
- Voc odeia o Abba.
- , mas...
- Voc deixou o Steps passar batido.
- Eu sou australiano.
- Voc nem sabe danar "YMCA" - agora j estou soluando. - Eu vi voc na festa de Natal. Voc no fazia a mnima idia.
- , mas...
- Voc  um porra de australiano, puta que pariu. Voc devia ser um machista da porra. Um casca grossa de marca maior. Um porco chauvinista total. Voc no se importa 
de tomar cerveja na lata. E voc gosta de comer carne de porco. No acredito.  s uma desculpa para no transar comigo, no ? Bom, deixa eu dizer uma coisa, eu 
no ia mesmo transar com voc. Nem que a ponta do seu pau estivesse coberta com o sorvete mais delicioso do mundo. Voc tem cara de ser pssimo. Pronto. Ento pronto.
Credo. Estou me fazendo de completa imbecil. Tem catarro escorrendo do meu nariz e tudo o mais, mas eu nem ligo.
Puta que pariu.
Por que  que esse tipo de coisa sempre, sempre acontece comigo?
Pulo para fora da cama, totalmente ciente de que cada pedacinho do meu corpo est a mostra. Minhas bochechas ardem de tanta humilhao. Parece absurdo para ele me 
ver pelada depois do que acabou de dizer.
- Ah, Katie, por favor, no faa isso - ele implora enquanto eu saltito pelo quarto, ridcula, com um p enfiado em uma perna da minha calcinha roxssima, tentando 
vesti-la a todo custo.
- Olhe, se eu fosse htero, voc seria a primeira pessoa que eu ia querer agarrar. Srio.
- Ah, por favor, me poupe - imploro. - No tente fazer com que eu me sinta melhor. Nunca fiquei to envergonhada na vida. Vou pedir demisso. Voc no vai precisar 
olhar para mim nunca mais.
- No precisa fazer isso. Por favor, vamos tomar mais uma xcara de ch e...
- No. - Coloco a camisa rosa que, depois da noite de bebedeira, est toda amarfanhada em um montculo no cho, antes de sair correndo escada abaixo, atravessar 
a porta e sair para a rua antes que ele consiga proferir outra palavra.
Vou cambaleando na direo do metr, conseguindo, com dificuldade, chamar um txi e dizer ao motorista que me leve para Balham.
Quando entro no carro, fico olhando amuada pela janela.
- Cafajeste - sibilo.
- A senhorita est falando comigo? - pergunta o motorista.
- Ah, no, desculpe - balbucio. - Acabo de descobrir que o cara que eu achava que ia transar comigo  gay. Estava falando dele.  bem compreensvel, o senhor no 
acha?
- Claro que sim, querida - diz o motorista do txi. - S posso dizer que esse negcio de que eles gostam  nojento. Vai contra a natureza, se quer saber a minha 
opinio. Quer dizer, no era a inteno do Senhor, no  mesmo, afinal de contas?
Sinto a bile pela garganta. Acho que  a vodca, mas toda aquela choradeira soluante tambm no ajudou em nada. Engulo com fora. Eu realmente no quero deixar o 
almoo em um txi. No tem nenhum recipiente  mo. No tem lata de lixo. Nem mesmo um saco de supermercado amassado. Talvez eu pudesse usar o bolso do casaco, mas 
acho que isso  ir um pouco longe demais, at para mim.
Por sorte, consigo segurar o contedo do estmago at finalmente estacionarmos na frente da minha porta, quando o taxista olha para mim com tanta gentileza que eu 
acho que vou explodir em lgrimas de novo.
- Prontinho, querida - ele sorri. - V para casa e tome uma bela xcara de ch, est certo?


Acordo na manh seguinte me sentindo quase normal. Absolutamente de ressaca, mas no to envergonhada assim, levando em considerao a situao.
Em primeiro lugar, mais uma vez consegui me interessar por outra bicha frentica. George vai ficar histrico quando descobrir que eu lancei olhares para o que ele 
- e s ele - classificaria gentilmente de "cavalgador de pau".
E, em segundos, j so nove e meia. Eu tinha que estar na redao h meio hora.
Teclo o nmero do trabalho. Claro que no tenho condies de ir trabalhar, j est tarde demais, para comear, e eu realmente preferia no ter que enfrentar a idiotice 
completa que cometi na noite passada, muito obrigada. Vou ter que falar com Imogen e inventar alguma desculpa.
Digo que estou com intoxicao alimentar. Sei que no  muito original, mas parece que um passarinho cagou no meu cu da boca e no consigo me mexer sem achar que 
estou prestes a vomitar.
- Acho que voc vai ter que vir, sim. - A voz de Imogen corri a linha telefnica como se fosse cido hidroclordrico. - Temos reunio editorial.
- Eu sei, mas...
- Katie, faa o favor de vir logo para c, est certo? - ela cospe, e bate o telefone na minha cara.
- Ela bateu o telefone na minha cara - digo a Graham e Shish Kebab em estado de choque, antes de arrastar minha carcaa para fora da cama e procurar umas roupas 
mais limpinhas para vestir.
Eu odeio toda aquela gente.
Como  que eu vou conseguir encarar o mundo?













QUATRO






Finalmente, rastejo para o trabalho s 10h37.
Marsha olha para mim como se soubesse de algo que eu no sei.
- A Imogen quer que voc v  sala dela imediatamente. - Parece feliz da vida. - Est esperando.
-  para falar do texto do creme brle?
Ela d de ombros.
- Tente descobrir.
- Entre - late Imogen quando adentro os domnios da sala dela, do tamanho de um campo de futebol. Estou to nervosa que esqueo temporariamente a vergonha da noite 
passada, que ficou rondando a boca do meu estmago durante todo o trajeto at aqui. Em vez disso, retoro os dedos, aterrorizada. Credo, como estou de ressaca. A 
necessidade de correr para o banheiro e mandar um supercoc alcolico  quase insuportvel. Sinto-me absolutamente ranosa.
- Voc chegou atrasada ontem - ela solta, girando a cadeira azul-clarinho de um lado para o outro e apertando os olhos amarelados na minha direo, de maneira desconcertante.
- Desculpe - tento aliviar a presso. - O trem passou e eu no estava l.
Imogen me manda um olhar que me d toda a certeza de que ela me acha to engraada quanto falncia do fgado, antes de fazer um gesto para que eu me sente em uma 
das cadeiras do conjunto de camura azul-clarinho na frente de sua mesa em forma de feijo. Observo que ela baixou a minha uns dez centmetros, para poder me olhar 
de cima e se deleitar enquanto eu tremo.
- No vou nem me incomodar em oferecer um caf - cospe. - Acho que voc no vai ficar muito tempo aqui.
- Vou morrer logo - falo para dentro.
- O que voc quer primeiro? - pergunta ela. - A boa ou a m noticia?
- Hmmm... a boa? - falo involuntariamente. Meu Deus. Espero que ela seja rpida. Eu preciso mesmo ir ao banheiro.
- Tudo bem. - Ela arregaa as mangas do terninho preto com corte imaculado at os cotovelos e olha para mim de cima.
- A boa noticia  que fui promovida. De novo. Desta vez, passei a fazer parte do conselho.
- Que bom - digo, quase completando: "Ento voc no ficou com o brao cansado de tanto puxar o saco dos outros por nada."
- E no  mesmo? - ela retorce o nariz de tanto rir. - Claro que vou precisar de algum para substituir Audrey.
- Audrey vai embora?
- No.
- Ento, por qu?
- Porque ela j foi. Faz menos de dez minutos.
- Por qu?
- Mandei embora. No estava mais dando para confiar nela. Sempre saia mais cedo para ir correndo para aqueles pirralhos remelentos. Dormia nas reunies. E estava 
sempre derramando leite em cima da mesa de conferncia. E ela sabe muito bem que sou alrgica a laticnios.
Na opinio de Imogen, qualquer vislumbre de instinto maternal  indicao de fraqueza fatal. De acordo com ela,  a mesma coisa que homem comendo quiche.
Ento, a m noticia  que a coitada da Audrey foi mandada embora. Mas por que  que ela est contando isso para mim? A no ser que... Claro. Ela quer que eu fique 
com o trabalho de Audrey. Alm do meu, sem duvida. E provavelmente ganhando menos, se  que eu conheo a porra deste lugar.
Mas se eu vou trabalhar por duas, vou ter que ganhar mais, no  mesmo? E se ganhar mais, vou poder pagar por um lugar melhor para morar. Algum lugar com jardim, 
talvez. E uma portinhola para Graham e Shish Kebab.
E se vou fazer o trabalho de Audrey, provavelmente no vou mais precisar sentar na frente de David. O que ser um tremendo alvio depois da noite passada.
- Voc deve estar a imaginando o que tudo isso tem a ver com voc - diz Imogen, bem assertiva.
- Bom, estava meio que pensando mesmo.
- Agora voc quer ouvir a m notcia, sem dvida.
- Eu achei...
- O qu? - os olhos dela brilham, cheios de triunfo. - Voc achou que a demisso daquela lactante com goteira era a m notcia? Ah, no, querida, voc ainda no 
ouviu nem a metade.
Ela se espreguia, preguiosa, igual a um gato no sol, saboreando o fato de estar me prendendo como uma mosca em uma teia de aranha. Estou meio passada. No por 
me importar particularmente com o que ela tem a me dizer, mas porque estou desesperada para sair daqui e dar uma cagada.
- A m notcia - sorri -  que voc tambm est demitida.
Demoro um segundo para absorver o que ela acabou de dizer. Quando compreendo, fico com falta de ar.
- Eu at diria que sinto muito - ela fala enquanto olho para ela de boca aberta de incredulidade. - Mas no sinto. E voc me conhece. No sou mulher de meias-palavras.
No  mesmo.
Ela vai direto ao assunto.
- Se voc tem algum pertence pessoal na redao, sugiro que leve com voc agora, porque darei instrues severas a Marsha para que no a deixe mais entrar no prdio 
a partir de agora. Certo?
- M-mas voc no pode...
- Acho que posso. Agora sou a chefona.
Ela est se divertindo  bea.
- Eu podia ser freelancer, se for o caso...
- Est mais para folgada, na minha opinio - debocha ela. - No, obrigada, querida. Isto aqui no  um problema de corte de custo. Eu j contratei outra pessoa, 
com salrio mais alto, para fazer o seu trabalho. O problema  o seu comportamento.
- O qu?
- Voc  to confivel quanto uma camisinha furada. Se no fosse pela sua conta gigantesca de telefonemas pessoais, eu no saberia por que voc vem trabalhar.
- Mas da eu no vou ganhar nada.
- No, querida, no vai. - Ela me presenteia com um sorriso salpicado de cianureto. - Mas isto aqui  uma organizao lucrativa, no de caridade. No levamos os 
miserveis muito em considerao por aqui, amorzinho, de modo que  melhor voc ir dando o fora loguinho, antes que eu mande chamar a segurana. Estou indo para 
a reunio editorial agora. Voc pode sair por conta prpria.
E, com isso, ela sai batendo os saltos, e me deixa sozinha na sala dela. Tiro um pedao de chiclete de uma hora atrs da boca e coloco na cadeira dela. O modelito 
Prada daquela perua vai gostar bem deste presentinho.
O primeiro pensamento que cruza minha mente quando saio da sala dela, no andar mais alto do prdio, e me dirijo para o elevador,  que pelo menos no vou ter que 
encarar David. A reunio editorial j deve ter comeado a esta altura, de modo que ele estar seguramente trancafiado na sala de conferncia.
E, para meu alivio, ele no est na mesa dele. Enquanto Melanie e Serena observam eu encaixotar minha coleo de marca-textos e minha reserva de emergncia de barras 
de chocolate, sinto-me estranhamente desempregada. Estou transtornada, claro. Acabei de perder o emprego. Mas uma partezinha de mim se sente aliviada. Aliviada porque 
algum tomou a deciso para mim. No preciso resolver ir embora e descobrir o que quero mesmo fazer. Agora ter que procurar outro emprego. Realmente no tenho outra 
escolha nesse aspecto.
Sinto-me estranhamente exultante ao deixar o prdio da IBS pela ltima vez. Aqui estou eu, no meio da manh, sem absolutamente porra nenhuma para fazer.
Que maravilha!
Claro que tem uma coisa que eu posso fazer.
Compras.
Mas, em primeiro lugar, preciso fazer um pit-stop no McDonalds da Kings Road.
Estou passando na frente da Whistles quando vejo David o Homossexual Gay bem na frente da Body Shop do outro lado da rua. Uma onda quente de vergonha toma conta 
de mim e eu me enfio em uma loja para que ele no me veja. Neste instante, uma pontinha de dvida passa pelo meu crebro. Ser que ele  gay mesmo?
Ou ser que a idia de ter que meter em mim  to completamente repulsiva que ele precisou fingir?
- V se foder - digo em voz alta.
- Perdo? Posso ajud-la? - Pergunta a vendedora com boca de chupar limo.
- No - digo sem pensar. - No, voc  vendedora, no terapeuta de casal. Francamente, duvido muito.
Saio da loja sem proferir mais nenhuma palavra e piso firme, caminhando em direo ao portal dourado, sentindo-me a ltima. Porra de David. Quem diabos ele acha 
que , andando assim pela rua, exibindo toda sua gayzisse, estragando completamente meu dia de liberdade?
Que cafajeste.
Entro se supeto no McDonalds, peo um Mcfish e um Big Mac com refrigerante e batata-frita. Quem  que precisa de homem quando d para comer junk food? Heim? Afinal, 
se o marrom  o novo preto e ficar em casa  o novo sair, quem  que vai dizer que o McDonalds no  o novo sexo?
Heim?
- O que voc gostaria de beber? - pergunta o atendente coberto de espinhas.
- Fanta. No. Coca.
Esqueo tudo a respeito de David e de ser demitida e me concentro no assunto do momento: deglutir meu hambrguer duplo em tempo recorde. Quando termino, volto minha 
ateno para a terapia do varejo. Dou uma passada na Lush para babar em cima dos pedaos de sabonete com cor de pedras preciosas, empilhados como tijolinhos de Lego, 
e bombas de banheira efervescentes, arranjadas no balco como se fossem bolas de sorvete. Gasto uma fortuna em leo de banho com cheiro de violeta e gel de banho 
sabor laranja. Compro tortas brancas com redemoinhos azuis de banho de espuma quase do tamanho de tijolos e talco em embalagens fofssimas. Quando termino as tarefas 
dali, vou correndo at Georgina vom Etzdorf para escolher um cachecol de veludo para usar durante o resto do inverno. No consigo escolher entre o preto com rosa 
tutti-frutti e o preto com verde-hortel, de modo que compro os dois. Eu mereo, afinal de contas. No  hora de economizar. Esta no  a hora de economizar. Ento 
 a hora de cheirar produtos de beleza na Boots antes de escolher vrios CDs, velas perfumadas, canecas da Whittard, um bluso da Kookai e quatro conjuntos completos 
de lingerie.
S quando chego em casa  que percebo quanto gastei. Somando tudo, parece que acabei de desperdiar umas 600 libras em um monte de bobagens em uma tarde. Tudo s 
para me alegrar.
E agora que carreguei tudo para dentro de casa, de repente j no me sinto assim to alegre.
Na verdade, estou mesmo me sentindo pssima. Olho para mim mesma no espelho, fazendo a minha cara de "venha para a cama", s para ver como devo ter parecido tristemente 
pattica quando estava tentando seduzir David na noite passada.
Puta que pariu.
Ser que eu fico mesmo com esta cara quando estou paquerando?
O pobre cafajeste deve ter achado que eu estava com dor de barriga.
Ligo para o celular de Janice. Ela est saindo do trabalho.
- E a?
- Acabei de ser demitida.
- Voc acha que isso  ruim - ela solta. - Devia ter visto a seleo de naftalina com que deparei ontem  noite no festival de pudim.
- O qu?
- No Evergreen Club. - Ela parece levemente irritada. - Honestamente, Katie, depois de me dar o cano, achei que voc pelo menos ia fingir que estava interessada.
- Fui demitida.
Credo, como ela consegue ser insensvel s vezes.
- Est bem, j disse. Mas presumo que voc tenha se dado bem na noite passada para compensar.
- Para fala a verdade, no.
- No? - ela se ilumina.
- No.
- Ento, tudo bem. Quer dizer, achei que a minha noite tinha sido ruim. Fui l esperando encontrar um veterano de guerra e o que vi?
- O qu?
- Bolachas amanhecidas, baba e carteado - ela parece desacoroada. - Vou ter que refazer meus planos.
- Ah.
- Mas pelo menos no fui demitida - continuou ela. - Voc deve estar mesmo puta da vida.
- Obrigada, Janice. Posso sempre contar com voc para me sentir melhor.
- De nada. - Toda ironia se perde com ela. - Alis, recebi uma boa notcia.
- ?
- Acabei de ser colocada em uma conta de muito prestigio no trabalho, de cereal matinal.
- E isso  bom?
-  bom demais. Tem uma perna de girafa sem bunda chamada Thalia que fez um boquete em um dos filhos do dono e foi descoberta. Foi mandada embora mais rpido do 
que d para dizer caralho. E eu fiquei com o trabalho dela.
- Que bom.
- Claro que isso significa que eu vou ter menos tempo para procurar marido. Mas talvez, agora que voc no tem porra nenhuma para fazer, quem sabe pode procurar 
para mim.
- Ah, certo.
- bom, bem que voc podia, no  mesmo? Ir a umas festas e paquerar algum por mim. Ou ento podia dar uma olhada na internet. Bom, mas eu preciso desligar. No 
tenho tempo de conversar o dia inteiro. Agora eu sou toda importante e ocupada.
E, com isso, desliga o telefone.
Frente  distinta falta de solidariedade de minha amiga, opto pela segunda alternativa.
Ligo para George.
Infelizmente, ele est em xtase. Est apaixonado. Apaixonado. O mundo se transformou em um marshmallow cor-de-rosa em uma tarde.
- Conheci um cara.
- Ah - me arrepio. No consigo evitar a sensao de cime cada vez que George se declara apaixonado. Afinal, David no foi o primeiro gay que eu tentei traar na 
vida. Como j disse, sempre tive uma queda por George. Tentei implorar. Disse a ele que no me importava se ele quisesse que eu colocasse um saco de papel na cabea 
e fingisse ser um gostoso da novela. E mesmo assim ele recusou.
Que cafajeste ingrato.
Para minha sorte, e a do meu monstro de olhos verdes do cime, os relacionamentos de George no so nada alm de breves. Ele acha que est apaixonado pelo menos 
duas vezes por semana, antes de perceber que no tem absolutamente nada em comum com a outra pessoa a no ser a orientao sexual. Por conseqncia, ele j teve 
mais casos passageiros do que todas as calcinhas que eu j tive na vida. E mais alguns alm desses.
- Ento, vocs j foram para a cama? - pergunto.
- No.
- No? - eco. - Meu Deus, deve ser srio.
- Acabei de conhec-lo na hora do almoo, no parque.
- Isso nunca o impediu de agir.
- Aaah - George guincha. - Que gracinha. Qual  o seu problema?
- Tambm conheci uma pessoa - confesso. - No trabalho. 
- Ele  legal?
- Ele  gay.
- Ah, Katie - reage ele, cheio de tristeza. - Voc no foi l dar mais um daqueles seus showzinhos, foi?
- Acho que sim - respondo, com voz trmula. - E agora ainda fiquei sem emprego tambm.
- Ah, querida. - Ele parece compreensivo. - Bom, isso tudo  muito triste, mas acho que agora no vai dar para parar para conversar. Vou me encontrar com o gostoso 
agora. Ele vai me levar ao Quaglianos para jantar.
- Ah.
Fico escutando abedientemente durante uma meia-hora enquanto George fica falando como a vida  maravilhosa agora que ele achou esse algum especial nmero 453. ele 
ainda no parou de falar quando eu coloco o telefone no gancho e recorro  minha ltima alternativa.
Sam.
Normalmente, nem perco tempo incomodando Sam com minhas histrias de tortura. E realmente no sei por que estou fazendo isso agora. Ele deve estar saindo com uma 
daquelas vagabundas magricelas que ele chama de namorada. Eu no daria a mnima, mas elas sempre tm uns nomes to estpidos e empolados, como Coco e ndigo, que 
me do nos nervos mesmo antes de conhec-las.
Fico agradavelmente surpresa. Ele est sozinho.
Sam mora a quatorze quarteires de mim, na Calbourne Road. Ele abre a porta da casa nova, todo descabelado e desalinhado. Traz um pincel na mo e tem manchas de 
tinta de parede azul-claro, tipo ovo de pato, no nariz e na franja. Parece to familiar e to... normal, uma coisa to Charlie Brown, que eu simplesmente perco a 
linha e me desfao em torrentes de lgrimas.
- CTCA? - pergunta, gentil
CTCA quer dizer ch, torrada e cigarro AGORA.
- Ou talvez prefira uma pizza.
Concordo com a cabea, desconsolada.
- Mas acho que primeiro  melhor voc tirar esse monte de molho de Big Mac da sua franja - ele sorri. - E da voc pode me ajudar a pintar meu escritrio novo. Escolhi 
azul.
- No brinque.
- Acho que vi um sorriso. S um pequenininho. Mas j  um comeo.
- Pea uma pizza - sorrio apesar do que sinto e entro na cozinha de Sam, onde sua preciosa coleo de placas de metr est apoiada em uma parede enquanto ele pinta 
a outra.
- Peo sim - e vai direto para o bule. - Assim que voc me contar qual  o problema.
- Tentei seduzir um homossexual.
- Mais um?
Concordo com a cabea, envergonhada.
- Caralho, pra de rir.
- Ah, Katie - ele se mata de tanto gargalhar. - Quando  que voc vai aprender?
- Pode tirar o chapu de professor - desabafo, sentando em cima da mesa e aceitando a xcara de ch quente que ele me oferece. - Voc no  to legal assim, sabia? 
Veja s as pobres coitadas com que voc sai. Desculpa, eu disse sair? Devia ter dito trepar e dispensar.
- Minha inteno no  trepar com elas e dispens-las. - Por um instante, Sam parece momentaneamente deprimido. - S que no fim elas sempre ficam chatas de verdade, 
s isso.
-  engraado como voc s repara nisso depois de ter ficado com elas de tudo quanto  jeito, no  mesmo? - provoco. - Depois que voc j gastou bem seu salsicho?
- Isso no  justo.
-  sim. Voc  um mercador: pega as moas, faz gato e sapato delas e dispensa. Mas, de qualquer jeito, se elas so todas to chatas assim, acho que voc deveria 
experimentar umas diferentes. Tipo uma que seja levemente mais inteligente do que a ameba de planto. E tem sempre a Janice. Quer que eu d uma ligada para ela?
Sam parece aterrorizado.
- No se preocupe - digo. - A Janice estava falando srio quando disse que mudaria sua poltica de relacionamentos. Agora ela est atrs de capital slido, no de 
gostoso, de modo que voc vai ficar seguro por algum tempo.
- Voc precisa arrumar um namorado de verdade - Sam me diz mais tarde. - Um que seja htero. Algum que v cuidar de voc. Da voc vai poder esquecer toda essa 
besteira de ficadas de uma noite e talvez possa ser feliz de fato.
- Homens so todos iguais.
- No, no so. - Ele troca de canal e coloca no futebol.
- Voc est zapeando - grito, comprovando meu ponto.
- Voc no devia ser assim to rgida - ele ri, e volta para a novela por causa de mim. - Nem todos ns somos iguais ao Jake, sabe? Alguns de ns na verdade so 
at bem legais.
- , e a maior parte de vocs  igual menstruao - retruco. - Ficam rodeando igual a um cheiro ruim quando no so desejados e da quando a coisa chega a uma questo 
de vida ou nascimento, somem to rapidinho quanto a calcinha de uma stripper. No, obrigada. Posso me virar sem vocs. Todos vocs.
Quando Sam descobre que fui demitida, tente me convencer a contar para minha me. Afinal, diz ele, eu preciso de todo o apoio possvel.
- Pelo menos conte ao meu pai.
- Voc no vai contar para o Jeff - digo com firmeza. - De jeito nenhum. Ele j acha uma porcaria. E provavelmente vai contar para minha me. Ela vai ficar acabada 
se souber que eu fui demitida. Coisas assim no acontecem na nossa famlia.
Alis, esse  todo o problema da minha me. Ela  legal de mais. No posso dizer o quanto desejei, em todos esses anos, ter uma me igual  de Janice. Uma que andasse 
de cala de moletom comprada no supermercado e que nem consiga lembrar quem  o pai dos filhos. Eu at me contentaria com uma que me criticasse o tempo todo. Sabe 
como . Que ficasse me enchendo para eu emagrecer, arrumar um trabalho melhor, fazer um curso de especializao. A vida seria muito mais fcil. Azar o meu se tudo 
 difcil para mim. Quando eu ferro com tudo (tipo quando passo mais tempo no bar do grmio estudantil do que na biblioteca), recebo um agradinho na cabea e um: 
"Tenho certeza de que voc fez o melhor que pde", em um tom consolador. Ela confia tanto em mim que chaga a doer. Vivo em constante estado de culpa.
Sam promete que no vai contar nem para a minha me nem para o pai dele, desde que me comprometa a pensar muito seriamente a respeito do que quero fazer para ganhar 
a vida. Talvez at ir a uma agncia de empregos temporrios para adquirir novas capacidades.
- Ento preciso escolher entre me enfiar em um tailleur com meia-cala fina ou decepcionar a minha me,  isso?
- Se voc quiser pensar assim.
Opto pela primeira alternativa. Prometo que vou pensar a respeito.
E pensar a respeito  exatamente o que eu pretendo fazer a esta altura. Afinal, depois de tudo que eu passei, algumas semanas de cio caem superbem.
- Ento, o que  que voc acha? - Sam olha para mim cheio de expectativa.
- Como assim?
- O que voc acha que gostaria de fazer? - pergunta.
- Voc est dizendo que eu preciso pensar agora?
- Estou.
- Mas eu quero assistir a Buffy.
- Bom, no vai dar. - Sam tira o controle-remoto da minha mo e aperta o boto de desligar com firmeza. - Voc precisa tomar as rdeas da sua vida, voc sabe muito 
bem. Quanto antes, melhor. Tem que existir alguma coisa que voc gostaria de fazer.
- No consigo pensar em nada - digo honestamente. - Mas no quero voltar a trabalhar em uma firma de nenhum tipo. O ambiente de meia-cala e bolsinhas no serve 
para mim. E ser a moa nova  um horror. Ningum faz a gentileza de mostrar indo fica o banheiro e a gente acaba sempre tendo que preparar o prprio ch porque o 
das outras pessoas tem gosto de peixe e vem com uma pelcula por cima.
Sam joga a cabeleira para traz e urra de tanto rir.
- O qu?
- Voc  muito engraada. - Ele d um puxozinho na minha orelha. - No d para acreditar que voc chegou at aqui sem ter a menor noo do que quer fazer.
- No tem nada de engraado. - Abaixo a cabea e olho tristonha para a xcara de ch. - O que costuma acontecer com gente como eu, Sam? O que acontece com essas 
pessoas?
- Tenho a impresso - ele me puxa na direo dele e me d um abrao de irmo - de que elas acabam descobrindo que precisam se ajudar sozinhas.
- Era o que eu temia. - Volto minha ateno para o exemplar da revista GQ na mesinha de centro. - Caralho. Olha s para o estado dela. Tem mais luzes do que uma 
sala de operao.
Sam joga a revista para longe com delicadeza e olha para mim.
- Vamos l, Simpson. Tem que existir alguma coisa de que voc gosta.
- No tem. - Sacudo a cabea com tristeza. - S sou boa em beber, fumar e trepar. E nisso a nem sou muito boa. Ainda.
- Voc  boa na cozinha.
- Sou? - volto os olhos para ele, surpresa.
- Claro que  - ele diz. - Aquele curry malaio que voc fez no aniversrio de Janice estava simplesmente estupendo.
- Obrigada. - Fico contente. - Mas aonde  que isso vai me levar? No quero ser dona de casa.
- No precisa ser. J pensou em ser chef, digamos? Ou banqueteira?
- J - digo, com honestidade. - Mas da eu fiquei enrolando demais e no rolou.
- Bom, e o que voc acha disso?
- No tenho experincia nenhuma - reclamo. Agora j estou me sentindo realmente pssima. - Credo, Sam, por que tudo tem que ser to difcil? No  minha culpa se 
eu acho difcil me dedicar a alguma coisa. E ningum me consultou antes de me jogar em um mundo em que a gente precisa trabalhar para viver. Acho que eu ia me das 
melhor como herdeira ou qualquer coisa assim.
- Voc podia ir trabalhar umas semanas em um restaurante para pegar experincia. - Sam sugere, com expresso sria. - J pensou em trabalhar um pouco como garonete? 
S para ganhar algum dinheiro e ver o que est rolando?
- A nica coisa que j pensei a respeito das garonetes  que elas tm um trabalho horroroso, servil e que paga pouco - digo. - Credo, Sam, j me diverti mais tratando 
um ataque bem forte de cistite.
- E o que voc acha de montar seu prprio negcio? - Sam de repente tem uma iluminao.
- Do qu?
- De banqueteira. - Ele sorri. - Posso at contratar voc para os lanamentos de alguns dos meus clientes.
- No tenho dinheiro para abrir uma empresa.
- Voc pode pedir um emprstimo.
- Vou pensar no caso.
- Bom, pense mesmo. - Sam me d outro abrao de urso. - E eu tambm vou pensar. Quem sabe surgem algumas idias.


Nas semanas que se seguem, me sinto to bem com o desemprego quanto um patinho na gua. Em uma sexta-feira, encontro Janice no Exhibit para tomar uma taa de vinho 
e ouvir todas as fofocas do trabalho dela. E  quando me toco de que no tenho absolutamente nada para contar. Quer dizer, que graa tem uma cena do tipo "acordei, 
me vesti, comprei po" para uma executiva da publicidade que fica to ocupada de segunda a sexta que mal tem tempo de limpar a bunda?
- Qual  seu problema?
- Estou entediada - reclamo. - No tenho nenhuma expectativa.
- Tem sim, querida. - Ela me d um cigarro e acende um para si. - Voc vai dar uma festa.
- No vou, no.
- Vai sim. Voc vai dar uma festa para comemorar seus 30 anos porque eu conheci um cara e preciso de uma desculpa para convid-lo para sair.
- Por que ele no convida voc para sair?
-  delicado.
- Por qu? Ele derrete se sair  rua?
- No.
- Onde foi que voc o conheceu?
- Em um enterro.
Imediatamente me sinto culpada.
- Ai meu Deus, Janice, sinto muito. No fazia idia de que algum tinha morrido.
- Ningum morreu. - Ela parece surpresa. - Ah, j entendi. Bom, sim, algum morreu. Na verdade, foi a mulher dele. Mas eu nunca a tinha visto mais gorda, ento no 
estou muito abalada.
- Ento, o qu...?
- ...eu estava fazendo no enterro? Bom, eu no estava avanando nem um pouco com aquela porcaria de agncia de casamento, voc sabe muito bem. E o Evergreen Club 
tambm no serviu para absolutamente nada. Muito obrigada, mas por enquanto no estou preparada para lidar com incontinncia. Quero algum que tenha uma certa disposio 
para agitar. Caso que precise lev-lo a algum lugar pblico.
- Certo.
- De modo que dei uma passada de olhos nos anncios de morte do Torygraph. Para ver se algum interessante tinha batido as botas. Achei que talvez haja por a uns 
vivos bacanas dando sopa. E esse a parecia bem promissor. Ento coloquei um terninho preto, enfiei uns sapatos de marca, me desloquei at Waterloo e peguei um 
trem.
- Sei.
- Fiquei no fundo da igreja, claro. No tinha necessidade de chamar ateno. Foi bolinho. Depois, apertei a mo dele no cemitrio. Disse que era amiga da esposa. 
Disse que tnhamos feito trabalho voluntrios juntas.
- Ah, sei.
A coisa mais prxima que Janice fez de trabalho voluntario foi dar uma chupada em um marinheiro americano carente de sexo que conhecemos no bar Mucky Duck, em Portsmouth.
- Fiquei feliz por no ter me aproximado antes - prossegue ela, ignorando meu olhar chocado. - Porque o pastor falou tanto de como ela era uma mulher maravilhosa 
que no fim eu me senti como se a conhecesse h anos. Quase achei que ele ia comear a dizer como ela era boa de cama.
- Mas...
- Bom, mas a fui at a casa dele para a recepo. Bem grande. E o champanhe era de boa qualidade. No era aquela porcaria que a gente compra em qualquer supermercado. 
E nos demos hiperbem. Depois, ele deu um beijo na minha mo e disse que esperava que mantivssemos contato. Ento achei que o seu aniversrio seria a desculpa perfeita 
para alegre-lo um pouco.
- E trepar com ele para ficar rica - digo.
- Mais ou menos.
- Ela estava doente? - pergunto.
- Credo, no. Morreu totalmente de nada. A vaca tonta esquiou direto de encontro a uma rvore. Estragou as frias inteiras, como voc pde imaginar. O pobre coitado 
teve que voltar para casa na mesma hora. Que egosmo.
- Janice!
- O que ? Do que voc est reclamando? E voc vai ganhar uma festa de aniversrio por causa disso. E eu vou convidar um monto de G&Ts. Para voc, quer dizer. Eu 
provavelmente j vou ter um para mim.
G&T  a sigla para gostoso e tonto.  uma frase reservada para homens decorativos que tm merda na cabea.
- Vai ter que convidar mesmo - digo. - Porque eu com certeza no conheo nenhum.
- Ento voc est dizendo que vai fazer?
- Parece que sim.
- Ah, que bom - ela se entusiasma, servindo a ltima taa de vinho. - Agora me fala. Que bolsa voc acha que eu devo usar para a ocasio? A rosa da Tocca ou a preta 
da Gucci?
- Quantos anos ele tem?
- Sessenta e nove.
- Ento, acho que voc pode usar um saco de supermercado - dou risadinhas. - No, falando srio, a nica bolsa que ele vai conhecer  a que estiver acoplada ao estmago 
dele por um tubo de plstico, ento  bem provvel que ele no esteja nem a.
- Ele no  TO velho assim - ela reclama.
- Tem idade de vov - ressalto. - E, para mim, isso  bem velho.
Ela veste um casaquinho.
- Vejo voc no sbado, ento?
- V?
- Claro. Para a festa, d.
- No pode ser na sexta?  que o meu aniversrio  na sexta.
- No, no d. - Pega o mao de cigarros. - Na sexta ele no pode. Tem uma reunio.
- Coisa de velho?
- Trabalho - ela bufa. - De qualquer jeito, tem que ser no sbado. Se no, ele no pode vir. E esse  o motivo principal.
- Achei que era minha festa de aniversrio.
- Isso tambm, claro.
- E os convites?
- J cuidei de tudo. - Comea a contar nos dedos. - Chamei todos os nossos amigos. Alm de umas Sem Bunda do trabalho. Eu ganho pontos com isso, sabe como .
- timo.
- E a Poppy e o Seb. Da a gente vai poder passar um bom tempo sem ter que sair com eles.
-  verdade.
Poppy  a nossa amiga por obrigao. A colega de faculdade de quem no conseguimos nos livrar de jeito nenhum. Ela  to legal que no h nada que faamos que consiga 
afast-la.
- E o George convidou um monte de amigos. O Didier vai. E o Sylvain. O Christian. Fran, o Trans. Felix e Olivier. Archie e Hugo. O Gordo Dexter. Colin e Huw. Sheena 
e Kath. E todos os amigos do Sam vo. Ah, e o George convidou o cara novo dele.
- Como ele ?
- Sei l. Ainda no conheci. Sei l. Preciso ir. Preciso ligar para o Jasper.
- Quem  Jasper?
- O cara do enterro, sua burra. Preciso dizer para ele que est em p. Ah, falando nisso, voc vai ter que organizar tudo. Estou presa ao fax pela cordinha do meu 
absorvente interno neste momento, portanto no vou poder ajudar. Foi mal.





CINCO







Por alguma razo, fico to puta da vida por ter que organizar minha prpria festa que quase cancelo toda a funo.
Quer dizer, at que George se oferece para fazer todas as compras.
- E vai pagar tambm? - pergunto. - No se esquea de que estou desempregada.
Ele chega ao meu apartamento s nove da manh da sbado, como combinado, bem no momento em que as lagrimas quase me vm aos olhos por causa do cartozinho de aniversrio 
que minha me enviou. Tem tambm um do pai de Sam, Jeff. Os dois demonstram tanto otimismo em relao ao meu futuro "brilhante" que eu simplesmente no tenho coragem 
de lhes contar que sou um fracasso completo.
Ainda nem contei a eles que fui mandada embora.
- Prepare uma xcara de ch para mim - George ordena, jogando-se todo melodramtico no sof e acendendo um cigarro. - Quero Earl Grey, nada de ch genrico, faa 
o favor. No sou um qualquer. Vamos l. Ande logo. Acho que estou com difteria. Caguei igual a uma bruxa a manh inteira e estou profundamente desidratado.
- Voc s est de ressaca - informo. - E no temos tempo para tomar ch, genrico ou outro qualquer.
Ele quer fazer compras na rotisserie italiana, onde gasta uma pequena fortuna toda semana em fatias de presunto de Parma, gordura, azeitonas verdes reluzentes, pedaes 
de queijo taleggio frutado e pores individuais de panna cotta. Digo a ele que um hipermercado nos arredores da cidade, onde poderemos escolher entre as promoes 
de grandes quantidades, ser muito mais adequado. s dez horas, depois de Earl Grev e torradas, pulamos para dentro do Balde Enferrujado, que se parece mais com 
um abrigo de castores do que com um carro, e nos dirigimos para Wandsworth, um pouco fora de Londres.
- A que horas comea a funo? - pergunta ele, enquanto demonstro como colocar uma moeda de uma libra no lugar apropriado para liberar um carrinho de supermercado.
- Voc  que deveria saber - respondo. - Voc que organizou a farsa, no eu. E espero que voc e Janice tenham pensado em convidar uns ficantes em potencial para 
mim. Porque, se eu tiver que passar minha festa sozinha enquanto vocs dois ficam agarrando os caras de vocs, vou pegar uma agulha de croch e puxar para fora o 
intestino delgado de vocs dois, bem feliz. Sacou?
- bvio, bvio. - George toma o carrinho das minhas mos. - Agora me diz o que fazer. D para fumar aqui ou eu deveria ter trazido meus adesivos de nicotina?
Enquanto fazemos compras, recuso-me a deixar que ele fale a respeito do cara maravilhoso que arrumou. Egosta, posso at ser, mas a coisa todo s vai durar mesmo 
umas semanas. George  to mau quanto Sam. Os dois deviam ter portas giratrias na entrada do quarto.
- Espero que as pessoas no fiquem achando que estamos juntos - comenta ele, jogando uma caixa de baguetes no carrinho. - Voc est parecendo um arbusto desde que 
ficou desempregada e parou de pentear o cabelo.
- Obrigada.
- O pessoal pode comear a pensar que sou eu o responsvel. - ele examina um pacote de ninhos de suspiro e torce o nariz. - Vo achar que eu levei voc para casa 
e a comi tanto que voc perdeu os sentidos. E por mais que eu a ame, querida, e por mais que queira que voc seja a me do meu filho de laboratrio, s a idia da 
ao toda faz com que eu tenha mais vontade de levar l atrs.
Enquanto George saltita alegremente pelo supermercado inteiro, divertindo-se com o que chama de "imitaes de gente comum", gritando "Winona, Kylie, Mazola. Obedeam 
 bab enquanto a mame acende um cigarro", fujo para o corredor de salgadinhos e encho o carrinho com todas as castanhas de caju, bolinhas de queijo e palitinhos 
salgados que cabem l dentro. Quando atravesso a seo de fraldas, resolvo que  melhor procur-lo, antes que ele comece a brincar com as bombas de leite. No quero 
que ele tenha a oportunidade de mandar mais indiretas de tero de Aluguel para mim. No no dia do meu aniversrio.
Vou empurrando o carrinho instvel pelo corredor e me surpreendo quando meu olhar cruza com alguma coisa conhecida.
Assustadoramente conhecida.
Ai meu Deus.
Ser que...?
Meus intestinos se liquefazem e minha boca se enche de bile. Fico enraizada ao cho.
.
Jake e Calcinha de Peixe.
Esto no fim do corredor, olhando babadores com um personagem de desenho animado. O que me parece bem estranho.
Achei que Bacardi Breezers eram mais o estilo dela. At que olho para baixo, claro, e percebo que a Calcinha de Peixe parece meio gorda. Ela est enorme, com a barriga 
saltada, gordona. A menos que esteja muito enganada, ela est prestes a soltar um pirralho no cavalo da cala de moletom branco, e isso pode acontecer a qualquer 
minuto.
O que, de novo,  estranho.
Visto que eu e Jake s nos separamos h cinco meses.
Cafajeste.
Os pacotes de biscoitos infantil que ladeiam o corredor se transformam em uma mancha rosa e azul e o lugar comea a rodar. Meu Deus. Preciso sumir antes que eles 
me vejam. Sinto-me enjoada.
Tarde demais. Antes que eu consiga dar meia e dar o fora, Jake percebe a minha presena. E como fica bvio demais que eu vi que ele me viu, no tem como evitar o 
encontro. No sem parecer que ambos no temos educao. E isso no seria muito legal, no  mesmo? Portanto, apesar de provavelmente ns dois preferimos beber o 
sangue da menstruao de uma vaca a isso, trocamos cumprimentos. Um silncio desconfortvel se instala quando nos lembramos de que a ltima vez que nos cruzamos 
foi quando o peguei com a Calcinha de Peixe presa  ponta do pnis dele como uma foca no arpo.
- Voc est bem?
- No podia estar melhor. - Meu Deus. Eu bem que podia ter passado um pente no cabelo desgrenhado. Aposto que estou com cara de quem acabou de sair do banheiro. 
- E voc?
- Vou bem. - Ensina um sorriso. - Ns, hmmm... - D uns tapinhas carinhosos na barriga da Calcinha de Peixe e eu percebo que, sim, acho que vou vomitar mesmo. Futuros 
papais no deveriam ter permisso para ser to gostosos. Ele devia estar lavando o carro ou aparando a grama. No paseando pelo supermercado, bem na minha frente.
- Ah, eu percebi. Bom, acho que vou indo... - desvio o assunto, pouco  vontade. - Preciso preparar uma festa.
- Tenho certeza de que precisa. Alis, parabns.
Meu estmago se revira como uma ginasta olmpica. Ele lembrou.
A Calcinha de Peixe est com uma cara de quem vai dar um tapa na cara dele.
- Obrigada. - digo. - Bom, melhor eu ir. Tudo de bom para... sabe como . A criana.
- obrigado. - Ele sorri.
Enquanto me afasto, digo a mim mesma que o fato de ele ter se lembrado do meu aniversrio no significa nada. Eu o peguei transando com outra pessoa, caramba. E 
no foi exatamente como se ele tivesse se importado em me mandar um carto, no  mesmo?
Vago pelo supermercado tonta, pegando coisas e jogando dentro do carrinho de maneira arbitraria. Nem sei o que estou comprando. Seguro uma caixa de suco de laranja 
quando uma voz estridente grita s minhas costas:
- Devolva isso, j.
Fico to confusa que imagino se fui pego roubando. Ento me viro e vejo George pulando para cima e para baixo como uma fadinha zangada.
- Precisamos de suco de laranja para preparar drinques. - Reclamo. - O Sam vai levar um monte de destilados.
- Isso a tem escrito economia na embalagem - ele ressalta. - No d para comprar isso a. Vo l pegar do tipo caro e confivel.
- Qual  a palavra mgica?
- Imediatamente.
Enquanto esperamos na fila, conto a ele o que acabei de ver.
- Eles j deviam estar transando h meses quando eu descobri - digo, toda triste. - O que voc acha?
- Acho - comeou ele, alegremente -que gostaria de ver a cabea dela em um espeto. Espero que ela tenha cries e os dentes todos caiam. Espero que ela pegue uma 
candidase horrvel.
Alegro-me um pouquinho.
- E herpes genital - acrescento, contente.
- E queimao quando ela fizer xixi - ele adjunta. - A vida inteira.
- E alopecia.
- E espero que o beb nasa com lbio leporino - guincha George.
- Ah, no - imploro. - No  culpa do beb se o pai dele pensa com o pau e a me  uma vagabunda fogosa. Ser que no d para a gente desejar s uma marca de nascena 
em forma de morango? Talvez nas costas, de modo que os outros s percebam quando ele estiver trocando de roupa para nadar.
- Se voc preferir. - Ele morde o lbio. - Mas, credo, voc  legal demais. Para comear, foi por isso que deixou ele tratar voc igual merda, querida.
Ento, ao perceber como estou triste, me d um abrao.
- Vamos l - consola. - Deixe eu pagar isto aqui  da a gente vai dar uma voltinha de bicha pelas lojas.
Quando nos aproximamos do caixa, o homem na nossa frente se apressa em arranjar sua lasanha congelada, seu detergente e seu pacote de meai dzia de cervejas Calsberg 
em uma pilha constipada, para que no haja a menor chance de alguma das nossas coisas encostar nas dele e as infectar. Eu jogo tudo na esteira. Tomates-cereja escarlate. 
Queijo de cabra curado. Malate amargo. Creme duplo. Ameixas secas gradas. Brie melequento. Cheddar. Frango. Bifes. Um abacaxi. A loura oxigenada do caixa passa 
os ltimos produtos pelo leitor de barras e, ajeitando os lbios com cobertura de pssego em uma linha rgida, diz quanto devemos.
- Ser que voc pode mos dar mais umas sacolas? - peo, com educao.
Ela joga mais dois invlucros na minha direo e George lhe entrega seu Amex.
- Muito obrigada, Jean - diz, apontando para o crach dela. - Que prazer negociar com voc, no  mesmo?
- Perdo, eu...
- Imagino que voc saiba ler, no? - pergunta ele, rspido. - Apesar de trabalhar em um supermercado? Ento voc sabe o que est escrito aqui. - Cutuca a placa em 
cima da cabea dela.
Jean olha para a placa com cara de quem agenta uns quarenta casais histricos por dia.
- A diz Caixa de Atendimento, no ? - ressalta ele. - No diz Caixa de Grosseria. E o crach que voc est usando diz "Estou aqui para ajudar", e no "Estou aqui 
para ser mal-educada". Talvez seja bom voc se lembrar disto no futuro.
E, com uma fungada final, ele sai bailando com o carrinho, jogando um ltimo olhar de "vaca azeda" na direo dela.
Agradeo a Deus por no fazer supermercado ali com freqncia e mentalmente elimino o estabelecimento da minha lista de compras futuras.







SEIS






George e eu ganhamos uma sesso de sauna grtis, j que passamos o resto do meu grande dia trabalhando como escravos na frente do um fogo quente. Preparo costeletas 
de porco chinesas no bafo e mexo a sopa picante e amarga. Coloco camares grados suculentos no leite de coco para preparar um curry verde cheiroso e douro pedaos 
de frango com tomate picado para fazer um picadinho indiano bem temperado. Fatio mangas. Esquento acar. Preparo biscoitos de camaro, caldo de peixe e pimentas. 
Misturo e amasso, mexo e fervo. Fao minitortinhas de fgado com linguicinhas de aperitivo por cima. Na medida em que a cozinha vai se enchendo com uma mistura de 
aromas deliciosos, comeo a suspirar de satisfao.  de dar inveja queles chefs chiques que ensinam receitas na televiso.
Enquanto vou me alegrando na cozinha, percebo que no me sinto assim to relaxada h semanas. Estou incomodada por causa de Jake. E por causa daquele negcio com 
David. E por ficar sem emprego, alis. Mas no demora muito at eu perceber que me sinto mais feliz quando cozinho para os outros. Talvez eu devesse mesmo tentar 
usar minhas qualificaes, em vez de simplesmente t-las. 
Enquanto cozinho, George enche a sala de cravos cor-de-rosa em vasos de vidro bojudos e cobre os consoles de lareira da casa inteira com velas de igreja grossas 
e de cera. Pendura cordes de luzinhas cor-de-rosa por todo lado, de modo que ficaro piscando todas fofas ao anoitecer. Quando os dois terminamos nossas tarefas, 
o apartamento est em perfeito clima de festa. 
- E agora, a pice de rsistance - George, dando um sorriso maior do que o rosto, faz um meneio e revela um pacote chato. - Abra.
 o fao. Dentro da caixa, aninhado entre camadas de papel de seda, est o vestido mais bonito que eu j vi. A saia  de rosa mais plido e esvoaante, e a parte 
de cima, justa, de um rosa-shoking forte, bordado de dourado. Deve ter custado umas 500 libras.
Mas, bem, ele tem condies de pagar.
- Que lindo. - Dou-lhe um abrao.
- Ento vo l vestir. - Ele devolve o abrao. - Eu tambm preciso me montar.
- Precisa se montar?
- Ah,  - concorda com a cabea. - Vou vir de drag completa.


s sete da noite o Fusca modelo novo cor de ameixa de Janice sobe na calada e ela vai tropeando at a porta sobre sapatos de plataforma de dez centmetros de altura 
e um vestido decotado que diminui a barriga e mostra os peitos de modo espetacular.
- Feliz aniversrio, minha querida. - Ela me d um enorme abrao e me entrega um buqu de tulipas da minha cor preferida, rosa mashmallow, e uma sacola cheia de 
docinhos e presentinhos embrulhados em papel furta-cor. - E no se preocupe. Convidei uma seleo maravilhosa de G&Ts para voc.
- Ahh, que bom. - Sorrio. - Alis, voc est linda.
- Voc tambm - retribuiu automaticamente, antes de perceber que ainda estou de roupo. - Para um boxeador. - completa, e as duas camos na gargalhada.
s sete e meia, o conversvel de Sam encosta na frente e ele entra danando, trazendo nos braos uma enorme caixa cheia de garrafas tilintantes e me dando um beijo 
estalado na bochecha.
- Feliz aniversrio, madame.
- No estou to velha assim, obrigada.
Enquanto todos os meus amigos se cumprimentam, rolhas de champanhe estouram e Janice, servindo um copo cheio de borbulhas para mim, me enxota para o quarto para 
que eu coloque o vestido cor-de-rosa. Enxugo o primeiro copo com um gole, meu estmago se revira com uma mistura de animao para a festa e uma tristeza secreta 
ao pensar em Jake e Calcinha de Peixe e o nenezinho deles, bem quentinho no forno dela.
- Ento, que tal esse cara que voc arrumou? - pergunto a Janice. - Vou gostar dele ou vou ficar achando que voc sofreu uma lobotomia quando o vir? Vamos l. Conte 
logo tudo. Por enquanto, s tenho o nome. E, julgando por isso, ele parece ser a porra de um labrador.
- Digamos que ele vai lhe parecer adequado.
- Voc faz com que ele se parea com um carto American Express.
- Exatamente. - Ela sorri. - E j vou estar em um programa de milhagens e de compras no supermercado antes do que ms terminar. Agora, vamos l para voc se arrumar. 
Vai ficar linda de morrer quando eu terminar. Os caras vo se estapear para ver quem fica com voc.
- Bom, se eles s estiverem a fim de uma ficada, tudo bem - brinco. - Prefiro enfiar garrafas quebradas no cu a ter que sair com algum dos caras que a gente conhece. 
E, c entre ns, eu estou me sentindo, hmmm...
- O qu?
- Estou meio esquicita.
- Por qu?
- Vi o Jake hoje.
- Ah, meu Deus, ah, querida. Tudo bem com voc?
- Tudo. - Engulo em seco.
- Ele estava...
- ...com ela? Ah, estava sim. Ela est prestes a parir, alis.
- No creio!
- Acredite. Pelo jeito, deve nascer logo. Para ser bem honesta, estou puta da vida.
- Eu sei - balbucia ela em tom calmante, passando glitter nas minhas plpebras. - Voc vai se sentir muito melhor assim que der uma agarrada em outro. Srio.
Ela me d um abrao reconfortante e volta a trabalhar no meu rosto. Quando deso, a festa j est a toda. Sam est cuidando do bar. Ele arrumou uma mesinha no canto 
e serve a todos coquetis decadentes.
- Uau - exclama quando me v com o vestido novo.
- No me venha com safadeza - dou bronca nele. - E me d logo uma margarita. Eu adoro margaritas.
- Aaah, eu tambm - diz uma lombriga com um vestido branco transparente. - Tambm quero uma. Meu nome  Kimberley, alis - ajunta um pouco acanhada, piscando com 
os clios longussimos na direo de Sam.
- L vamos ns - reclamo com ela, e digo - me d logo minha bebida que eu j deixo vocs dois  vontade.
Sam est mesmo animado esta noite. Mas no s com a perspectiva de traar Kimberley, seja l quem ela for. Ele acaba de convencer um dos seus clientes mais importantes 
a ir com ele quando abrir a RP Freeman. O que  um grande golpe. O chefe dele vai ficar furioso, mas isso significa que outros se seguiro a ele. E ele estar feito. 
S sei disso porque minha me me contou quando ligou  tarde para desejar feliz aniversrio.
- Jeff est feliz da vida - contou. - Acabou de ir para o jardim plantar umas batatas, ele est mesmo muito contente.
- Que bom - comentei. Credo, o que  a animao na vida de certas pessoas. Ser que ele no poderia ter virado um usque duplo de uma vez ou algo assim? De qualquer 
modo, fiquei rindo sozinha a pensar em Jeff no mesmo jardim onde Sam e eu costumvamos brincar quando crianas, comendo terra e fazendo casas para as minhocas. Olhando 
para ele agora, vejo que Sam cresceu muito mesmo desde ento, to  vontade e cheio de confiana, preparando drinques alegremente para gente que nunca viu, feliz 
com a certeza de que tem uma carreira brilhante pela frente e com um pai to orgulhoso dele que resolveu plantar tubrculos em homenagem a ele. Nesse nterim, o 
que foi que eu fiz?
Fui demitida por ser preguiosa demais, foi o que fiz. No tenho muito do que me orgulhar.
Dou uma olhada geral na sala. L est George, lindo com shortinhos justos de couro preto, meias arrasto, saltos agulha de 15 centmetros e uma perucona vermelha 
no formato do cabelo de Margie Simpson.
- Voc est lindo. - digo a ele. - Seu cara novo vai ficar passado. Quando  que ele chega?
- Deve chegar logo - George cacareja. - Voc tambm est um luxo s. Eu sabia que este vestido tinha sido feito para voc.
- Obrigada. - Devolvo o sorriso, comeando a me divertir. A sala est se enchendo rpido. A boa e velha Janice estava certa. Tem uma tonelada de G&Ts por aqui. Talvez 
eu at me d bem. Ah, e l vai a campainha de novo.
- Flores para a senhorita Simpson.
- Sou eu.
Um homem me entrega um buqu de rosas cor de algodo-doce.
Levo-as para a cozinha, rasgo o envelope do cartozinho e leio. De quem sero?
Puta que pariu.
"Feliz aniversrio", diz o carto. "Em nome dos velhos tempos."
Dentro dele, um garrancho familiar demais. "Adorei ver voc hoje. Aproveite. Beijos, Jake."
Meu estmago revira. Mas no d tempo de parar e pensar. Janice est quase em cima de mim, arrastando o cara da esposa morta atrs dela. Jogo as rosas em um canto. 
Onde ningum pode v-las, e me preparo para conhecer o futuro marido dela.
- Tudo bem com voc?
- Tudo, s estou tomando um pouco de ar. Sabe como .
- Este aqui  o Jasper.
- Oi.
- Oi. - Ele sorri.
Hmm. Nada a ver com o que eu estava esperando.
- Voc parece... - paro.
- Pois no?
- Achei que voc pareceria mais triste.
- Como assim?
Bom. Afinal, a mulher dele morreu. Ele devia ter a decncia de parecer um pouco abalado, em vez de ficar despindo Janice com os olhos, na cara dura. E ele  velho 
demais para ela. Na verdade, ele parece levemente ridculo. Quem  que est tentando enganar?
Janice, claro.
Quer dizer, no ia ser to mal se ele no tivesse tantas rugas. A cara dele parece um maracuj que secou ao sol.
Cordeiro vestido de porco.
Carneiro vestido de cordeirinho.
A campainha toca de novo e, agradecida, peo licena. No fao a menor idia do que devo dizer para esta estranha criatura. Janice vai ter que fazer sala para ele 
sozinha.
Abro a porta.
E tenho o maior choque da minha vida.
- Que porra voc est fazendo aqui? - o convidado da minha festa e eu berramos ao mesmo tempo?
- George me convidou - David gagueja. - No fazia idia de que voc estaria aqui.
- Caralho, eu moro aqui - rosno. -  meu aniversrio.  minha festa.
E eu grito quando quiser.
- Tentei ligar para voc - diz David. - Depois que voc saiu da IBS. Mas voc nunca estava em casa.
- Pois estava - respondo. - S que no queria falar com voc.
- Tudo bem com voc?
- Nunca estive melhor. E voc?
- Vou bem. Feliz, para falar a verdade. Conheci um...
- George - digo. - Voc j disse.
- Voc o conhece?
- Ele  um dos meus melhores amigos.
- Ai meu Deus.
- Tudo bem - digo. - Para ser honesta, fico um pouco aliviada de descobrir que voc  mesmo gay. Achei que voc no era muito de queimar a rosca. Voc parecia to... 
bom... to...
- To o qu?
- To htero, acho. Pensei que fosse s uma desculpa para no transar comigo.
- Ento, estou perdoado?
- Neste momento, no posso fazer mais nenhum inimigo - dou risada. - Tenho uma melhor amiga que est desesperada para se casar com aquela ameixa seca ali e outro 
colado quela criatura l Vestindo Transparente. Kimberley eu qualquer coisa assim.
- Credo - balbucia ele. - Que nome horroroso. Parece o nome de um bar de vinho de segunda linha.
- No  mesmo? - dou risadinhas.
- Ah,  bom ver voc. - Ele ri e me d um abrao. - E sinto muito pelo seu trabalho. E, bom, no outro dia...
- Esquea. - Dou de ombros. -  legal ver voc tambm. 
E  mesmo. Eu meio que sentia falta de David, de um jeito esquisito.
- E desculpa por ter feito voc olhar para minha xoxota.
- Xoxota? - Ele sorri. - Que xoxota?
George cumprimenta David como se eles j se conhecessem h anos. Janice vai passando de sala em sala com seu vestido minsculo, achando charutos, bebidas e petiscos 
para seu futuro noivo. Sam e a mesa de bebidas esto se dando hiperbem.
Tiro cinzas de cigarro que caram sobre o meu pufe molenga cor-de-rosa preferido e me jogo ali, imaginando se algum vai se lembrar de coversar comigo.  medida 
que a festa vai progredindo, vejo meus trs melhores amigos se divertindo com outras pessoas, bebendo o bar inteiro, fumando cigarros coloridos e comendo a minha 
comida. Sinto-me to bem-vinda na porra da minha festa quanto um cheese-bacon em um Bar Mitzvah.
Mas deixe estar.
Afinal, a sala est se enchendo de homens traveis, no est? E tenho, de fato, uma afirmao a fazer. Como  que Jake tem coragem de me mandar flores e estragar 
a minha festa? Cinco meses se passaram e ele continua fazendo joguinho, o sacana.
O merdinha provavelmente esperava que as flores causassem uma onda de nostalgia to forte que me incapacitasse de traar qualquer outra pessoa. Bem, para comear, 
ele pode esquecer a idia. Aqui estou eu. Jovem (bom, 30 no  exatamente velha.). livre. E louca para ficar com algum. Ento, chega a hora da deciso. Ser que 
devo atacar um bom pedao de G&T ou devo me garantir e Pegar Logo um Feio?
Estou considerando as opes quando George me entrega uma bebida. Janice d um tapinha no meu ombro e me oferece outra taa de champanhe.
Bem, ento eles no esqueceram totalmente de mim.
- Katie, este aqui  o Max. - Janice puxa algum pobre coitado pelo pescoo. - Max, Katie. O Max e eu trabalhamos juntos.
Ela est agindo de maneira to formal que quase espero que o informe a respeito de detalhes sobre a minha vida pessoal tipo: "Katie est desempregada e enche a cara 
sempre que pode. Max trabalha feito um louco, mas os passatempos dele so cheirar calcinhas e ler as Pginas Amarelas."
S que ele no tem cara de quem possa ler as Pginas Amarelas por diverso. Na verdade, parece bem legal.
- Voc est muito bonita - elogia quando Janice sai danando para se juntar ao Podre de Rico.
- Obrigada. - Dou mais uma olhada nele e mentalmente apago qualquer idia de Pegar um Feio Logo. Max  lindo. Belos olhos. De um castanho delicado e caloroso. Igual 
a chocolate derretido. No, espera. So mais parecidos com os de uma...
- E voc tem olhos de vaca - solto.
Caralho. Por que  que eu disse isso?
- Credo, desculpe - viro minha bebida. - No estou muito acostumada a paquerar. Eu geralmente s gosto de gay e de cafajestes, sabe? E, tendo visto que voc no 
 um nem outro, acho que  melhor inform-lo que no tem muita chance comigo.
Droga. E ele tambm tem cara de ser bem legal. Tinha que ser eu para estragar tudo logo assim no comeo.
Rapidamente, lembro-me de que "legal"  o tipo de palavra que as pessoas usam para descrever bolos divertidos. No tenho planos a longo prazo para este homem, s 
o quero para ser meu primeiro cara para Transar e Dispensar. De modo que, por que eu devo me importar com o que ele pensa sobre mim?
Ainda assim, talvez seja melhor ser honesta com ele. Dizer que o mximo que pode esperar  uma visita ao meu quarto, no andar de cima, onde vou trepar com ele at 
cair e depois oferecer um chocolate ps-coito tirado da minha gaveta de calcinhas.
Ou talvez seja mais prudente tentar a aproximao sutil.
Janice tem razo. No sirvo para dar s umas ficadas. No fao a menor idia do que fazer a seguir.
Por sorte, Max parece conhecer bem o formulrio. Com os lbios tremendo por segurar a risada, ele pergunta como  que eu tenho certeza de que ele no  um cafajeste 
completo.
- Quer dizer, voc est certa - informa ele. - No sou mesmo, mas tenho certeza de que d para incluir uma clusula de espancamento dirio no contrato pr-nupcial, 
se voc quiser.
- H?
- Alis, isso foi uma piada.
- Ah... certo.
- Vamos viver uma noite de cada vez, pode ser? - Ele sorri. - No precisamos planejar o casamento j.
A histria de "uma noite" me pega. Cheia de alvio, percebo que as intenes dele so to maldosas quanto as minhas. Ele quer dar umazinha. O que significa que no 
vai ficar esperando que saiamos juntos depois. De modo que eu no vou precisar colocar um vestido glamouroso nem ficar pastando folhas de alface a noite inteira, 
sendo que o meu desejo  colocar roupas com cintura de elstico e encher a cara de espaguete. A gente pode ir direto ao ponto.
Ainda bem que eu me lembrei de trocar os lenis.
O resto da noite foi to brilhante quanto o meu vestido. E apesar de ter pegado George e David se agarrando apaixonadamente mais de uma vez, e de a mo de Sam estar 
colada ao peito da Vestido Transparente, no me importo. Porque Max  maravilhosamente divertido. Ele at dana melhor do que George.
O que j diz a respeito de um cara htero.
- Voc tem certeza de que no  gay, certo? - pergunto outra vez, para me assegurar, enquanto caminhamos at o "bar".
- Tenho certeza. - Max sorri, preparando enormes Bellinis para ns dois.
- Quanta certeza?
- Muita certeza.
- Mesmo?
- Olha - pega a mo dele na minha. - Estou muito, muito a fim de voc. E se voc pudesse parar com todas essas suas boas maneiras, de ficar bebendo e danando, posso 
muito bem lev-la l para cima para mostrar como posso ser completamente no-gay quando  preciso.
Dou risadinha.
- Achei que voc nunca iria sugerir isso.
Agradecendo ao meu anjo da guarda por ter depilado a xoxota, como se deve, desta vez, e no de qualquer jeito, deixo que ele me conduza at o p da escada enquanto 
os outros danam e caem bbados pelas paredes  nossa volta. Quando a voz de Sam vem flutuando atrs de ns. Ele entra no corredor, seguido de perto pela Vestido 
Transparente.
- Katie?
- Vou para a cama - dou risadinha, toda safada. - E no estou sozinha.
- Tem certeza de que voc est bem?
- No se preocupe. J sou uma menina crescida. Sei cuidar de mim mesma.
Abro a porta do quarto, empurro Max na direo da cama e o ataco como uma leoa. Um urro sai de baixo das cobertas.
- Foi voc? - Ele parece assustado.
- Foi s o gato. - Assinto com a cabea, enquanto Graham dispara, cheio de indignao, para dentro do guarda-roupa.
A pele de Max tem um cheiro delicioso. Sal do mar e limo. E ele  to lindo que s estar perto dele j me d arrepio at a ponta dos dentes. Quando ele finalmente 
me beija, um raio me atinge na cabea a vai at meus genitais e eu me derreto contra ele, apertando meu corpo contra o dele com cada vez mais vontade. E ao fazer 
isso, sinto que ele tambm faz o mesmo. E percebo o quanto ele me deseja.
De repente, me refreio.
E se ele estiver a fim de algo mais permanente?
Ser que eu serei capaz de dizer no?
Provavelmente no. Max parece ser do tipo bem apetitoso. Alis, perigosamente apetitoso. Igual a chocolate.
E no qualquer chocolate barato. Estou falando daquele chocolate escuro, suculento, excepcionalmente suave.
Uma mordida e a gente j vicia.
- Qual  o problema?
- Nada.
- Voc no quer?
Quero?
Ah, foda-se.
Na medida em que vou me entregando completamente, e Max lentamente remove o vestido rosa esvoaante de George, fico enormemente feliz com o fato de ter me lembrado 
de combinar o suti e a calcinha uma vez na vida.
Mas nem precisava ter me preocupado. Logo no estaro mais no meu corpo.
Enquanto ele vai se livrando da cueca, uma operao delicada, que envolve tomar cuidado para que o pau duro no fique preso na abertura, fico feliz de ver que ele 
 um sujeito bem dotado. Ele  dono de uma bela vara. No agento mais esperar.
Mas me lembro de ser sensata. Formigando de ansiedade, ajudo-o a desenrolar a camisinha. Da, com um "vai se foder, Jake Carpenter" silencioso, abaixo meu corpo 
em cima do pau pulsante dele.
Merda. Faz tanto tempo.  maravilhoso.
 egosta.
xtase.
- Pare - ofego. - No, por favor, no pare. No pare nunca mais.
- Voc  linda - ele balbucia, segurando meu quadril e enfiando to fundo em mim que j no sei mais onde eu termino e onde ele comea.
- Aaah, no pare - ofego de novo. - Isso. Pare. Agora. Caralho, d para parar? Max. Estou falando srio.
- O qu?
- Saia de cima de mim. AGORA. Tem alguma coisa errada. Aconteceu alguma coisa com a minha... AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH.
Depois, Janice disse que daria para ouvir os meus gritos no interior do pas. Aparentemente, uivei igual a um cachorro. Guinchei igual a um porco no espeto. De qualquer 
forma, foi o bastante para fazer com que Sam, Janice, David e George (com o boa de penas enrolado nas pernas, na pressa) entrassem de supeto no meu quarto, onde 
Sam, achando que eu estava sendo atacada, agarrou Max (agarrou de verdade, como se os dois estivessem brigando mesmo) e mandou ele dar o p.
- Pelo menos deixe ele colocar as cuecas. - George sugeriu, olhando para Max em toda sua glria que rapidamente ia detumescendo.
- De jeito nenhum - gritou Sam, - Saia daqui j, seu pervertido, antes que eu enfie minha mo inteira na sua goela.
- Ei, espere a - consegui gaguejar. Mas no adiantou nada. Sam quase cuspia de fria.
S posso imaginar que o pobre rapaz esperou at estar na rua para tirar a camisinha de morango, porque ainda estava pendurada na ponta do pau dele quando saiu correndo 
do quarto. E s quando j era tarde demais, quando consegui recuperar a capacidade de articular, fui capaz de dizer que ele no tinha tentado me estuprar. Estava 
em agonia. Uma agonia insuportvel, que me queimava, e eu no sabia por qu.
- Como  que pode? - Janice piou. - Voc no  exatamente virgem.
Em todo caso, chamaram uma ambulncia, e ela atendeu ao pedido, tocando a sirene, enquanto os voyeurs do outro lado da rua abriam as cortinas e aproveitavam a sorte 
grande. Seis homens feitos me viram tremendo, pelada, na cama, um travesseiro espremido entre as pernas para tentar acalmar a dor.
- Qual  o problema dela? - Sam gritou para todos eles, o rosto cheio de preocupao. - Saiu sangue?
- No quero que o Sam veja a minha bunda - solucei, lgrimas de vergonha caiam dos meus olhos enquanto os seis estranhos me viam peladona. - A gente se conhece.
Graas a Deus, o exame  curto. No  necessria a hospitalizao e logo j estou sentada em uma banheira de gua gelada, ainda com dor, tremendo, cheia de tristeza 
e ganindo para os quatro, que esto sentados em fila ao lado da banheira, fumando.
 absolutamente a ltima vez que ajudo a cortar pimenta e depois manuseio uma camisinha.
- Eu sou to tonta - soluo. Catarro escorre pelo meu rosto e se mistura com o que sobrou de meu batom.
- No  no - os quatro fazem coro, por obrigao.
- Sou sim. - tremo. - No consigo manter meu emprego e nem consigo dar uma ficada quando tenho vontade sem estragar tudo. Vocs tm tanta sorte. So mesmo umas putas, 
todos vocs.
- E somos mesmo bons nisso, tambm - George se envaidece.
- Obrigada - ofende-se Janice.
- Eu sou o maior fiasco da ficao - choramingo.
- No e no.
- Sou sim. Sou uma porra de um contraceptivo humano.
Parece que Sam est prestes a rir, mas Janice, Deus a abenoe, o silencia metendo o salto na canela dele.
- Voc acha que se deu mal - ela conta. - Imagine como eu estou me sentindo. Hoje  noite Poppy me disse que vai se casar, porra. Antes de mim e tudo.
- Bom, ela tem namorado - explico. - Acho que isso ajuda.
- Ela est com Seb h seis anos - George ressalta. - E eles formam o casal perfeito.
- Eles no esto s trepando? - diz ela, amarga. - E vocs ainda nem ouviram a pior parte.
- O que foi?
- Ela me convidou para ser madrinha.
- Ai meu Deus.
- Eu sei. Ela no  ridcula? Eu nem a convidaria para o meu casamento e ela vem e me pede para ser a porra da madrinha.
- Meu Deus - digo de novo. - Coitada de voc.
Ento, por alguma razo, caio no choro. Um choro cheio de lgrimas, soluos e catarro.
Janice parece se sentir culpada.
- Vamos l, querida - ela me conforta. - Tente no chorar. Essa histria de dar umas ficadas vai ficar bem mais fcil com a prtica.
- Bom, ela pode treinar com voc se quiser, mas comigo no tem chance - George solta. - No sou um carrossel vermelhinho.
- No - estouro. - Voc se parece mais como uma vaga de estacionamento de perodo limitado.
- Ela nem ia querer treinar com voc, no  mesmo? - Janice tira um sarro. - Voc gosta de empurrar coc, caramba.
Gosta  de amassar o chocolate. Desculpa, David. No quis ofender.
- No ofendeu.
- E voc gosta de gals brega - ressalto.
- E voc no gosta? - David est com cara de quem vai rir.
- Ela est inventado isso para se vingar de mim - diz George. - Porque eu posso ir para a cama com voc e ela no pode.
- Eu fico com voc se voc quiser, Katie - diz Sam, gentil.
- No seja ridculo - eu me irrito. - Prefiro ficar com um careca dentuo.
Sam parece ficar meio abatido, mas logo se recupera.
- Afinal, quem era esse cara?
- Um amigo meu - diz Janice. - Do trabalho.
- Acho que no  mais - David observa.
- Merda, voc est certo - Janice percebe. - E ele se d bem com o meu chefe. Caralho, Katie, voc sabe mesmo escolher a dedo.
- Foi voc que nos apresentou - sinto um arrepio de indignao. - Foi voc quem o escolheu para mim. Apesar de eu ter dito a voc que no tentasse encontrar um par 
para mim.
- Voc vai ter que ligar para pedir desculpa - ela ordena.
- No d. Como  que eu vou fazer isso? Ele no vai querer falar comigo. No depois do que aconteceu. Vou ser to bem-vinda quanto uma exibio de Garganta profunda 
em um casamento real.
- Pode sim - diz Janice. - E  o que vai fazer. Alis,  melhor que faa mesmo, porra. No vou ser mandada embora por sua causa.
- Obrigada, Janice - digo. - Estou comovida.






SETE 







No  estranho como uma coisa bem tranqila pode se transformar em maldio e obscuridade?
O cheiro de cigarro amanhecido mal saiu da sala quando minha amiga por obrigao Poppy liga para dizer que a comida da minha festa estava "divina". Fico surpresa. 
Nem me lembro de que Poppy tinha ido  festa, o que demonstra a) como eu estava lesada e b) como ela  importante na minha vida. Mas ela quer saber se eu me importo 
em dizer para ela qual foi a empresa que forneceu a comida. Quando digo que fiz tudo sozinha em uma tarde, a voz dela se desmancha toda e ela cai em lgrimas.
- O que foi? - Reviro os olhos para o cu. Pelo amor de Deus. Eu  quem devia estar preocupada, no  mesmo? No tenho trabalho, ningum para dar uns agarres e 
ainda di l embaixo. Ao passo que Poppy tem dinheiro  bea, graas a um namorado rico, ainda que meio chato, e uma bunda bem pequena. No era eu que deveria estar 
chorando por apoio aqui?
- Aconteceu um dessss...
Credo. Desembuche logo, querida. No tenho o dia inteiro. Na verdade, at tenho, mas no  muito divertido ficar ouvindo algum choramingar do outro lado do telefone.
- Dessss. Dessssastre.
- Ah, querida - demonstro falsa solidariedade, torcendo, cheia de crueldade, para que Seb tenha lhe dado um tremendo p na bunda. - O que foi? Ser que posso ajudar?
- O sssss...
- Sacana? - forneo, tentando ajudar. Credo, ele deve mesmo ter feito alguma coisa horrvel, se  verdade que Poppy Perfeita est pensando em usar uma expresso 
no muito educada.
 - NO. - Parece chocada. - Servio de buf. O buf que contratamos para o casamento foi  falncia. Est tudo indo por gua abaixo.
- Est mesmo? - Sorrio do outro lado da linha, torcendo para que ela no perceba pela minha voz.
- Creio que voc no...
- O qu?
- Creio que voc no v querer tentar, ser, Katie? Claro que eu pagaria. S que a gente no vai conseguir ningum mais em um prazo to curto. Mame j tentou todo 
mundo. Ela at procurou na internet.
- No sei. - Hesito. Francamente, isso me parece um pouco demais. Quer dizer, eu sei que Sam diz que eu sou uma cozinheira maravilhosa, mas fazer uma ou duas tigelas 
de byrami para os meus amigos  uma coisa (principalmente porque eu sei que eu mesma vou acabar comendo a metade). Confeccionar docinhos de marzip em miniatura 
e servir tarteletes de tomate minsculas em bandejas de prata para duzentos estranhos  bem diferente. Como  que se faz esse tipo de coisa? E se eu ferrar com tudo? 
O dia mais feliz da vida daquelas pessoas vai ser um fiasco completo.
Droga, droga, inferno.
- Eu no me preocuparia muito - Janice me assegura quando ligo para ela. Est fazendo uma sesso de bronzeamento artificial porque acabou de ver uma foto da mulher 
falecida de Jasper, sempre bronzeada. - Metade das pessoas l vo ser bulmicas mesmo - completa. - Vacas sortudas. Elas vo estar no banheiro vomitando tudo antes 
que se consiga dizer saumon-em-crute. Voc provavelmente vai poder atender outra festa s com as sobras.
Sam,  claro, me convence de que  uma idia fantstica.
-  a oportunidade perfeita para voc - ele se entusiasma. -  para algum que voc conhece, e provavelmente l vai ter um monte de gente para impressionar. A voc 
vai poder fazer mais contatos e...
- Est certo, acalme-se - digo. - Nem todos ns queremos ser RP, sabe como .
- Mas voc vai aceitar? - pergunta, ansioso. - Ah, aceite, Simpson. Experimente. Voc vai ser brilhante. Eu sei que vai.
- Bom...
- Bom? - Ele mexe no meu cabelo.
- Est bem - digo, animada.
- Fantstico.
Dou um sorriso fraco. No tenho outra escolha a no ser aceitar. Meu cheque especial j virou uma bola de neve. E eu simplesmente no tenho mentalidade frugal. Se 
desejo alguma coisa, conveno a mim mesma de que preciso dela. De modo que compro. Imediatamente. Se no achar um jeito de ganhar dinheiro logo, vou ser obrigada 
a mandar Graham e Shish Kebab para o olho da rua.
Janice acha que  uma tima idia e, magnnima, oferece a casa para que eu cozinhe l como um tipo de teste prvio. Como sempre, tem algum truque por trs da idia. 
Eu preciso fingir que ela fez todo o trabalho. Se no, como  que Jasper vai perceber a esposa perfeita que ela daria? De qualquer modo, ela bufa, quando observo 
que isso seria propaganda enganosa (ela  a nica pessoa que eu conheo que esquenta macarro enlatado no grill do forno), a oferta est de p.  pegar ou largar, 
caralho.
Pego. Afinal, no tenho mais ningum com quem treinar. E, aparentemente, Janice e Jasper esto se dando muito bem. J jantaram juntos e foram ao teatro. Ele at 
a levou  pera, onde traiu suas razes e caiu no sono, entediada de morrer, babando na gola do terno dele. E ela est colocando um freio na parte do sexo. No quer 
que ele caia fora. Ento, ele j pegou no peito dela e at olhou um pouquinho, mas foi s isso.
- Estou dando corda aos pouquinhos. - Ela ri. - Estou dando uma de misteriosa. Bom, mas a gente se fala amanh. Vamos resolver o que voc vo fazer para o jantar.
George diz que eu devia ir pelo menos a um casamento antes. Afinal, faz sculos desde que fui a uma recepo pela ltima vez. E, para a minha sorte, ele foi convidado 
para uma dessas no fim de semana que vem. Ele no est com muita vontade de ir porque dizem que a noiva  uma vagabunda avarenta, alpinista social, puxa-saco, ordinria 
que arrumou para si um bom pedao de riqueza, e portanto est tendo idias acima de seu nvel, mas agora que pensou melhor, David vai estar fora, ento por que eu 
no vou com ele? Assim ele no precisa ir sozinho.
- E voc pode pegar umas idias - diz Sam, entusiasmado.        
Eu me deixo ser conduzida atravs da coisa toda. E, no sbado seguinte, entro em um modelo de lam dourado e encontro com George no Bierodrome, na Upper Street, 
para tomar uma cerveja com batatas fritas e maionese antes de nos descolarmos at Holloway Road, onde compramos mules vermelhos brilhantes nmero 45 e pulamos, de 
bom humor devido s borbulhas de cerveja, em um metr rumo a South Kensington.
A recepo acontece em uma casa espaosa perto de Eatom Square. Cambaleando pelo terrao de manses brancas idnticas, com o nmero pintado em preto em uma coluna, 
identificamos os acordes de jazz que escapam para a rua e seguimos o som escada acima, atravessamos a porta, percorremos um corredor forrado dos dois lados e desembocamos 
em uma espcie de tenda grande e despojada, presa atrs do nmero 12. moas com vestidos bufantes com formato de abbora e rapazes de smoking rodopiam pela pista 
em uma nevoa de seda escarlate flamejante, veludo macio coe de esmeralda e cetim brilhante azul-escuro. Ferraduras prateadas e fios dourados espalham-se deliberadamente 
por entre as rolhas e xcaras de caf abandonadas sobre as mesas prximas e uma menina com uma boca que George chama de comum e maquiagem cor de laranja est vestida 
como uma pavlova gigante e dana com o bisav de algum no palco.
George parece acreditar que apresentaes so algo suprfluo.
- No adianta nada ser educado - ele gorjeta, todo alegre, acendendo um cigarro cor de banana e caminhando diretamente para as bebidas. - J sei de todo o babado. 
O noivo  Zachary Faulkner. O pai  zilionrio. Esta casa  dele. Ou  uma das casas dele, devo dizer, querida. A noiva  a vagabunda de sempre, com chinelinho nos 
ps.  a unio abenoada do Bacana & Rico e da Pobre & Nojenta, baby. O Rapaz de Balgravia e sua Noiva de Basildon. No  maravilhoso? Os pais dele esto furiosos. 
Olhe ali. O Buldogue Ingls fumando charuto e a Lambisgia de Tweed chupando limo. O tema Black-tie do casamento foi idia da noiva, claro. Quer dizer, quem  que 
faz uma coisa dessas hoje em dia, querida? Que brega. Ah, e l esto os pais da noiva. Chapu Qualquer Nota Bala de Alcauz Cor-de-Rosa e Terno Marrom Brilhante. 
Est vendo?
Volto o olhar para o lugar onde um casal desbotado, com cara de triste, na casa dos 50, est sentado, os dois estupefatos e obviamente a quilmetros de profundidade 
em relao a seu habitat natural. Ningum nem perde tempo em ir falar com eles. Que tristeza. E  casamento da prpria filha.
George entra em ao. V uma garrafa de champanhe cheia e aberta em uma mesa prxima e aponta para ela.
- Vamos pegar ou no? - pergunta, cheio de ms intenes.
- Vamos - respondo, enquanto ele se inclina para peg-la, fechando as mozinhas vidas em volta do gargalo folheado de dourado e bebendo diretamente na garrafa, 
todo alegre, e desaba em uma mesa que tem uma mulher sozinha com um decote igual ao traseiro de um mendigo e algumas damas de honra pberes, todas com babados cor-de-rosa 
perolados e aparelho fixo nos dentes. Repito o gesto dele, arrastando-me em um par de sapatos de puta ridculos que deixam meus ps com aparncia de presunto embalado 
a vcuo. Sentindo-me mais do que s um pouquinho boba, acomodo minhas pernas compridas no filetinho de espao entre o mastro da cobertura e a mesa. Infelizmente, 
como me sinto um tanto desconfortvel, bebo. Muito. E porque sei que o mais provvel  que nunca mais volte a ver estas pessoas na vida, as coisas logo fogem do 
controle. A garrafa de champanhe roubada seco com a velocidade de uma corrida de Frmula Um e logo estou to animada como uma criana em festa de aniversrio, quando 
a espuma dourada invade o meu crebro e explode l dentro, junto com borbulhas de possibilidade. Talvez eu possa mesmo me dar bem nesse negcio de servio de buf.
No demora muito e j estou enrolando a lngua, escaneando o lugar para encontrar possveis ficantes e, bbada, agarro a cmera descartvel que algum largou no 
meio da mesa de propsito. Acabamos com o filme tirando fotos tolas um do outro, fazendo sinais com o dedo e mostrando as calas, e s quando me levanto para descobrir 
onde fica o banheiro feminino  que me lembro por que fui at l. O servio de buf. Preciso conversar com o pessoal do servio de buf.
Merdarama.
Onde  que fica a porra da cozinha?
- Fique aqui quietinho - instruo George, que est ocupado demais esvaziando o contedo de todos os copos abandonados na nossa mesa e nem neta que eu sa.
A casa  um emaranhado de corredores. Caramba, de quantos aposentos a famlia do Rapaz de Belgavia precisa? Na minha busca pela cozinha, tropeo em umas dez salas 
de estar, atulhadas de antiguidades e sofs fofos convidativos, e decoradas com todas as cores do arco-ris. Rosa cor de bala. Verde-esmeralda e dourado. Cor de 
algodo-doce suave. Azul puro. Amerelo-picante. Laranja-quente. Esse pessoal leva mesmo a decorao de interiores a srio.
Acho um banheiro (com papel de parede listrado em tom pastel e charges com piadas de banheiro nas paredes) e j quase perco a esperana de achar a cozinha (talvez 
o Rapaz de Belgavia e sua famlia saiam para comer todos os dias) quando tropeo no salto do meu sapato de puta cintilante ao descer as escadas. Desemboco em um 
enorme aposento brilhoso de ao inoxidvel. Um sujeito de aparncia apetitosa, vestido de Armani dos ps  cabea, est curvado sobre o balco, com a cabea loira 
nas mos. Bom, acho que  Armani que ele veste. Nunca fui muito de identificar marcas, a no ser se for para contar os ingredientes dos rtulos de embalagens de 
cmoda, de modo que no posso ter certeza absoluta. Sou dessas pessoas que sempre lem legendas em revistas que descrevem Gwyneth Paltrow como "elegante, como sempre, 
em um Prada cinza-escuro", ou Madonna como "radiante em rosa-shoking da Voyage" e fico imaginando como  que quem escreveu aquilo sabe, s de olhar. Vejo os anncios 
das revistas femininas e leio Versace como Verass. De modo que o terno com aparncia cara podia muito bem ser Paul Smith. Ou Hugo Boss. Podia at ser uma pea da 
porra da C&A. vai saber.
E da?
Ainda assim, pode ser bom trocar uma idia com ele. Ele bem que pode me dar algumas dicas teis. Afinal, para servir a comida em uma festa chique desses, ele deve 
ter bastante experincia. E apesar de geralmente eu achar essa histria de fazer contatos to interessante quanto pegar uma doena venrea, estou to bbada que 
no faz a menor diferena. De modo que vou em frente.
Ele ergue o olhar quando eu me estatelo no cho reluzente e se ouve um barulho do tecido rasgado que vem da minha bunda.
- Ops.
Abaixo o corpo para ver o tamanho do estrago.
Gigantesco.
Bem-feito, acho. Mas, tambm, quem manda uma girafa desajeitada como eu ter a idia de colocar calas to justas que fazem minhas pernas finas parecerem polpudas?
- S eu mesma - digo, amaldioando as palavras assim que saem da minha boca. Quem  que fala uma coisa dessas? - Seu trabalho j terminou? - balbucio, tirando cigarros 
do bolso da cala e rasgando o celofane da maneira mais sedutora possvel para algum com as unhas rodas, pintadas de esmalte rosa-Barbie que j vai descascando. 
Estou mais para uma menina de 12 anos mas, ei, estou at as tampas de champanhe. Dane-se.
- Espero que sim, caramba. - Ele d de ombros. - Estou ferrado. E o pior de tudo  que nem posso encher a cara.
- O qu? - pergunto, chocada. Se servir comida em casamento no envolve algumas taas grtis de espumante, ento talvez seja melhor eu pensar duas vezes. Todo trabalho 
tem que ter suas vantagens, no  mesmo? - Apesar de voc ter feito toda a comida e de ter arrumado tudo? Acho que eles vo deixar voc soltar a franga para aproveitar 
o finzinho, no? - Digo.
- Pode ser. - Ele parece confuso. No me surpreendo. Parece estar arrasado.
- Para falar a verdade, eu estava pensando em abrir um servio de buf- confesso, caindo sobre o banco ao lado dele e oferecendo um cigarro. - Alguma dica?
Ele d de ombros.
- Acho que no.
timo. Fechado com uma ostra. Obviamente no vai entregar seus segredos assim na lata. Mas deve estar acostumado a atender todo tipo de evento glamouroso. Pelo modo 
como se veste, deve ter feito o casamento de Brad e Jennifer. Deve ser amigo intimo dos Beckham. A ltima coisa que deseja  uma novata como eu roubando as idias 
dele.
Mas sempre existe a possibilidade de embebed-lo. Da ele cantaria como um canarinho.
Ou talvez eu pudesse agarr-lo e fazer com que falasse.
Melhor ainda, embebed-lo e depois agarr-lo. Isso no falharia.
Ou ser que  muita vagabundice para uma iniciante?
- Quer que eu traga uns champanhes escondidos para voc? - digo, cheia de maldade. - Voc pode beber aqui. Ningum vai ficar sabendo.
Ele me d um sorriso torto.
- V l. Mas no deixe ningum v-la. Se ela me pegar enchendo a cara, me mata.
- Noiva nervosa? - digo, cheia de solidariedade.
Bom, tudo bem. Acho que de vez em quando vo aparecer um ou dois clientes difceis.  de se esperar.
- Acho que d para colocar assim. - Ele d uma piscadinha.
Sorrio. Normalmente, no me sinto atrada por homens de terno. Por alguma razo, nunca fui capaz de imaginar um homem de terno como possuidor de algo como um pnis. 
No sei por qu. Sempre foi assim comigo. Imagino que eles sejam completamente lisos por baixo da roupa. Mas este cara  diferente.
No  muito o meu tipo (para comear,  loiro, e eu geralmente prefiro as morenos novinhos). Mas ele  macho. E parece ter pulso firme. E, depois do desastre com 
Max, quem sou eu para dar uma de fresca?
Volto para a festa na ponta dos ps, acho uma garrafa meio bebida de Mot em cima do piano de cauda, e me esgueiro de volta  cozinha com ela, arrumando a parte 
de trs do cabelo no caminho. Tenho total noo de que nunca vou ter cara de clean e chique, de modo que. Em vez disso, tento ser sensual e desgrenhada. Infelizmente, 
um pedao de folheado de salsicha cai no cho quando eu paro na frente dele, mas eu o espanto com a mo, como se estivesse espantando fumaa e acho que ele no repara.
- Ento, o que  mesmo que voc est fazendo aqui? - ele pergunta quando lhe entrego a garrafa.
- Perdo?
Que droga, droga. Fui pega, tentando arrancar segredos de mercado de um profissional.
- Noiva ou noivo? Tudo bem, no diga que nenhum dos dois. Porque sei muito bem disso.
- Ah.
- O negcio - ele agarra a garrafa de Mot e d um gole agradecido -  que acho que nunca fomos apresentados, fomos?
- Hm. No.
- Achei que no. - Sorri preguiosamente. - Tenho certeza de que eu me lembraria.
Ele est me paquerando.
Meu Deus, ele  lindo. Bom, na verdade no, no exatamente lindo, mas  salvagemente OK. Mais ou menos. Tem olhos azuis. E um sorriso sacana. Um pouco rosado, talvez 
(o rosto dele tem aquele tom avermelhado dos aristocratas terminais). Faz com que eu pense em um rato recm-nascido. E os clios dele so meio cor de areia, o que 
o deixa com cara de quem sempre est com os olhos apertados. O tempo todo, fico com vontade de dizer que ele est com remela no olho.
E ele  um pouco aristocrtico demais para minzinha, para dizer a verdade. O nome dele provavelmente  Tarquin ou Rupert. Mas o raciocnio bbado me diz que tanto 
faz se ele no  perfeito. Se estou a fim de uma ficada de uma noite s, no vou querer ficar soluando pelos cantos por causa dele amanh. Isso acabaria com o objetivo 
de toda essa histria de transar e dispensar. As regras de Agir Como um Cara exigem sria falta de piedade. Preciso ser durona. To corrosiva quanto soda custica. 
E por tanto  vitalmente importante que eu permanea total e completamente alheia  coisa toda.
De modo que uma leve falta de atrao sexual sem duvida  um bnus.
- Bom, para ser honesta - confesso, engolindo mais um golo de lcool e me inclinando, descuidada, na direo dele-, eu nunca vi nenhum dos dois mais gordo.
-  mesmo?
- Quer dizer, claro que j vi a noiva. Aquele vestido branco meio que entregou quem ela . Mas eu no reconheceria o noivo se ele viesse passar a mo nela, perigosamente 
perto da minha xoxota.
Mentalmente, confiro se sinto algum sinal de excitao. 
Nenhum.
Absolutamente zerinho.
Seco como um osso. Nem um arrepiozinho. Meus mamilos continuam to flcidos quanto massa de panqueca.
Mas eu comecei, ento  melhor terminar.
E, por ser dono de um servio de buf de primeira linha, ser um timo contato para mais tarde.
Melhor eu fazer tudo direitinho.
"E como  que voc vai fazer isso?", martela uma voz irritante no meu crebro. "Sexo casual no  com voc."
Reprimo o som.
Ele me puxa levemente em sua direo e se aperta contra mim, passando a lngua pelo meu lbio inferior.
E o que  que fao?
Dou risada. E  naquele momento em particular que minha boca resolve matraquear sem parar.
- Eu no tenho o hbito de entrar de bico no casamento de gente totalmente desconhecida - balbucio, idiota, enquanto ele se levanta, puxando-me junto com ele. Reparo 
que  um pouco mais baixo do que eu, mas no faz mal. Significa que podemos trepar em p. - Vim com o George, sabe, ele est l embaixo, no  meu namorado, voc 
compreende. Ele trabalha com o noivo.
Ele leva o dedo aos lbios e me conduz pelos ombros para uma despensa que  maior do que o meu apartamento inteiro. Fecha a porta firmemente atrs de ns, me levanta 
e me coloca em cima de um freezer vertical, e me beija.
Fico surpresa de constatar como  fcil fazer um cara transar com a gente. At agora, eu no precisei fazer praticamente nada.
 um beijo melequento, de confeitaria, com gosto de cereja e vinho doce de sobremesa. Interessante. As mos dele percorrem as minhas costas, apertam minha bunda, 
e abrao-lhe a cintura com as pernas. Olhando bem nos meus olhos, ele tira minhas calas e rapidinho abre o zper das dele. Apoio-me, desconfortvel, sobre o dedo 
do p, para facilitar a entrada, afinal sentindo aquele puxozinho de excitao no quadril.
E  quando percebo.
Estou prestes a transar com um estranho completo.
Porque estou podendo.
Eu nem sei o nome dele.
Podia ser mais legal?
Falando nisso, o sexo  curto, afoito e doce como chocolate vagabundo. Ele parece achar que est em um filme porn, pois julga necessrio comentar a situao o tempo 
todo.
- Do que  que voc gosta? - pergunta sem parar. - Do que  que voc gosta?
Tendo em vista, no entanto, que acabamos de nos conhecer, mandar ele enfiar a cabea no meio das minhas pernas e ficar l at que eu me sinta satisfeita no parece 
muito adequado, por isso digo:
- Ah, isto est timo, obrigada - como se estivesse elogiando um prato de restaurante bem inspido. Assim  mais fcil.
Alm disso, estou ocupada demais murchando a barriga, tentando para disfarar meu umbigo proeminente para comear a question-lo a respeito dos conhecimentos bsicos 
que ele tem do Kama-Sutra. No geral, no entanto, a coisa corre bastante bem na minha primeira vez como puta. E, pelo lado positivo, o pau dele no se parece com 
uma lingia apimentada. E no tem umbigo peludo.
Ele nem pede para que eu me masturbe para ele ficar olhando, o que Janice me garantiu que  uma boa para ficadas de uma noite.
Tudo bem, ento eu no tenho Croissants, mas isso  um evento to raro na minha vida quanto um hambrguer de carne francesa.
Ah, e ele aparece com uma camisinha sem que eu nem precise pedir, o que  muita sorte, porque em toda aquela excitao do sexo casual, duvido que eu me lembrasse 
de mencionar o assunto. E esse cara no tem o maxilar adequado para a doao de esperma. Se eu fosse ficar grvida por acaso de propsito, acho que preferia o de 
George. E iria escolher algum um pouco mais alto de que eu.
Depois que terminamos e nos recompomos, ele na verdade parece mais aliviado do que enojado quando o empurro para longe e visto a calcinha, parando s para colocar 
minhas sandlias de vagabunda e dar uma ltima olhada na ereo dele que desinfla rapidamente antes de sair fora, mas quem se importa? Eu sou poderosa. Posso fazer 
o que quiser.
Nado l para baixo em uma nuvem de elao ps-coito. George vai ficar absolutamente impressionado. Vou ganhar pontos extras por ter trepado em um casamento. Ele 
percebe minha aproximao no momento em que piso no salo de baile.
- Onde voc se meteu? - questiona em tom acusatrio. - Estou aqui me acabando de tristeza sem o David, querida, e a voc pega e some.
- Est com saudades do David, ? - tiro um sarro da cara dele. - Isso merece ser registrado. Eu no me preocuparia com ele. Deve estar por a comendo uma mulher 
qualquer. Ele paquera de monto, voc sabe. Provavelmente,  bi.
- Querida, ele  to veado quanto o Bambi saltitando por campos floridinhos. E ele parecia estar bem interessado em mim, muito obrigado, de modo que vou conceder-lhe 
o beneficio da duvida antes de conden-lo a uma vida inteira de assistir futebol, beber chope e falar de peitos, voc no acha?
- Sei l.
- Ento, onde foi que voc se meteu? - pergunta, levemente abalado, quando fao uma pausa para pegar um enroladinho de salsicha.
- Estava transando.
- No, fala srio.
-  isso mesmo que acabei de dizer.
- No.
- Siiiiiiiiiiim.
- Ah meu Deus, querida. - Ele faz o vinho gorar dentro do copo. - Espero que voc tenha tomado uma chuveirada depois. Quer dizer, sei que isso  um avano enorme 
na sua vida e tal, sendo que voc  quase hermeticamente selada, mas a noiva j vai jogar o buqu.
- E da?
- A gente no vai querer que voc o pegue com a coisa escorrendo pela perna, no  mesmo? Vamos deixar toda esta regio chique da cidade cheirando a peixe. E isso 
vai ser um horror. Quer dizer, eu sei bem do que estou falando. Espero pelo menos que voc tenho sido seletiva, amorzinho.
- Meio que fui.
- Ah, vamos l, querida - ele me apressa, esquecendo minha conquista como se j fossem guas passadas. - Ela vai jogar agorinha mesmo. Que jeitinho de empregada 
ela tem. Daria uma bab perfeita. Mas vamos l, voc  uma moa. Prontinho.
- Mas...
- Nada de mas, querida, vamos l. Junte-se a elas.
E antes que eu possa reclamar, George, como uma me insistente em um concurso de bal, me empurra fisicamente entre a horda de garotas com vestido de Cinderela, 
todas pulando para cima e para baixo ao lado da rea do palco, onde a noiva de Basildon est parada, segurando um buqu de rosas cor de salmo, envolvidas em nuvens 
revoltas daquela coisa branca nojenta que est sempre presente nos postos de gasolina.
- Um. Dois. Trs. - A multido de Cinderelas faz coro, quando aquela coisinha de dar d  lanada aos rodopios no ar.
Todo mundo se amontoa para ser a primeira a pegar. Sou tragada pela horda. Minha mo se fecha em volta de um punhado de talos. Afastando-me das outras mos vidas, 
seguro meu prmio com cara de "no estou nem ai", enquanto duas garotas se atracam em mim como gaivotas enlouquecidas e tentam arranc-lo das minha mos.
- Eu peguei, J.
- No, eu que peguei.
- Devolva aqui.
- Larga.
- Ai.
Eu me rendo graciosamente, largando a minha ponta antes que perca um olho, e voltando at onde est George, que sorri da platia, como um Pai em dia de Jogo na Escola. 
Est sozinho, percebo. O que  estranho, j que o lugar deveria estar lotado com os colegas dele. E conheo colegas de trabalho de George. Ento, por que nenhum 
deles est com ele?
E  ento que a ficha cai, como um tijolo.
- George.
- Pois no.
- Voc no conhece nenhuma pessoa daqui, no  mesmo?
- No - confessa. - Mas este aqui  um dos maiores casamentos de socialite do ano, querida. Vai estar nas revistas de celebridades e tudo o mais. Fiz isso por voc. 
Achei que voc se sentiria melhor se visse uns banqueiros em ao. Vai ser uma boa experincia para voc.
Fico emocionada, apesar de desconfiar que a verdadeira razo por trs da preocupao de George seja que ela no tinha nada melhor para fazer do que entrar de bico 
em um casamento chique, e que no queria faz-lo sozinho.
- Obrigada mesmo. - Dou-lhe um abrao. Afinal, eu o adoro do fundo do corao. E ningum pode dizer que a vida com George seja tediosa.
Vrios minutos depois, ainda estamos nos abraando quando a coisa toda se desenrola, e eu no estou nem um pouco preparada para o que acontece a seguir. Em um minuto, 
estou aninhada nos braos de George, demorando-me s um pouquinho a mais do que o normal enquanto, sorrateira, sinto o cheiro delicioso de coco que o cabelo dele 
tem e tento suprimir a sensao esquisita que toma conta do meu estmago sempre que encosto nele. No minuto seguinte, a Noiva de Basildon aparece no sei de onde 
e vem na minha direo que nem um tanque da ONU, com um cigarro king size em uma mo e um celular Nokia prateado na outra.
- Acho que no conhecemos vocs, no  mesmo? - Ela joga a permanente cacheada demais e lana um olhar glido para George e eu. Ela parece bem ameaadora. Por um 
instante, fiquei preocupada. Mas, tonta com um monte de champanhe na cabea, depois de transar e com o desrespeito explicito de George por aquele amontoado de seda, 
assumo minha posio.
- Acho mesmo que no - digo, corajosa, tomando um gole desafiador de um copo de champanhe de uma mesa prxima. - Porque a gente no conhece voc.
- Perdo. - George sorri, tentando acalmar os nimos. - Parece que ela saiu direto de um cortio, no  mesmo? Alis, eu sou o George - ele pronuncia as palavras 
com sotaque francs, para ficar mais sofisticado - e esta aqui  a Katherine.
- Hmm. - A Noiva de Basildon no parece nada convencida. Da ela grita para o outro lado do salo. - Ei, Zac, esse pessoal aqui  seu amigo ou o qu?
Bom, eu no fao a mnima idia de quem seja Zac, mas tenho a impresso que ele deve ser grande e ameaador. Mas, por sorte, de repente vejo o banqueteiro vindo 
na minha direo, do outro lado do salo. Rpida como um raio, corro na direo dele, pego seu brao e digo:
- Rpido, finja que estou com voc. Pode dizer que sou garonete. Fui abordada.
- No d - ele assobia por entre os dentes, afastando-me com violncia e olhando para mim como se eu fosse uma desvairada.
Fico furiosa. Lvida. Como  que ele tem coragem de me rejeitar? Se algum vai rejeitar algum por aqui, que seja eu, porra.
- Tudo bem, no precisa tirar as calas - digo, esquentada. Se ele vai agir assim, vou me assegurar de que ele nunca mais vai ter trabalho neste bairro. - Quer dizer, 
se voc conseguir - digo. Ao primeiro sinal de vozes erguidas, uma multido se junta. - Ah,  - digo ao pessoal. - Este cara aqui tem a petulncia de fingir que 
no est comigo, sendo que h vinte minutos estava muito alegrinho me comendo em cima do freezer. O que  que vocs acham disso?
Em uma frao de segundo, o salo se enche de sussurros e murmrios, parece que tem um monte de larvas se agitando na superfcie. Olho para a Noiva de Basildon. 
A Noiva de Basildon olha para mim. E da ela olha para o banqueteiro.
- Zac? - pergunta, horrorizada. -  verdade?
Zac. Puxa, onde  que a gente j ouviu este nome? Parece estranhamente familiar.
Ah, caralho.
Puta que pariu.
Zac  o Rapaz de Balgravia.
E eu simplesmente fui l e transei com a porra do noivo.
- Corra! - assobio por entre os dentes para George, mas ele est preso ao cho.
- No d. Quero ver o que vai acontecer agora. Isso aqui  muito melhor do que uma novela vagabunda.
E ele logo consegue o que deseja.
- Saia daqui! - A Noiva de Basildon me pega pelo cotovelo apertando forte de verdade e se prepara para me levar para fora.
- Aaaah, ela  igualzinha  Jackie Dixon - ouo George dizer.
- Voc  uma porra de uma mentirosa. E voc vai se dar mal, sua vagabunda.
Ai meu Deus.
E da ela se volta para George.
- E voc - guincha ela. - Voc tambm entrou de bico, no  mesmo?
- Creio que sim, amorzinho - concorda George. - Mas eu no me vangloriaria disso, para falar a verdade, no estou me divertindo muito. Alis, para ser franco, essa 
coisa toda aqui me cheira mais a Asti Spumante. E os convidados esto mais para ovo com batata frita do que para gratin dauphinoise, querida, e falando da comida, 
ningum teve a decncia de me oferecer nada alm de enroladinho de salsicha mole desde que cheguei.
- Vamos l, George - assobio por entre os dentes, preparando-me para sair correndo. A noiva, apesar de todas as camadas de babados, parece louca da vida, e no tenho 
a menor duvida que, se achar necessrio, no vai pensar duas vezes antes de quebrar uma garrafa na minha cabea.
Mas nada detm George.
- Isso aqui tem mesmo tanta classe quanto o canal de vendas da TV - cospe ele. - Belgravia? ? A gente podia estar em qualquer espelunca.
 a gota d gua. A lngua ferina de George coloca o ltimo prego no meu caixo. Tiara torta na cabea, a Noiva de Basildon se joga para cima de mim em uma fria 
sibilante de seda suja cor de creme, me agarra pelo pescoo e joga uma bebida no meu casaquinho dourado, e comea a se esgoelar dizendo que, se eu no tiver dado 
o p quando ela contar at dez, ela vai quebrar a minha cara.
Eu acredito.
- Quanta elegncia - respondo toda corajosa, dando um chute na canela dela e reparando, com certa satisfao, que abri um buraco em sua meia-cala. Bom, esta aqui 
com certeza no  uma escada que vai me levar para o cu, mas por que  que o marido dela foi resolver meter um mim algumas horas depois de se casar com ela, logo 
eu, uma ruiva desgrenhada e completamente bbada da zona sul de Londres, bem no dia do casamento?
- S serve para comprovar minha tese, querida - George observa, cheio de despeito. - A gente pode tirar a vagabunda da moradia popular, mas  impossvel tirar a 
moradia popular da vagabunda. Eu tomaria cuidado se fosse voc, querido - comenta com Zac, enquanto rezo para que o cho se abra e nos engula. - No ficaria surpreso 
se a lingerie de casamento dela no tivesse calcinha.
Ento, com um "alis, seu vestido  horroroso", ele me puxa pela mo e samos tropeando, morrendo de rir, com uma gargalhada bem maldosa, noite adentro.







OITO







O primeiro jantar formal de adulto a que Janice e eu fomos foi durante o ensino mdio. Enchi o cabelo de produto para clarear os fios e coloquei culos escuros que 
escondem o rosto todo e uma saia rodada quadriculada horrorosa. Fiquei me sentindo o mximo. Janice alugara um vestido especialmente para a ocasio: um modelinho 
da dcada de 50, pretssimo, acinturado, feito de hectares de tule esvoaante e com trilhes de minsculas contas pretas como breu. A ela agarrou o gostoso da 
escola, sujou todo o vestido de esperma e me obrigou a entreg-lo na loja enquanto ela me esperava do lado de fora no Austin Maxi da minha me com o motor ligado.
Desta vez, ela tem plena certeza de que tudo ser perfeito. A garota que troca de homem igual troca de calcinha no existe mais. Jasper marca o inicio da vida adulta 
dela, e ela vai ficar mesmo muito triste se as pessoas acharem que ela  aquele tipo de mulher que fica dando chupadas em caras bonites com egos inflados.
Para ser honesta, a idia de que ela vai deixar essa vida para trs me deprime. Sinaliza que ela est assumindo responsabilidades. Vida adulta. E me lembra de que 
preciso fazer alguma coisa da minha, antes que seja tarde demais.
Claro que eu no preciso. Sempre acho outra opo. Poderia abrir um centro de bronzeamento artificial ou fazer um curso para dar aulas de aerbica. Da no ia precisar 
ficar sentada em um escritrio. Poderia me vestir permanentemente com roupas de ginstica e andar por ai de jipe. Mas, antes disso, tenho uma chance verdadeira de 
resolver se quero ou no abrir meu servio de buf: Janice organizou seu jantar e enviou os convites. Ns nos encontramos no Moon Under Water no domingo para beber 
shandy (shope misturado com soda no conta como bebida, portanto  absolutamente apropriado para a vspera de um dia til) e conversamos sobre o menu.
- Pensei em sopa de cenoura, coco e cominho para comear - ela avisa, toda mandona. - Seguida por costeleta de carneiro assada com crosta de polenta com hortel 
e legumes refogados e depois uma torta de musse de chocolate bem suculenta com mascarpone na seqncia. Peguei tudo no livro de culinria do Sugar Club. O que voc 
acha? Vai parecer que eu demorei um sculo para preparar?
No se. Mas sei que eu vou demorar um sculo para preparar. Qualquer pessoa normal ficaria contente com massa ao pesto. Ou espaguete com almndegas, pelo menos. 
Eu vou ter que dar a ela crosta de polenta com hortel.
- Ah, e tambm tem que parecer bem glamouroso - ela avisa. - Convidei mais umas outras pessoas tambm. E vou me arrumar toda, ento voc vai ter que colocar pelo 
menos um pouco de maquiagem e um vestido. No quero ficar com cara de algum que fez um esforo totalmente intil, no  mesmo? O que estou dizendo  que a minha 
inteno  que ele ache que eu sou assim o tempo todo.
O que ela quer dizer  que sua inteno  que eu no faa os outros pensarem mal dela.
- Ser que no d para eu s cozinhar? - pergunto. - E depois dar o p? Posso at fazer tudo em casa e mandar para voc de txi, naquelas marmitinhas de alumnio 
que a gente compra no supermercado.
Aparentemente, no. Janice no quer nem saber dessa idia. Afinal, sou eu quem vai fazer a comida, ela ressalta. De modo que posso muito bem me sentar l e comer, 
mesmo que eu morra engasgada com ela.
Para colocar a coisa de maneira delicada, estou puta da vida. Vai demorar horas para preparar um jantar desses. Provavelmente vou ter que comear bem cedo na sexta.
- Mas voc vai fazer as compras, no ?
- Vou, ? - ela ronca, rindo, cuspindo espuma de chope em mim. - Achei que isso ia ficar por sua conta, tendo em vista que no faz nada alm de se jogar pelo apartamento 
com o dedo no cu. Tenho um trabalho em tempo integral que preciso manter at me casar, est lembrada?
Bom, que timo, no  mesmo? Provavelmente vou perder mais do que um dos meus programas de TV preferidos para dar tempo de ir at o supermercado primeiro.
- Mas eu deixo um vinho na geladeira - concede ela. - Assim voc pode abrir quando chegar e eu me junto a voc quando terminar de limpar merda para a Bunda de Vespa. 
No que eu possa ajudar muito, acho. Esta semana vai ser a maior correria. Vou estar acabada na sexta.
- Ento fica combinado.
- E, Katie...?
- Pois no?
- Sinto muito mesmo, mas...
- O qu?
- Ser que voc dava uma arrumadinha no banheiro e passava um paninho nos mveis? Acho que no vou ficar muito tempo em casa daqui at l, e o lugar est meio um 
chiqueiro.
- Que vaca folgada! - George morre de rir quando ligo para contar que no vou poder participar da nossa sesso de fofoca no almoo no Caf Flo porque vou ter que 
planejar a coisa toda direitinho, agora que vou servir um monte de amigos de Jasper.
- Ela no PE uma vaca folgada. - digo.
- H?
- Ela  uma porra de uma vaca folgada.
- E  mesmo. Com todos os acessrios.
- Est to preocupada em mostrar para o Podre de Rico que daria uma mulher de executivo maravilhosa que nem est ai para a gente. Vai saber por que ela est to 
abalada por causa dele. Ele tem quase 70 anos, caramba. O rosto parece uma avel retorcida.
- Aaah,  - George diz, satisfeitssimo. - Tipo uma panqueca que no deu certo, todo ferrado.
- S devo dizer que ele deve ter o pau ao brao de um beb segurando um grapefruit.
- Aaah.
- Mas ele no parou de trabalhar. De modo que talvez no seja assim to antigo. Mas estou dizendo que ela nem sabe o que ele faz. At onde sabe, podia ser faxineiro 
de banheiro. Ou lixeiro. E no tem nada de executivo nisso. Mas na maneira como ela fala, at parece que ele  a porra do Richard Branson, que  dono do imprio 
Virgin ou algo assim. Est to ocupada procurando sinais de fortuna que se esqueceu totalmente de mim.
- E ela clareia o cabelo.
- Qualquer coisa poderia estar acontecendo na minha vida agora, e ela nem ia reparar. Meu namorado podia estar me espancando.
- Voc no tem namorado - George ressalta. - Ele largou voc h meses.
- Na verdade, fui eu quem largou ele. E s porque ele prefere mulheres que usam calcinhas de nilon sujas a garotas normais como eu.
- Querida, se voc  normal, eu sou o Papa.
- Mas, hipoteticamente, eu bem que podia ter um namorado, no podia?
- Acho que podia sim. Se voc desse um jeito nesse cabelo.
- E ele bem que podia estar me espancando.
- Ele podia estar usando sua cabea como alvo de dardos - diz George, todo feliz.
- E minha bunda como tbua de cortar carne.
- E apagar bitucas de cigarro nos seus braos - grita de alegria.
- Exatamente - digo. - E aquela ingrata nem ia reparar. Como amiga, estou praticamente negligenciada. Podia at prestar queixa.
- Podia mesmo.
- A boca dela vai virar para baixo quando "viagem de luxo" significar entrar em um trem lotado para passar o dia na praia, em Clacton - observo.
E isso no  tudo, penso com meus botes, cansada de tanto tirar poeira da minha coleo de recortes de receitas. O que vai acontecer daqui a dez anos, quando a 
casa dela toda cuidadinha comear a feder a gente velha? A xixi e bacalhau cozido? Acho que ela no vai ficar muito contente. E ela no vai poder redecorar, se a 
pintura no combinar com o carrinho de subir escada.
s vezes, tenho minhas dvidas se ela chegou a pensar no futuro. Para ela, a cerimnia de casamento  o futuro. E depois disso... nada! Janice est to envolvida 
na fantasia que criou que ainda no percebeu que o casamento , com toda probabilidade, muito parecido com a camisinha feminina. Amplamente superestimado. Se ela 
parar para pensar alm da lua-de-mel, vai perceber que para uma garota, que at recentemente nem se importava de conhecer o primeiro nome antes de trocar vastas 
quantidades de fluidos corporais com um cara, provavelmente vai achar bem difcil de engolir a tarefa de ter que lidar com fraldas de incontinncia to cedo na vida.


Na sexta-feira, fao questo de esperar meu programa terminar antes de ir at o supermercado em exatos cinco minutos, alegremente mastigando salgadinhos. Depois 
de comprar tudo de que preciso, dou uma passada em casa para dar comida a Graham e Shish Kebab. Graham se enrola nas minhas pernas, ronronando igual e uma motocicleta 
enquanto eu coloco um envelope de meleca com gosto de pato na tigela dele. At pouco tempo atrs, a comida deles saia de lata, como acontece em qualquer casa, mas 
essas coisas em envelopes so muito mais praticas.  o equivalente felino de uma lasanha congelada de marca genrica, mais ou menos.
Depois de observar as duas bolinhas peludas encherem a cara gorda e vida, levo todas as compras at o apartamento de Janice e destranco a porta. Quando abre, sinto 
uma lufada do cheiro dela.  esquisito. Quando dividamos um apartamento, eu nunca percebia que Janice tinha aquele cheiro de "outra pessoa". Mas, agora que sou 
visitante, no d para passar batido. E o nmero 152 da Calbourne Road cheira a uma mistura de CK One, limpa-tudo antibacteriano, spray de cabelo e tinta fresca. 
Est tudo to limpo que grita: "Caprichada e nica Dona". Enquanto minha choupana alugada no recebeu nem uma demo de tinta desde que eu estou l, Janice vive em 
clima de constante decorao. Na verdade, com relao ao apartamento, Janice  to reteno anal que nem deve precisar de um aspirador. Deve andar pelos cmodos 
chupando as migalhas com o cu, em vez disso. No ltimos seis meses, pegou a febre da decorao. Parece uma daquelas decoradoras de televiso, s que  loira e tem 
peitos muito maiores. Vive pintando isto e envernizando aquilo. Tudo precisa ser coordenado. Ela  conhecida por entrar em uma loja de mveis trazendo nas mos um 
cinzeiro de resina violeta que algum do trabalho lhe deu de presente e pedindo para ver toda a cartela de cores baseada naquela porcaria. A nica coisa que eu comprei 
para o meu apartamento  o sof molenga adorvel. E isso s porque o que eu tinha antes tinha sido regado com o esperma de Jake, quando eu o masturbei depois de 
um jantar (e foi a ltima vez, tambm), e eu no agentava olhar para a mancha sem ter ataques de nostalgia. Se no, preferiria deixar compras assim para quando 
crescesse. Ou para quando conseguisse comprar um apartamento para mim. Quando isto vai acontecer, precisamente, como sempre digo a minha me, no sei com certeza. 
Acho que quando um financiamento cair no meu colo. Sou uma Proprietria Virgem, pelo amor de Deus.
No fao a menor idia de como essa coisa toda funciona. E no me entenda mal. Eu j tento. Perguntei a George h alguns meses se ele sabia alguma coisa de financiamentos. 
Mas ele fez uma cara de completo pavor. "Financiamento?", guichou. "Que financiamento? Eu moro em Islington, voc sabe muito bem. No fao a mnima idia. A casa 
sempre foi minha."
Largo as sacolas de compras na mesa da cozinha de Janice e dou uma olhadinha rpida no apartamento. Como sempre, tudo parece bacana, calmo e elegante. Pouco depois 
de se mudar, ela teve um ataque de espao, derrubou algumas paredes e abriu buracos ovais em outras. O cho agora  um rinque de patinao de faia polida e o lugar 
parece ter pulado diretamente das pginas de uma revista feminina de decorao. Suprimo um suspiro de inveja e digo a mim mesma que ela merece morar em um lugar 
bonito, Deus abenoe suas meias 3/4. Ela trabalhou igual a uma camela para fugir da moradia popular em Wlathamstow, onde cresceu, sentada na frente de um aquecedor 
minsculo e comendo porcarias de lanche, com uma me de cala de moletom como companhia.
Ao entrar no banheiro de paredes lils, com a banheira de ao inoxidvel inteiria e cho de mosaico em tons pastel, recolho diversas roupas limpas, incapaz de conter 
um sorriso, ao imaginar minha melhor amiga experimentando todos eles para um encontro com o Podre de Rico. Consigo enxerg-la mentalmente, retorcendo-se um pouco 
na gente do espelho de corpo inteiro ao lado da porta, e ento colocando de lado cada um dos conjuntos, cada vez mais exasperada, ao ver que nada d certo. Conto 
quatro blusinhas pretas, duas brancas, uma pea bonitinha de renda cor de damasco e um vestido molenga roxo com bolinhas cor-de-rosa com um decoto nas costas. Trs 
sutis, duas calcinhas fio-dental, quatro pares de sandlias e um de sapato de salto agulha de matar jogados no cho perto do espelho. Pego toda a coisarada e enfio 
no guarda-roupa. Resgato outras peas espalhadas pelo apartamento inteiro.
Da vou at a cozinha para desempacotar as compras e preparar o jantar. Pico cenouras e cebolas, fervo um caldo cremoso de coco e despedao maos de coentro. Passo 
tudo pelo liquidificador e envolvo o pedao de cordeiro com o preo mais astronmico que pude encontrar em uma camada de hortel recm-picada. Cozinho batatas e 
as amasso grosseiramente com um garfo para que fiquem deliciosamente crocantes quando forem assadas com alecrim picado e fios de leo bem quente. Corto abobrinhas 
em fatias bem fininhas e tiro as ervilhas das vagens. Derreto chocolate de primeira em uma frigideira e bato claras de ovo at formar montanhas tipo Everest. Ao 
fazer tudo isso, uma onda de alegria se abate sobre mim e eu quase consigo me desligar totalmente da realidade. Eu sempre me sinto assim quando cozinho para os amigos. 
De certo modo, me acalma. Eu adorava cozinhar para o Jake. Toda sexta-feira  noite fazamos banquetes improvisados e depois passvamos a noite toda assistindo programas 
idiotas de competio na TV, com uma chupada ocasional no decorrer dos acontecimentos. Preparei tudo que  comida do mundo para aquele desgraado ingrato. Cozinha 
francesa, italiana. Tailandesa. Chinesa. Por azar, como se revelou, a nica coisa de que ele gostava, no final das contas, era Apimentada e Holandesa, mas at me 
consola o fato de saber que quem cozinha agora  a Fraser Calcinha de Peixe. Isso quer dizer que ovo e batata frita  o limite. E, sem duvida, de agora em diante, 
as coisas s tendem a piorar. Logo, ele vai estar vivendo de pur de cenoura e papinha de ma.
Bem-feito para ele.
Quando Janice chega em casa do trabalho, tirando o terninho enquanto entra danando na cozinha para anunciar que precisa de uma chuveirada quente e de uma boa meia 
hora para se arrumar, tudo j est quase pronto. O cordeiro j est quase da cor rosa perfeita em seu molho suculento e s falta colocar os legumes em gua fervente 
por alguns minutos quando os convidados chegarem. Com certeza, at ela consegue fazer isso. Enquanto espero que ela saia do chuveiro, coloco meu pretinho bsico 
se sempre, meias-calas pretas foscas para esconder minhas pernas que mais parecem carne enlatada e me jogo no div de camura para tomar um copo de vinho. Ela coloca 
uma mscara azul brilhante, esfolia as pernas, toma um banho de perfume e coloca uma coisinha frente nica de cota de malha prateada que comprou especialmente para 
a ocasio.
- Tchan tchan! - Ela desce a escada cheia de pompa, em uma nuvem de D&G, e d uma voltinha para eu ver. - O que voc acha? Estou maravilhosa ou o qu?
- Hmmm...
- Preciso de um suti, no  mesmo? - diz, irritada. - Preciso. Uma porra. De um suti. Eu sabia. E no tenho nenhum sem fecho atrs. - Ela est com um problema 
de hiperventilaao. - Puta que pariu. O que  que eu vou fazer? Por que por que por que eu tinha que ter esses peitos iguais a bales?
Entrego-lhe um saco de papel para ajud-la a respirar. Por sorte, sei exatamente como lidar com esta crise em particular. Os seios fartos e rolios de Janice so 
sua maldio. Ela  simplesmente bem servida demais para ficar sem suti. H anos ela deseja usar tops decotados e justinhos, mas em vo. Por mais que emagrea, 
os peitos simplesmente se recusam a diminuir. Eu sou o oposto completo. Minha barriga no  uma tbua, mas meu peito . Lisinho de tudo. E ela tem inveja. De mim! 
Que louca. J tentei ressaltar que meus peitos so to pequenos que praticamente apontam para dentro, igual a dois buracos de mijo da neve, mas ela nem quer me ouvir. 
Quer dizer, posso vestir tops minsculos e vestidos frente-nica o quanto eu quiser, e aparentemente essa  a minha vantagem.  um exemplo clssico de "a grama do 
vizinho  sempre mais verde". No passado, j quis muito ter peito. Peitos enormes, iguais a um bere de vaca que eu pudesse apertar dentro de um decote. Ou que 
se parecessem com um bundo. Igual o pessoal da era Edwardiana usava. Eu trocaria de lugar com ela, feliz, qualquer dia.
No fim, o vestido de cota de malha  totalmente descartado, devido ao fato de dois ovos cozidos em um leno no serem exatamente o look da estao. Peito, Janice 
garante, no est com nada. Em vez disso, coloca um modelo de seda cor de ametista, bem sensual, e (preciso reconhecer) ela fica estonteante quando afinal est pronta. 
Colocou um litro de alisador no cabelo, o que faz com que parea 12 centmetros mais baixa do que o normal. De repente, percebo que a minha melhor amiga na vida 
est transformada. Virou um modelo mais chique e mais sofisticado. Passou de um Escort de corrida para um Alfa Romeo Spyder em minutos. At a maquiagem est mais 
assentada. Nada mais de batam escarlate assanhado e delineador preto grosso. No lugar disso, gloss neutro nos lbios e um leve rmel nos clios. Ela quase no tem 
nada a ver com Janice. Se ela vai ficar assim quando se casar com o Podre de Rico, preferia que no se desse ao trabalho. J estou com saudades do cabelo e da maquiagem 
gritante. No gostei muito da nova Janice. Parece que estou sendo ludibriada com uma verso desbotada.
Comparada  figura elegante e seca de Janice, eu pareo ptrida. Tenho certeza de que tenho restos de batata e pedaos de hortel picada no cabelo. Minhas mos fedem 
a alho amassado. E eu j consegui desfiar a porcaria da meia-cala. Quando Janice termina de se admirar, olhando primeiro de um lado e depois do outro, logo examinado 
os dentes no espelho para ver se o batom no borrou, vira-se e olha para mim aterrorizada.
- Pelo menos passe um batonzinho - implora. - Voc est branca como uma folha de papel.
J coloquei uma camada de gloss transparente e passei um pouco de rmel quando a campainha toca e Janice abre a porta para achar Jasper andando de um lado para o 
outro na entrada, garrafa de champanhe em uma mo, enorme buqu de rosas cor de ferrugem na outra.  bvio que ela no d a mnima para ele, mas positivamente estremece 
de prazer quando v as flores carssimas. E quando ele a pega nos braos e beija sua testa. Conformo-me com uma noite em que vou me sentir invejosa e miservel. 
Por que diabos ela me faz passar por isso? Ser que ela no quer um pouco de privacidade?
- Vou colocar as flores em um vaso - tilinta, dirigindo-se para a cozinha em um rastro cintilante de roxo. Odeio a maneira como muda a voz s para falar com ele. 
Ela tambm inventou um jeito de andar de um lugar ao outro de uma maneira sedutora, em vez de andar pesado como sempre faz. Fico louca da vida, de verdade, porque 
sei que ela no  assim. Toda essa frescura no faz o menor sentido. E enquanto bate umas panelas na cozinha para fingir que est fazendo os ltimos preparativos 
para o jantar, fico sozinha com o velhote. Acanhada, meio que dou de ombros e ensaio um sorriso amarelo quando me sento, ao mesmo tempo em que confiro a roupa dele. 
Camisa azul simples, aberta no colarinho, revelando um carpete de plos. Calas de sarja azul-marinho substituram as calas cargo ridculas que usava na minha festa 
de aniversrio. Ainda assim, h uma quantidade ridcula de jias de ouro  mostra. Seria um medalho que vejo ali no meio dos arbustos?
Que pavor.
Isto aqui vai ser a porra de um pesadelo.
Jasper tira da embalagem um charuto cubano do tamanho de uma ratazana quando a campainha toca de novo. Nos 20 minutos seguintes, Janice vai e volta da cozinha  
porta da frente, conduzindo loiras produzidas para a festa e seus parceiros para a sala e entregando-lhes enormes copos de gim tnica. Mas, quando a campainha toca 
pela ltima vez, ela de repente est ocupada demais para atender.
- Deve ser o Colin - ela conta da cozinha. - Voc pode abrir a porta, Katie?
Obedientemente, viro-me em direo ao corredor, mas  Jasper quem se levanta de um pulo. Por que  que eu no me sento, como uma boa garota? Ele mesmo abre a porta. 
Ento, com as duas mos na minha cintura, comete o pecado cardinal. Pega e me coloca fisicamente de lado, como se eu no passasse de uma pea de moblia. Como se 
fosse um carrinho de supermercado na frente das tortas! Raiva fervilhante como lava me sobe ao peito enquanto ele vai se dirigindo, com o charuto do tamanho do uma 
ratazana na mo, para a porta. E, de repente, sinto a maior vontade de chut-lo para fora e bater a porta na cara dele. Por que Janice est se metendo com um machista 
idiota destes? Afinal, ela  a garota que, ao perceber uma mo estranha na bunda dela no metr no ano passado, agarrou os dedos transgressores com toda a fora e 
ergueu a mo do cara, para todo mundo ver, gritando: "De quem  essa mo que est pegando na minha bunda?", o mais alto que pde, para todo mundo ouvir. H um ano, 
ela teria preferido injetar celulite nas coxas a agentar esta bobajada, ento por que  que est fazendo vista grossa agora?
Na verdade,  uma pergunta bem idiota. Sei muito bem por que est fazendo vista grossa para isto agora. Ela j est ouvindo o tilintar da caixa registradora abarrotada 
e nada, nada mesmo, vai desvi-la de seu propsito.
Desde o segundo em que Colin entra na sala, suspeito que tenha as palavras "Par da Katie" tatuadas nas partes baixas. O que  uma vergonha gritante, para falar a 
verdade. Pode at ser que eu esteja tentada a no ter moral nenhuma para ficar com caras, mas isso tambm no quer dizer que eu queira ir para a cama com algum 
que se chama "Colin".  um nome bem idiota, de uma pessoa lerda que como flocos de milho. Parece nome de gripe. Se ele tivesse qualquer outro nome, tipo Luke ou 
Will ou at Giles (bom, para falar a verdade, talvez Giles no;  um nome tonto de garoto que freqenta escola particular), talvez eu at fosse dar alguma bola para 
ele. Apesar do meu histrico em relao a caras de terno. Mas Colin?
Parece um corretor de imveis, no  mesmo?
J mencionei que Colin no  especialmente alto? Desculpe. Estou falando bobagem. Perto de mim, Colin  um pigmeu. E tem uns 40 e tantos. O que j o transforma em 
Colin, o Passado.
Que inferno.
- Que porra voc acha que est fazendo? - assobio entre os dentes para Janice, enquanto ela tenta, sem sucesso, refogar a vagem.
- Estou preparando vagem. - E enfia um garfo na panela.
- NO - quase grito.
- O qu? Droga. Olha s o que voc fez. Parece que eu mijei nas calas.
- Por que  que voc precisava arrumar um cara para mim?
- Mas ele  legal, de verdade- insiste ela, arregalando os olhos. - Ele  um sujeito adorvel.
E todo mundo sabe o que isso quer dizer.
Quer dizer que ele  feio como o pecado.
- No fique olhando para mim com esta cara - sibilo de novo. - Voc no me engana mesmo. E eu vou ficar com ele. Ponto final.
- Que pena. - Ela d de ombros. - Ele tem uma nota preta. E vai tudo se desperdiar. Ele mora em um apartamentinho e no tem ningum para gastar com ele.
- Por que no?
- Porque  solteiro, sua tonta. E nunca se casou, de modo que no tem nem penso para pagar.  cheio da nota.
- Qual  o problema dele? - Pergunto. - Alm de uma sria desvantagem vertical?
- Nada. Ele simplesmente ainda no encontrou a mulher certa, acho.
Quanta bobagem. E ela sabe muito bem disso.
Mas Colin tem dois pontos a favor.
 homem.
E est aqui.
A presena dele no exigiu o mnimo esforo da minha parte. Ele simplesmente apareceu na porta, igual a uma entrega de pizza. Um ficante delivery. Um MacTransa. 
E como minha inteno  acumular ficadas de uma noite neste ano e (at agora) s consegui alcanar o nmero deplorvel de um e meio (considero que Max s conte por 
meio, considerando que abandonou o local bem antes de ter terminado o servio), acho que devo mandar ver por educao.
Afinal, ele se deu ao trabalho de passar loo aps barba e tudo o mais. O que  muito gentil mesmo, pensando bem. E ele  bem mais educado do que os caras com quem 
estou acostumada, do tipo que s precisa de um chope antes de partir para a ao. Ento talvez eu tambm seja educada.
Posso pelo menos tentar no enfiar o cabelo no molho e evitar soltar palavres.
O jantar  interminvel. Janice e Jasper ficam de tanta conversinha que me fazem esquecer completamente do cordeiro. Jasper se gaba do barco novo que deve comprar 
no vero. E do cinema que vai mandar instalar na casa de Winchester. E como acha que seria boa idia se Janice aprendesse a montar, porque ele vai comprar mais um 
cavalo. Que tdio. Ela no vai ter o menor problema com ele. Francamente, acho a atitude dele paternalista. No d para acreditar que Janice sorri de uma orelha 
 outra. Ela parece feliz de verdade.
O resto da festa est to distante que eu nem consigo identificar o que esto dizendo. Fico brincando com a comida no prato enquanto o pessoal  minha volta fica 
se gabando da inteligncia dos filhos.
- Colocando a Liddy em uma pr-escola francesa - exibe-se uma loira com dentes de gua. - Ela  muito, MUITO avanada para a idade.
- Ah, claro, claro - relinha uma mulher chamada Clarissa. - O Felix e a Elsie esto to crescidos que deixei os dois em casa sozinhos.
- Quantos anos eles tm? - pergunto educadamente, entediada at os ossos.
- Trs e um e meio.
- Mas isso no  ilegal?
- Ah, no se preocupe. - Ela ri. - Ligamos a bab eletrnica e deixamos o receptor com um casal simptico que mora na mesma rua.
- M-mas...
-  muito mais barato do que contratar uma bab, no , Hugh? - D tapinhas carinhosos no marido.
- A menos que a casa pegue fogo, acho - digo. - No d para ouvir fumaa, d?
Mas ningum parece dar a mnima. E Janice lana na minha direo um olhar de reprovao. Estes so os amigos pavorosos de Jasper. Eu deveria ser simptica com eles. 
Mas estou de saco cheio. E, enquanto a noite se arrasta, caio no sono pelo menos duas vezes e acordo assustada. Falo palavro trs vezes antes da sobremesa e sou 
obrigada a fazer uma visita ao banheiro logo depois da entrada s para relaxar um pouco e conseguir manter a compostura. E Jasper est me dando nos nervos. J pedi 
as contas de quantas vezes ele "relou o brao" ou deu tapinhas em bundas desde que chegou aqui. Que porco chauvinista. Se eu comeo a conversar com ele para ser 
educada, j vai colocando a mo nas minhas costas, como se eu no pudesse bater um papo sem apoio, seno posso cair. Eu sou, afinal, s uma mulher. E o rosto dele 
est com mais cara de uva-passa do que nunca. Alm disso, ele parece achar que, como eu e Janice somos mulheres, temos ouvidos to sensveis quanto acar de confeiteiro. 
Cada vez que algum homem solta um "droga" ou "cafajeste" (bem educado para os meus padres), ele pede desculpas na mesma hora, revirando os olhos na nossa direo 
e dizendo: "Perdo, senhoritas". Isso realmente me enfurece. Depois da terceira vez, no consigo me segurar.
- Quem  que voc est chamando de senhorita, porra?
Questiono, olhando-o bem nos olhos.
Ningum ri. Janice me d um chute dodo por baixo da mesa. A nica pessoa que esboa um sorriso  Colin. E, no fim, resolvo que Colin  o nico naquela sala que 
parece vagamente humano. De modo que preciso conversar com ele. E, para conseguir, bebo. E bebo. Para falar a verdade, bebo tanto que, no fim da noite, Colin est 
cada vez com menos cara de Colin e mais cara de Paul. Ou at mesmo de Steve. E s 11, quando as loiras da festa e seus parceiros j foram embora para a casa delas, 
para encontrar a bab ou o monitor de beb, o lcool j est to bem alojado que eu nem me lembro de ficar incomodada porque o assunto preferido de conversa de Colin 
so os peitos de homens gordos. Nem ligo para o fato de que, pela cara dele, seu apartamento deve se parecer com um hotel de beira de estrada. Ou que ele provavelmente 
tenha uma prensa de passar calas. Eu nem ligo mais para a remela que est danando no canto do olho esquerdo dele desde o fim da sobremesa.
E, quando chega a hora de ir para casa, convido-o a me levar para a minha.





NOVE 





- Conte de novo. - George esfrega as mos de tanta alegria.
- Conte exatamente como foi.
- O qu?
- A sua ficada com o velhinho.
Janice, George e eu estamos sentados na cozinha de Janice tomando cappuccino espumante da mquina nova azul-claro que Jasper lhe deu de presente.  a vspera do 
casamento de Poppy. Em meia hora, vamos at a estao de Paddington para pegar o trem para Bath. Tudo est organizadinho at a ltima drgea de amndoa. O bolo (uma 
extravagncia suculenta de chocolate do tamanho de uma rotatria pequena) est assado, confeitado e enfeitado com centenas de pedacinhos de gelia e violetinhas 
a pedido de Poppy. Desde o jantar de Janice, tenho trabalhado sem descanso. Tenho falado pelo telefone com Poppy a Perfeccionista e sua me todos os dias, criando 
cardpios, a decorao das mesas e coisas afins, at os mnimos, os mais minsculos detalhes. O que  maravilhoso. Fez com que eu esquecesse tudo a respeito do fiasco 
com Colin.
Ou teria feito, se Janice e George no tivessem ficado to animadinhos com todo o episdio lamentvel. Eles riram tanto que Janice quase fez xixi nas calas. E no 
importa quantas vezes eu conte a histria do que aconteceu quando levei Colin Comdia para a minha casa, eles sempre me obrigam a contar tudo de novo quando aparece 
algum que ainda no ouviu.
Mostro o dedinho para eles.
- O pau dele era minsculo - conto pela ensima vez. - E se chamava AIfred.
- Ento voc no encarou? - provoca George, todo alegre. - Deu uma desculpa e caiu fora?
Sacudo a cabea.
- Preciso contar tudo de novo mesmo?
Eles j sabem a histria de trs para frente. E que histria mais lamentvel. Fomos para a minha casa. Coloquei um CD do Massive Attack e fiz um caf. Nos beijamos. 
E fiquei surpresa e um tanto grata ao descobrir que ele beijava superbem. E era um beijo que definitivamente conduzia a algo mais. E de repente percebi que estava 
precisando mesmo, mesmo, de uma trepada. No me importava, dizia a mim mesma enquanto enfiava a mo dentro da cala dele, com coisas bobas e fteis como o fato de 
ele ser mais baixo do que eu. Ou mais velho do que eu. Eu nem ligava para o fato de os plos do peito dele serem grisalhos. S podia ver que os olhos dele eram tristes 
e solitrios. E queria fazer com que ele se sentisse melhor. De modo que no daria a mnima se a bunda dele fosse mole e flcida, igual  pele de um elefante. Achei 
que poderia alegr-lo. Tipo umas frias com um algo a mais.
Ah, foda-se. Para ser bem honesta, o que importava ... o que realmente, realmente importava naquele momento embaado e completamente bbado, era que ele tivesse 
um adorvel e grande ...
Ah, pelo amor de Deus.
A palavra que me veio  mente quando toquei no pauzinho de Colin foi "bolota".
- Apresento-lhe Alfred. - Ele sorriu, enquanto eu engolia em seco, horrorizada. Porque, pode dizer o que quiser, mas tamanho  documento, no ?
Claro que .
E fiquei preocupada. O coitado do Alfred no ia nem conseguir encostar nas laterais. Ia ser a mesma coisa que passar com um carrinho de mo pelo meio da Holloway 
Road. Ou acenar uma salsichinha no meio do tnel do canal da Mancha. Transar com Colin, percebi enquanto deixava que ele soltasse meu suti, ia ser bem parecido 
com uma visita ao dentista. Ele podia muito bem me fazer deitar e dizer: "No se preocupe, voc no vai sentir nada." Caramba, ser que ia dar para cont-lo como 
uma ficada de verdade? Ser que dava para fazer mais uma marquinha na cabeceira da cama? Ou ser que eu continuaria sendo Katie Oito Ficadas e Meia Simpson?
Oito e meia! No  muito, no  mesmo?
Ento, quando Colin sacou uma camisinha do bolso e anunciou: "Acho que o Alfred precisa de um chapu", me preparei para a maior das trepadas por caridade do mundo.
Nem teria ligado, mas ele parecia muito disposto a dormir l. E voc acha que teria a decncia de sair sorrateiro no meio da noite, enquanto eu dormia, como um cafajeste 
ordinrio? Pouco provvel! Ah, no, Colin estava bem do meu lado quando acordei. E Alfred j estava todo animadinho para dar mais uminha. Por sorte, enquanto eu 
me preparava para mais uma invaso da minilingia, o telefone estrilou. Era Poppy, completamente em pnico. Ela e a me quase tinham se estapeado durante a discusso 
se eu devia ou no enrolar bacon nas vagens. Elas precisavam mesmo da minha opinio. De modo que consegui pedir licena e sair fora.
Poderia ter abraado Poppy de tanta alegria. Nunca fiquei to feliz de receber um telefonema de uma amiga por obrigao na vida.
Agora, sentada na mesa da cozinha de Janice, rangendo os dentes enquanto os dois se matam de rir com a minha histria lamentvel mais uma vez, confiro a lista mentalmente. 
No consigo deixar de me preocupar, apesar de j ter repassado a lista do cardpio do caf da manh do casamento uma dzia de vezes. Tudo est prontinho. Postas 
rosadas de salmo e ostras brilham com a gua do mar, arranjados em caixotes, que chegaram fresquinhas de Dublin hoje mesmo. Sam, Deus abenoe suas meias de surfista, 
acondicionou tudo direitinho na van refrigerada do pai, e vai levar para l mais tarde. Mas o fato de que tudo parece estar sob controle no impede que eu tenha 
ataques de diarria nervosa a cada cinco minutos.
Preciso de algo que me faa pensar em outra coisa.
- Ei, Janice, cad seu vestido de madrinha? - Tiro um pouco de espuma de cappuccino que se alojou na ponta do meu nariz e olho em volta da cozinha. Janice fica de 
mau humor cada vez que o tal vestido vem  tona. O que  esquisito. Normalmente, ela adora se vestir bem e ser o centro das atenes. Por que  que ela no est 
louca para me mostrar o figurino?
- L em cima.
- Bom, ento vamos l. O que  que voc est esperando? - Pouso a xcara e me levanto. - Pode ir mostrando.
Sem proferir nenhuma palavra, Janice nos conduz ao andar de cima, at o quarto dela. Na verdade, est um pouco puta comigo. Fico achando que  porque tenho evitado 
os telefonemas ps-coito de Colin, privando-a dos agradveis encontros a quatro que poderamos ter compartilhado. Mas a idia de que da acha mesmo que eu vou sair 
com um cara que tem um feijo cozido no lugar do pau s porque ela quer  to chocante que eu nem me dou ao trabalho de me defender. Simplesmente no h nada a dizer.
No instante em que entro no quarto dela, fica claro para qualquer idiota que o motivo da cara de merda dela no envolve apenas a minha incapacidade de apreciar Colin 
pelo que "ele tem de melhor". O vestido de madrinha de Janice est pendurado atrs da porta, enrolado, como um presente de aniversrio, em vrias camadas de papel 
de seda cor-de-rosa e plstico protetor.
- Olhem - diz, arrasada.
- Ahhh - George e eu no conseguimos deixar de exclamar.
- Exatamente. - Janice parece furiosa. -  mais ou menos to sofisticado quanto um frasco de espumante de pra com rolha de champanhe.
Quando ela tira as camadas de papel de seda, vejo o que quer dizer. Posso fazer barulhos do tipo "A cor  tima, tenho certeza de que voc vai poder usar em outras 
ocasies" at o fim do dia, mas no d para disfarar o fato de que, seja l como a gente prefira encarar a questo, Janice vai ficar com cara de adolescente sem 
noo, em uma festa de formatura, por volta de 1985.
- No posso usar isto - balbucia. - Vou ficar podre com ele.
Detesto ter que dizer isto, mas podre no  a palavra mais adequada. O vestido de madrinha, enorme, de veludo molenga, em um vermelho profundamente carmim, destoa 
completamente da decorao c1ean, dos lenis de linho engomados e dos tons creme, de terra e de verde-musgo do quarto de Janice: como uma rvore de Natal enfeitada 
em um templo de testemunhas de Jeov. As mangas so bufantes, a saia rodada tem a circunferncia de uma roda gigante e bem em cima da bunda tem um lao que mais 
parece uma hlice de helicptero. Na verdade, o conjunto  to gigantesco que duvido que ela consiga vestir a coisa amanh. Acho que ela precisar pilotar o modelo. 
S que no h tempo suficiente para ela tirar o brev de vo.
Bom, se pelo menos ela ainda estivesse saindo com caras tipo caminhoneiro, ela podia ter pedido emprestada uma placa de Largura Extra. Agora vai ter que ficar torcendo 
para que o corredor entre os bancos da igreja seja bem largo.
- Que diabos eu vou fazer? - Ela cospe. - Quando Jasper me vir assim, ele vai sair correndo. E da no vai ter nada de casamento. Para mim, pelo menos. 
O lbio inferior dela treme enquanto v sua futura manso de sonhos se desmanchar e ir ao cho, nada mais do que um monte de migalhas.
Ns trs engolimos em seco, frente  monstruosidade carmim, em silncio estupefato.
Naturalmente, George  o primeiro a encontrar a lngua.
- Pelo amor de Deus - ejacula. - Ela no vai se arriscar nem um pouco no,  mesmo? Quer mesmo que voc fique mais feia do que o co. Quanto  que as pessoas ganham 
para dar uma de madrinha? Seja quanto for, no vale a pena.
- George - digo em tom ameaador. 
Janice est prestes a dar um ataque daqueles. Seu rosto esta revolto. A qualquer minuto, ela vai se jogar em cima da cama, ao estilo Scarlet O'Hara, e vai comear 
a bater os calcanhares e a urrar. 
- Por que voc no experimenta? - tento acalm-la - Talvez possamos dar um pontinho aqui e outro alt. Dar uma aparadinha no lao. 
- No vai adiantar nada - comenta George com a sutileza de um hipoptamo. - Voc pode fazer o que quiser, mas ela vai continuar com cara de merengue. Pelo amor de 
Deus, a Kate Moss ia ficar com cara de personagem de videogame com essa produo. J a Janice vai conseguir um bico no remake do Titanic.
- Ah, no sei - contemporizo, calma. - Acho que est mais para 1982 do que para 1912. 
- Estou falando de um papel sem fala. - George no consegue evitar dar uma piscadela para mim. - Ela pode ficar no lugar da porra do navio.
- Fale srio - digo logo, antes que uma veia de Janice exploda. -  prerrogativa da noiva fazer com que as madrinhas paream o mais horrorosas possvel. A Poppy 
no ia querer que voc brilhasse mais do que ela no dia do casamento dela, no  mesmo? No seria justo.
- Querida, com aquele vestido, ela no conseguiria brilhar mais do que um porco gorducho - George interrompe.
- Obrigada pela sua observao, George. - Digo. _ Vamos l, querida. D uma chance. No pode ser assim to ruim, pode? Na verdade - seguro o flego, ser que ela 
vai ter que pagar por ele ou no? -, acho que a cor cai muito bem em voc. E no  fisicamente possvel que voc fique to feia assim. No com o seu cabelo. E a 
sua silhueta linda.
Janice parece um pouco mais animada.
- Meus peitos so melhores do que os dela, no so?
- Exatamente. E ningum pode tir-los de voc. Experimente, por favor - imploro.
- Vocs no vo rir?
- No vamos - digo firmemente. - Agente promete. No  mesmo, George?
-  - ele diz com uma vozinha que na verdade significa que ele est fazendo muita fora para no explodir em gargalhadas agora mesmo.
Janice entra alegremente dentro da criao extravagante e deixa que eu feche o zper.
- Certo - digo, bajulando-a com a minha vozinha de apresentadora de programa infantil. - D uma voltinha para a gente ver.
Ela obedece, pela primeira vez.
- AimeuDeus - guincha George. - Voc est parecendo um daqueles portas-papel-higinico.
Depois de George desferir seu golpe final, faz-se necessrio muito papo e convencimento para conseguir fazer com que Janice saia da cama. No fim, perdemos nosso 
trem de Paddington e precisamos esperar mais uma hora pelo prximo. Janice fica sentada, cabisbaixa, no banco na frente do Burguer King, lendo a revista Noivas para 
se preparar para seu grande dia imaginrio, colocando o dedo, de vez em quando, sobre imagens alternadas de modelitos lindos, descolados, sedutores e sofisticados, 
dizendo, cheia de amargura: "Ela bem que podia ter deixado eu usar isto aqui. Eu ia ficar linda." Enquanto ela faz isso, George fica reclamando dos problemas do 
transporte pblico. Eu me sinto um pouco como se fosse uma me exausta arrastando dois adolescentes ingratos para uma viagem. Pela maneira como me sinto, podia at 
fazer o papel de uma me de novela. E tambm estou um tantinho emputecida com a coisa toda. Afinal, sou eu quem precisa de conforto. Estou nervosa. Estamos falando 
da minha futura carreira. Minha reputao depende do que acontecer amanh.
- Meu maior medo, querida, trens - George diz com a voz apagada, olhando cheio de medo para os letreiros das partidas.
- Cheios de famlias alegres comendo sanduches de ovo que as fazem peidar e gente gritona de bon e bermuda.
- Voc no pode fumar aqui - uma mulher na nossa frente, comendo um Quarteiro com Queijo, avisa, quando George acende para si um cigarro cor de violeta, cruza as 
pernas e solta a fumaa ostensivamente.
George a encara.
- Eu no tenho nada contra voc ficar a comendo junk food com esse casaco roxo horroroso, no  mesmo? - questiona. - No. E por acaso estou usando uma camiseta 
"Nunca faa permanente em casa"? Acho que no. Ento acho que voc no vai se incomodar se eu fumar. Eu fumo onde bem entender, muito obrigado. E certamente no 
vou obedecer a ordens de gente como voc.
- Desculpe-me - apresso-me em pedir desculpas. - Ele sofre de esquizofrenia profunda. Estamos levando-o de volta para o hospital agora. Alis, voc por acaso sabe 
de que plataforma sai o trem para Bath?
- Plataforma trs - a Casaco Roxo informa friamente tirando os picles do Quarteiro com queijo e jogando no cho.
- Por que  que voc foi perguntar para ela? - d para ouvir George reclamando enquanto nos dirigimos para o nosso trem.
- Provavelmente nunca foi mais longe do que Morden na vida. Ento, voc vai carregar a minha frasqueira ou no?
- No - respondo, caminhando a passos firmes pela plataforma. J tive minha cota do mau humor de Janice e dos ataques de George. Este  o meu grande dia. Eu preciso 
transformar este casamento em um sucesso ou vou ter que voltar para o ambiente das meias-calas e das bolsinhas em um piscar de olhos.
s vezes os amigos podem ser uns cafajestes egostas.
A medida que o trem se afasta da estao, engatamos uma conversa do tipo "Os casamentos que eu vi", em parte porque nenhum de ns lembrou de trazer alguma coisa 
para ler (com exceo da pornografia nupcial de Janice), e em parte para impedir que o lbio inferior de Janice ficasse tremendo sempre que sua ateno se voltasse 
para o monstro cor de carmim enfiado no porta-malas, fora de vista - e tambm porque estou definitivamente com os nervos  flor da pele s de pensar no que terei 
de fazer amanh.
- Espero que no tenha aquela histria de pagar as bebidas - estrila George. - E to vulgar ...
- Duvido muito - arrisca Janice, animando-se um pouco com a perspectiva de falar mal dos outros. - O pai da Poppy adora dar show. Lembra quando ele costumava ir 
at a faculdade para visitar a Poppy, Katie?
- Meu Deus, lembro sim. - Dou risada, tentando no espalhar caf por todo lado enquanto o trem sacoleja em direo a Reading. - Devia ser membro dos Homens que Almoam 
Annimos. Sempre nos levava todas a restaurantes maravilhosos, bem chiques.
- Era meio idiota, no era, falando srio? - pergunta ela de repente. - A gente nem gostava muito dela, e ela sempre nos convidava.
- h-h. De certo modo,  bem triste.
- Voc se lembra do casamento daquela Sarah-Jane, em Leeds? - Janice pergunta. - Que era um jantar mas no colocaram garrafas de vinho nas mesas? S encheram os 
nossos copos umas duas vezes. Estvamos loucas para beber alguma coisa, mas no tnhamos levado dinheiro, ento precisvamos ficar roubando a bebida dos outros.
- h-h - eu me lembro. - Alis, nem sei por que ficamos remotamente surpresas. A Sarah-Jane era a maior mo-de-vaca na faculdade. Ela uma vez chorou de verdade 
porque derrubei um drinque dela que tinha custado urna libra e vinte centavos. Lembra?
- A gente achava que ela tinha nascido com urna moeda de 50 centavos presa na bunda.
- Provavelmente ainda est l.
_ E ficamos putas da vida por causa de todo o dinheiro que tnhamos gastado para ir ao casamento.
- Com o que gastamos para ir l e ficar em um quarto de hotel, dava para ter reformado o banheiro.
-  isso mesmo. E a a gente levou o presente de volta. Lembra? Pegamos da mesa da entrada quando fomos embora e levamos direto para a loja e pedimos reembolso. 
E gastamos o dinheiro comendo biryanis de legume e uns keema naans no Punjab Paradise. Passe uma toalhinha, George. Derramei caf nos meus peitos.
- Guardanapo. - Ele estremece. - Guardanapo. Mas no ia adiantar muito voc reformar seu banheiro, no , Katie? J que o seu apartamento  alugado.
Prefiro ignor-lo. De repente, Janice est muito mais animada.
E eu no quero que uma briga minha com George estrague tudo.
- Voc bebeu um monte de Bacardi Breezers e deu uma chupada no padrinho por debaixo da mesa dos noivos relembro a Janice. - Da vomitou um monte e apagou e precisamos 
lev-la de volta ao hotel com um monte de pedacinhos de vmito de vinho tinto grudados no cabelo.
- S.- Janice ri. - Meu Deus, no me deixe fazer isso desta vez. O Jasper teria um baita ataque. Ele odeia mulheres que se embebedam. Acha que no  feminino.
-  a cara dele.
- Desculpe?
- Nada.
- Ah - joga o cabelo para trs. - Eu sei que ele  um coitado de um velhote. E eu provavelmente vou ter que dar o cu para ele antes de colocar a mo na grana. Mas 
isso no  nada para vocs.
George e eu trocamos olhares arregalados e mudamos de assunto antes que fssemos obrigados a dizer a ela que Jasper  um bundo total. Nem eu nem George teramos 
vontade de passar um milissegundo com ele, nem por todo o dinheiro do mundo. Mas como Janice  minha melhor amiga e eu a amo do fundo do corao, sinto necessidade 
de proteg-la de minhas opinies corrosivas para no mago-la.
- No se esquea de que eu reservei um hotel para voc amanh  noite - digo a George. - Hoje voc vai ficar comigo na casa dos pais da Poppy para me ajudar a arrumar 
tudo.
- Espero que seja um hotel bem caro, no ? - pergunta George. - No vou ficar em uma pousadinha mida que fede a xixi de gato e repolho de velho e ser obrigado 
a comer cereal com fibras de manh para que meu intestino funcione bem. Quer dizer, agora samos mesmo de Londres, no se esquea disso. Na provncia as regras so 
outras, voc sabe muito bem. "Cardpio Sofisticado" significa "l em casa, mas com uma espcie de chef mirim". Vamos ter que comer em lugares onde gastamos o maior 
tempo caando pentelhos no meio da comida. 
- Isso no vai acontecer.
- E todas as garonetes usam anis de braso e avental cor-de-rosa listrado para combinar com o eczema.
_ Voc  to esnobe - acuso.
_ No sou nada. - Ele parece completamente injuriado com tal idia. - Uma vez, fui para a cama com um cara de Sheffield. E tambm j fui a Leeds. Agora tem lojas 
de departamentos chiques l, sabia?
_ Que bom para eles.
_ E na semana passada mesmo conversei um tempo no telefone com uma pessoa do Pas de Gales.
- Que bom para voc.
- Bom, digo conversa no sentido mais amplo da palavra, claro _ ressalta. - Na verdade, s eu conseguia formular frases inteiras. Sabe que quando eu peguei o telefone, 
achei que a mulher estava falando outra lngua? S Deus sabe o que os telespectadores vo achar. Ainda assim, era uma escolha entre ela e uma mulher de peito cado 
de Solihull no final, ento ...
- Ento?
- Solihull. - George olha para mim como se eu fosse uma espcie de dbil mental. - Solihull nas West Midlands? Tipo "bem pertinho de Birmingham"? No d para colocar 
gente desse lugar no programa a torto e a direito, querida. O sotaque embrulha o estmago da gente.
O trem chacoalha por Didcot e atravessa Chippenham e, entediadas, Janice e eu abrimos a cesta refinada da Fortnum que compramos para o casal feliz como presente 
de casamento e atacamos uma caixa de macadmias cobertas de chocolate.
- Eles provavelmente s vo abrir os presentes quando voltarem da lua-de-mel- Janice calcula.
- Exatamente. - Enfio mais uma na boca. - E no podemos arriscar que a cesta seja largada perto de um aquecedor ou algo assim para derreter tudo, no  mesmo?
Afinal, a torre slida da Abadia de Bath aparece na paisagem. Apressada, enrolo o celofane dourado brilhante em volta do que sobrou do presente de Poppy e Seb e 
amarro tudo de novo com as fitas branca e dourada.
- Voc acha que eles vo reparar?
- Provavelmente no vo dar a mnima.
Um sol aguado aquece os amontoados brilhantes de construes cor de creme nas colinas que nos rodeiam quando o trem entra na estao. Bath est absolutamente adorvel 
sob o sol de abril. Pulamos para dentro de um txi e admiramos a paisagem, fascinados, enquanto o carro serpenteia por ruazinhas estreitas de paraleleppedos lotadas 
de turistas. H estrangeiros por toda parte. Japoneses fashion com cmeras penduradas no pescoo, como se fossem mscaras de gs. Americanos gordos com tnis brancos 
reluzentes e roupas esportivas cor de limo. E filas de crianas francesas tagarelas com mochilas azuis e brancas idnticas nas costas.
Os pais de Poppy moram logo no limite da cidade, em uma casa enorme, bem ao estilo de Bath. Quando chegamos, um certo tipo de festividade j est rolando a toda. 
A me de Poppy, uma mulher minscula e elegante com um tailleur creme imaculado oferece um copo de vinho temperado quando cruzamos a porta e nos cumprimenta como 
se fssemos velhos bons amigos.
- Que maravilha. - Ela irradia. - A banqueteira e a madrinha. Bom, no vamos precisar nos preocupar se vocs vo ou no chegar na hora amanh, no  mesmo? Imagino 
que estejam loucos para desfazer as malas.
"No precisa", eu e George dizemos exatamente ao mesmo tempo, ao passo que Janice manda: "Aaah, por favor."
A me de Poppy sobe a escadaria e nos conduz ao quarto. Janice e Jasper ganharam um quarto de frente; George e eu ganhamos um para cada um nos fundos dos quais, 
ela nos garante, ser possvel enxergar o canal serpenteando pelo vale quando acordarmos amanh. Ento todos ns descemos para comer, beber e ser felizes.
- Vocs mandaram fazer uma cobertura? - pergunta George enquanto descemos os degraus, eu tentando, sem muito sucesso, no derramar o vinho em cima do tapete macio 
e imaculadamente amarelo.
- No. - A me de Poppy sacode a cabea. - O celeiro tem lugar de sobra. Achamos melhor fazer toda a decorao l. Tudo bem para voc, Katie?
- Hmm. - Vi que no tinha outra escolha.
A casa est abarrotada com os parentes de Poppy, todos bebendo e rindo e dando tapinhas nas costas uns dos outros. E enquanto Poppy corre de um lado para o outro, 
decorando o lugar com raminhos de visco e de hera e de modo geral dando ataques de pnico em relao a cada coisinha, George, Janice e eu aproveitamos o champanhe 
grtis pr-casamento, entornando cada gota que colocam no nosso copo, o tempo todo, cheios de alegria.
- Ento voc  que  a banqueteira? - pergunta uma nadinha que mais parece um graveto alto, de vestido prateado. Ela passou purpurina branca em volta dos olhos, 
o que lhe confere uma aparncia sobrenatural, angelical. Reparo que ela no pra de olhar por cima do meu ombro, para ver se tem alguma paquera em potencial.
- Sou. - J a detesto  primeira vista. - E tambm sou uma pessoa.
- Perdo?
- Esquea.
- Ah. - Ela parece momentaneamente confusa, ento d um tapinha no brao de um garom de passagem e pisca os olhos cobertos de purpurina para ele, furiosamente.
- Acho que talvez voc gostaria de me trazer um canapezinho, ser? - pede a ele.
- Pois no, senhorita.
- Muito obrigada. - Ela sorri. Batendo as pestanas de novo. -  que, neste momento, estou com uma certa fixao oral. Estou mesmo com necessidade de colocar alguma 
coisa na boca.
- O que voc acha do meu punho? - Janice, ao escut-la, cochicha no meu ouvido. - Est a fim?
Mas ela no escuta. Em vez disso, estende uma mo frgil na direo da minha, sorri com os dentes, no com os olhos, e diz:
- Prazer em conhec-la. Eu sou a Shana.
- S podia ser - Janice diz baixinho.
Quando Shana se vira para falar com outra pessoa, Janice solta a respirao.
- Caralho. Essa a  a maior devoradora de homens que eu j vi.  melhor que ela no venha esticar as garras para o lado do Jasper.
- No se preocupe - afirmo. - Ela no tem a mnima chance. Para comear, no tem peito. Merda, ela est voltando.
- Estes aqui esto bem bons. - E aponta para os salgadinhos cor-de-rosa claro que so meus preferidos.
- Obrigada - digo, toda contente, apesar de tudo. - So tipo quebra-cabea.
- Achei mesmo que eram. - E empina o narizinho lindo. - Meio ultrapassados, no  mesmo?
- Vaca - balbucia Janice.
Tento ser superior aos comentrios maldosos e digo, em vez disso:
- Ento, o que  que voc est fazendo aqui?  amiga da Poppy?
- Prima. - E joga o cabelo para trs. - Mais ou menos. A me dela  prima do meu pai.  o meu pai que est ali. Conversando com a outra irm dela.
- Qual delas? - pergunto educadamente.
- A gorda - revela, friamente, acendendo um cigarro e apontando na direo de uma mulher cheinha que usa um modelinho bem da moda em lils. - Ali.
_ Ah. - Fico surpresa com a franqueza dela.
_ . Nunca se casou, essa a. Bom, mas d para ver por qu, no d?
_ Acho que ela  bonita - digo, ofendida em nome da mulher. - O rosto dela  lindo.
- Nunca vai a lugar nenhum sem aquele cachorrinho, coitada - a moa diz, sem nenhuma gentileza. - Aaah, olhe s. _ De repente, ela explode em ataques de risadinha 
estridente que parecem um monte de sininhos de prata tocando. No consigo evitar o pensamento de que ela tem uma risada muito bonita para algum to abertamente 
deplorvel.
- O qu? -  impossvel eu no virar a cabea para olhar.
- Olhe s para aquilo! - Ela continua apontando para a mulher cheia. - A saia horrorosa dela est toda melecada. Ela est coberta de baba de cachorro, olhe s. E 
ela nem percebeu.
- Algum deveria dizer para ela - afirmo, chocada com o ataque.
- Perdo. - Ela me pega olhando para ela de boca aberta e checa se h algo de errado. - No sei se estou rindo tanto da baba do cachorro ou se  porque, para comear, 
ela teve coragem de colocar essa roupa pavorosa.
Afinal consigo me livrar de Shana e pego mais uma bebida. Ou trs. Quando chegam onze e meia, percebo que estou completamente lesada. Hora de ir para a cama. Tenho 
muito a fazer amanh e realmente no quero transformar a coisa toda em um enorme fiasco. Sigo o trajeto at o quarto e desabo na cama, sem escovar os dentes.
J devo estar dormindo h uns 40 minutos quando acordo com algum entrando na cama ao meu lado.
- Que porra ...?
- Chiu - fez uma voz conhecida. No escuro, no consigo ver o rosto direito.
- Sam?
- Pois no?
-  voc?
- Bom, claro que sou eu. - Ele ri. - Quem mais poderia ser?
- O Johnny Depp?
- Bem que voc queria, Simpson - diz ele e posso ver pela voz que est sorrindo.
- Caramba, Sam, voc quase me matou de susto. Que diabos voc esta fazendo aqui? E tira a mo da minha bunda.
- Desculpa. - Ele se afasta. - No tinha percebido.
- Ento?
- Ento o qu?
- Por que voc est aqui? Voc s devia chegar amanh.
- A porra da van quebrou.
- O qu?
- No van em si. A parte da refrigerao. E eu no queria que a comida estragasse. Ento resolvi vir para c  noite. Fiquei la fora com o pai da Poppy colocando 
gelo nos caixotes.
- Ah, Sam.
- O qu?
- Voc  um amor. Muito obrigada.
- No sou um amor. Sou um macho bruto, de sangue quente, muito obrigado. E estou s ordens.
Curvo o corpo para dar um beijo na cabea do meu amigo. Mas como esta muito escuro, o beijo acerta a boca dele.
- Desculpe.
- Sem problema.
Mas ele est sorrindo de novo. Sei pela voz dele.
- Voc est rindo de mim.
- No mais do que o normal.
- Ah, bom.
- Mas vou dizer, voc  bem engraada.
- Valeu.
Bato na cabea dele com o travesseiro. E agora que ele me acordou, no consigo mais dormir. Estou nervosa demais por causa de amanh.
- Acho que voc vai ter que dormir aqui - balbucio. - E bem quando eu j estava achando que ia ficar com esta camona deliciosa s para mim.
- Acho que vou mesmo - confirma ele. - Desculpe.
Matamos tempo conversando sobre os tempos de escola.
- Lembra aquele casaco de feltro horroroso com mangas de couro branco que voc sempre usava? - tiro um sarro.
- Meu casaco de beisebol? - pergunta ele. - Eu adorava aquele negcio.
- Era pavoroso.
- No era to horrvel quanto aquela sainha amarelo-cido que voc usou na boate da escola.
-  verdade. - dou risada. - Voc ficou tirando sarro da minha cara durante semanas.
- No, no fiquei.
- Ficou sim.
- No fiquei, no. - Ele parece magoado. - Foi o Mike McDonald. Eu a defendi, sabia? Disse que no tinha sido sua culpa. Que voc tinha problemas de estilo.
- Ho ho.
- E ainda disse que as suas pernas no tinham nada a ver com patas de galinha.
- Haha.
- Estou brincando. Para falar a verdade, sempre achei que as suas pernas eram bem bacanas.
- Paquerador.
Mas apesar de tudo, de repente sinto uma vontade incontrolvel de beij-lo. Com certeza est perto o bastante para isso. Mas ele  o Sam. E isso seria muita estupidez. 
 s porque estou
nervosa. E ele  familiar demais.
- Lembra quando voc furou a parte de cima da orelha? - digo apressada, como que para esquecer o fato de que ele est ali deitado, to pertinho. - Minha me disse 
que voc era
pior do que uma praga.
- E quando o seu pai pegou a gente fumando no barraco ...
Agora ele est ainda mais perto.
- Voc se lembra de quando eu quebrei seu disco do Culture Club na sua cabea porque voc contou para todo mundo que tinha lido meu dirio?
- Hmmm. Provavelmente foi mesmo o melhor lugar para ele. Alis, eu no li. - E me d um beliscozinho afetuoso na bochecha.
- Eu sei. - Tiro uma mecha de cabelo que caiu sobre o rosto dele. - Se tivesse lido, voc no estaria falando comigo agora. Voc precisava ver as coisas que eu escrevia 
sobre voc.
- Ah ? - Ele ri.
- . - Eu sorrio.
E, de repente, estamos to prximos que nosso rosto quase encosta. Por um nanossegundo maluco, fico achando que ele vai me beijar.
Ento, lembro.
Este  o Sam. Meu melhor amigo. No um qualquer para fazer uma marquinha na cabeceira da cama.
E eu no escovei os dentes. D s uma olhada em mim. Que diabos estou fazendo? Devo estar fedendo a lcool.
Afasto-me de um pulo.
- Isso a - digo.
-  - diz Sam, ao mesmo tempo.
Ento olhamos um para o outro.
- Vamos dormir.






DEZ





Acordo na manh seguinte com marreta martelando nas minhas tmporas, por causa do champanhe de ontem  noite. O lado da cama de Sam est vazio. Grunhindo, arrasto-me 
escada abaixo; George, usando apenas uma cuequinha justa e um par de chinelos cor-de-rosa felpudos, est parado na cozinha, colocando acar em uma enorme xcara 
de caf.
- Tudo certo?
- De ressaca. - Ele joga a cabea para trs e aponta para os olhos, mostrando como esto vermelhos. - Meu bafo  um fedor s. Ainda assim,  melhor mostrar boa vontade, 
acho,
querida. Pronto, aqui est. - E coloca uma taa de champs na minha mo.
- Meu Deus. J?
- Beber para curar a ressaca. Beber para curar a porra da ressaca. AimeuDeus. - De repente ele se levanta e olha atravs da janela. - OLHE.
- O qu?
- Ele chegou. Meu queridinho chegou, porra.
E com isso, sai correndo pelo jardim da frente de cueca, dando o maior show na frente da me e do pai de Poppy, alm de outros convidados reunidos, e d um enorme 
abrao de boas vindas em um David levemente atordoado. E, de certo modo, para minha surpresa, isso faz com que eu me sinta um pouco esquisita. Um pouco como eu costumava 
me sentir quando Jake e eu amos ver algum filme meloso e quando chegava ao fim eu de repente percebia que estava soluando e com os olhos molhados. E no por estar 
triste ou particularmente feliz nem nada, mas porque eu conhecia Jake e ns simplesmente no ramos daquele jeito, nem nunca seramos.
Bom, como agora ns com certeza no vamos ser mesmo, no adianta nada ficar pensando no assunto. Mas, enquanto vejo David e George se abraando e rodopiando no jardim, 
de repente percebo ...
- Ele o ama - digo em voz alta para mim mesma. - George o ama de verdade. - Isso  indito. At agora, a nica pessoa que George j amou foi ele mesmo. E no consigo 
evitar sentir um pouquinho de cime. Sei que  infantil mas significa que vou receber muito menos ateno de George a partir de agora. Claro que finjo no me importar, 
tirando o maior sarro da cara deles ao anunciar como  nojento eles estarem apaixonados de um jeito to brega.
Janice acorda tarde. A cara dela parece uma bunda amassada de novo. Acho que  de pensar que vai ter que usar aquele vestido horroroso.
- Jasper ainda no chegou? - pergunto a ela.
- No. - Ela sacode a cabea. - Ele vem para a cerimnia religiosa. Teve que trabalhar hoje de manh, o velho enrolo.
- Seu pai, querida? - a me de Poppy lhe entrega uma xcara de ch English Breakfast.
- Namorado - Janice a corrige.
- Mesma idade - arremeda George.
- J que voc diz. - Janice lana-lhe um olhar. - Eu no tenho como saber.
- Voc disse que ele tinha sessenta e tantos.
- Ela estava falando do pai, idiota - digo, brava. - No do Jasper.
H um certo tumulto na porta quando o cachorrinho babo da noite passada e um grande golden retriever latem para algum que est chegando.  Sam, claro. No minuto 
que o vejo, meu estmago d cambalhotas com a lembrana de nossa proximidade
na noite passada. Ele fez com que eu me sentisse segura. Mas da reparo que, atrs dele, vem aquela criatura Shana horrorosa da noite passada.
O bom e velho Sam. Nunca vai mudar.
_ Fomos dar uma caminhada - anuncia a Shana de cara limpa para o pessoal reunido, sorrindo para Sam como se fossem os melhores amigos a vida toda.
_ Por que  que ela no pra de fazer bico? - David solta e eu rio, contente. Agora me lembrei por que gostei tanto dele em primeiro lugar. A capacidade dele de 
ser fofo e cortante ao mesmo tempo realmente  um charme. E, de repente, o fato de que eu fui totalmente incapaz de ficar com ele j no importa nem mais um pouco. 
Ele  to legal que eu finalmente consigo esquecer toda a humilhao por que passei.
Corro de um lado para o outro a manh toda, assegurandome que a preparao da comida est mesmo encaminhada. Sam e David insistem para que eu v  cerimnia religiosa, 
que  o que Poppy quer. Eles cuidam de tudo at eu voltar. George diz
que vai  igreja comigo. Explica que adora um bom casamento. Em particular, chego  concluso de que ele quer mesmo  escapar do servio, mas j ajudou tanto, do 
jeito dele, que no posso proibi-Ia de ir. Em vez disso, mordo o lbio e no digo nada enquanto ele arranja a tiara incrustada da av sobre o corte de cabelo mquina 
dois em um ngulo criativo, arruma a gravata rosa cor de camaro e enfia uma grbera na lapela. Ento tiro a meia-cala que entrou na bunda, nos damos os braos 
e passamos na frente do bar ao lado do canal, onde os convidados esto tomando um chope pr-nupcial, e percorremos o caminho at a igreja do vilarejo.
Poppy chega atrasada, como de praxe, deixando o meu estmago ainda mais revirado de aflio. E se Sam se esquecer de abrir o vinho tinto? E se David no colocar 
as ostras no gelo e as pessoas no tiverem nada para petiscar quando chegarem? Ser que vo se lembrar de tirar os sanduches de salmo defumado da geladeira a tempo? 
E se os pudins secarem? E se eu me esquecer de alguma coisa? E se...
- Acalme-se. - George coloca a mo reconfortante no meu brao.
O organista dedilha as notas de abertura de Handel e a noiva e as madrinhas, uma flotilha de morango e creme, entram navegando pela igreja sobre um tapete de ptalas 
de rosas vermelhas.
- Oooh. - George cutuca a minha cintura. - Olhe s para a Janice. Ela exala todo o glamour de um carro velho.
- Chiu - assobio, quando uma mulher na fileira da frente, cheirando a naftalina e com um chapu que mais parece um bolo confeitado, vira-se para trs e d uma secada 
em ns com olhos de doce cozido. Aperto os dentes para deter uma onda de riso que vem subindo pelo meu esfago e olho para os meus dedos do p, que se projetam, 
roxos de frio e com as unhas pintadas de marrom-chocolate, de um sapato de salto alto ridculo,
de mulherzinha. Ah, como eu queria estar usando um bom par de botas Timberland. Estou gelada at os ossos aqui. Preciso ficar me beliscando para ver se a pele ainda 
no congelou.
Seb est em p ao lado do altar, com um enorme sorriso de quem comeu e gostou. Quando Poppy chega ao lado dele, ele pega a mozinha dela, e o reverendo faz um sinal 
educado para que Janice se afaste para o lado porque o enorme lao que enfeita
a bunda dela est atrapalhando a viso da igreja inteira. Janice passa o resto da cerimnia com cara de buldogue insatisfeito, enquanto George se refestela enormemente, 
cantarolando "AlI Things Bright and Beautiful" com um voz tonta em
falsete para chamar ateno, acende um cigarro durante "Jerusalm" e cochicha para todo mundo ouvir, em diversos intervalos durante o sermo: "Tum.  o barulho dos 
meus peitos caindo
de tanto tdio."
Particularmente, estou muito feliz de ter tomado juzo. Ah, sim,  tudo muito romntico. E h um ano, eu provavelmente estaria verde de inveja enquanto Seb, um clich 
alto, moreno, bonito, com cartola e fraque, e Poppy, frgil, elegante e com cara de quem est prestes a danar a Valsa dos Flocos de Neve em seu invlucro de seda 
pura, pontilhado com milhares de cristais iridescentes minsculos, assinam o livro de registros enquanto
o coral vai engasgando pela verso duvidosa de "Pie Jesu". Eu estaria to envolvida com o ar romntico da coisa toda que nem teria reparado no frio, que est me 
deixando mesmo toda arrepiada. Eu estaria desejando ardentemente que toda esta pompa
e cerimnia fossem para mim. Fantasiando que as duas daminhas, botezinhos de rosa meigos com vestidos de veludo vermelho, e as madrinhas, mais velhas, magras e 
sem sal como cabides, ao lado do cabelo e das curvas de Janice, estivessem l para me homenagear. Sonhando com a minha prpria igreja coberta de ptalas de rosas 
vermelhas e de confete cor-de-rosa em formato de corao. E quando o casal feliz desponta no ptio da igreja, onde florzinhas do campo amarelas salpicam o gramado,
agradeo a Deus por ter percebido que o casamento tem todo o charme de um coc de cachorro fresquinho.
Quer dizer, que porra. Podamos ser eu e Jake ali, assinando o final da nossa sanidade com uma caneta Bic.
Jake.
Est bem, ento, para ser perfeitamente honesta, preciso dizer que sempre que penso em Jake ainda sinto uma coisa meio esquisita, meio melanclica, no estmago. 
principalmente quando me lembro de que ele tem um pirralho no forno. Isso d uma
dimenso totalmente diferente s coisas. Se eu o quisesse de volta (mas, obviamente, no quero), haveria uma outra pessoa inteira a ser levada em considerao.
Pelo menos descobri essa porcaria toda antes que fosse tarde demais. Mas o casal perfeito Poppy e Seb  uma histria totalmente diferente. Como  que eles podem 
ter certeza de que sero felizes pelo resto da vidinha imaculada deles? Sebastian, afinal
de contas,  homem. Tem um pnis. Ento, quem  que pode garantir que, quando declarou publicamente que ele (Sebastian Willoughby Gentle) ser fiel a Poppy Cassandra 
Latimer por todos os dias de sua vida, no estava com os dedos da outra mo, enfiada no bolso, cruzados, pensando: "At voltarmos de Aruba ou de Antgua ou da porra 
de Acapulco, sei l aonde ela resolveu que a gente vai, quando eu pegar um bronzeado que baste para convencer a Monica da contabilidade a tirar as calcinhas."
Quando a comitiva do casamento comea a posar para as fotos sob o arco todo enfeitado, saio de fininho da igreja, aproveitando para mostrar a lngua para Janice, 
em uma tentativa desajeitada de fazer com que ela ache graa naquilo. Em vo. Ela est acabada. De volta  casa, fico imensamente aliviada ao descobrir que, sem 
George para atrapalhar, David e Sam fizeram um timo trabalho. As ostras que eu tirei da casca segundos antes de sair para a cerimnia esto empilhadas em bandejas 
de prata redondas, e travessas de sanduches em miniatura de salmo defumado e po integral sem casca foram distribudas, como eu mandei, por todo o celeiro. Calculei 
que as pessoas ficariam menos bbadas se estivessem com o estmago forrado antes de comear a encher a cara. Sam, que no consegue deixar sua poro RP de lado, 
me encheu de orgulho com a decorao. O celeiro brilha com centenas de velas de igreja com chamas bruxuleantes, que enfeitam cada mesa e cada parapeito de janela, 
lanando sombras romnticas sobre as antigas paredes de pedra. No centro h um laguinho de pedra, que no passado serviu de bebedouro de gado e hoje  uma massa de 
velas
flutuantes prateadas e douradas e tufinhos coloridos de roxo imperial e carmim profundo. Cerca de trinta mesas redondas aglomeram-se em volta do laguinho, cobertas 
com toalhas de seda coloridas: verde-oliva, azul-pavo, dourado, prateado, carmim, ndigo, verde-floresta. Mais velas, desta vez em candelabros de ferro batido, 
encontram-se no centro de cada mesa, fornecendo uma atmosfera gtica ao ambiente, e um monte de rosas vermelhas, representando o amor, com os botes amarrados bem 
juntinhos, formando uma massa de carmim profundo, espalham-se por todos os cantos. Os pratos e copos, que Sam fez aparecer de algum jeito, como que por mgica, do 
o toque final. Iridescentes e coloridos como jias em turquesa, esmeralda, rubi, safira e mbar, combinam com tudo perfeitamente. Anjinhos minsculos, dourados e 
prateados, enfeitam as costas das cadeiras de ferro batido, assim como as caixinhas que enfeitam
cada prato e que contm chocolates em forma de corao, drgeas prateadas e gengibre com cobertura de chocolate - tudo feito a mo por mim.
- Est perfeito - suspiro, com um caroo na garganta. Absolutamente perfeito. Obrigada, Sam. E David. Vocs fizeram maravilhas. Obrigada aos dois, mesmo, mesmo.
Ns nos abraamos enquanto eu tento digerir a roupa de garom que colocaram especialmente para a situao. Os dois esto lindos e fico aliviada de descobrir que 
Sam est se comportando de maneira totalmente normal. George,  claro, recusase a trocar de roupa. Ele pode at ter que atuar de garom por um dia, mas isso no 
significa, de jeito nenhum, que ele vai ficar com cara de garom. Coloco um vestido preto de alcinha
simples e prendo o cabelo em uma grande trana cor de laranja, para que fique longe da comida.
- Voc no vai usar isto. - Sam, colocando abotoaduras prateadas, vem caminhando pelo corredor quando eu saio do quarto.
- Qual  o problema?
- Est perfeito. Voc vai chamar mais ateno do que a noiva.
- H ha.
- Estou falando srio. Voc est tima.
- Estou?
- Est.
- Estou me cagando nas calas.
- Vai dar tudo certo. - Ele me abraa e, por uma frao de segundo, me sinto toda esquisita por dentro de novo. Mas quando nos afastamos, ele est sorrindo para 
mim. - Boa sorte, Simpson.
- Boa sorte para voc tambm. Voc  o garom. Ah, e se voc por acaso derramar sopa no colo de alguma dama, por favor segure-se e no pergunte se pode lamber. No 
cai muito bem em crculos refinados.
Sam me d um tapa nas costas de brincadeira. As pessoas comeam a chegar da igreja e a entrar no celeiro. Damas com chapus floridos, envoltas em tergal dos ps 
 cabea. Senhores de terno, eretos ao lado das esposas e parecendo to encurralados quanto passarinhos na gaiola. Pais exaustos. Mes elegantes. Solteiros disponveis. 
E muitas e muitas loiras. Loiras peitudas. Loiras narigudas. Loiras vestidas de creme para ofuscar
a noiva e loiras com bronzeado artificial e chapus com penas tingidas de turquesa, todo mundo vai entrando, agarrando taas de champanhe com avidez e tagarelando 
como matracas. Durante a hora seguinte, Sam, George e David, cheios de uma energia manaca, vo do celeiro  cozinha e da cozinha ao celeiro, servindo bebidas, entregando 
ostras, colocando Tabasco, espremendo limes e distribuindo sanduches de salmo, enquanto eu entro em pnico e dou chiliques na preparao das entradas.
- Meu Deus, olhe s para isso. - George, que voltou para pegar mais sanduches, fala alto, com desaprovao, enquanto uma mulher com seus 30 e tantos anos exibe 
nos braos uma criana rosada de uns seis meses para todo mundo elogiar. H tanta criana por ali que o ar cheira a leite materno, e no a coquetel de feromnios, 
como eu esperava, mas no d para ficar pensando nisso agora. Tenho que servir uma refeio.
- As porras dos reprodutores marcando seu terreno - prossegue George. -  isso mesmo - diz, com escrnio. - No  um amor? Que pena que nem todos ns podemos ter 
um desses. Mas voc bem sabe que ela no devia ficar exibindo a criana deste jeito. Se ela no tomar cuidado, algum vai roub-la.
-  um beb - observo, entregando-lhe mais uma garrafa de champanhe e enxotando-o na direo de uma multido louca para beber. - No  um carro conversvel.
- E a me  to ordinria quanto chocolate barato - sibila ele. - Ela est usando aquelas botas horrorosas de vagabunda.
Olhe s.
George tem preconceito contra quem usa botas que vo at o joelho. Ele no agenta olhar para elas. Acha que tem alguma coisa a ver com a higiene pessoal. Ou a falta 
dela. S Deus sabe por qu.
De volta  cozinha, tiro assadeiras cheias de tortinhas de caranguejo redondinhas do forno quente e as arrumo rapidamente sobre pratos com folhas variadas e gelia 
de tomate picante. Mal d tempo de enxugar o suor do rosto e  a vez das verduras. Para elas, queijo de cabra e tomate seco envolto em massa crocante.  medida que 
os rapazes vo servindo os pratos, vou checando os medalhes de cordeiro que assam lentamente
com galhos de alecrim e dentes de alho inteiros no fogo a lenha da me de Poppy. Pico hortel fresca, rego batatas assadas e refogo cubos de pancetta com manteiga 
e vagem. Frito pimentes amarelos, cebolas vermelhas, bulbos de erva-doce e alho com quantidades generosas de leo. Estremeo quando o recm-chegado Jasper, que 
Janice ainda no viu (agora ela est feliz da vida depois de se livrar da fantasia de joaninha, desfilando com um vestido de festa verde cintilante), pisca para 
mim, belisca meu bumbum e me deseja sorte.
Fao sinal de positivo para Sam, George e David e sorrio ao pescar pedacinhos de conversa nas mesas. Todo mundo est l. A lista de convidados normal de qualquer 
casamento. Aqueles que se esqueceram de que saram da escola h mais de dez anos
e ainda sentem a necessidade de perguntar a todo mundo onde estudaram, s para poder avaliar o status social de cada um. Aqueles que gostam de transformar qualquer 
conversa em competio. Gente que no tem nada a dizer e fica falando de trabalho.
Aqueles que acham que esto em uma entrevista de emprego e no param de perguntar a cada uma das pessoas da mesa onde elas acham que estaro, exatamente, daqui a 
cinco
anos. E da tem aqueles que so iguais a mim. Solteiros, sozinhos, deslocados, como uma governanta de frias no Club Med. Voltando sua ateno para coisas mais importantes 
como o gim com tnica grtis e olhando em volta furtivamente, morrendo
de vontade de acender um cigarro mas sem querer cometer a gafe social de ser o primeiro a acender um. Todas as moas solteiras foram colocadas, de acordo com a etiqueta 
dos casamentos, a pouqussima distncia da mesa dos gostoses.
Enquanto todo mundo ataca a entrada, colocando cada vez mais vinho no copo um do outro, um zumbido de apreciao toma conta do celeiro e eu capto murmrios de "que 
delcia" e "que maravilha" quando as tortinhas de caranguejo so mastigadas e meu molho especial de salada  saboreado. E est bem certo, tambm. Isto aqui no  
a porcaria de cantina de escola que a gente costuma comer em casamentos. Tipo hambrgueres perfeitamente redondos de peru. Pur de batata instantneo servido com 
concha de sorvete. Cenouras apimentadas. Molho empelotado. Ervilhas congeladas. Ah, no. Minha gororoba est  altura do Ritz, pelo menos. Quando o prato principal 
chega ao fim, no sobra nenhuma migalha nos pratos. E,  preciso reconhecer, estou silenciosamente emocionada.
 hora da minha piece de resistance. A verso adulta da velha receita preferida da escola. Pasta de Chocolate. S que a minha pasta de chocolate  mais escura, suculenta, 
saborosa, macia e mil vezes mais pecadora do que sua predecessora, com um toque
de creme grosso por cima que mal pinga da colher. Ou ento, h pudins de torrone individuais, servidos com pores de calda de caramelo.  melhor do que sexo. E 
enquanto tiramos os pratos, trazemos caf e chocolatinhos com menta e pegamos
mais champanhe, Poppy vem correndo, tropeando no vestido de princesa-fadinha, para me parabenizar. Eu fiz o dia dela. Foi um sucesso. Estou com tudo. Sou uma estrela.
Mas s quando os discursos terminam  que eu me dou ao luxo de relaxar. E, quando o casal divino, Poppy e Seb, toma a pista para danar "My Funny Valentine", vejo 
Sam e Shana conversando. Ela olha para ele com a cabea um pouco erguida e olhar de adorao, do mesmo jeito que fez com os homens que rodeou na noite passada. Eu 
quase no consigo assistir quilo.
- Vaca - Janice, ao me ver espionando o par, diz, cheia de crtica. - Olhe s para ela. Por que ela no pega logo e fala diretamente: "Aaah, Sam, acho mesmo que 
seu rosto ficaria bem mais bonito se eu estivesse sentada em cima dele."
Ela sempre sabe o que dizer. Ela e Jasper passam o resto da noite se agarrando no jardim de inverno, que Sam e David encheram de lanternas chinesas vermelhas e luzinhas 
vermelhas e verdes. Observo com desgosto fascinado enquanto eles do um
ao outro damascos e figos de uma tigela, em algum tipo de ritual pr-coito frentico. Bom, eu digo pr-coito. De acordo com Janice, ela ainda no precisou ir para 
a cama com ele. H uns dias, ela me contou com todos os detalhes o que aconteceu com um carinha que ela catou no supermercado.
- Mas ele no tem como descobrir, no  mesmo? - ela me perguntou. - Estou falando do Jasper.
- Acho que no. - Suspirei. - Ento, voc acha mesmo que ele  to repulsivo assim? Quer dizer, eu sei que ele  bem mais velho do que a gente, mas ele  mesmo to 
mau assim?
- No  isso - respondeu ela. -  s que, se eu entregar tudo logo, ele vai fugir rapidinho. Ento, preciso ir me virando de outro jeito, se  que voc me entende.
Assenti com a cabea. Eu entendia muito bem. No dava para achar que uma garota como ela, to acostumada a sair com um monte de caras, pudesse ficar mais de um ms 
sem sexo.
Portanto, enquanto Janice tenta tomar para si um lugar nas afeies (e portanto na carteira) de Jasper, com frutas e beijos roubados, eu assisto, dura de tdio, 
quando Shana cruza uma tira de linguini sobre a outra e joga a juba dourada para trs, tremendo de tanto rir a cada piadinha que Sam faz. Quem me salva  Poppy, 
que vem conversar comigo de novo. Essa histria de servir comida  bacana. Preciso pensar em um nome para a minha empresa. Comidinhas Caprichadas, talvez? Nada mau.
Desta vez, no entanto, no  para dar parabns que ela vem atrs de mim.
- Katie, graas a Deus que voc est aqui.  o George.
- O George? Ele est passando mal?
- No. Foi acusado de roubo por um dos amigos da me
do Seb.
- De roubo? De roubar o qu?
- Um beb.
Jesus Cristo. Por que essas coisas acontecem comigo?
Olho em volta  procura de David, mas ele no est  vista. E Poppy est preocupada. Ser que posso acompanh-la? Agora?
Puta porra que pariu.
Sinto l no fundo que tudo pode dar errado. S podia ser o George para fazer de tudo para estragar o meu grande dia.
Mas tambm no d para me responsabilizar pelo comportamento de George, no  mesmo? Quer dizer, no final das contas, sou s a cozinheira. Ento, desde que eu no 
envenene ningum, est tudo certo. No est?
Ou ser que eu automaticamente aceitei a responsabilidade pelo comportamento de Sam, George e David quando pedi que me ajudassem e trabalhassem de garons naquele 
dia? Se for assim, ento est tudo errado. Eu no sou confivel o bastante para poder ter responsabilidade por qualquer outra pessoa. No d para confiar em mim 
nem para trocar o absorvente interno, pelo amor de Deus.
George est empoleirado entre as pias de mrmore "dele" e "dela" no banheiro da me de Poppy, com um cigarro rosashocking em uma mo, uma tiara brilhante na outra. 
Uma loira com penteado de abacaxi, sapatos de salto agulha de couro roxo lustrado e um vestido-avental branco de cetim com um suti que aumenta os peitos e praticamente 
mais nada por baixo tenta acalmar um beb nojento, coberto de catarro, que grita tanto que a boca j virou um quadrado perfeito. Por um instante, esqueo a existncia 
de George e no consigo parar de olhar para aquilo, imaginando se as bochechas da criana vo se abrir como pssegos maduros demais.  uma cena verdadeiramente horrorosa.
- Pronto, pronto. - Ela faz um agradinho no queixo da criana com um raminho de cereja falso. - Tadinha da Chanel.
No se preocupe, meu amor. A mame j est com voc.
- Chanel? - George franze o nariz de desgosto. - Acho que est mais para Lojinha da Esquina, seria mais apropriado. Coitadinha. Acho que essa roupa a no pode ser 
classificada como couture, querida. Na verdade, duvido que se possa dizer que  algo comprado em uma butique. Se no me engano, voc pegou isso a na gndola dos 
descontos. E, ainda por cima, est manchado.
- Desculpe - digo a ela. Que porra George est fazendo? Ele quer que o meu negcio deslanche ou no? No tenho condies de aceitar que um dos meus garons se comporte 
desta maneira no meu primeiro servio. Deste jeito, nunca vai dar certo.
- Voc tentou roubar o beb? - suspiro, ficando toda esquentada e de joelho mole, quando de repente me lembro do pedido que me fez no Ano-Novo para alugar meu tero 
um pouquinho. E agora que ele resolveu que o David  a melhor coisa que apareceu desde a polenta instantnea, seu instinto paterno deve estar ainda mais forte.
- Claro que no - debocha.
Solto um suspiro de alvio.
- Olhe s para ela, pelo amor de Deus - cospe. - Nem  um beb muito legal. A estrutura ssea dela  uma porcaria. O maxilar no est com nada, olhe.
Mas a me de Chanel tem outras idias.
- Eu peguei esse sujeito desfilando com ela na frente do espelho, para cima e para baixo - acusa. - E estava segurando pela gola da roupinha. Como se ela fosse a 
porcaria de um gato.
Acho que est mais para uma bolsa.
Caramba.
- Pela ltima vez - George ergue as sobrancelhas para o cu. - Eu no estava roubando o beb. Eu s peguei emprestado. - Parece decepcionado. - Queria ver se combinava 
com a minha gravata, querida. E como era o tom de rosa completamente errado, j estava voltando para devolver. No se preocupe - reconforta a me. - No foi nada 
pessoal. Se eu soubesse que era sua, no teria encostado nela nem com uma vara de trs metros. Ah, estava muito fofa mesmo, deitada l naquele quarto. balbuciando 
em cima de uma colcha Georgina Von Etzdorf, querida, mas se eu soubesse de onde vinha, teria pensado duas vezes antes de pegar emprestada, estou dizendo.
- George.
- Quer dizer, a frase "o pior do que existe na gentica" me vem  mente, preciso reconhecer. E olha que uma frase dessas no  algo que eu diga sempre.
- George. Chega.
 -E acho que eu gostaria que a minha filha crescesse sabendo a diferena entre almoo e jantar, muito obrigado.
Por sorte, alguma tonta bulmica com um vestido esvoaante cor de lavanda escolhe aquele exato momento para entrar correndo e despejar toda a refeio, de modo que 
no meio do tumulto que se segue todo mundo tenta sair da frente para fugir dos respingos de vmito e eu aproveito para agarrar George pelos punhos e corro escada 
abaixo com ele para procurar David. Mas no sem que uma mulher da fila olhe para mim, apontando com a cabea para o cubculo onde a vomitana se desenrola, e dizer:
- Com certeza foi as ostras, aposto.
- Foram as ostras - corrijo, sem pensar. - E no, no foram. Elas so absolutamente frescas.
- Tem gente que  fogo! - digo a George enquanto o conduzo  fora, de volta ao celeiro. Ele vai reclamando o caminho todo. No  justo. Algumas pessoas no deveriam 
poder procriar. Aquela maravilha, coitadinha e sem queixo, l em cima vai crescer achando que fazer compras no shopping center  o mximo da sofisticao. E d d 
de pensar na vida que ele e David poderiam ter dado a ela, se fosse um pouquinho mais bonitinha.
No consigo ficar brava com ele durante muito tempo. Afinal, no houve nenhum estrago. E quando ele v David danando Steps sozinho e corre para lhe dar um enorme 
abrao, eu, com um caroo na garganta pela segunda vez no dia, consigo perdo-lo por qualquer coisa.
Alm disso, as pessoas, at a senhora com chapu de bolo confeitado da igreja, no param de me cumprimentar porque a comida estava mesmo maravilhosa. Minha primeira 
empreitada foi um sucesso total e completo. Distribu inmeros cartes
de visita e j marquei mais dois eventos. E, quando me olho no espelho naquela noite, cansada demais para me preocupar em tirar a maquiagem, dou uma piscadela e 
um enorme sorriso para o meu reflexo.
- Katie Simpson - enuncio -, voc meteu as caras e se deu bem.
Tomo o trem de volta para Londres sozinha. Estou animada demais para ficar muito tempo em Bath. Quero fazer planos e pensar. Escolher um nome para a minha empresa. 
Onde fazer propaganda, esse tipo de coisa. E, logo logo,  provvel que eu precise alugar um escritrio. Encontrar uma casa com uma cozinha maior.
Estou to animada que nem consigo esperar.
Estou to feliz comigo mesma que mal reparo que a viagem  to divertida quanto salmonela. Gente jovem, enjoativa e bem ajustada que passou o fim de semana fora 
para se divertir enche os vages com seus cappuccinos, jornais de domingo e conversa
irritantemente animada. Mas eu nem ligo. Tudo bem, tenho srios problemas de ocupao de espao com o cara sentado  minha frente, que parece achar que  perfeitamente 
aceitvel esticar os ps (de docksiders, reparo - que nojo) at que
se acomodem embaixo do meu assento. Onde, precisamente, ele acha que eu vou colocar os meus? Ficar encarando o sujeito com os dentes  mostra, como um cachorro raivoso, 
mostra-se algo totalmente ineficiente, de modo que, no fim, sou obrigada a
atingi-Ia com fora extrema com o calcanhar do meu Nike, ao mesmo tempo em que folheio uma revista como quem no quer nada, fingindo estar muito envolvida com uma 
reportagem sobre aumento de seios. E, quando ele recolhe os ps com o rosto contorcido de dor e surpresa, j me coloco l, esticando as pernas o mximo possvel 
e to rpido que quase acerto o saco dele. E fico l, sentada, cheia de triunfo vazio, sem ousar a me mover, nem mesmo para dar uma olhada em quem entrou no banheiro,
por medo de perder um centmetro do Espao Que Me Cabe.
Ah, e toda hora que mexo meus ps, sinto-os latejarem horrivelmente. E no estou exatamente  vontade porque, graas s quantidades copiosas de lcool que consumi 
para comemorar meu sucesso da noite passada, estou me sentindo levemente
nauseada, mas mesmo assim no me sinto to mal como normalmente acontece. Fico repetindo para mim mesma como consegui chegar to longe em to pouco tempo.
Pego o metr de volta para Balham. Ao trocar de linha em Stockwell, fico contente ao perceber que, pela primeira vez em cerca de um ano, de acordo com a minha experincia, 
um trem chega em um minuto. Brilhante. Um bom pressgio. Infelizmente,
no estou exatamente pronta para ele. De repente, me sinto to enjoada que no tenho coragem de subir, para no mandar a sobremesa toda para o cho do vago.
O que  a maior sorte, como descubro logo a seguir, porque as portas acabaram de se fechar quando eu sinto aquela saliva fina encher minhas bochechas e eu de repente 
sei (simplesmente sei) que vou botar para fora todas aquelas bolachas.
Merda, puta que pariu, merda. Que diabos eu vou fazer? No d para vomitar no meio da plataforma, na frente de um trem cheio de passageiros de olhos esbugalhados, 
d?
D?
Ento, tenho uma iluminao. s vezes, digo a mim mesma, sou um gnio da porra. Penso rpido e, sorrateira, abro a bolsa e mando ver l dentro, em vez de dar vexame. 
E, como a bolsa  minha, no  bem um modelo de mulherzinha, mas sim alguma coisa mais parecida com uma mochila preta espaosa, fico totalmente escondida enquanto 
chamo o Hugo. E, enquanto vomito silenciosamente nas minhas chaves, no meu celular, na minha reserva de chocolate e na minha agenda, para o mundo parece simplesmente 
que estou procurando alguma coisa l dentro, como um chiclete perdido ou uma caixinha de balas.
 claro que, quando o prximo trem vai se aproximando e eu percebo que, ao chegar em casa, vou ter que enfiar a mo l dentro daquela meleca toda para pegar as chaves, 
vejo que meu plano tinha algumas falhas, mas agora j  um pouco tarde demais. Empino o nariz para ganhar confiana (o qu? Vmito na minha bolsa? Eu?), junto meus 
pertences e entro no trem, empurrando duas pessoas que estavam na minha frente, determinada
a pegar o nico assento disponvel e me botando firmemente nele.
- Oi - diz a pessoa sentada ao meu lado. - Katie, no  mesmo?
Viro a cabea, dolorosamente ciente do meu hlito podre e fechando a bolsa bem rpido para no correr o risco de banhar os passageiros sentados  minha frente com 
uma mistura de vinho tinto vomitado e chocolate empapado.
Caralho.
 o Max.





ONZE







Fico extremamente surpresa ao perceber que Max parece culpar-se inteiramente pela maneira lamentvel como nosso entrevero terminou no meu aniversrio. E, enquanto 
atravessamos Clapham Common chacoalhando, ele confessa que, na verdade, nunca descobriu por que eu resolvi derrubar a casa de tanto gritar naquela noite. Pensou 
em perguntar a Janice no trabalho, mas, depois que ela o classificou de estuprador serial na
minha festa, ele passou a se sentir incomodado na presena dela. 
Dou risadinhas nervosas.
Quando o trem vai se aproximando de Balham, um silncio constrangedor toma conta do ambiente, ao percebermos que  ali que eu deso. Um de ns tem que dar o primeiro 
passo agora ou ento, provavelmente, nunca mais nos veremos. O que seria uma pena. Porque, do meu ponto de vista, Max continua bem travel. E, agora que comecei, 
gostaria muito de terminar.
Bom, mas pode ter muita certeza que no serei eu a dar o primeiro passo. J me fiz de completa idiota uma vez. No quero me arriscar a ser rejeitada e ficar me sentindo 
como uma tonta depois, como inevitavelmente acontece.
- Tchauzinho. - Levanto-me para descer do trem, segurando firme as alas da bolsa para evitar que seu contedo respingue.
- Olha. - Ele me puxa de volta, bem quando as portas esto se fechando, mas pensa melhor e, de um pulo, sai atrs de mim.
- Cuidado - digo, segurando a bolsa.
Ele parece um tanto surpreso, mas determinado a seguir em frente com o que tem a dizer. Parece nervoso, o que quase faz com que eu o despreze, mas espero para ver 
o que tem em mente.
- Acho que voc no deve estar a fim de fazer alguma coisa, est?
- Tipo o qu? - Mantenho minha calma, tentando parecer um tanto entediada, como se ser convidada para sair com algum to gostoso quanto Max em uma estao de metr 
fosse algo que acontecesse todo dia.
- Podamos dar uma passada no Bedford. Comer uma torta e tomar uma cerveja. Almoo de domingo. Qualquer coisa que voc quiser.
- No sei. - Mordo o lbio. A mim, parece ser uma certa perda de tempo ter que passar pela rotina da conversa trivial sobre um prato de rosbife e uma bolsa cheia 
de vmito s para podermos terminar o que havamos comeado. E se descobrirmos que no valia a pena terminar?
Por outro lado, estou verde de fome.
E suponho que haja mais do que um bocadinho de verdade em um dos ditados preferidos de Janice, que de repente me vem  mente, enquanto estou ali parada na plataforma, 
tentando decidir o que fazer: Quando estiver em dvida, Entre, Aproveite,
Ganhe um presente, Caia fora.
Foda-se. Acho que vou mesmo aproveitar o que tenho  mo.
- Ah, ento tudo bem. - Sorrio. - E da?
Quando atravessamos as roletas, no entanto, examino a mim mesma. E a minha bolsa cheia de vmito? No d para eu ir comer com aquilo chacoalhando do meu lado, no 
 mesmo? E se uma ficada com Max no for suficiente? Afinal, ele  absolutamente
delicioso. Dava para comer os olhos dele.
Mas eu mereo fazer sexo, no mereo? E, at onde posso me lembrar, Max tem um daqueles paus que vale a pena admirar. Depois de Colin e seu micropnis, uma trepada 
com Max vai ser a mesma coisa que comer uma bela barra de chocolate recheado depois de passar um dia inteiro comendo frutas.
Pelo lado negativo, no tomei banho hoje. E tem uns pelinhos que preciso arrancar da xoxota antes que algum possa me ver pelada. Isso sem mencionar minhas axilas. 
Fiquei to ocupada com os preparativos para o casamento que elas esto parecidas
com uma floresta impenetrvel.
E, com a ressaca que estou, devem estar com cheiro de cebolas caramelizadas.
- Em vez disso, podamos almoar na minha casa - digo apressada, quando passamos sob a ponte do Coc de Pombo.
- No estou muito a fim de comer fora e tenho uma sopa de abbora no freezer.
- Tudo bem. - Ele sorri. Devolvo o sorriso. Ele  mesmo bem gostosinho. Que sorte foi topar com ele assim.
Tudo bem, a sorte bem que podia ter esperado at um momento em que eu no estivesse com uma ressaca monstruosa, pernas peludas e uma bolsa cheia de vmito para bater 
sua varinha de condo das ficadas mgicas na minha cabea, mas esse tipo de coisa no costuma acontecer com muita freqncia. Estou recebendo tudo de bandeja. Seria 
falta de educao no me servir.
 um tanto complicado localizar a chave na bolsa, na frente de Max. No quero que ele veja o contedo, de que eu tenho a total inteno de me livrar assim que tiver 
localizado e desinfetado os itens importantes. Quando afinal entramos no apartamento, no h sinal de Graham, mas fao Max sentar na frente da TV e assistir a novela 
enquanto me ocupo com a alimentao de Shish Kebab e fao muitos carinhos nele, para o caso de ficar com cime. Ento, sob o pretexto de desfazer as malas, subo 
as escadas correndo e entro no chuveiro, raspo as pernas apressada, para no correr o risco de arranhar Max com meus plos grossos e passo leo com aroma de limo 
no corpo. Delicioso. Eu sei que  um pouco bvio, aparecer cheirando fresquinha depois de viajar trs horas, mas e da? No h razo para fingir. Ns dois sabemos 
por que ele est aqui.
E com certeza no  para comer a sopa feita em casa.
De qualquer modo, ater-me s ficadas de uma noite significa que eu no preciso mais ficar fazendo joguinhos estpidos. Posso deixar bem claro que s estou em busca 
de uma trepada sem me descabelar, o que faria com que ele perdesse o interesse. A maldio do SAPO j no mais se aplica.
Estou livre.
Oba!
Alis, devo dizer que transar com Max  bem legal. Joguinhos introdutrios no se fazem necessrios e, alm disso, nem sinto a necessidade de pedir que ele coloque 
as pernas para l para que eu possa tirar o controle remoto do caminho. A cueca dele
 limpa e branca, no cinzenta, encardida e de velho, o que considero um bom sinal, especialmente porque no havamos planejado de nos encontrar hoje, de modo que 
eu no podia querer que ele estivesse preparado. Claro que isso tambm pode significar
que ele  um desses caras que sempre veste roupa de baixo imaculada para o caso de ser atropelado por um nibus. O que provavelmente significa que ele  um total 
filhinho-de-mame. Mas como eu no vou v-lo de novo depois de hoje, que diferena faz?
Ele ataca direto nos Croissants. Alm do mais, parece saber o que est fazendo. E ele no parece ficar esperando que eu retribua logo que ele termina, e eu me sinto 
muito grata por isso. Ento, levando tudo em conta, bem que eu me divirto. Nada de maravilhoso, por mais que eu me esforce.
Mas  legal. Tipo comer um bolo na padaria. Agradvel.
 s depois da transa, enquanto ainda estou envolta naquela nvoa aconchegante, que o alarme comea a soar. Em vez de ele apagar o cigarro e virar de costas para 
mim, como era de se esperar de qualquer cara com quem se fica por uma nica noite, Max se ergue sobre um cotovelo e d tapinhas no espao vazio a sua frente.
- O qu? - Olho para ele cheia de suspeita. Quer dizer, sinto muito por jogar um balde de gua fria nas intenes dele, mas tenho mais o que fazer. Preciso tirar 
todo o vmito da minha agenda com espiral de ferro antes que comece a apodrecer, para incio de conversa. O que  que ele est fazendo? Est achando que eu vou parabeniz-lo 
pela performance ou o qu?
- Vem aqui me abraar. - Ele sorri.
Olho para ele boquiaberta, chocada. Bom, devo dizer que no sou especializada em ficadas de uma noite, neste caso, de uma tarde, mas eu sei muito bem que esse tipo 
de atitude no tem nada a ver. Quer dizer, no  normal, ser, querer que eu me derreta toda se a inteno  s dar umazinha? Ele j no deveria estar dando no p 
a esta altura? Max sorri de novo para mim, mostrando uma fileira de dentes perfeitamente perolados.
Na verdade, no posso deixar de notar que seus dentes esto comeando a parecer perfeitos demais. Tipo alguma propaganda brega de pasta de dente.
- Quero saber tudo sobre voc. - Ele sorri preguiosamente, puxando a minha cabea na direo do peito dele, em um ponto onde pode ficar bem aninhada.
- Quer mesmo? - Aperto os dentes.
- Tudo. - Ele parece esperar que eu fique contente com isso.
Meu Deus, eu detesto quando algum pede que eu fale de mim mesma. Nunca sei muito bem o que dizer. Ou quantos detalhes devo revelar. Ser que Max, por exemplo, precisa 
saber que eu s vezes fao xixi na escova de dente dos outros quando me irrito com eles? Ou que uma vez eu usei as toalhinhas faciais de uma das namoradas de Sam 
para limpar a bunda porque o papel higinico acabou na festa de aniversrio dela e eu detesto
me sentir suja? Ou ser que  informao demais? O que quer que eu diga,  bem ruim quando fica parecendo algum tipo de auto-elogio que as pessoas fazem em jantares 
meio formais. Falar de coisas assim com algum que, h alguns momentos, estava
com o nariz enfiado nas minhas partes, me parece um pouco demais.
- O que voc quer saber? - pergunto, mais do que um pouco perturbada quando ele busca meus ps gelados embaixo da colcha com os quentinhos dele. Isto aqui est ntimo 
demais para o meu gosto. Ser que no dava para a gente parar na trepada?
Ou pelo menos nos Croissants. Mas qual  essa do pezinho? Pode esquecer.
- Tudo que voc estiver a fim de me contar. - Ele sorri de novo. Relutante, conto-lhe a respeito das partes mais desinteressantes da minha vida na esperana de mat-lo 
de tdio. Ou isso ou ele vai ficar com claustro fobia e vai embora. Fao qualquer coisa para ter a cama s para mim de novo. Toda essa ateno  simplesmente assustadora. 
Conto que fui demitida, devido a problemas de motivao. O que, devo dizer, est ligado  alta
qualidade da programao da TV diurna de hoje.
Infelizmente, Max parece achar tudo isso mais interessante do que brochante. E, no final, acabo ficando bem contente por faz-lo rir com minhas piadas. Tanto que, 
para falar a verdade, at consigo achar energia para dar mais uminha. Sob as circunstncias,
no era a deciso mais inteligente a ser tomada, mas e da?
Mal acabo de enfiar a camisinha usada em potinho de iogurte de cereja negra vazio quando sinto uma coisa estranha e arrepiante na nuca. Volto-me e deparo com Max 
olhando para mim com toda a ateno. Dou uma checada em mim mesma. Ser que tem resto de comida em volta da minha boca? Sobras de molho de laranja de kebab embaixo 
das unhas?
Merda. Ser que tem uma melecona pendurada no meu nariz?
Seja o que for, no gosto nada de ele ficar olhando para mim deste jeito. Parece que tem ovos de aranha chocando sob a pele da minha nuca. S posso dizer que  nojento.
- Voc no deveria virar para o outro lado e comear a roncar agora? - brinco.
Na verdade,  s meio brincadeira. No  bvio que qualquer cafajeste com respeito por si mesmo teria feito exatamente isso? Ser que Max no deveria estar esperando 
at que eu casse no sono para que ele pudesse desaparecer, evaporando como uma nuvem de nitrato de alquila na poeira? Ele deveria ter comeado a se sentir encurralado 
no segundo em que ouviu o barulho da camisinha sendo retirada.
No deveria?
Caramba.
Est ficando to ntimo que, daqui a pouco, vai fazer xixi na minha frente.
- Eu no. - Ele sacode a cabea e sorri para mim. - Eu no sou assim.
Azar o meu, ento.
- Quero conhecer voc do jeito certo. - Ele irradia. - Passar meu tempo com voc. Coisas assim.
- Para qu?
Que maravilha. Sou um fracasso to completo que nem consigo dar uma ficada de uma noite s.
Meu Deus, por que ele est olhando para mim deste jeito?  bvio que tem algo de muito errado com ele.
- O qu? - Entro em pnico.
- Nada,  s que ...
- O qu? - pergunto pela segunda vez, com urna sensao estranha, desconfortvel e borbulhante na boca do estmago.
-  que voc  to ...
- Estou ouvindo.
- Eu acho voc maravilhosa - ele solta de supeto. -Ah.
- Estou falando srio. - Assente com a cabea. - Voc  engraada, voc  linda. Voc  simplesmente ... no d para acreditar ...
- O que  que no d para acreditar? - exijo saber. Por Deus. Certamente agora ele no vai declarar amor incondicional por mim, no  mesmo? Essa no era a idia, 
de jeito nenhum.
Eu sabia que no devia ter dado aquela segunda trepada. Passei a impresso errada. Permiti que ele se apegasse a mim. Acho que ele est esperando que eu diga alguma 
coisa amvel para ele.
E "amor"  realmente algo com que no estou com vontade de me envolver agora. At onde eu sei, a palavra que comea com A s quer dizer urna coisa.
Estou falando de "Ausncia de Exerccio Vaginal".
- No d para acreditar que voc mudou de idia.
- Sobre o qu?
- Sobre mim.
- No estou entendendo.
- Bom, depois de tudo que voc disse na sua festa. Quando nos conhecemos. Que voc no queria um namorado. Quer dizer, eu no sou mesmo cafajeste e definitivamente 
no sou gay. Ento, por que voc mudou de idia? No d para acreditar que eu seja o seu tipo.
- Mas voc no  mesmo - explico. - Estou desesperada.
Claro que nem ocorre a Max que eu possa estar falando srio. Ele acha logo que estou brincando. Meu Deus. De vez em quando os homens so arrogantes demais.
Ele fica me admirando com olhar de adorao mais uns dez minutos, em total embevecimento, sacudindo a cabea, atordoado, como se eu fosse a estrela de Belm, e no 
simplesmente a velha e boa Katie Simpson, a solteirona ruiva da parquia de Balham. E enquanto cochilo e acordo em um sono inquieto, resolvo que ele nem  to bonito 
assim. Se ele gosta tanto assim de mim, com certeza est cheio de problemas. No, resolvo, olhando para o globo espelhado pendurado ao lado da minha janela, ouvindo 
o ritmo da respirao dele. Ele definitivamente no  meu tipo. A cor dos olhos dele est mais para lama do que para chocolate. E, a menos que eu esteja completamente 
errada, a cabea dele ficaria bem melhor na ponta de uma estaca.
 bem tpico, no  mesmo? No minuto que resolvo viver uma vida solteira e sem culpa, um cara comea a me perseguir como um cachorrinho doente. Fico l deitada, 
no lusco-fusco do anoitecer de domingo, me sentindo trada. A nica razo por que me senti atrada por ele em primeiro lugar  porque tinha certeza de que ele era 
um cafajeste total e completo. Com aquele sorrisinho safado. Aqueles olhinhos brilhantes. Ele tinha a
etiqueta "cafajeste" pregada na testa. Mas  bvio que eu interpretei mal os sinais, completamente. Max estava se disfarando de cafajeste quando, na verdade, ele 
 mesmo um cara superbonzinho.  um cordeirinho em pele de lobo. E eu, bobona,
ca como uma pata. Ah, ele me enganou direitinho. Escondeu de mim sua verdadeira personalidade. Ah, se eu morasse nos Estados Unidos, poderia process-lo por me 
ludibriar.
Ele no  o que eu pedi, e quero meu dinheiro de volta.
Descobrir como Max  de verdade  bem parecido com entrar em um restaurante e pedir o que acredito ser lagosta ao termidor, s para descobrir, quando o prato chega, 
que na verdade eu tinha pedido um pedao de bacalhau cozido com molho de salsinha.
Que droga.
Preciso fingir que vou visitar a minha av para me livrar dele. E quando ele finalmente vai embora, sorrindo e saltitando pela rua igual a um luntico, jogo-me sobre 
o sof para delinear um plano. E  ento que a vejo ...
Uma aranha do tamanho de um pires est percorrendo o tapete da sala.
Mas que maravilha.
Agora eu no vou conseguir nem fechar os olhos para dormir. E nem posso fugir para a esquina, para a casa de Janice, porque sei muito bem que ela vai passar a noite 
na casa de Jasper. Ela me disse hoje de manh. Ela disse que pode at precisar ir para a cama com ele. H semanas ela inventa desculpas. De acordo com ela, o batalho 
vermelho tem estado na ativa h um ms, e Jasper est comeando a pensar que ela vive em
menstruao perptua. 
No desespero, ligo para Sam.
- O que voc est fazendo?
- Assistindo a TV
- Na cama? -.
- Ah.
- Por qu?
- O que voc acha de vir at aqui? - Tento evitar que o tom de pnico tome conta da minha voz. Ainda estou vendo a aranha. Est acocorada, nojenta, no meio do tapete. 
Que audcia dessa coisa horrorosa, entrar no meu apartamento e se postar bem na frente da televiso desse jeito. Preciso ficar de olho nela, por mais traumtico 
que isso seja, porque se ela se esconder antes que eu possa me livrar dela, nunca mais vou poder
colocar o p no apartamento.
- Agora? - Ele parece surpreso. - s onze e meia?
- h-h. - Me encolho de pavor quando a criatura horripilante dobra uma pata.
- Algum motivo especial?
- Ah - tento parecer o mais desencanada possvel. - Achei que voc gostaria de bater um papinho. Tomar uma garrafa de vinho. Tenho um Pinot Grigio bem guardadinho 
na geladeira.
- Mas a noite est fria. E estou acabado depois daquela de maitre que dei ontem  noite.
- Meu Deus - gozo da cara dele. - Voc  o maior quadrado.
- No sou nada.
Ele , na verdade. J no sai mais no meio da semana. Anda to ocupado com a RP Freeman que no tem mais tempo de ficar de ressaca.
- A gente podia assistir a Donnie Brasco.
- Mas amanh de manh eu tenho uma reunio muito importante.
- To importante assim?
- Muitssimo. Vou vender meus servios.  um cliente grando mesmo.
- Voc vai ter que ficar puxando o saco deles e tudo o mais?
- E tudo o mais - confirma ele. - De modo que vou ter que deixar o Al Pacino passar desta vez, creio.
- Estraga-prazeres.
- Tudo bem com voc, Simpson?
- Tudo.
- No, no est nada. Voc parece toda abalada.
- Est tudo bem - digo com firmeza.
- Voc no parece nada bem. Isto aqui no tem nada a ver com a gente assistir a um vdeo, no  mesmo?
- No.
- Ento, voc finalmente resolveu que deseja o meu carpinho. - Ele ri. - Acertei?
- Nos seus sonhos, Sam Freeman.
- Ento acho que s pode ser uma coisa - prope ele.
- Acho que sim.
- Tudo bem. - Ele suspira, e eu ouo os barulhos que ele faz ao sair de baixo das cobertas e se levantar da cama. Imagino-o pegando os jeans, que provavelmente estavam 
jogados em cima do sof do quarto dele. Pega uma camiseta branca da pilha
que fica ao lado da porta e cobre o peito bronzeado com ela.
- Qual  o tamanho dela desta vez? - pergunta.
- O qu? -levanto a cabea. Meu Deus, o que eu estou fazendo, pensando no peito de Sam deste jeito? Ser que eu no aprendi nada com Max? Por Deus, Simpson, seja 
sensata.
Saia fora.
- A aranha. - D para ver que ele est se segurando para no rir. - Estou achando que esse  o motivo de toda esta confuso.
- Gigante - choramingo. - D para voc se apressar?
- Gigante como? - pergunta ele, com a risada prontinha para sair no fundo da garganta.
- Do tamanho de um prato de jantar.
- Ento, desta vez, no  a roda de um trator. - Ele ri. - No se preocupe. Jogue um potinho de iogurte ou qualquer coisa assim em cima dela e a gente se v daqui 
a dez minutos.
Fao o que ele manda, usando o potinho de iogurte do lado da minha cama, correndo escada abaixo antes que a aranha suma de vista e o coloco, cheia de aflio, bem 
em cima dela. Ento me encolho no sof molenga, esperando pelo resgate. Quando
Sam entra no apartamento, estou em um sono profundo.
- timo. - Ele me cutuca na cintura. - Apesar de tudo, voc dormiu. Eu nem precisava ter me preocupado.
- Precisava sim.
- Ento, cad a meliante?
_ Ali - digo com a voz trmula, apontando na direo do potinho de iogurte. - E se voc disser que ela est com mais medo de mim do que eu dela, vou dar uma porrada 
em voc. D s uma olhada em mim. Estou tremendo igual gelatina. Minhas pernas se transformaram em palitos de esponja.
Sam sacode a cabea, fingindo seriedade.
- E eu achando que este aqui no era um assunto trivial.
- Ah, pelo amor de Deus, me poupe das piadas do seu pai - reclamo. E no estou brincando, sinto-me abalada de verdade.  um alvio quando Sam, todo  vontade com 
calas de moletom e uma camiseta vermelha desbotada, volta de mos vazias pela parta da cozinha, sacudindo a cabea para mim e sorrindo.
- Foi tudo para o lixo - diz. - A camisinha inclusive.
- Ai meu Deus ...
- Ento, quem foi? - ele me provoca. - Uma entre aquelas centenas de ficadas de uma noite que voc anda planejando, calculo.
- No  da sua conta - respondo, nervosa.
- Bom, pelo menos voc est fazendo sexo seguro.
- Voc no  o meu pai - reclamo. - No  da sua conta mesmo.
- Tudo bem. Tudo bem. - Sam ergue as mos, derrotado. - No vou perguntar nada. Ento, voc vai fazer uma xcara de ch para mim ou no?
- No - respondo. Mas fao, de todo modo, e levo-a at o sof, onde ele se largou de cabea para baixo, com a cabea apoiada na minha almofada cor de chocolate preferida 
e com os ps descalos pendurados sobre as costas do mvel.
- Ento, voc acha que eu me virei bem ontem a noite? - pergunto. Agora que tanto o revoltante Max quanto a terrvel aranha foram embora, posso pensar a respeito 
das conquistas de ontem. A comida estava mesmo muito boa. Pelo menos foi o que todo mundo disse. Eu estou, na verdade, sentindo-me bem orgulhosa. Talvez eu no seja 
urna incompetente total, no final das contas.
- Voc sabe que sim. - Ele faz um cafun afetuoso no meu cabelo. - Voc foi brilhante.
- Tenho mais dois trabalhos na fila, sabia? - informo, toda orgulhosa. - Consegui os dois ontem  noite.
- Excelente.
- O negcio - explico -  que esses casamentos custam urna fortuna para mim. Quando  que eu posso mandar a conta?
Urna risada comea a nascer no peito de Sam e logo chega borbulhando  superfcie.
- Meu Deus, voc no serve mesmo para o mundo real, no ? - Ele se mata de rir. - Voc sabe como as empresas funcionam ou no?
- No - respondo, decidida. - No fao a mnima idia. Voc vai ter que me ajudar com a contabilidade e essas coisas.
- Mande a conta agora - diz Sam. - Assim, pelo menos, voc vai receber daqui a 60 dias.
- O qu? - solto um berro. - Mas eu preciso do dinheiro agora. Se no, no vou poder comprar nem um po, imagine s se vou poder bancar tudo que  preciso para um 
batizado.  daqui a trs semanas. Merda, Sam. Corno  que eu posso ganhar
algum dinheiro rpido? 
Ele me olha de cima a baixo.
- Tirando urnas fotos pelada?
- Primeiro precisaria colocar uns implantes.
-  verdade. Loteria?
- Incerto demais.
- Ento s sobrou um programa de TV - Ele sorri, me puxando na direo dele e me dando um abrao solidrio. V l no Show do Milho, seduza o apresentador e responda 
s perguntas, que so fceis.
- No, no so - digo, tristonha. - Para algum corno eu, no so no.
- Voc  inteligente.
- Mas no tenho nenhum conhecimento geral- fao um muxoxo. - S sei as respostas para perguntas como "Qual  o preo de um rmel e de um esmalte?" e "Em quantas 
cores existem os tnis Nike Air Max?". Acho que isso no vai me ajudar muito, no mesmo.
- No, acho que no - comenta ele. - E um emprstimo? Um emprstimo de pequena empresa. Voc s precisa de um plano claro de negcios e de marketing e pronto, fica 
tudo acertado. Foi assim que eu consegui comear a RP Freeman.
- Meu Deus - grunho. - Seu cafajeste tonto. Por que  que voc tem que ser to sensato?
- Algum aqui tem que ser. E esse algum nunca vai ser voc, no  mesmo?
- Acho que no. Mas falando nisso, no fao a menor idia de corno fazer um desses negcios de plano. A nica coisa que consigo planejar  o que vou comer no jantar. 
Ser que voc no pode fazer isso para mim, enquanto eu assisto  TV?
- No.
- Obrigada - reclamo. - Voc no serve mesmo para nada. Essa coisa toda de servio de buf foi idia sua, como voc bem sabe.
- Acalme-se. - Sam d tapinhas no meu ombro e toma um ruidoso gole de ch. - Eu no disse que no ia ajudar. S disse que no vou fazer para voc. Voc precisa aprender, 
seno nunca vai saber como a coisa toda deve funcionar.
- Ento voc vai me ajudar? - fico mais animada.
- Claro que sim. - Ele me d um abrao ligeiro antes de se levantar e secar a xcara de ch com um ltimo gole. - Voc pode ser urna porra de uma intil, mas  praticamente 
minha irm. Olhe s, me d urna ligada durante a semana e a gente resolve tudo.
- Obrigada - digo, acompanhando-o at a porta. - Ah, e, Sam ...
- Pois no? - Ele se vira, com urna cara esquisita.  a mesma cara que vi atravs da escurido quando dividimos a cama na casa dos pais de Poppy e, por um segundo, 
eu me sinto claramente estranha por dentro. No tenho certeza se gostei ou no da sensao.
- Obrigada por ter me livrado daquela aranha.
- Sempre que precisar, Simpson. - Ele d de ombros, procurando as chaves do carro.

DOZE 





Aposto que Max  um completo filinho-da-mame. Nas semanas seguintes, tento organizar o cardpio para meus dois prximos servios, e ele me liga nada menos do que 
catorze vezes. Fala srio!  suficiente para a gente ficar com vontade de cuspir. Ainda assim, consigo filtrar as ligaes de maneira bem eficiente, at uma quinta-feira, 
quando eu estou meio avoada e simplesmente atendo ao telefone. Sam me emprestou
dinheiro bastante para eu segurar as pontas, de modo que tivesse condies de fornecer a comida para o batizado da pequena Ellis de Lewinshan e espero que seja a 
Sra. Ellis ligando para confirmar o que achou do bolo.
- Katie?
 ele.
- No - quase grito, batendo o telefone na cara dele. Ento ligo para Janice no escritrio dela. Se a linha estiver ocupada, ele no vai ter oportunidade de conseguir 
ligar de novo. Preciso tomar mais cuidado no futuro.
- Eu vi o Max hoje - anuncia, quando v que sou eu. Estou planejando uma sada.
- Que gentileza a sua.
- Por que  que voc est filtrando as ligaes dele?
- Foi ele quem disse isso?
- Foi. Ento, por qu? E no minta.
- No sei. Porque sim?
- Voc  louca.
- Acho que ele contou que a gente trepou?
- Na verdade, no. Mas ele parece gostar de voc um monte. Merda. Todo mundo aqui do trabalho vai ficar morrendo de inveja quando eu contar.
- Podem ficar com ele, se quiserem. Para mim, j deu.
- Mas ele  lindo.
- Ento fique com ele para voc.
- At parece. - Ela ri. - Acho que agora eu estou comprometida.
- Ento voc ficou com ele? O Jasper, quer dizer. No vai mais arrumar uns caras para suprir suas necessidades?
- Foi necessrio - informa ela. - Honestamente, Katie, voc tinha que ter visto. Ele ficou to agradecido que foi pattico.
- Ento, larga dele.
- No d - diz, com firmeza. - Hoje de manh, quando sa, roubei um extrato do banco.
- O que  que voc fez?
- As garotas precisam saber das coisas - ela se defende.
- Voc abriu?
- Claro. E est tudo certo. Ele  cheio da nota.
- Meu Deus. Eu  que queria ser. Ontem  noite, recusaram meu carto de crdito quando eu tentei comprar uma lata de macarro com queijo. No tenho nem 68 centavos. 
S Deus sabe como  que eu vou ter dinheiro para fumar e comprar itens
de higiene pessoal caros. O emprstimo do Sam j est quase acabando.
- Voc est reclamando  toa - comenta, nada solidria. - Preciso ver urna conta nova e estou ficando aqui todo dia at s dez. Deste jeito, nunca vou conseguir 
organizar o casamento.
- Voc vai se casar? - engasgo. Pelo amor de Jesus todo-poderoso. Ela guardou bem o segredo.
- Claro que sim. Por que  que voc acha que eu estou dando para aquele velho caqutico?
- Bom, e quando  o casamento?
- Ah, ele ainda no sabe que vamos nos casar, para dizer a verdade - explica Janice. - Mas vai saber logo. Precisa saber. D uma olhada em mim. Sou um partido.
Fico impressionada com o otimismo dela.
- E quando ele pedir, voc vai querer a coisa completa? De vu e grinalda na igreja e tudo?
- Mas  claro que sim - a voz dela ribomba, quase perfurando meu tmpano. - Meu Deus, se eu comear a convidar um monte de gente, vou ter que chamar a minha me 
tambm, no  mesmo?
- Ah, Janice - digo. - Ela  a sua me.
- Katie, ela ia aparecer l com um vestido florido de tergal e ia ficar fumando a noite inteira. Ela ia me transformar em um show de horrores. No posso me arriscar.
- Mas ...
- Mas nada. Desculpa, Katie, mas no vai dar para agentar ela l me fazendo passar vergonha, reclamando que o gaspacho est frio e perguntando onde fica o "toalete" 
aos berros.
Deixa para l. Encare a coisa. A velha no tem o guarda-roupa adequado, vai ter que ficar em casa. No mesmo. Quando nos casarmos, vai ser em alguma praia em algum 
lugar quente. Quente pra cacete. E eu vou usar um biquni branco e flores no cabelo. Nada de convidados.
- Ah.
- Bom, mas acho que voc pode ir - completa, toda generosa. - J que voc  minha melhor amiga.
- Obrigada. - Sinto-me melhor.
- Se voc puder pagar, claro. Uma passagem de avio para o Hava no sai nada barato.
- Ah.
- Pelo menos no vou ter que me preocupar com voc me fazendo passar vergonha.
- Que bom.
- Quer dizer, no vou ter que me preocupar se o seu cabelo est melhor do que o meu nem nada assim, para comeo de conversa.
A boa e velha Janice. Sempre sabe o que fazer para que eu me sinta melhor.
- E voc pode tirar o cavalinho da chuva, porque tambm nunca vai ficar com um bronzeado melhor do que o meu.
- Mmm.
- Suas pernas vo continuar parecendo duas garrafas de leite quando a gente voltar.
- Obrigada - digo, arrasada.
- Ah, alegre-se, Katie - diz ela, irritada. - Qual  o problema? Voc deveria estar feliz por mim. Acho que voc est sendo um tanto egosta.
- J disse. Estou lisa. E no  um caso de "no posso comprar presunto cru fatiado". - De repente, toda a comoo do meu sucesso no casamento de Poppy se foi e a 
realidade comeou a tomar conta da minha vida. E se eu no tiver a mnima condio de abrir uma empresa? E se o batizado em que vou trabalhar for um fiasco completo 
e eu tiver jogado fora uma fortuna em acar que basta para cobrir o Millenium Dome?
- Bom - comea, toda importante. - Acho que eu tenho uma coisinha aqui que vai deixar voc feliz.
- O qu? - Francamente, duvido muito que ela possa dizer alguma coisa para me alegrar. Os esforos de Janice para me alegrar geralmente envolvem um tempo absurdo 
em lojas carssimas, seguida por uma sesso em um bar qualquer onde cada bebida custa seis libras a dose. E a probabilidade de o banco pagar por essas despesas est 
prxima do zero, portanto acho que vou ter que me conformar com a pobreza durante mais algum
tempo.
- Bom - explica. - Lembra que eu disse que o Jasper tinha um apartamento em Paris?
- Mmmm? - Fico cutucando a unha do dedo do p e inspecionando-a cuidadosamente. Talvez eu consiga mesmo me alegrar no final das contas. Bem que estou precisando 
de um fim de semana prolongado para colocar a cabea no lugar, organizar minhas finanas e fazer com que o meu negcio comece a funcionar de verdade. No tiro frias 
h sculos. Seria fantstico poder relaxar um pouco. Afinal, depois que eu comear a
administrar meu conglomerado de servio de buf, passarei anos sem poder viajar.
Durante um segundo, permito a mim mesma ficar animada. Um passeiozinho em Paris com Janice, que tal? Vamos nos divertir muito. Ela tem passado tanto tempo com Jasper 
nas ltimas semanas que no posso evitar estar me sentindo meio deixada de lado. Especialmente porque George e David esto apaixonados, e a coisa est no ltimo 
do brega. Sinceramente, tudo isso d vontade de vomitar.
E, para ser honesta, agora fiquei um pouco preocupada, ao saber que ela est atrs de uma certido de casamento assinada c selada, com certeza vamos nos afastar 
e, no final, nem vamos saber onde a outra est morando. Mas eu no precisava ficar assim to preocupada. Janice  a minha melhor amiga de todas. Eu devia saber que 
ela nunca se esqueceria de mim.
Meu Deus. Paris. Vai ser exatamente como antigamente. Compras femininas nas Galleries Lafayette. Tardes preguiosas e cheias de fofoca com cafs enormes e espumantes 
nas mos, em um caf de calada. Encher a barriga de croissants de chocolate gigantes e fatias generosas de tarte au citron. Olhar a paisagem de cima da torre Eiffel. 
A vida bomia em Montmartre. Les Tuileries. O Sacr Coeur ...
- E adivinhe s?
- O qu? - Pergunto, to envolvida em minhas divagaes que mal me importo em ouvir o que ela tem a dizer. Podemos at fazer um passeio de barco pelo Sena. Jogar 
um pouco de bocha. E nos embebedar lentamente de pastis antes de mastigar lesmas e bife com fritas em um lindo restaurantezinho cheio de alho em algum lugar qualquer.
- Ele vai me levar para l para um fim de semana romntico. No  fantstico?
Caio da minha nuvem com um baque. Como sou idiota. Claro que ela no queria que eu fosse com ela. Eu j devia saber que a mente de Janice funciona de um jeito esquisito. 
Por que, exatamente, a perspectiva de um fim de semana de sexo enlouquecido para ela deve me deixar feliz, eu nunca vou saber, mas esta  a Janice, s para voc 
saber.
Autocentrada no grau mais elevado.
- Claro que vou ter que transar com ele de novo, acho ela borbulha. - Mas tem boa chance de ele me pedir em casamento, no ? Quer dizer, estamos falando de Paris, 
colega. Quem  que no quer ficar noiva em Paris?  to romntico...
Meu Deus, ela  um caso perdido.
- Janice, voc praticamente tem que colocar um pauzinho de pirulito no pnis dele para ficar duro.
- Mas ele  rico.
- O Jake me levou para Paris - lembro. - E no me pediu em casamento.
- Ele no a levou - ressalta ela. - Ele fez voc pagar sua parte.
 verdade. Fez mesmo. A decepo era palpvel. Naquela poca, eu estava louca para ter um fim de semana prolongado com ele. Achava que, em algum lugar novo, o sexo 
seria mais excitante. E ficava imaginando ns dois decolando de Heathrow e pousando no Charles de Gaulle, onde pularamos para dentro de uma limusine e nos dirigiramos 
para o Georges V. No nosso quarto haveria uma cama com dossel, onde Jake faria coisas erticas imencionveis comigo, com garrafas de champanhe gelado. E seriam as 
melhores frias da minha vida. Inteira. 
Na verdade,  claro que nos dirigimos para o terminal do Eurostar, onde ele comprou o bilhete dele e acenou para que eu losse at l pagar pelo meu. Levou-me para 
um hotelzinho qualquer perto do Bois de Boulogne. Cheio de putas e a quilmetros de distncia de qualquer coisa. De qualquer coisa legal, de todo modo. Era brega 
de doer. Ficamos bbados com copos de chope de meio pint porque era tudo que o hotel tinha e o sexo que se seguiu foi to pattico que eu dormi no meio. S sei disso 
porque, de to bbada, soltei uns roncos bem altos e acordei, s para descobrir que a minha soneca no tinha feito com que Jake interrompesse sua busca egosta pelo 
orgasmo. Deixei que ele terminasse o servio, e ca em um sono de cachoeiras gorgolejantes e oceanos tempestuosos at que, nas primeiras horas da madrugada, acordei 
e descobri que estava toda molhada, pingava gua em cima de mim.
E, calmo como tudo, l estava Jake em cima de mim, me presenteando com uma chuva dourada.
Francamente, se eu estivesse a fim de esportes aquticos, teria ido para o Algarve.
- Jake! - gritei, me desvencilhando dele.
- Estou no banheiro - ele berrou de volta, claramente em um sono bem pesado. - Saio em um minuto.
Apesar de eu saber que o fim de semana de Janice provavelmente no v ser muito mais romntico do que o meu, no consigo evitar o sentimento de que a minha situao 
est bem pior do que a dela. No tenho dinheiro nem para pagar um passeio de um dia ao interior. E no tenho a mnima idia do que vou fazer a esse respeito. Ento, 
depois de colocar o telefone no gancho, preparo para mim mesma um sanduche qualquer de queijo, pimento e pasta de amendoim e ligo a TV para assistir a um programa 
vespertino feminino, desses em que mulheres com leggings de nilon discutem os problemas dos adolescentes: as filhas desviadas e os filhos com o rosto coberto de 
espinhas.
Sam, no entanto, cumpre sua palavra. Na manh de sbado, liga para a minha casa para ter certeza de que eu vou me levantar, ento aparece l com calas Levis novas, 
uma camiseta cinza com gola em V e um bon dos New York Yankees para me explicar como os adultos pedem um emprstimo.
- Voc est bonito - digo, virando o bon dele para trs. - Um bom modelo para o fim de semana.
- Voc tambm no est nada mal. - Ele me d um abrao e ri porque ainda estou com meu pijama branco e rosa listrado, toda sonolenta. - Vamos l, bafo de travesseiro. 
Vamos arrumar esta baguna.
Deus o abenoe. Ele passa toda a manh e boa parte da tarde me ajudando a definir meus objetivos. Na verdade, ele praticamente tem que me dizer quais so os meus 
objetivos, mas ajuda muito mesmo. s quatro da tarde, tenho em mos o que ele diz ser um slido plano de negcios. E me sinto to otimista que me ofereo para fazer 
um jantar para ele nesta noite, como uma espcie de agradecimento.
- Vai ter que ser feijo com torrada, alis - explico. - A no ser que voc esteja a fim de pagar.
- Ah, desculpe. - Ele parece meio envergonhado.
- Por qu? - preciso perguntar, apesar de isso no ser mesmo da minha conta.
- Bom, eu marquei de sair com algum.
- Sei. - Por alguma razo, fico absolutamente puta da vida. No  sempre que Sam rejeita meus convites para jantar. Ele prefere arrancar o p a dentadas e dar para 
os vira-latas da rua mastigarem do que perder um dos meus banquetes improvisados.
- Com a Shana. A garota do casamento. Ela me ligou h um tem pinho. Vamos a algum clube da moda no West End.
- Ah - digo como quem no quer nada. - Largou a despeitada e catou essa da, hein? Mas voc detesta sair para danar.
- No  verdade.
- Comigo, voc detesta. Sempre se recusa a ir.
- Porque voc e o George sempre me obrigam a ir a clubes gays. E sempre ficam dando em cima de mim.
- No seja to homofbico.
- No sou. Eu s...
- Bom, de qualquer jeito - dou de ombros -, obrigada pela ajuda.
- Mas eu no preciso sair agora.
- Acho que  melhor assim - digo, e acho necessrio concluir: - Acho que estou ocupada, alis, bem ocupada. Mas muito obrigada mesmo por toda a ajuda.
- Mas ...
- Tchau.
Depois que ele vai embora, eu me jogo na cama e fico olhando para meu enorme globo espelhado, imaginando que diabos me fez agir daquela maneira. S estou meio puta 
da vida porque ele j deve saber deste encontro h uma semana inteira. E nem se deu ao trabalho de me contar. Eu conto tudo para ele. Bom, quase tudo. E devo estar 
me protegendo, acho. No gosto de Shana. Acho que ela no  uma pessoa muito legal. E Sam  como um irmo mais velho para mim. No quero que ele leve um p na bunda.
Apesar de geralmente ser ele quem d o p na bunda.



O banco marca minha reunio para a prxima quarta-feira. E, quando o dia chega, coloco meu tailleur mais fino. Tem uma manchinha de frango madras na coxa esquerda, 
mas, se eu no tirar o palet, no vai aparecer.
Afinal, este emprstimo  a minha ltima chance. Minha chance de fazer com que minha me tenha orgulho de mim. Afinal, isso  o mnimo que ela merece. S Deus sabe, 
desde que papai foi embora, ela fez sacrifcios demais por mim. A ltima coisa que ela desejaria  uma filha que fica em casa o dia inteiro assistindo novelas.
Falando nisso, a minha vida seria muito mais fcil se ela tivesse simplesmente largado mo. A eu poderia ser um fracasso completo sem me sentir culpada. Que droga. 
Por que  que ela no me rejeitou assim que eu nasci? Por que no levantou a mo e avisou para a parteira: "Desculpe, mas eu no consigo estabelecer uma conexo 
com esta criana. Pode mandar para a adoo." Ou por que simplesmente no me deixou dentro de uma caixa grande na frente de um hospital? Por que  que ela tem que 
ser to presente, por que  que ela tem que me apoiar o tempo todo?  irritante. Ela no faz idia da presso que isso exerce sobre mim.
No banco, preciso ficar esperando uma boa hora do lado de fora do escritrio da Gerente de Emprstimos. Estava pensando em dar o fora dali e mentir para Sam bem 
na hora em que um homem abre a porta e espia para fora.
- A senhora Faulkner vai receb-la agora.
Droga.
- Perdoe-me. - Ele coa a testa. - No  mais Faulkner. Voltamos para Brisco. Eu sempre esqueo, sabe como .
- Certo. - Dou de ombros, pego minha mochila e no me sinto nem um pouquinho profissional. No fao absolutamente a mnima idia do que ele est dizendo. Mas Faulkner. 
Aquele nome me diz alguma coisa. Por qu? Fico me perguntando.
Droga. Espero que no seja alguma amiga da minha me.
- Sente-se. - A gerente aponta uma cadeira de plstico cor de laranja na frente da mesa dela. Quanta classe.
Ergo os olhos, cheia de expectativa. Quem fala primeiro? No fao idia do que vai acontecer. Mas que porra. Onde foi que eu j vi aquele rosto? Pelo menos no  
nenhuma amiga da minha me. Ela  nova demais para isso. Ela  alta, extremamente alinhada e tem o cabelo preso em uma banana. Talvez trabalhasse como caixa em algum 
supermercado. Ou em uma loja de vinhos. Deve ser isso.
- Bom dia, senhora ...?
- Simpson - lembro a ela. Por Deus. Ela poderia pelo menos ter feito a lio de casa.
- E para que a senhora deseja um emprstimo?
- Quero abrir minha prpria empresa.
Ela fica olhando para mim como se estivesse caoando da minha cara, como se eu tivesse acabado de dizer que queria uma grana para fazer estoque de Bacardi, Coca-Cola 
e rmel azul.
- Bom,  isso mesmo. - Pega um lpis. - Geralmente  por isso que as pessoas vm aqui.
- E eu quero mesmo que d certo - digo, quase cuspindo.
- No  o que todos querem?
Ignoro o comentrio. Porque, no momento em que articulo as palavras, percebo que quero, quero mesmo. Vou fazer com que isso d certo, faa chuva ou faa sol.
Ela olha para mim e morde a pontinha do lpis. Ento olha para mim de novo, desvia o olhar e olha de novo, abismada.
- Acho que ns nos conhecemos, no  mesmo?
- Acho que sim, de fato - digo rapidamente, contente.
Talvez isso me garanta algum tipo de vantagem para conseguir o emprstimo. - Ser que fizemos a mesma faculdade?
- Ah no - interrompe ela. - Acho que foi algo mais recente do que isso.
- Perdo, eu no ...
- Ah, sim. Eu reconheceria seu rosto em qualquer lugar diz, com desdm.
- Perdo?
- S preciso olhar as fotografias do meu casamento para ver voc e aquele seu amigo exibindo aquelas calas horrorosas, bem  vontade.
E da a ficha cai. Claro. Sei exatamente quem ela .
Caralho.
 a noiva de Basildon.
- Foi uma boa lembrancinha do meu casamento, devo dizer - ela rosna. - Alis, a nica.
- Ah, certo - engasgo. - E como vai o seu... hmm ... marido?
- Ex-marido - ela cospe. - Estamos nos divorciando. Peguei ele encoxando uma das madrinhas trs dias depois de voltarmos da lua-de-mel. Estou pedindo a metade de 
tudo, claro.
- Claro.
- Ento, que tal? - pergunta ela.
- Sua lua-de-mel? Como  que eu vou saber?
- Transar com o meu marido?
Como  que ela acha que eu vou saber isso, no fao a mnima idia. Ela acabou comigo. Fez minha cara cair no cho. De modo que no respondo. Em vez disso, eu me 
levanto, puxo a jaqueta para baixo para esconder a mancha de curry e sinto minhas bochechas queimarem.
- Acho que devo ir indo.
- Voc  bem perspicaz.
Quando alcano a porta, acho que vale a pena fazer uma ltima tentativa.
- Acho que no tenho a mnima chance de conseguir um emprstimo, no ?
- Voc  mesmo muito perspicaz - responde. - Agora, v se foder.







TREZE 




Quando digo a Sam que no consegui o emprstimo, ele se mostra solidrio.
Mdio.
- Vamos l. - E me d um abrao. Ele estava jogando futebol e est com cheiro de quem ficou ao ar livre.
- Sou um fracasso.
- No  no.
- Sou sim. No consegui o emprstimo.
- Sinto muito. - Ele parece preocupado. - Foi por que ...
- No se preocupe - trato logo de assegurar. - No foi seu plano de negcios. Acho que sou mesmo muito azarada. A mulher do emprstimo era aquela do casamento.
- Do casamento da Poppy?
- No. Daquele casamento que eu entrei de bicona. A do marido que eu tracei.
- Ai meu Deus.
- No fica com essa cara de quem est tentando no rir.
- Ah. Tudo bem.
- Voc continua com essa cara.
- No posso evitar. - O sorriso aberto de Sam explode em seu rosto mais uma vez. - S voc mesma para ferrar com alguma coisa de modo to profissional. E com tanto 
estilo.
- Obrigada.
- Sinto muito. - Ele d um sorriso amarelo. - Mas  engraado. Quer ch?
- Preferia uma pizza - confesso.
- As coisas devem estar mal mesmo.
Fao uma careta. Para ele,  fcil falar. Tudo em que pe a mo d certo. Todo mundo fica to envolvido com o entusiasmo dele que  impossvel no o ajudarem a fazer 
sua vida mais fcil. Eu s consigo demonstrar entusiasmo por bolo. E curry. E batatinhas fritas. A aptido natural de Sam de puxar o saco e de concordar com os outros 
(ele s fica l sentado, assentindo com a cabea, mesmo que esteja com vontade de enfiar a mo na cara de seu interlocutor) o coloca em uma boa posio no que diz 
respeito a sua carreira. Se ele resolvesse entrar no servio de buf amanh, pode ter certeza de que a empresa dele teria muito mais sucesso do que a minha jamais 
ter. Apesar de eu cozinhar melhor.
Sam remexe nos folhetos jogados dentro da gaveta de talheres at encontrar um menu de pizzaria que entrega em casa. Coloca o telefone em viva-voz e disca.
- Al. Gostaria de pedir uma pizza, por favor.
Apesar do meu mau-humor, abafo uma risadinha. O jeito como as pessoas sempre dizem isso  mesmo muito engraado. Como se o cara da pizzaria achasse que algum ligaria 
para ele para pedir um reboque para o carro quebrado. Ou que precisa de um txi porque sua mulher est dando  luz e se ele no chegar em cinco minutos, a moblia 
vai ficar toda manchada.
- Ah, grande, com certeza - Sam diz para o homem do outro lado da linha. - Seria realmente fantstico, se voc tivesse. Voc tem? Maravilha. Bom, ento a gente quer 
uma extragrande de queijo e tomate ...
- Massa fina - ressalto.
- Massa fina, por favor. Com ...
- Anchovas.
- Voc escutou? - ele diz para o atendente. - Queremos algumas das suas melhores anchovas para a dama e talvez alguns pedaos de abacaxi para combinar.
Fazemos o jogo da pizza desde que tnhamos uns 12 anos, cada um tinha que inventar uma cobertura mais esquisita que a outra e desafiar o outro a pedi-Ia. E, como 
eu estou triste, posso fazer todas as escolhas. Estas so as regras.
- E pimento - peo, remexendo em um plo encravado novo no meu joelho.
- Pimentes tambm, por favor - Sam orienta o atendente. - E, para dar um ar sofisticado, talvez seja bom acrescentar alguns coraes de alcachofra.
- Presunto de Parma - dou risada, comeando a examinar minha outra perna. - E queijo apimentado e acebolado extra. E alcaparras.
- Voc est anotando tudo isto? - Sam pergunta para o cara da pizza. - No, no  piada.  que temos aqui uma dama muito esfomeada, s isso. E ela est com muita 
fome mesmo.
Passou a manh inteira pensando que precisa trabalhar para sobreviver, por isso ela est absolutamente exausta.
- V se foder. - Dou risada, esquecida de que o cara da pizza tambm est me ouvindo.
- No, sou eu que ela est mandando se foder - Sam explica. - No  voc.
- Ervilhas - interrompo. - Adoro pizza com ervilha. E ao curry.
- Curry? Ah no, desculpe, no queremos curry na pizza, mas queremos ervilhas, por favor. E um pouco de atum e uns cogumelos.
- E queijo de cabra - digo. - Pergunte se eles tm queijo de cabra.
- Queijo de cabra, ento. E talvez uns camarezinhos espalhados por cima?
- Eu detesto camaro - lembro a ele. - Umas vrgulas nojentinhas rosadas que tm sabor de esgoto.
- Est certo, desculpe, esquea os camares. No, volte um pouco a fita e coloque camares s em uma metade.
E assim por diante, at que escolhemos umas 20 coberturas diferentes cada um e o cara da pizza do outro lado nos diz com firmeza que a dupla chocolate e banana passa 
dos limites e que no d para jogar M&M's por cima de tudo, no.
- Como  que eu nunca consigo fazer isso com nenhuma das minhas namoradas? - Sam me pergunta mais tarde, enquanto deglutimos a tal pizza que, quando chega,  do 
tamanho de uma tampa de lata de lixo.
- Porque voc sempre d preferncia s anorxicas - informo, com frieza, tirando um camaro intrometido da minha quarta fatia de pizza e jogando-o de volta para 
a caixa. - Tipo aquela tal de Shana. s vezes voc  to cego. Voc acha mesmo que elas nascem com aquelas coxas da espessura de cordas de pular?
- Bom, voc nasceu. - Sam arruma o cabelo alourado dentro do bon de beisebol e olha para as minhas pernas. Pela quantidade que come, j devia estar do tamanho de 
um prdio de apartamentos a esta altura.
- Bom, j que voc mencionou, quando entro no supermercado, nunca ouo aquelas balanas falantes reclamarem. No mesmo. - Dou risada, olhando para as minhas pernas.
-  mesmo,  bem improvvel- Sam se junta a mim, rindo.
- Mas no sou to magra assim - digo, para me defender. - Quer dizer, no tenho SCG.
- H?
- SCG. Sndrome da Cabea Grande. Quer dizer, no pareo uma bola de futebol enfiada na ponta de uma lana, pareo?
- De jeito nenhum.
- Bom, ento pronto - digo. - Fazer regime  uma chatice, Sam. Ficar contando unidades de gordura  ainda mais chato do que assistir  televiso  noite. Ento, 
nem se preocupe
com isso. Eu gosto mesmo  de comer muito.
- Meu Deus. - Sam rola para o cho e sorri para mim. Por que  que todas as mulheres no so iguais a voc? As que eu costumo levar para jantar comem um aspargo 
e dizem que esto satisfeitas. Gasto uma fortuna em comida que vai para o lixo.
- E quando a gente pensa em todas aquelas pessoas que morrem de fome na frica - digo -,  um crime. Bom, eu detesto desperdcio.
-  mesmo?
- Com toda certeza. - Sorrio, sentindo-me muito melhor agora. - E  exatamente por isso que vou comer o ltimo pedao de pizza.
- Voc est se achando, hein? - A cabea de Sam se volta na direo da caixa onde repousa a ltima fatia, uma tentao coberta de queijo derretido com cheiro de 
cebola frita.
- Ah, estou sim - digo a ele. -  minha. Tem meu nome escrito.
- Tem certeza?
- Absoluta - digo. - Eu que vou comer.
- No se eu chegar primeiro.
Ns dois pulamos em cima da caixa e lutamos para pegar o ltimo pedao, at que eu escorrego no cho encerado de Sam e caio, de bunda, com as costas em cima da caixa 
de pizza. No trajeto descendente, puxo a parte da frente do moletom de Sam e acabo derrubando-o junto comigo. Durante uma frao de segundo, ficamos um em cima do 
outro em um tipo de agarrao farsesca.
Rapidamente me sento, empurrando-o para o cho.
- Sai fora. Seu cabelo est fazendo ccegas no meu nariz. 
Ele se afasta de mim, rindo.
- Ah, meu Deus.
- O qu?
- Acho que nenhum de ns vai comer esta pizza agora. A maior parte ficou grudada na parte de trs da sua cabea.
- Eca.
Enquanto eu vou tirando o grosso, Sam faz uma cara profundamente pensativa, como se de repente tivesse tido um idia surpreendente.
- O que foi? - pergunto. - No v me dizer que voc achou a soluo de todos os meus problemas no fundo de uma caixa de pizza.
- No - responde ele lentamente. - Mas tive uma idia.
- O qu?
- Por que voc no se muda para c?
- E por que caralho eu ia querer fazer isso?
- No estou falando para voc vir morar comigo desse jeito - ele se apressa a me assegurar. - A no ser que voc queira, claro.
- Voc o qu?
- Estou brincando - diz rapidinho. - Mas voc bem que podia ficar com o quarto extra, no  mesmo? Assim voc economizaria no aluguel at o seu negcio deslanchar. 
E at podia usar o estdio como escritrio.
- Consigo me virar sozinha, obrigada.
- Simpson, no seja to cabea-dura. - Sam comea a tirar pedaos de mussarela do cho. - Voc acabou de dizer que no tem dinheiro. E eu no posso mais emprestar, 
porque tudo que tenho est comprometido com a casa. E com a minha empresa. Mas posso dividir a minha casa com voc, para voc economizar. Vamos l, Simpson. Voc 
no tem muita escolha. A menos que voc esteja a fim de voltar a trabalhar para algum.
E voc sabe muito bem que no quer.
- E quem  voc para dizer o que eu quero ou no quero? - digo com os dentes cerrados. Isso  bem tpico de Sam, tentar me controlar deste jeito. Ele tem feito isso 
desde que o meu pai sumiu com sua tentao oriental.
- Bom, eu ... - ele parece surpreso com o tom da minha voz.
- Bom o qu?
- S achei que era o melhor a fazer.
- L vem voc de novo - estouro. - Achando que  o meu pai. Bom, eu sou vrios meses mais velha do que voc, Sam Freeman, no se esquea disso.
- No seja petulante.
- Ento v se pra de me pentelhar.
Sei que pareo mal agradecida. Mas no quero abrir mo da minha independncia. No consigo imaginar nada pior do que morar no apartamento de algum, ter que fazer 
turnos na cozinha para preparar o jantar, ficar tentando ser discreta para no atrapalhar e ter que perder a novela porque os amigos dele esto jogando Grand Theft 
Auto no PlayStation 2. E o problema de Sam  que ele simplesmente no vai me deixar em paz. Ele vai achar que  da conta dele se meter em cada detalhe da minha vida, 
"s para ver se est tudo bem". E se eu quero mesmo abrir minha empresa, preciso sentir que posso fazer coisas por mim mesma. Sem ter alguma figura paterna sempre 
tomando conta de mim.
E  claro que no  s por isso. Tem ainda o fator Shana. Se li Meu Querido Pnei comeasse a passar um tempo aqui, eu ia ter que parar de respirar ou qualquer coisa 
parecida.
- Ento voc acha que eu devo abrir mo do meu apartamento? - pergunto, com frieza.
- Se for preciso, acho que sim.
- Para sua informao, no  "preciso" fazer nada. Eu posso fazer o que eu bem entender. Tenho 30 anos de idade.
- Ento ponha a mo na massa.
- V se catar - digo. - Ou, pensando melhor, eu  que vou dar o fora. Afinal, a casa  sua.
- Fique.
Acalmo-me um pouco depois que Sam me d um cigarro. Hoje em dia no estou podendo comprar para mim. E acho que foi legal da parte dele oferecer. Afinal, s estava 
tentando ajudar.  que eu simplesmente no consigo aceitar a idia de que
preciso de ajuda. Depois de tudo que eu passei com a porra do Jake Carpenter, preciso acreditar que consigo me virar sozinha.
- Est melhor? - pergunta ele quando dou uma tragada profunda. 
-T.
- Que bom. - Ele sorri, obviamente aliviado de ver que estou mais calma, - Quer alguns para levar para casa? Acho que voc no est podendo pagar por este tipo de 
luxo hoje em dia.
De repente, um claro branco de fria explode no meu peito, e at mesmo eu fico surpresa.
- Para mim, deu. - Levanto de um pulo, jogando o cigarro aceso no cho e colocando o casaco.
- No faa isso.
- Por que no? - Aceno com a cabea na direo da bituca de cigarro. - Isso a no tem mais utilidade para mim.
- Quer dizer - Sam pega a ponta acesa e joga no cinzeiro -, no v embora. Vamos esclarecer as coisas.
- No preciso esclarecer nada, muito obrigada - digo. Especialmente com voc. No vou ficar aqui para ser tratada como alguma porra de um caso de caridade. Por acaso 
voc j
me viu vagando na porta do supermercado com uma latinha na mo, vendendo selos?
- No, mas... eu s pensei que...
- O problema - cutuco o peito dele com o indicador -  que voc no pensou muito bem, no  mesmo? Se pensasse, teria percebido que fez com que eu me sentisse deste 
tamaninho.
- Mostro meu polegar e indicador separados por um centmetro de distncia.
- Eu s estava tentando ajudar - ele reclama quando abro a porta da frente e saio para o sol de vero.
- No preciso da sua ajuda.
- Ento, o que exatamente voc pretende fazer? Ir para a casa da mame? Voc no vai conseguir ficar morando naquele apartamento sem trabalho. Voc sabe muito bem 
disso. Seu aluguel  caro demais para uma pessoa s.
- Bom, eu no exatamente obriguei a Janice a se mudar, no foi?
- E voc tambm no tentou procurar algum para substitu-la, no foi?
- V se foder, Sam, - Agora j estou gritando. - Eu no preciso substitu-Ia se eu no quiser. Eu fao o que eu bem entender.
- Ah, veja se cresce - ouo-o dizer logo antes de bater a porta na cara dele. Abro a portinhola de cartas.
- Voc  que tem que crescer - grito atravs do buraco, e saio batendo o p, quase dando de cara com a cerca-viva.
Quando chego  rua, olho para trs. Ele est parado na janela, com uma cara estranha (de desprezo, talvez).
- E no me chame de Simpson - berro o mais alto que consigo.
Deso a Hearnville Row espumando de raiva. E, crescer? Quem diabos ele pensa que ? S porque ele joga aquele sorriso horroroso de apresentador de televiso para 
qualquer mulher que tem o azar de cruzar o caminho dele, comigo no vai funcionar. S me irrita. E outra coisa que me irrita profundamente, digo a mim mesma, quando 
passo por dois homens de meia-idade que aproveitam o sol no parque de Clapham Common, 
que, no minuto em que o sol mostra as caras, todo mundo na capital parece achar que no h problema em se comportar como se tivesse passado por uma espcie de lobotomia 
na parte do crebro que controla o gosto. Por que  que caras com pernas
gordinhas, curtas e peludas acham que podem usar shorts o dia inteiro s porque a temperatura est acima dos 20C?
Quando abro a porta do meu apartamento, ainda estou fumegando de dio. E da que eu no tenho emprego? Isso s quer dizer que posso passar o resto da tarde engolindo 
macarro instantneo salgado demais e assistindo a programas pssimos na televiso. E  exatamente o que fao.
Algumas horas depois, estou entretida com algum documentrio de cmera escondida quando o telefone estrila e, provavelmente porque estou pelo pescoo da minha prpria 
companhia e estou me sentindo irrequieta e meio tensa por causa da discusso com Sam, resolvo atender  porcaria para variar, apesar de o bom-senso me avisar que 
devo evitar todos os telefonemas no futuro imediato, at que Max enfie na cabea que eu no
quero mais saber dele.
No  Max.  George, que exige minha presena imediata na parte mais chique de Islington.
- No d - balbucio, olhando para as calas de moletom cinzentas e a camiseta do Wham! "Choose Life" com que me arrasto pelo apartamento, sem vergonha nenhuma. - 
Acho que no posso sair de casa at descobrir se a famlia Harris, de Weston Super-Mare, vai ou no perder o avio. O Sr. Harris s tem meia hora para voltar ao 
aeroporto com o passaporte do pequeno Callum e, se no conseguir, vo perder a viagem de frias. Um ano inteiro de economia vai pelo cano. Estou aqui morrendo de 
ansiedade.
- Por favor? - George parece ansioso. -  importante.
- As frias dos Harris em Mallorca tambm so - brinco. - Pelo menos para eles.  a primeira vez que tm dinheiro para viajar para o exterior.
- Por favorzinho? - suplica ele. - Com mais cem mil por favores?
Caramba. No  muito do feitio de George dizer por favor durante uma conversa. Duas vezes  inimaginvel. Alguma coisa muito horrorosa deve ter acontecido.
- Tudo bem. No precisa se descabelar. Ah, olha s. Ele voltou.
- Quem?
- O Sr. Harris. J est bem acomodadinho na poltrona dele. Graas a Deus. Agora s preciso ver se Denise Mason, de 19 anos, de Hertford, consegue pegar o vo para 
o qual est na fila de espera e pronto.
- Katie...
- Desculpa. Voc vai me contar o que aconteceu?
- No posso falar pelo telefone. - George fica todo mistrio. - S prometa que voc vem, querida. Preciso da sua ajuda.
Bom, isso  bem diferente. Faz sculos que ningum precisa de minha ajuda. Nem a minha me. Por alguma razo, faz umas duas semanas que ela nem se d ao trabalho 
de ligar. E preciso reconhecer que estou um pouquinhozinho curiosa. Normalmente, George no consegue ficar de boca fechada nem um segundo. Portanto o fato de ele 
ter se recusado a me contar pelo telefone o que  que o est incomodando prende a minha ateno mais do que um episdio de Dawson's Creek. Talvez seja alguma coisa 
animada e ilegal.
Meu Deus, espero que sim. Qualquer coisa para me alegrar um pouco.
- Onde  que a gente se encontra?
- No caf italiano na Upper Street. Aquele de que a gente gosta, com o cardpio caro e os garons morenos, e no aquele de que a gente no gosta, com aquelas toalhas 
vermelhas xadrezes horrorosas e velas em garrafas.
- O David tambm vai estar presente?
- Claro que sim - diz, todo exibido. - Nos encontramos l, querida. E esteja fantstica, querida. No quero v-la de novo com cara de mamute que tomou cido. Isto 
 muito importante.
Depois que ele desliga, olho para minhas roupas pudas de ficar em casa. Bom, ento eu no posso sair com cara de mulher das cavernas. E, mais importante de tudo, 
ser que tenho a matria-prima para conseguir isso? As calcinhas esto escassas. As calcinhas limpas, ento, nem se fala. Acho que usei a ltima que dava para o 
gasto com Max. Est mesmo na hora de eu lavar roupa, mas tenho muita coisa em que pensar neste momento.
Desalojo Shish Kebab de onde est bem acomodado dormindo na minha gaveta de lingerie e comeo a remex-la, deparo com um monte de calcinhas encardidas e alguns sutis 
com a ala esgarada. No fim, resolvo que um mai transparente branco e rosa listrado  a coisa mais decente ali. Atiro por cima uma camisa de linho rosa-shocking 
que estava jogada ao p da cama, dou uma cheirada para ver se no est com cheiro
de comida de delivery ou algo pior, mas em vez disso sinto um delicioso cheiro de Comfort, que significa que s est amassada porque no tive saco de pendurar depois 
de lavar. Junto a ela calas tipo cargo pretas de lona, depois de tirar com uma toalha uma manchinha de ketchup e verificar se no tem nenhuma meia ou calcinha dentro 
dela que pode cismar de escapar pela barra assim que eu entrar no metr latada. Virando-me para o espelho, tiro um pedao de macarro do cabelo e prendo os cachos 
no alto da cabea, com um frufru verde-limo, deixando s algumas mechas acobreadas caindo. Minha pele est oleosa e cinzenta, de modo que passo um pouco de blush 
rosa nas bochechas, passo um pouco de batom cor de boca e, antes que perceba, j estou no piloto automtico.
Afinal, saio na estao Angel do metr, viro  direita na Islington High Street e me dirijo ao restaurante italiano preferido de George na Upper Street.
- Vim o mais rpido que pude - digo, dirigindo-me para o canto do ptio ensolarado onde George e David esto fofocando com uma garrafa pela metade de Pinot Grigio 
e uma travessinha cheia de azeitonas verdes brilhantes e rechonchudas entre eles.
- Nem precisa dizer, querida - George d risadinhas. - Aaah, meu Deus. - Ele me olha de cima a baixo com o escrnio que s um esnobe profissional consegue demonstrar. 
- Meu
Deus,voc est meio horrorosa. No est, David? O que aconteceu?
- Fim de semana agitado - minto, pegando o copo extra que eles colocaram para mim e despejando uma quantidade copiosa de vinho dentro dele.
- Ah, sei. - George parece incrdulo.
- Bom - reconheo -,  que eu no estou mais acostumada a sair muito, s isso. Nada de mais, percebe? E hoje estou um pouco puta da vida.
- D para perceber-diz George. - Sua cara est parecendo de novo uma bunda que levou umas palmadas. O que foi?
- Briguei com o Sam.
- Quando  que vocs dois vo reconhecer que gostam um do outro e se matar de trepar logo de uma vez? - pergunta George. - Tirar a coisa toda do seu sistema?
- Mas eu no gosto dele - digo. - Ele acha que  a porra do meu pai, para comeo de conversa. E agora ele me deixou puta da vida de verdade. Ele pegou e me chamou 
para morar com ele.
- Eu disse - George sibila. - Ele ama voc.
- No foi assim, seu retardado. - Dou de ombros. - Ele s quer ficar de olho em mim porque acha que eu estou pobre.
- Tome mais um pouco de vinho - David oferece com gentileza, erguendo a garrafa e colocando mais no meu copo. E belisque um pouquinho tambm. Voc gosta de azeitona? 
No me lembro, Tem tambm anchovas marinadas, se voc preferir.
Relaxo, jogando a cabeleira para trs para apreciar o sol que esquenta meu rosto.
- No exagere - George avisa. - O visual de lagosta cozida no est com nada.
No lado oposto do ptio, um garom delicioso conduz uma moa alta e magra com um vestido esvoaante rosa-escuro at uma mesa ao lado do muro coberto de madressilvas. 
O cabelo dela, que cai sobre as costas como uma folha brilhante, tem cor de melao dourado e ela est perfeitamente arrumada. Tem algo nela que me faz observ-la, 
e no posso deixar de jogar um joguinho comigo mesma, imaginando quem  que ela est esperando. Pela maneira como fica conferindo o gloss nos lbios e olhando para 
o relgio, deve ser algum especial.
Esta  a melhor coisa a respeito de no ter namorado. Pelo menos no preciso ficar me torturando com o medo disfarado de que  por causa dele que ela est passando 
mais maquiagem.
George completa meu copo de vinho pela segunda vez, e na frao de segundo que demora at eu olhar para ele e tomar um gole, o pretendente da Vestido de Groselha 
acaba de chegar e se inclina para lhe dar um beijo na bochecha.
De alguma forma, ele parece muito familiar.
Absurdamente familiar, na verdade.
Quando se vira para chamar o garom, consigo ver de relance o perfil dele.
E, com um lampejo de reconhecimento, quase comeo a gritar.
 Jasper.
Caralho!
- Certo, vamos l, garotas, contem tudo - suplico, antes que os rapazes reparem nele. No posso arriscar a possibilidade de darem uma surra nele. Se algum vai informar 
a Janice a respeito deste pequeno rendez-vous, pode ter certeza de que vou ser eu.
 E  claro que talvez nem seja ele. Afinal, eu s vi o cara de perfil. E, mesmo que seja ele, pode ser que a Vestido de Groselha no seja uma pulada de muro. Ela 
pode ser a filha, at onde eu sei. Ento no  muito bonito ir logo tirando minhas concluses.
Quer dizer, j os vi se beijando, mas com certeza lnguas no estavam envolvidas, Pode ser alguma coisa perfeitamente inocente.
Ou no.
Ainda assim, no quero que ele me veja, de modo que, cuidadosamente, evito olhar direto para ele, fico irrequieta na cadeira e acabo com dor nas costas, e pergunto 
aos rapazes por que diabos me arrastam por meia Londres em uma tarde preguiosa de domingo, quando eu poderia estar fazendo algo muito mais produtivo, como depilar 
a xoxota.
- Bom, fale logo - implora George. David trata logo de enfiar uma anchova na boca, para no precisar falar.
- Ah, caralho. - George passa a mo no cabelo aveludado tenta parecer srio. No combina com ele. - Temos uma proposta para voc.
- No fao mnage  trais, vou logo avisando.
Pelo menos, acho que no. Pode-se dizer, razoavelmente, que eu acho os dois bem gostosinhos, mas isso me parece um tantinho srdido.
Por outro lado, seria uma grande contribuio para o ano magro. Mas eu no sou mesmo esse tipo de mulher.
- Por Deus, no. - George parece chocado.
Bom, ento tudo bem.
- Por acaso a gente est com cara disso? - pergunta. - No. Desculpe, fofa, mas acho que ainda no estamos prontos para morder o tapete. Ento, o que a gente queria 
dizer era...
- Sim? - dou uma fora. - No  mais uma vez aquela histria de Aluguel de tero, ? Porque j lhe dei a minha opinio a este respeito.
George respira fundo.
- Katie - comea ele, e eu preciso fazer um esforo gargantuesco para no me mijar de rir da expresso no rosto dele.
- Que tal... casamento?
J estou rindo.
- Ah, George. Esta  a coisa mais romntica que algum j me disse na vida.
E  mesmo. Sabe, sou inocente o bastante para achar que ele est falando de maneira metafrica. A idia de ns trs sermos amigos. Juntos o tempo todo. Um apoiando 
o outro. Exatamente como um casamento deve ser, mas que raramente  hoje em dia.
E  exatamente por isso que eu no fico preocupada. Ento, a perspectiva de fazer um pacto de amizade com David e George  a oferta mais generosa que me foi feita 
em muito tempo. Fico superanimada. Nem ligo de no estar includa na parte sexual.
Afinal, muita gente se casa de verdade e se esquece de todos os outros significados que a palavra tem. E nunca transa.
Bom, no um com o outro, de qualquer forma.
Nem passa pela minha cabea, nem por um minuto, que George esteja falando literalmente. Em um cenrio do tipo com toda a indumentria: vestido bufante, tiara ridcula 
na cabea e percorrendo a igreja para assinar sobre a linha pontilhada de
um papel e dar tchauzinho para todo o resto da vida.
Claro que no quer que eu me case com os dois, como explica depois de pedirem um prato de cabelo-de-anjo de massa negra, salada de folhas e parmeso, sorvete de 
cappuccino e mascarpone e uma garrafa de espumante com uma boa dose de
Smirnoff para mim, para me amolecer. Essa parte foi uma metfora. Mais ou menos. Bom,  que, apesar do incidente no bar de vodca, David acha que no me conhece o 
suficiente para pedir algo to enorme, e ele est um pouquinho aterrorizado. De modo
que George concorda em fazer o pedido. Afinal, ele me conhece o suficiente para saber que o golpe deve ser atenuado com lcool e gordura.
O x da questo  que o visto de David acaba daqui a algumas semanas.
Que  quando, de acordo com as circunstncias normais, ele volta direto para a terra de Kylie, dos coalas e dos cangurus. Mas  claro que no h como George aceitar 
esta possibilidade. No na situao em que ele se encontra. Ento, organizaram um casamento secreto. David ia se casar com Jemima, prima de George, uma mdica de 
destaque em Edimburgo. Mas ela foi muito inconveniente e achou algum por quem se apaixonar no ltimo minuto e, como  bastante compreensvel, resolveu ento se 
casar com ele, no com David.
- Que vaca egosta - balbucia George, engolindo mais vinho.
- Mas no  culpa dela, no  mesmo? - diz David, todo gentil. - Mas voc percebe, Katie, isso nos deixou em um beco sem sada.
At d para ver que deixou mesmo, mas, tentando ganhar tempo para disfarar minha surpresa, sugiro que no faamos nada com pressa. E se George fosse para a Austrlia 
com David? Afinal, ele detesta o clima ingls. Ele  adorador nmero um do sol da Gr-Bretanha. Ele iria amar a Austrlia, no  mesmo?
Todo aquele mar e todo aquele sol. Todas aquelas praias maravilhosas.
- E aqueles espancadores de bichas? - observa ele. - E todo aquele espao vazio?  Quilmetros e quilmetros de nada? Nenhum lugar para fazer compras, querida? E 
nenhum lugar para cortar o cabelo de maneira satisfatria?
- Ele est certo. - David d de ombros. - O negcio l  bem heterossexual. Muita bravata e pouco crebro, para falar a verdade. E por enquanto a gente preferia 
ficar em Londres.
- Caralho,  melhor mesmo - confirma George, com amargor. - Acabamos de gastar uma fortuna em uma namoradeira nova para o jardim.  simblico, querida. No d para 
mandar levar o mvel para o outro lado do mundo, no  mesmo? Ento, o que voc acha? Quer dizer, no me parece que voc vai querer se casar com algum nos prximos 
anos, n? Foi voc mesma quem disse.
- Absolutamente - David concorda, colocando uma mo no joelho de George e virando uma taa de Amaretto com gelo de uma vez s. - Eu nem sonharia em perguntar se 
isso quisesse dizer que voc precisaria abrir mo de sua liberdade. E ainda tem a pequena questo dos benefcios.
- O qu?
- Conte para ela - ele pede a George.
- Cinqenta mil. - George explode de animao. - Eu peguei um pouco do dinheiro da herana quando fiz 30 anos. Ento voc recebe 50 mil para se casar com o David, 
para que ns possamos ficar juntos. Diga que voc vai pensar a respeito. Voc pode at vir morar na minha casa, se quiser. Sem pagar aluguel.
- E a gente deixa voc levar seus namorados l - completa David.
- Isso mesmo - George concorda com a cabea vigorosamente. - No podemos oferecer nada melhor do que isso, no  mesmo? Nem todo marido deixa a mulher ficar fornicando 
com estranhos completos sob o mesmo teto.
Acendo um cigarro de George enquanto reflito sobre a questo por um instante. Cinqenta mil significariam que eu posso tentar de novo investir no servio de buf. 
Do jeito certo. Oramentos, projees de fluxo de caixa, investimento, reserva, seja l o que for. E George e David esto certos. Eu no quero me casar. De qualquer 
modo, no no sentido real da palavra. E se eu j estiver casada, no vou poder sofrer a tentao no futuro, no  mesmo?
Mas eu amo estes caras do fundo do corao. Os dois. Mesmo que David se recuse a ir para cama comigo. No posso aceitar o dinheiro deles.
Posso?
De jeito nenhum.
- Desculpem - digo. - No posso aceitar.
- H? - David parece decepcionado.
- Quer dizer, no posso aceitar o dinheiro. - Hesito. - Mas gostaria de ir morar com vocs. Ia me ajudar bastante.
Tudo bem, recusei a caridade de Sam. Mas isto aqui  diferente. Com George e David, estou dando algo em troca, de verdade. Sem aluguel para pagar, ser muito mais 
fcil financiar minha empreitada atual. E, conhecendo George e David, eles no vo ficar no meu pescoo para controlar o fluxo de caixa e para que eu faa a coisa 
certa o tempo todo. Com sorte, vo me incentivar a ser to irresponsvel quanto eu quiser.
- E a coisa do casamento? - pergunta George.
- Bom - comeo -, voc est certo. Eu no quero me casar.
- Ah. - George est explodindo de felicidade.
- Ento, tudo bem.
- Tudo bem mesmo?
- Claro.
Por um segundo, me pergunto se fiquei completamente maluca. Absolutamente insana. Totalmente doida. Para comear, todos ns podemos ter muitos problemas. Quer dizer, 
essa funo toda no  exatamente legal, at onde eu sei. Que diabos eu acabo de concordar em fazer?
Ento reparo no sorriso deles. Parecem enormes fatias de melancia, dividindo o rosto de cada um deles na metade.
- Ah, Katie. - George, deliciado, se joga em cima de mim e me d um abrao to apertado que mal consigo respirar. Voc  a melhor amiga do mundo.
- Obrigado, Katie. - David me d tapinhas no ombro. Voc  tudo.
- Eu sei - sorrio. - Mas eu quero a festa completa, se voc no se importa. No v achando que eu sou uma qualquer que vai aceitar s uma procisso at o cartrio 
e pronto.
- Vai ter vol-au-vents e tudo o mais - os dois prometem.
- Est certo. - Dou de ombros e sorrio para os meus amigos. - Ento, quando  que eu me mudo?




CATORZE 




Dou uma passada na casa de Janice para dar-lhe a notcia em primeira mo. Devido  aproximao de um fim de semana em Paris, ela cometeu uma extravagncia em compras. 
O quarto bacana dela, branco e esverdeado, est coberto com tudo que h de ltimo grito da moda.
- Achei que voc ia esperar at Paris para encher o seu guarda-roupa. - Pego um cigarro e me jogo em cima da cama, amassando de um s golpe toda a colcha branca 
de linho.
- No h o menor sentido em economizar no figurino, no  mesmo? - declara, exibindo pilhas de lingerie nova. E no estamos falando de lingerie barata. Ela comprou 
calcinhas suficientes para manter o Agent Provocateur ocupado durante a prxima dcada e ainda mais um pouco. Criaes estonteantes, quase transparentes, em cores 
de sorvete. Amora suave, rosa de glac bem clarinho e pedacinhos de morango de seda foram comprados com todo o esmero, colocados dentro de saquinhos cor-de-rosa 
brilhantes, prontamente retirados dali e colocados em cima da cama para exame mais detalhado. Tudo, mas tudo
mesmo, ela garante, enquanto vai jogando sacos e sacos de roupa de baixo encardida para fora do quarto pela janela, para a sacadinha l embaixo, precisa ser novinho 
em folha antes de eles chegarem l, para que ele pense que ela  uma garota estilos a e no uma relaxada e largada. E isso no diz respeito s  lingerie. Ela comprou 
vestidos reluzentes, camisolas glamourosas e um par de sapatos com saltos transparentes e tiras brilhantes, da cor do papel que envolve bombonzinhos recheados de 
nozes.
- Imagine s, Katie. - Ela sorri, mostrando um top branco de lantejoulas do tamanho de um leno. - Daqui a seis meses, eu vou ser a Senhora Jasper.
Resolvo no contar sobre a moa de vestido cor de groselha. Afina, pode ser que ela no seja uma concorrente sria. E, de qualquer modo, Janice provavelmente no 
vai acreditar em mim. E no posso brigar com mais um amigo. Em vez disso, o que fao  tentar contar a proposta de George e David.
- Acho que George est apaixonado - comeo.
- Ah, at parece - debocha ela. - Por ele mesmo, no ?
- No - reclamo. - Pelo David.
- No.
- Bom, eles esto juntos j faz um tempinho - digo. - E eu acho que o George at est conseguindo ser fiel. Com certeza no  mais aquele tarado de algumas semanas 
atrs.
- Sei l - Janice examina um retalho de renda cor de pistache que, aos olhos dela,  uma cala -, para eles  fcil, no ?
- O qu?
- Bom, uma dupla como eles no precisa ficar se torturando de ansiedade e insegurana por causa dos outros, no ?
- Como assim?
- Estou dizendo que  muito mais provvel que eles saibam o que rola na cabea um do outro do que voc e o Jake, por exemplo.
- O que  que tem eu e o Jake? - de repente me coloco na defensiva.
- Bom, eles provavelmente gostam das mesmas pessoas. At podem ir para cama com as mesmas pessoas, se tiverem vontade.
- Mas eu acho mesmo que eles se amam - protesto. - Vi os dois juntos no casamento da Poppy. No conseguiam se largar.
- Ah, que bobagem - debocha Janice. - Voc acredita mesmo em toda essa besteira?
- Bom, no, quer dizer...
- Ns j discutimos este assunto  exausto, no  mesmo caras hoje em dia simplesmente no querem se comprometer - prossegue ela, colocando um baby-doll cor de 
ameixa na mala. - Quer dizer, olhe s para o Sam. Os casos dele mal tm a durao de um filme de longa metragem. A gente nunca vai v-lo se desmanchando todo por 
uma mulher. Foi voc mesma quem disse. Nem voc quer mais um relacionamento srio. E foi por isso que voc jogou o coitado do Max de uma altura to grande, e ele 
todo apaixonado por voc. Alis, ainda estou tendo que agentar essa histria no trabalho.
Resolvo esperar at que eu consiga reatar a amizade com Sam antes de contar para Janice que vou me casar com David. Ela no est nem a para o que eu tenho a dizer 
e, depois do que acabou de falar, no vejo por que ela deva saber primeiro, apesar de Sam estar me enfurecendo completamente neste momento. Portanto, ligo para Sam 
e combino de nos encontrarmos na casa dele mais tarde. E George e David prometem dar uma passada l tambm, para poderem explicar a situao no caso de eu me confundir.
Sam abre a porta rapidinho. E qualquer preocupao que eu tivesse sobre a possibilidade de vibraes malignas no ambiente somem como uma nuvem de fumaa. Ele sorri 
de orelha a orelha, igual ao gato de Alice no Pas das Maravilhas.
- Voc cortou o cabelo - digo quando ele me abraa. Observo e registro a nova verso de cabelo curto. A franja desalinhada desapareceu e a cabea dele, quando a 
acaricio,  bem macia ao toque. - Gostei.
-  mesmo? - Ele parece contente.
- Mesmo. - Sorrio. Eu deveria saber que Sam no deixaria que uma tola discordncia a respeito da maneira como eu vivo estragasse nossa amizade. - Que bom falar com 
voc.
- Voc tambm, Simpson. - Ele sorri. - Voc est com a mesma cara de sempre.
- O que isso quer dizer?
- Quer dizer que  bom ver que voc continua no se importando em passar uma escova nesse cabelo.
- H ha.
Por dentro, o apartamento de Sam est lindo. As paredes so brancas como neve, cheias de revistas de cinema guardadas por todos os cantos, as manchas amarelo-gema 
e azul-Matisse que ele chama de arte cobrem as paredes e so timas.
- Gostei - digo a ele. - Voc conseguiu deixar tudo lindo mesmo.
- Claro que o mrito  quase todo meu - uma voz se infiltra na sala e Janice e eu erguemos a cabea para ver Shana, magrrima com um casaquinho preto, uma microssaia 
escarlate e branca e um par de mules pretas sensuais, surgir da cozinha.
- Meu Deus - Janice sibila. -  aquela vagabunda com fixao oral do casamento.
- Escolhemos as cores juntos, no foi? - Ela levanta o olhar na direo de Sam.
Sam parece momentaneamente envergonhado por ser flagrado em uma cena domstica com uma mulher. E tinha mesmo que ficar. Faz s umas poucas semanas que os dois esto 
saindo.
- Hm...
- Ah, ento voc se mudou para c? - Janice assunta.
- Bom...
- Ela s est ajudando na decorao - Sam responde rpido. - Foi ela quem escolheu aquela parede azul ali.
Shana parece puta da vida por um segundo e ento, recompondo-se, alfineta:
- Que roupa extraordinria, Kylie.
- Katie - digo.
_ Ah, desculpe. - Ela no parece nenhum pouco arrependida. - Claro, voc foi a banqueteira do casamento da minha prima. Sabe, voc precisava colocar umas jias com 
esse top. Para chamar a ateno e afastar os olhoda sua cintura que parece que vai quebrar.
Espero at George e David chegarem, irrompendo na porta da frente de Sam, um borro de catlogos de lojas de decorao c sacolas de compras, antes de contar a novidades 
a Sam e Janice.
- Chegamos - declaram em coro.
- Credo, querida, no fique com esse ar to preocupado. - George, com quase dois metros de altura devido s botas de salto altssimo, praticamente rasga as calas 
de vinil quando se abaixa para beijar minhas bochechas. - Parece que voc est detonada, no  mesmo, David?
- Bom...
- Ah, saia dessa, querida, suas olheiras esto enormes. - George comea a batucar nmeros no celular, todo animado. - D licena, querida. Preciso dar uma ligadinha 
para a Aria encomendar roupa de cama nova para o seu quarto.
- O quarto dela? - Sam pergunta, cheio de suspeita.
- No ligue para ele. - Enxoto-o pala o outro lado e olho torto para George.
_ Desculpe, querida. - George cobre a boca com a mo. - Ento voc no contou para eles?
- Contou o qu?
-  - Shana ronrona. - O que foi que voc no contou?
- Nada - respondo.
- Jesus Cristo. - George joga o telefone na mesa, exasperado, e olha diretamente para Shana. - A porcaria da rede despenca mais do que voc, fofa.
- George... - Sam avisa, enquanto Shana empina o narizinho lindo. No sei por que ele se incomoda. Nem tenho certeza de que ela entendeu.
Quando George se acalma, eu afinal consigo dar a notcia de minhas npcias que esto por vir aos outros. Quando termino, um silncio desconfortvel torna conta do 
recinto, seguido por urna inspirao ruidosa de Janice e Sam, quando o queixo deles cai at o cho. Acho que no d para conden-los por se mostrarem to chocados. 
Afinal, no  todo dia que urna garota mais avulsa do que urna passagem s de ida resolve se amarrar,
mesmo que a razo por trs de tudo no seja exatamente um conto de fadas. Claro que no conto a histria toda. No no comeo, pelo menos. No digo com quem vou me 
casar exatamente, primeiro deixo-os cozinhando um pouco. Pelo jeito, a nica pessoa que parece remotamente satisfeita  a odiosa Shana. E deve ser s porque ela 
est aliviada por achar que isso significa que eu no vou mais ficar rodeando Sam corno urna ratazana perto de urna lata de lixo. Ela parece ser do tipo que tem 
cime de amigas platnicas.
Enquanto vo absorvendo a notcia, Sam caminha de um lado para o outro, preparando ch quente e doce, corno se fosse algum tipo de emergncia, e Janice s fica l 
parada, e parece absolutamente furiosa. O rosto dela assumiu exatamente a mesma expresso de quando Johnny Martin, com quem ela estava s por causa do boato de que 
ele teria um pau de 30 centmetros, deu um malho nela e da vomitou na boca dela. Est absolutamente horrorizada. Simplesmente no consegue acreditar que passei 
na frente dela. Vou percorrer aquela igreja enfeitada antes dela. E ela com aquele monte de lingerie nova e tudo. Mas, at onde eu sei, ela sempre foi urna pessoa 
muito competitiva. Para ela,  igual a urna corrida beneficente de que participamos na faculdade, que eu ganhei. Depois daquilo, recusou-se a dividir cigarros comigo 
durante um ms.
- Voc vai ser minha madrinha? - brinco, aproveitando meu momento de glria. Janice est com tanta inveja que ficou da cor de um pimento bem vermelho. - Aposto 
corno voc nunca, nunquinha, imaginou que eu entraria na igreja antes de voc. No vai ser esquisito poder dizer "meu marido isso", "meu marido aquilo"?
- Mas... - ela gagueja, parecendo estupefata. - Como? Quem? E quando?
- E por qu? Por que voc no contou para agente? - Sam no se contm.
- Estou contando agora.
- Mas a gente nem sabia que voc estava saindo com algum.  algum que a gente conhece? Voc est grvida?
- No seja imbecil.
- Porque, se estiver, ns ajudamos. No precisa tornar nenhuma deciso apressada, sabe corno . Ai! - ele grita quando Shana, fula da vida, enfia as unhas nas costelas 
dele.
- Quem  ele? - pergunta Shana. - Ele  bem de vida?
-  sim, porra - interrompe George, dando um daqueles seus olhares ferinos para ela. Fico deliciada de ver que ele a odeia pelo menos tanto quanto eu.
- Voc j sabia disto? - Sam comea a parecer irritado de verdade.
- Claro, querido. - George pisca quando David, quase imperceptivelmente, pisa no p dele.
- Voc no pode ter conhecido algum - Janice quase cospe. - Voc nunca sai. E disse que estava feliz solteira. Voc que disse...
Credo. Sinto-me corno se tivesse prometido doces a ela na sada e depois tivesse mudado de idia no ltimo minuto.
- O que est acontecendo? - Sam olha para George com toda a afeio que a gente costuma reservar para um cachorro com raiva.
- Quer dizer - prossegue Janice -, foi voc mesma quem disse que queria ficar solteira para sempre. Achei que voc ia ficar igual quelas mulheres do supermercado 
de meias-calas roxas esburacadas e boinas de tric. Achei, achei mesmo que voc acabaria morando no carro ou ento assumiria o lugar daquela mulher que fica ali 
pela Trinity Road e mostra a bunda para os carros.
- No  o Jake, ? - interrompe Sam, com uma expresso de muita preocupao no rosto.
- Quem? - pergunto. - A mulher que fica na Trinity? Acho que no. Quer dizer, sei que o Jake bem que gosta de ficar mostrando a bunda por a, mas no acho que at 
mesmo um idiota como ele tenha vontade de deixar qualquer Z Man admirar o traseiro dele.
- Voc sabe muito bem o que eu quero dizer.
-  que eu ainda no queria que vocs soubessem da histria inteira - provoco. - No antes de eu contar para a minha me. Mas...
At parece que eu vou contar para a minha me. Ela tem um filho pela boca se sonhar que estou a fim de fazer o que estou planejando. Afinal, estamos falando de um 
casamento fajuto, no de bolo de noiva. No foi exatamente isso que ela programou para mim quando fez economia e guardou o salrio de professora para pagar meus 
estudos. Por algum motivo, no consigo enxerg-la l, de conversa fiada com o pessoal. E no vou agentar ferir os sentimentos dela com a histria de "nada de netos" 
de novo. At onde ela sabe, eu sou uma moa muito boazinha. Afinal, o que os olhos no vem etc. etc.
- Bom - dou de ombros. - Vocs so meus melhores amigos do mundo.
- Com exceo dela. - George aponta para Shana.
Eu ignoro o comentrio. D para ver que Sam j est puto da vida.
- Ento,  claro que significaria muito para mim se vocs todos pudessem estar l no meu grande dia. A gente queria que fosse no dia 4 de julho...
- Dia da Independncia dos Estados Unidos - informa Sam, com uma certa ironia. Ignoro o comentrio tambm.
- Mas tudo j estava reservado, ento ficou para o comeo de setembro. Ento no venham me dizer que eu no avisei com antecedncia.
Janice est calada. Na verdade, est to ocupada perdendo o flego que no consegue dizer nada. Considero a possibilidade de dar um tapa na cara dela com o pretexto 
de acalm-la, mas mudo de idia para que no fiquem achando que  uma tentativa da minha parte de irritar todo mundo.
- Tenho tantas coisas para decidir - digo agitando as mos corno louca, representando bem meu papel de futura noiva atarefada. - Lista de convidados. Flores. Comida. 
 claro que o bolo vai ter que ser de arrasar, ainda mais que eu sou cozinheira e tal. Como  que eu vou achar tempo para tudo isso? - Na verdade, no ligo a mnima 
para o bolo. Claro que eu sonhava com um casamento de vu e grinalda quando eu era pequena, falava de princesas, pregas, pneis e uma tenda cor-de-rosa enquanto 
chupvamos pirulitos e fazamos anis com balas e colocvamos no dedo, como alianas. Mas, agora, no vejo por que no fazer a recepo no Punjab Paradise ou no 
Peking Palace. Especialmente devido s circunstncias amorosas serem o que so. E, no que diz respeito  lista de convidados, acho que vai ser bem curta.
- No agento esperar para ir comprar o vestido - completo.
Janice parece to decepcionada, como se tivesse acabado de comear em um emprego novo e algum lhe pedisse para limpar o banheiro. Tanto que no agento segurar 
uma ltima gozao.
- J estou vendo voc de lils. Com mangas bufantes.
O alvio no rosto dela quando afinal confesso que vou simplesmente me casar com David  histrico. No fim das contas, no me adiantei a ela. No de verdade.
Infelizmente, no que diz respeito a Sam, a idia toda desce como couve-de-bruxelas goela abaixo de uma criancinha.
- No consigo pensar em nada pior do que casar com algum que a gente no ama - balbucia ele.
Pessoalmente, acho que  bem bonito, vindo dele. Mas a amizade dele, e portanto sua aprovao, significa muito para mim. Amo Sam do fundo do corao. No vou agentar 
se ele ficar aborrecido comigo.
- Aaah, voc no consegue? - comenta George. - Eu consigo.
- Eu tambm consigo - digo, toda alegre, tentando acalmar os nimos.
- Tanta coisa, tanta coisa - George continua a divagar. Arranjos de flores de seda, para comear. Depois, tem o Lambrusco. Pensando bem, qualquer coisa com gosto 
de uva
que tenha tampa de rosca. Hum...
- Gente bem caipira - completa David.
- E cafona - concorda Janice.
- Cigarros mentolados - (George de novo).
- Ficar gorda - (Shana).
- Ficar pobre - (Janice).
- Voc sabe que vo perguntar qual  a cor da escova de dente dele, no sabe? - Shana coloca um suter de angor minsculo e estremece, toda dengosa. - Eu vi em 
Passaporte para o amor.
Tenho vontade de dar um bofeto na cara dela, mas no quero que ela v correndo ao Servio de Imigrao ou faa qualquer outra coisa ridcula e estrague tudo, ento 
eu simplesmente explico que deixaremos para cruzar esta ponte quando chegarmos l.
- E vai dar tudo certo - garanto.
- Para o George e o David vai mesmo - observa Sam. - E voc?
- O que tem eu? - pergunto. - No venha me perguntar se eu tenho certeza que o amo, pelo amor de Deus. Afinal, a gente nem vai se casar de verdade.
- Voc vai se casar de verdade, bobinha.
- S no papel. E tambm no estou entrando nesta de olhos fechados. Eu sei exatamente o que estou fazendo.
- Eles vo pagar a voc? - d praticamente para ver os cifres fazendo aquele barulho de caixa registradora nos olhos de Janice.
- No - respondo. - Mas  um acordo mtuo. Eu tambm tenho meus benefcios.
- Bom, espero que voc no v usar isso a. - Shana olha para a minha roupa com desgosto. - Espero que um destes rapazes a pegue pela mo e arrume algo decente para 
voc usar.
- Ela sabe escolher as prprias roupas, muito obrigado apunhala George. - E com certeza no acho que ela precise de conselhos de algum como voc, fofa. Voc com 
esse seu nome ai e suas roupinhas de boneca. Aposto que a sua me tem um nome bem comum, tipo Cheryl.
O lbio inferior de Shana comea a tremer. George, como sempre, acertou bem na mosca.
Apresso-me para acalmar Sam, que parece furioso.
- No. - Sam ergue as duas mos e no consigo evitar notar como so enormes. Mos grandes e seguras. - O que  que voc estava falando mesmo dos seus benefcios?
- Bom - digo lentamente -, vou mudar. Afinal, faz sentido eu ir morar com o David se estivermos casados. Vai ser mais realista.
- Achei que voc no quisesse sair do seu apartamento - comenta ele, com frieza. - Como  que era? Voc no queria "abrir mo da sua independncia". Bom, detesto 
dizer, Simpson, mas acho que foi exatamente o que voc acabou de fazer. Ento
a casa do George serve para voc, mas a minha, no.
- Ah, Sam, por favor tente entender. - Tento dar uma abrao nele, mas ele se afasta.
- Entender o qu? Que voc est cometendo o maior erro da sua vida? Voc est percebendo que vai acabar se arrependendo de tudo isso, no est?
- Claro que no vou. E, se me arrepender, estamos no sculo XXI. Existe uma coisa chamada divrcio hoje em dia. No precisamos ficar juntos at que a morte nos separe.
- Mas essa  a idia geral, no ? - ressalta Sam. - Quer dizer, isto no  exatamente o que se pode chamar de romntico, no ?
- E como  que voc sabe? - pergunto. - Sua idia de romance  trazer para casa uma comida de restaurante e pedir para a namorada esquentar.
- Eu vou - oferece Janice. - Eu vou apoi-la, querida.
- Obrigada, amiga.
- Desde que eu possa levar o Jasper.
- Tudo bem.
- Eu tambm vou se voc quiser - diz Shana. - Se a Kirsty...
- Katie.
- Desculpe. - Ela me manda um sorriso to genuno quanto uma bolsa Vuitton de camel. - Se a Katie quer se casar, ento com certeza todo mundo deveria apoi-la. 
E eu adoro casamentos. - Olha para Sam com petulncia.
- Aposto que sim - provoca George. - Vamos encarar, fofa. Para voc, um bom casamento no sbado equivale s compras da semana no supermercado. Quem  que vai saber 
o que voc ser capaz de levar para casa. Ou quem, para ser mais exato.
- Isso no  justo, George - Sam diz baixinho. Eu estremeo. Odeio a voz baixinha de Sam. Significa que est sofrendo combusto interna. Acho melhor ir embora antes 
que ele estoure. Isso acontece com ele muito raramente, mas quando acontece, ele fica louco da vida mesmo.
- Ah, d um tempo - corta George. -  exatamente isso que essa vaquinha faz. A me dela deve estar esperando h uma eternidade para entreg-la a um cara de sucesso 
como voc. E ela no vai parar por a. Voc acha que ela ia ficar saindo com voc um minuto se o Richard Branson desse duas olhadas para ela? Ah no, querido. Ela 
daria no p rapidinho.
- Tudo bem. - Os lbios de Sam esto brancos de fria. - Podem ir embora.
E ento ele se volta para mim.
- E voc... - enuncia, com o tom de voz decepcionado que minha me reserva para ocasies em que quer me fazer sentir culpa extra. - Achei que tivesse mais noo 
das coisas. Espero que perceba como estes dois esto sendo egostas antes que seja tarde demais.
- O principal  que ela est sendo bastante altrusta. - Janice faz uma tentativa, sem muito sucesso, de me dar uma fora. Por azar, a tentativa no esfria nem um 
pouco o nimo de Sam. Ele a ignora completamente; e aponta para mim.
-  feio mostrar com o dedo - digo, infantil.
- No venha tirar sarro.
- Ento pare de agir como se fosse o meu pai.
- Voc no pensou direito sobre o assunto, no , Simpson?- ele me passa um sermo. - O que vai acontecer daqui a cinco anos quando voc de repente resolver que 
quer ter filhos antes que seja tarde demais e da voc est casada com esse Jaffa?
- Esse o qu? - George ressoa.
- Esse Jaffa - explico. - Sabe como , seco.
- Aaah - George cospe. - No tem nada de errado com a qualidade das sementes do David, muito obrigado. Meu Deus. Eu nunca achei que voc fosse homofbico, querido. 
Mas voc bem sabe o que dizem por a. De quem fica falando muito mal e tudo o mais.  preciso ser um para saber quem .
- Olha, se algum dia eu mudar de idia a respeito de ter filhos, eu procuro voc, Sam, para pedir uma amostra do seu smen heterossexual de qualidade, est bem? 
De modo que voc no precisa mesmo se preocupar. Eu vou ficar bem. Mesmo.
- Acho que voc ainda vai se arrepender. - Ele olha para mim com tristeza.
- Acho que no - insisto. - E voc provavelmente vai compreender quando tiver tempo de pensar sobre o assunto. Eu j falei. No quero me casar. Nunca. Portanto, 
no estou perdendo nada.
- No est?
- O qu?
- Deixe-a em paz. - George me puxa pelo brao. - Vamos l, Katie, querida, vamos embora. Por que  que voc tem que tentar estragar tudo, Sam? S porque voc no 
faz a mnima idia do que  estar apaixonado.
- Ah, eu sei sim - Sam diz baixinho, enquanto Shana ergue o olhar na direo dele, estupefata. - Eu sei muito bem, muito obrigado.
- Estar apaixonado por si mesmo no conta. - Solto sem nem me virar para ele, para no ter que ver o olhar magoado na cara dele quando bater a porta na minha.






QUINZE








Transfiro, em etapas, minha vida para a casa de George e David. No sbado seguinte, despeo-me de uma Janice bem animada, que vai a Paris, antes de enfiar dentro 
do Balde Enferrujado patins, roupas, CDs, som, mquina de espresso, livros, tigelas desconjuntadas e, por ltimo, Graham e Shish Kebab, os dois bocejam, ultrajados, 
cada um em sua caixinha. Ento dou uma ltima olhada no meu apartamento antes de nos dirigirmos para o norte, deixando Balham para trs, definitivamente.
- Para o alto e avante, hein, rapazes? - Aumento o volume do som velho do carro em direo a Clapham Common.
 bvio que George estava esperando a nossa chegada. Vestindo com seu casaco felpudo roxo preferido e botas enormes, ele atravessa a porta da frente a passos pesados 
e apontando histericamente. No fao idia do que quer dizer, s dou de ombros e desligo o motor. Ele faz gestos para que abaixe o vidro.
- Estacione um pouco l para a frente - sibila.
- Por qu? No estou atrapalhando ningum.
- No queremos esta lata velha bem na frente de casa, querida. O que  que os vizinhos vo pensar?
Ignoro-o, saio pela porta do passageiro e abro a tampa de trs para soltar Graham e Shish Kebab.
- Ah, voc no trouxe esses dois a. - George parece horrorizado.
- Claro que trouxe. - Coloco a caixinha de Graham sobre a calada e entrego Shish Kebab a George. Ele se afasta do animal e o gato, sentindo a presena de um possvel 
rival, mia de indignao.
- O que voc achava que eu is fazer com eles? - digo, magoada. - Que ia mandar para a adoo?
- At onde me diz respeito, voc pode afogar os dois no reservatrio de Finsbury Park. - George pega meu som e sai caminhando, rebolando com desdm exagerado, em 
direo  casa. - Voc sabe que eu tenho uma alergia perigosa, no ? Posso ter um choque anafiltico em segundos com esses pentelhinhos por perto. S espero que 
eles saibam usar o banheiro. No quero v-los batizando a moblia.
- Claro que sabem. - Abaixo-me para fazer um carinho no focinho de Graham atravs das barras da caixinha de viagem e recuo quando ele tenta me arranhar.
- Que sacaninha maldoso esse a, heim? - George solta.
- Ele s est incomodado - reclamo. - Ficou amassado a dentro tempo demais.
- Credo, sua vaca pattica. - George pousa a caixinha do gato no hall de entrada, sem fazer nenhuma meno de soltar seu ocupante. - Daqui a pouco voc j vai achar 
que esses sacos de coc so seus filhos.


Apesar de serem bem indesejados, Graham e Shish Kebab parecem gostar da casa nova. E no posso reclamar. Meu quarto novo  duas vezes maior do que o velho. Alm 
disso, posso usar todos os equipamentos de poca da cozinha.
A primeira semana  tomada pelos preparativos do batizado em Lewisham e do casamento de uma moa cadavrica chamada Marina que conheci na festa de Poppy. Mas da 
tenho a semana seguinte livre para pintar meu escritrio alegremente, com um tom escuro e delicioso de rosa. E, quando termino, resolvo que gostei tanto que posso 
morar l dentro. David generosamente me emprestou seu laptop, de modo que no preciso mais usar meu Mac antiquado, e coloco anncios em todos os jornais locais, 
perto de propagandas de shows de comdia e artigos sobre a ameaa de fechamento de creches locais, com fotos de mes indignadas, cobertas de Hermes e pulando de 
Mercedes, munidas de pranchetas, atacando os passantes inocentes. Ento me acomodo em meu adorvel escritrio cor-de-rosa e espero.
A primeira pessoa que liga para meu telefone comercial , de modo bem previsvel, minha me.
- Por que  que voc no me contou? - pergunta ela, magoada.
- Eu ia contar depois que eu j estivesse estabelecida - suspiro, rasgando uma embalagem de um salgadinho e enfiando um pouco na boca. - Eu me mudei faz s uma semana.
- Voc se mudou? - ela guincha.
- Sim - respondo. - Achei que era disso que voc estava falando.
- Katherine Simpson, voc no est dizendo que se mudou de casa e nem se deu o trabalho de mencionar o fato  prpria me?
- Desculpa, me, eu...
- Sabe, o Jeff bem que estava certo - ela vocifera no bocal.
- O que  que Jeff tem a ver com isso? - reviro os olhos para o cu e pego mais um pouco de salgadinho.
- Sam esteve aqui outro dia, todo preocupado com uma briga qualquer que vocs dois tiveram. Honestamente, vocs esto piores agora do que quando eram crianas. E 
no v ficar achando que eu no sei o que voc fez com ele com aquela pazinha. Se j disse uma vez, j disse mil vezes. Tenho olhos atrs da cabea.
- Eu tinha 4 anos.
- J era grandinha o bastante para saber o que estava fazendo.
- Ele disse por que a gente brigou? - estou cheia de suspeita. Droga de Sam. Se ele comentou o casamento, vou cortar fora o pau dele.
- Ele se recusou - responde mame. - Acho que tinha a ver com a namorada. Uma coisinha fofa. Muito bem educada. Alis, foi ela que mencionou o assunto.
- E passaram a maior parte do jantar falando disso, aposto - digo.
- O qu?
- Nada. - Suspiro. -  tudo uma enorme besteira. Alis, me, estou morando na casa de George para economizar e comear minha empresa de buf do jeito certo. Desta 
vez eu vou me empenhar de verdade.
Obviamente, no conto para ela qual  o outro lado do acordo. Isso vai ter que ser mantido em segredo total. Mas estou bem melhor de finanas agora que no preciso 
pagar aluguel, e o pai de Poppy, abenoado seja, pagou minha nota antecipadamente, de modo que espero no precisar dar o calote em ningum.
- Que bom para voc, querida. - Ela parece contente. - Sei que voc vai ser um sucesso.
Jesus do cu. L vem ela de novo, com todo seu carinho e apoio.
Agora eu vou mesmo ter que fazer com que a coisa seja um sucesso, no  mesmo? Ou ento, vou ser acusada de causar a infelicidade de mulheres na menopausa. Mas  
claro que j a estou colocando na fila de decepo. Vai ser muito pior quando ela estiver decepcionada e ficar se esforando para disfarar. Vai ser um longo caminho 
de culpa at o inferno.
Caralho. Por que  que ela simplesmente no ri na minha cara, como a Gloria, amiga dela, faria? Por que no diz que filha nenhuma dela vai ficar de avental, esticando 
massa para viver, com um trabalho igual ao de uma criada?
No entanto, dois dias depois de os jornais gratuitos com meu anncio terem sido distribudos pelas caixas de correio de toda a Londres, o telefone comeou a tocar 
de verdade. No d para acreditar como  fcil. Uma mulher de Totteridge quer saber se posso fazer s comida vermelha para a festa de suas bodas de rubi. Um paisagista 
da TV precisa de um buf de coisas verdes para comer com a mo quando abrir sua propriedade ao pblico, em Hertfordshire, em uma ao beneficente. Uma jovem esnobe 
de Battersea quer saber se eu posso "fazer" a despedida de solteira dela.
Acho melhor no revelar meu histrico de "fazer" com maridos tambm.
Lentamente, a cada contratao, minha autoconfiana, junto com meu caderninho de contatos, comea a crescer. E, nas semanas seguintes, fico to ocupada, no meu escritrio 
cor-de-rosa, planejando menus e tomando outras providncias, que nem tenho tempo de pensar no casamento. At mesmo a desaprovao de Sam passa para segundo plano 
quando penso em tudo que preciso fazer. Gasto cada minuto que tenho na cozinha. Fao minitortas de banana e tiramissus pequeninos para serem engolidos de uma s 
mordida para o Senhor Paisagista da TV. Bebezinhos rosados de mazip para enfeitar um bolo de batizado em Nappy Valley. Ou pudins de morango do tamanho de piscininhas 
infantis para as bodas do Senhor e da Senhora Rubi. Certa tarde, estou me matando para fazer gelatina com vodca em formato flico para a despedida de solteira em 
Battersea quando a campainha toca. Pouso a garrafa de Smirnoff na pia. Deve ser o cara seboso com azeite da padaria, entregando uma cesta de focaccias, ciabatas 
gorduchos com azeite e pes de tomate seco que encomendei. Abro a porta.
Caramba.
No  o seboso coisa nenhuma.  um cara totalmente diferente. E vamos simplesmente dizer que, da ltima vez que vi coxas assim, estava babando em cima de um anncio 
de calas da Calvin Klein. E isso foi antes de terem contratado aqueles fulanos com cara de Jarvis Cocker, que so s carne e osso, que mais parecem uns restos de 
remela.
Ah, sim. Este aqui Janice chamaria de "pedao de mau caminho".
No  bem o tipo de velhote cheio da grana que ela tem caado ultimamente, mas mesmo assim.
Digamos, em resumo, que  um ciclista bem gostoso.
Ele  mais novo do que eu, deve ter uns 25. usa um par de Adidas surrados, possivelmente bregas, daqueles das antigas, e tem olhos cor de caf bem forte. Uma olhada 
rpida nos shorts de ciclista dele revela que as coxas no so a nica salincia interessante que ele possui. Se ele peidasse na minha cama, eu certamente no o 
expulsaria dali.
Fico revirando minha bolsa. Em um dia normal, teria dado uma olhada em um cara com shorts de ciclista e pensaria "Eca, ele est todo suado", e seguiria em frente. 
Mas hoje
h algo no ar que me faz pensar duas vezes. Talvez seja porque o dia est to lindo. Praticamente d para sentir os feromnios ricocheteando no ar. Ou talvez seja 
porque o cabelo castanho alourado dele esteja tranando em dread locks desalinhados. Ou pela maneira como ele se escora no batente da porta, preguioso e despreocupado.
Ou talvez eu s precise de uma boa transa.
Pode chamar de qumica, pode chamar de desespero, seja o que for, de repente sinto-me compelida a das em cima dele. Em breve vou me casar, pelo amor de Deus. Preciso 
transar um pouco enquanto ainda  possvel.
Tudo bem, Max continua ligando para o meu celular. O que significa que eu poderia simplesmente transar com ele e evitar maiores complicaes. Mas Max  legal. E 
gente legal me d nos nervos. Se Max estava atrs de algum tipo de relacionamento naquele dia em que nos esbarramos no metr, devia ter feito com que eu assinasse 
um termo de compromiso. No lhe fiz nenhuma promessa. Sou uma mulher solteira e independente. No tenho nada por que me sentir culpada.
- Parece que no tenho dinheiro nenhum aqui - sorrio, fechando a mo em volta da nota novinha de dez libras que encontrei e dando um passo atrs, para dentro do 
hall imaculadamente pintado de creme. - Voc se importa de entrar um pouquinho enquanto eu vou buscar l em cima?
Ele d um sorriso lento, sexy e levemente idiota que pode ou no ser interpretado como uma sugesto explicita. O que  timo, claro. Idiotice  bom. No tenho o 
menor problema com gente idiota. As chances de uma garota levemente inteligente (apesar de ruiva) como eu estabelecer um relacionamento duradouro com algum mais 
burro do que uma ameba esto perto do zero, de modo que posso arrastar este cara para o andar dcima agora mesmo se eu tiver vontade, sem pensar a mnima nas possveis 
conseqncias.
- Claro - ele entra no hall, atrs de mim. - Tanto faz.
Claro que no intervalo at eu esconder a nota que acabo de encontrar na bolsa na palma da mo, subir as escadas e descer de novo, segurando-a entre o polegar e o 
indicador, de repente percebo que no tenho a menor idia do como passar uma cantada nele. Devo chegar junto e falar na lata: "Vamos l, Marquinha Nmero Nove e 
Meio, chegou a sua hora"? Devo simplesmente passar meu telefone para ele e esperar que ele entre em ao? Ou ser que assim pareceria que eu sou uma Dona de Casa 
Entediada? Mas e da, no moro mais naquele apartamento zoneado e entulhado. Moro em uma casa to imaculada e minimalista que s pode ser habitada por gays. De modo 
que no posso ser confundida com a Senhora Dois Vrgula Quatro Filhos.
Estou pensando em mandar tudo  merda e simplesmente entregar-lhe o dinheiro quando percebo que o olhar dele, vagamente surpreso, est voltado para a cozinha. Sigo 
o olhar dele at o lugar em que est a primeira leva de pauzinhos de gelatina cor-de-rosa, fora das formas e perfeitamente eretos (apesar de um pouco instveis), 
em cima da pia. Droga. Ele deve estar achando que eu sou algum tipo de serial killer tarada que atrai entregadores para dentro de casa para que possa tortur-los 
antes de golpe-los na cabea e guard-los dentro do freezer para fazer coisas de gelatina mais tarde. Sei que, se estivesse no lugar dele, estaria um tantinho preocupada 
com minha segurana pessoal neste momento.
- No  o que voc est pensando - gaguejo. - Estou fazendo isso para uma despedida de solteira, sabe. S por diverso. Quer dizer, no fao nada esquisito. Estou 
mais para M&Ms do que para S&M, de verdade. Os primeiros so muito mais gostosos.
- Que pena.
Ele me presenteia com mais um sorriso preguioso e sexy, que me deixa de joelhos moles. Ser que ele est tirando um sarro da minha cara ou no?
- Voc  chef?
- Banqueteira - respondo. - Fao casamentos e coisas assim, principalmente. Estou comeando agora.
Ele sorri.
- E a banqueteira testa os canaps? - ele acena com a cabea na direo dos paus rosados, que agora parecem absolutamente ridculos, e eu me sinto compelida a me 
livrar deles assim que for possvel.
- Na verdade, no - digo.
- E o entregador? - O sorriso dele se abre. - Ser que ele pode experimentar?
- Pode ser. - No consigo segurar a risada ao ver a expresso safada no rosto dele. - Mas s um, por favor. Esses a tm que estar em uma festa em Battersea amanh.
Mas eu devia saber. Eu devia saber que a minha capacidade para o lcool geralmente ultrapassa o "um s" que seria suficiente para mim. Nick, como se revela ser o 
nome dele, diz que meus paus de gelatina so to gostosos que ele precisa de mais um. E eu mando tudo  merda e engulo alguns tambm. E depois de comer nove deles, 
ou mais ou menos isso, digo a mim mesma que no s ele  provavelmente o cara mais gostoso que vi desde que cheguei a Islington, como resolvo tambm que  um dos 
mais interessantes que j conheci.
E estamos nos dando to bem.
- Falando srio - diz ele, engolindo a ltima gelatina e comeando a falar um pouco enrolado. - Devo estar procurando algum como voc, sou DJ, sabe? Daqui a um 
ano vou ser famoso.
-  mesmo? - estou impressionada. - Que coisa fascinante.
A essa altura j estou to bbada que sirvo o que sobrou da vodca em copinhos de uma dose e literalmente fao com que escorram goela abaixo. Nem me passa pela cabea 
imaginar por que ele est entregando po no norte de Londres em uma bicicleta vagabunda se  um DJ to famoso assim. E, para ser honesta, no dou a mnima.
- Um amigo meu vai organizar uma festa em breve. Precisa de algum para fornecer a comida e tudo o mais. E se eu desse seu nmero para ele?
No estado alcolico em que me encontro, resolvo que esta  uma tentativa descarada de dar em cima de mim. E, quando anoto o nmero do meu celular no canto de uma 
revista amarfanhada que ele estica na minha direo, e ele pega na minha mo, percebo que J LEVEI.
E sem nem ter que me esforar muito.
Dois segundos mais tarde, ele j est me beijando apaixonadamente, e um segundo depois j est explicando que no pode voltar para o trabalho neste estado, de modo 
que devemos ir para a cama logo. No dou a mnima para o fato de ele estar sendo presunoso. Nem me importo com a probabilidade de ele fazer isso o tempo todo. Na 
verdade, isso s faz dele o modelo ideal para uma ficada s.
O que me incomoda, no entanto,  o fato de ter trabalhado tanto o dia todo que nem tive tempo de tomar um banho. Conseqentemente, estou cozinhando dentro das mesmas 
calas azedas com que dormi. No posso permitir que ele me veja assim, independentemente do fato de que depois no quero v-lo nunca mais.
- Espere aqui - me desvencilho da lngua inquisidora dele.
- O-o qu?
- A TV fica ali. S cinco minutinhos. Volto em...
Saio em disparada escada acima, com a inteno de tomar uma chuveirada de dois segundos, literalmente. Mas o chuveiro enorme do quarto de George e David est fora 
dos limites para mim ento, por lealdade aos dois, uso a banheira anexa ao meu quarto.
Abro os torneiras e tropeo, bbada, pelo banheiro, procurando sabonete com cheiro de lavanda, espuma de banho e uma toalha limpa, antes de me deixar cair dentro 
da gua deliciosamente quente e perfumada, inalando o vapor cheiroso. H algo to completamente decadente em tomar um banho de banheira quando se est completamente 
bbada que eu deixo meu corpo relaxar totalmente. E, pensando bem, meu dia foi bem duro. Exaustivo, para falar a verdade. De fato, agora que voc mencionou, estou 
muito, muito...
Merda.
No fao idia de quanto tempo se passou quando retomo a conscincia. S sei que estou congelando e que a ponta dos meus dedos est toda enrugada. Tremendo, enrolo 
uma toalha branca felpuda em volta do corpo e saio cambaleando pelo quarto, para o patamar da escada. Segundos depois, ouo a porta da frente batendo. Corro at 
a janela, com a inteno de fazer com que ele no v embora. Mas no tem ningum l fora. E da percebo por qu. No  ele saindo  algum entrando.
- Tem algum em casa?
David.
- Ah, oi - deso a escada um tanto envergonhada. Credo. Minha cabea di. - Tudo certo?
- Tudo bem, obrigado. Acabei de arrumar um trabalho freelancer em uma revista nova. E o dinheiro tambm  timo.
- Que bem para voc. Acho que voc no...
- Hmmm?
- Tem mais algum a?
- Onde? Aqui? Acho que no... - David d uma olhada na cozinha, na sala e em todos os aposentos, um por um. - No. Ningum.
- Droga.
- O qu?
- Nada.
Pode deixar comigo que eu sempre trato de perder uma boa trepada. Mas no posso ter ficado l em cima tanto tempo assim. Que cara mais impaciente. Deviam ser umas 
trs horas quando subi para o meu banho.
- Que horas so? - pergunto a David, da maneira mais desencanada que consigo.
Ele d uma olhada no relgio.
- Cinco e meia. Caramba, Katie, est a maior baguna aqui.
- O qu?
- Cinco e meia. - Ele olha para mim. - No me diga que voc foi abduzida por aliengenas e perdeu completamente as duas ltimas horas.
- Algo assim - digo. - Merda, David, preciso encontrar Janice daqui a meia hora. Ela est voltando de Paris. Acho que voc no se ofereceria para limpar toda a merda 
de vodca que eu deixei na cozinha antes de o George chegar e ter um chilique nem se eu pagasse para voc, no ?
- Pode ir. - David sorri para mim. - Quer dizer, voc me mostrou a bunda pelo menos uma vez a vai ser minha esposa daqui a dois meses, ento a mnimo que posso fazer 
 limpar um pouco de vodca derramada. Que porra voc andou fazendo por aqui, falando nisso?
- Uma hora dessas eu conto. - Dou um abrao nele. - Valeu, amigo. A Janice me esfola viva se eu chegar atrasada. Ela deve estar louca para fofocar comigo.


Janice, quando afinal me encontrou com ela no Soho, est esbaforida. Jogando a bolsa baguete turquesa em cima da mesa, pede uma margarita grande, acende dois cigarros 
de uma vez e anuncia que a coisa toda em Paris foi um "fiasco total".
Para falar a verdade, para mim no parece fiasco nenhum. Dias de sol glorioso, roupas de grife compradas em sacoladas, cortesia do carto de credito platinado de 
Jasper. Jantar no Ritz, que ela no pde apreciar de verdade porque a suntuosidade explicita do cardpio significou que ela foi obrigada a romper completamente sua 
dieta de casamento, ate comeu sobremesa. E cada vez que colocava uma garfada na boca, ficava com palpitao, porque tinha certeza de que ele faria o pedido naquela 
noite, e no queria ter que contar aos netos que estava com a boca cheia de comida quando teve que responder "Aceito".
Havia ainda a preocupao adicional de que ele poderia ter escondido o anel no sufl de chocolate e que no haveria nada de romntico se ele tivesse que ajud-la 
a desengasgar.
Na ltima noite em Paris, sentaram-se na sacada de ferro batido do apartamento dele bebendo uma garrafa de vinho tinto extremamente suave, enquanto o barulho e a 
agitao da noite no Champs Elises acontecia l embaixo. Janice estava ficando desesperada. Aquela era, afinal de contas, a ltima noite das frias.
A ltima chance que Jasper tinha de pedir sua mo.
E, na medida em que ela vai descrevendo a conversa deles nos mnimos detalhes, minha mente fica voltando para trs como uma fita de vdeo, quele acontecimento que, 
no turbilho da noticia do meu noivado falso, esqueci completamente. O restaurante na Upper Street e a moa com vestido cor de groselha. Ser que eu devia contar 
a ela o que vi?
Mas se eu contar, e no final das contas for algo completamente inofensivo, ento eu  que vou ficar com fama de bruxa perversa.
Mas e se eu no contar para ela e ele estiver mesmo a enrolando todo esse tempo? O que acontece? Ela ficou transando por caridade quando podia estar traando meia 
Londres.
- E, portanto, j tinha desistido da idia toda - Janice bebe sua terceira margarita e olha para mim com curiosidade - quando ele diz... - Ela engasga.
Graas a Deus! No final das contas ele pediu a mo dela. Ufa! Estou salva! No preciso mencionar a Vestido de Groselha. Afinal, desde que ela tenha a certido de 
casamento e a conta no banco, no vai se preocupar com uma sombra de infidelidade, ser que vai?
- Ele diz: "Tenho aqui uma coisa para voc" - conclui ela. - E me aparece com uma caixinha da Tiffany. Eu sei que  da Tiffany, tudo bem, porque reconheo a cor, 
sabe como , a mesma das paredes da minha cozinha.
Aceno com a cabea cheia de ansiedade.
- Continue.
- Bom, claro que a essa altura j estou ficando animada de verdade, porque eu sei, eu simplesmente sei, que  um solitrio e tudo o mais e que ele deve ter sado 
de manh para comprar enquanto eu dormia at mais tarde e ele foi comprar uns croissants frescos.
- Croissants tambm. - Debocho. - Garota de sorte. Ento voc no teve problema nessa rea.
- No seja boba. - Ela me fuzilou com o olhar. - As costas dele no conseguem se inclinar tanto assim. No, estou falando de croissants de verdade. E aqueles pezinhos 
com passas deliciosos e molhadinhos que a gente compra na boulangerie. Bom, nem me importo de dizer para voc que engoli trs deles porque j tinha mesmo perdido 
as esperanas de que fosse haver algum casamento de que falar, portanto no havia motivo para emagrecer mais. Ento l estvamos ns - ela prossegue, falando cada 
vez mais rpido para chegar exatamente ao ponto que deseja - na cidade mais romntica do mundo, e ele me dando aquela famosa caixinha cor de turquesa e eu querendo 
me matar por ter comido trs pezinhos no caf da manh, porque o momento afinal tinha chegado. E eu sabia, Katie, eu simplesmente sabia que aquele era o momento 
em que a minha vida ia mudar para sempre e que eu finalmente iria ser rica, de modo que demoro para abrir a caixa porque tem uma partezinha de mim preocupada, achando 
que ele escolheu o anel errado e eu vou odiar e no sei com que cara vou ficar se isso acontecer. Mas tambm no consigo esperar para ver, porque no posso esperar 
para saber e ento abro a caixa e... e...
- E... - quase fico sem flego. Credo, estou at ficando excitada. Devo estar enlouquecendo.
- E  uma porra de uma enorme corrente com berloque - ela cospe. - Imagine, Katie. Um berloque de prata da Tiffany. E l estou eu, com vontade de ir para o banheiro 
e chorar at morrer de tanta decepo com a coisa toda, e l est ele, parado atrs de mim, esperando que eu morra de felicidade e dizendo: "Posso colocar no seu 
pescoo?" Que velho mais afetado.
- Ah, querida - digo para dar uma fora.
-  isso mesmo, querida - repete, amarga, com uma lgrima gorda escorrendo pela bochecha. - Sabe, eu tinha tanta certeza que deixei ele transar comigo toda noite. 
Imagine s!
- Eca.
- E sabe o que  pior?
- O qu? - Fao um sinal para pedir mais bebida. Acho que precisamos.
- Chupei o pau dele e tudo o mais. Isso mesmo, fiz sexo oral. - Ela berra, enquanto todo mundo na mesa ao lado e a outra depois dela se volta, de boca aberta. - 
E engoli. E  esse o agradecimento que recebo. Uma porra de uma correntinha e uma dose completa de porra. E da, quando voltamos para Londres, precisei tomar a porra 
do metr sozinha. Nada de limusine. Nada de carro. Nem mesmo uma porcaria de um txi. Nada.
- Por qu? Para onde ele foi?
- No fao a mnima idia. - Ela d de ombros. - Trabalhar, acho. Aquele homem  uma porra de um workaholic.
Decido que preciso contar a ela a respeito da Vestido de Groselha. Pelo menos ela no vai ficar transando com aquele velho caqutico  toa. Em vez disso, pode achar 
um G&T para ir para a cama com ela.
- Janice - comeo.
- O qu?
- Se ele estivesse tendo um caso, voc ia querer saber?
- Ele est tendo um caso - explode. - Ele  velho, pelo amor de Deus. Quem  que ia querer ficar com ele?
- Voc?
- Eu no quero particularmente transar com ele. - D uma tragada no cigarro e olha para mim de modo compreensivo. - Eu preciso.
- Est certo.
- Mas por que  que voc est perguntando, alis? - Vira a margarita em dois goles e faz sinal para pedir outra. - Voc sabe de alguma coisa que eu no sei?
- Bom. - Hesito. - Lembra que eu contei que o George e o David me pediram em casamento durante o almoo?
- Ah-h?
- Bom, o Jasper estava l.
- Almoando com voc? - pergunta, toda inocente. - Bom, por mim, tudo bem. Por que  que voc no diz logo? No chamaria o fato de almoar com ele de caso, no  
mesmo? Confio em voc. E no precisamos contar uma  outra cada coisinha.
- Ele no estava exatamente almoando comigo - respondo. - Ele estava almoando com uma mulher.
- Uma mulher? - Ela joga a cabea para trs. - Que tipo de mulher?
- S uma mulher - respondo. Acho que ela no precisa saber que a mulher era, bom, to sensual que eu j estava olhando para ela mesmo antes de saber que era com 
Jasper que ela iria se encontrar. Ah, se pelo menos eu conseguisse fazer com que Janice tirasse da cabea essa idia maluca...
- Bom, podia ser a irm dele, no podia?
- Duvido muito - digo com gentileza. - Acho que ela no tinha mais de 25 anos.
- A filha, ento?
- Bom, foi o que pensei - digo, aliviada. - Ele tem filha?
- No fao a menor idia.
- Ento pronto.
- E como  que voc sabe que eles estavam tendo um caso? - ela exige saber. - Eles j foram logo se agarrando e dando uns beijos de lngua ali mesmo na mesa, heim?
- Bom, no...
- Ento? - ela se enfurece. - Ela podia ser qualquer uma. At algum do trabalho. Sabe qual  o seu problema, Katie? Voc  uma invejosa.
- No, no sou - digo, surpresa com seu tom de voz.
- Voc  uma vaca triste e invejosa. Ningum nunca quer transar com voc, muito menos ter um relacionamento com voc. Voc vai ter que se casar com um estrangeiro 
qualquer porque mngem mais quer ficar com voc e voc simplesmente no agenta ver os outros felizes, no  mesmo?
-  exatamente isso - digo cheia de coragem, apesar de estar tremendo por dentro. Nem tive tempo de lamentar minha transa perdida com ela. Poderamos ter rido bastante 
da situao, pelo menos. - Se voc estivesse feliz, no seria to mau. Mas voc no est, no  mesmo? Voc passou as frias inteiras querendo uma coisa e torcendo 
por ela, e simplesmente no rolou. Voc nem conseguiu aproveitar as partes boas, como as compras grtis, e, bom, a foda.
- Ele parece um javali fodendo - ela ressalta. - nem voc ia gostar.
Resolvo ignor-la.
- Voc no consegue aproveitar mais nada na vida porque est to louca para casar. No chame isso de felicidade.
- Ah, e como  que voc vai saber? - vocifera, com tanta crueldade que no posso deixar de me perguntar se h mais algo errado. E com isso, d as costas para mim 
e sai do bar batendo o p.


DEZESSEIS 






A cada encomenda da Comidinhas Caprichadas, minha autoconfiana, junto com minha conta bancria, explode. O ponto de mutao ocorre certa manh quando percebo que 
estou muito mais feliz misturando pimentes vermelhos com maionese e fatiando batatas para fritar do que jamais estive quando ficava na frente da tela da TV o dia 
inteiro, assistindo a gente gorda falar mal uma da outra, E, com minha recm-descoberta autoconfiana na carreira, vem uma atitude mais saudvel em relao aos homens.
Resolvo partir do princpio de que todos eles gostam de mim a no ser que demonstrem o contrrio.
Por escrito.
O que significa que  de meu direito achar que Johnny Depp, Nicholas Cage e mais uns gostosinhos da TV vo vir bater na minha porta em diversas ocasies no futuro 
prximo. Quer dizer, nenhum deles chegou a entrar em contato comigo para dizer que eu sou uma horrorosa, no  mesmo?
Tudo bem, ento eu deixei passar um lindinho no outro dia quando permiti que o cara da padaria escorresse por entre os meus dedos, roncando dentro da banheira em 
vez de descer as escadas cheirando a leo de beb, to gostosa que ele teria vontade de rasgar minhas roupas ali mesmo. Mas ningum  perfeito.
E ento,  claro, o diminuto Colin tambm no era nenhum partido. Mas vamos esquecer esse captulo. No h motivo para ficar pensando de maneira negativa. No futuro, 
resolvo, amassando uma boa poro de massa de pizza, posso fazer e ter exatamente o que (e quem) eu quiser.
Eu, Katie Simpson, vou ser um sucesso.
No sbado  noite, enquanto folheio receitas para um Bar Mitzvah em um subrbio de Hampstead Garden, meu celular toca.
- Sim? - atendo, tirando descuidadamente cachos de cabelo que caram em cima do meu rosto. Cai um monte de farinha em cima do tapete verde novinho de George e David. 
Merda.
-  o Max.
- Ah.
Est vendo s o que eu disse? Eles esto fazendo fila. Mas que droga. Achei que estava a salvo de Max. Faz semanas desde ltima vez que ele tentou ligar, achei que 
tinha captado a mensagem. O que  que ele est fazendo, por que no desgruda de mim?
- S estava achando que...
- O que foi? - digo, irritada, entrando na cozinha, conferindo a data de expirao de uma bisnaga de creme azedo e enfiado uma colherada na boca.
- Bom, voc est a fim de sair hoje  noite?
 sbado. Com que porra ele acha que est brincando? Qualquer mulher que vale seu peso em chocolate programa as noites de sbado com muita antecedncia.
Bom, no eu, exatamente. Janice continua sem falar comigo, de modo que planejei uma noite na frente da TV com uma tijelona de caviare, uma montanha de blinis e um 
balde de creme azedo. Puramente por pesquisa, claro.
- Ou voc est ocupada? - Ele parece cheio de dvidas.
- Estou - digo, olhando para minha parafernlia de cozinha brilhante. 
- O que voc vai fazer?
- Vou ficar em casa - digo com firmeza, apertando o boto para terminar a ligao.
Credo, se isso no bastar para convenc-lo de que ele no passa de uma ficada de uma noite, no sei mais o que posso fazer. Se ele continuar com esse nvel de assdio, 
vou ter que pagar Janice para seduzi-lo e transar com ele para eu fingir que os peguei no pulo e fiquei arrasada.
Quase imediatamente, o telefone toca de novo.
- O QU?
Mas no  o pobre Max. Na verdade, no sei quem diabos . Meio que reconheo a voz, mas no consigo identific-la.
-  o Nick.
- Nick? - digo, apressada.
Uma pergunta bem razovel, sob aquelas circunstncias. Poderia, afinal, ser qualquer um. Uma moa solteira, mesmo que v se casar daqui a alguns meses, precisa se 
cuidar.
- S queria saber se est tudo bem - diz a voz.
- Estou tima. - Coloco um pouco de caviare na boca com o dedinho, bem sexy. - Por que no estaria?
- Entreguei umas coisas na sua casa h cerca de uma semana e voc desapareceu enquanto conversvamos. Achei que tinha assustado voc. No foi?
- No foi o qu? - pergunto, antes de a ficha cair.
Caralho.
 o gostoso da padaria. Rapidamente, apesar de ele no estar me vendo, dou uma checada no meu reflexo no espelho do hall. Meu nariz est coberto de farinha de pizza 
e meu cabelo est melecado com alguma coisa que parece ovo cru. Que beleza.
- Ah, estou bem - respondo, consciente do tremor na voz.
- Ento, o que voc acha de jantar hoje  noite para consertar as coisas? Algo bem simples.
Agora, segundo a minha experincia, quando um cara diz "algo bem simples", ele est falando de uma lauta refeio de cinco pratos, seguida por uma rapidinha e um 
ato de desaparecimento imediato. Ele vai dar no p antes que d tempo para dizer: "Pode deixar que eu durmo em cima da mancha de porra." Bom, dessa vez no, queridinho, 
penso, tirando um pedao espinafre preso entre meus dentes da frente. Eu  que vou
Dar o p depois da trepada, muito obrigado.
- Tudo bem - consigo soar entediada, disfarando o fato de que meu corao disparou no peito. Pelo menos este aqui  altamente inadequado. O que significa que eu 
provavelmente no vou ter problema nenhum para dispens-lo.
- Pego voc s sete.
- Sem problema.
Dou uma olhada no relgio. J so cinco e meia. Meu Deus. Isso  que  marcar algo em cima da hora. Talvez eu seja a segunda opo dele. Alguma galinha de cabelo 
brilhante deve ter dispensado o cara no ltimo minuto. Ah, que se dane, azar dela, sorte minha, acho. No estou muito preocupada se ele acha que eu sou especial 
ou no. Em tempo recorde dobrado, raspo os plos dos dedos dos ps, clareio o buo e aparo a xoxota; depois passo uns bons 20 minutos experimentando lingerie. Coloco 
meu conjunto de suti e calcinha cor de ameixa preferido, troco por um top de Lycra preto e calcinhas-shorts tipo anos 50, tiro e coloco um conjunto simples de algodo 
branco para fingir que no sou sexy, e da volto direto para o conjunto cor de ameixa do comeo. Ento, ao me lembrar dos canaps que tinha preparando mais cedo, 
que precisam estar em uma mansozinha de Saint Reetham at as seis e meia, pulo dentro de um txi, entrego o mando o motorista voltar correndo para Islington. s 
sete horas e trs minutos j tomei uma chuveirada rpida e coloquei jeans pretos apertados e um casaco preto sensual. No  exatamente adequado para a noite de sexo 
selvagem que tenho em
mente, mas serve. S espero que ele no me aparea com alguma coisa remotamente fina. Eu deveria t-lo avisado de antemo que para mim  impossvel ter pensamentos 
sujos com algum que usa terno. E se for terno com colete e tudo o mais, pode esquecer de vez.
Pior ainda, e se ele for um cavalheiro perfeito? E se ele quiser sair comigo mais de uma vez antes de me jogar na cama me comer com gosto? Que porra eu fao nesta 
situao?
Bom, pelo menos ele no tem um nome horroroso tipo Derek. Ou Nigel. Nunca deixaria um Nigel se aproximar de minhas partes ntimas.
E  melhor que ele me leve a algum lugar legal. Eu gosto bastante de tailands. Ou ento poderamos ir ao italiano bacana de George e David. Aquele dos garons bonitos 
onde David (ou melhor, George, em nome dele) pediu a minha mo em casamento.
Seja onde for, ele est atrasado.
Cafajeste atrasado, alis.
s oito, o telefone toca e eu atendo, com um friozinho no estmago. Tudo bem, eu sei que no estou apaixonada pelo cara nem nada assim. Na verdade, tanto faz, mas 
passei batom e tudo o mais, e vou me sentir meio boba se levar o cano. Mas e da? Com certeza eu no o amo. Na verdade, nem sei bem se estou a fim dele.
Ento, por que  que vou sair com ele, para incio de conversa?
Acho que s tem uma resposta para esta pergunta.
Porque posso.
Mas no  Nick me dando o cano.  Max. De novo.
- O que foi agora? - pergunto na lata.
- Se voc estiver ocupada hoje  noite... - ele arrisca.
- Eu disse que estava, no disse?
- Bom, e amanh? - Ele hesita. - Podamos ir ao cinema. Ou algo assim.
Meu Deus, agora ele est se fazendo de trouxa. Ser que o cara no tem orgulho nenhum? Todo esse derretimento para cima de mim. Ele deve ter mesmo algo de muito 
errado.
- Acho que vamos ter que ficar com "qualquer coisa assim" - respondo, desencanada. - Vou estar ocupada.
- Algum outro dia, ento - insiste. - Sabe, o negcio  que...
- Pois no? - Agora estou impaciente. - Voc vai ter que ser rpido, creio. Preciso estar em um lugar em dez minutos.
Se eu tiver muita sorte. Mas ele no precisa saber disso, no  mesmo?
- Sabe como , o negcio  que - prossegue ele - eu gosto de voc.
- Muito obrigada.
Bom, vamos encarar. O coitado  apenas humano.
- Gosto muito de voc.
- Que bom.
- E gostaria muito que voc fosse minha namorada.
- O qu?
- Eu disse...
- Tudo bem - sacudo as mos para evitar que ele repita, apesar de ele no estar me enxergando. - J ouvi.
- Bom, e ento?
Credo. Qual  o problema dos homens? H semanas eu evito os telefonemas dele e ele ainda acha que tem alguma chance comigo. Qualquer garota com respeito prprio 
do lado receptor deste telefonema j teria mandado ele se foder faz tempo. Ela teria ficado em casa, balanando para a frente e para trs, virando garrafas de vodca, 
durante todas as noites das ltimas trs semanas.
- No tem outra pessoa para voc falar isso? - pergunto.
- Mas eu quero voc - ele choraminga, soando como uma criana petulante.
- Bom, acho que vou precisar lanar mo de um clich para dar uma resposta - digo com firmeza, acendendo um cigarro e fazendo uma careta de terror quando vejo fagulhas 
do isqueiro carem sobre a pele de carneiro em cima do sof.
- Desculpe?
- Querer no  poder - digo, desligando o celular bem quando a campainha toca.
Fico aliviada ao ver que Nick, mesmo com uma hora e meia de atraso, parece aceitvel, com jeans desfiados em uma camiseta arregaada. A ltima est um pouco levantada, 
revelando um pacote de seis latinhas de cerveja. Hmmm.
Com sorte, passaremos a elas mais tarde.
- Posso deixar a bicicleta no hall?
Seguro-me para no cair para trs de surpresa. Passar na casa de algum de bicicleta no  exatamente o que eu entendo como "pegar algum para sair". Mas no faz 
muita diferena, no  mesmo? No vou ficar envolvida com isso durante muito tempo, afinal de contas. De qualquer forma,  bastante agradvel caminhar da casa de 
George pela Upper Street, observando as pessoas sentadas na calada, comendo pratos que parecem deliciosos. Continua quente na rua, e vou sentindo o cheiro de churrasco 
no ar quando percorremos Islington Green e nos dirigimos para Highbury Comer.
Fico um pouco decepcionada quando Nick revela os parmetros do nosso encontro. Mas da me recomponho como posso e digo a mim mesma que me anime. Afinal, sexo selvagem 
 sexo selvagem, no importa o que se come antes. E eu sempre achei que tem algo muito sensual em comer batatas fritas direto do pacote, levando em conta toda a 
lambida de dedos e o estalar de lbios que a atividade inclui. E  claro que tem o negcio do ovo em conserva. Nick entra no lugar e j vai logo pedindo um, como 
se fosse a coisa mais natural do mundo. Secretamente, fico deliciada. Sempre fiquei me perguntando como eles seriam, plidos, dentro daqueles potes enormes, lembrando-me 
das aulas de biologia na escola. Mas nunca conheci algum que os comesse. E ningum que conheo  capaz de se convencer a experimentar. Ento, quando Nick pede um, 
resolvo dar uma chance tambm.
E no me decepciono.
Ficamos sentados l em Highbury Fields, comendo nosso peixe com batata frita e sentindo o cheiro da grama recm-cortada, observando enquanto a luz se vai e os garotos 
terminam suas partidas de futebol para voltar para casa e dormir (ou ir assaltar velhinhas, seja qual for sua atividade preferida depois que escurece).  medida 
que comemos, no demoro para perceber que Nick e eu temos pouqussimo em comum. Na verdade pode-se dizer com segurana que no temos absolutamente porra nenhuma 
em comum. Mas isso s faz com que a idia de transar com ele parea ainda mais animadora. E ele  lindo. De tanto andar de bicicleta, ele ficou com o corpo bronzeado 
e
torneado de um deus grego.
E aqueles olhos cor de caf forte no so nada menos do que apetitosos.
Fao uma tentativa de puxar papo. Algo me diz que no faz o mnimo sentido falar de arte, livros ou decorao. De modo tento fazer perguntas sobre a vida dele enquanto 
engole o resto de batata frita e enxuga um pouco de baba engordurada do maxilar bem esculpido.
- O seu trabalho deve ser muito bom - solto. - No ficar atrs de uma escrivaninha o dia inteiro. Ficar na rua, tomando ar fresco.
- O ar da Oxford Street no  bem fresco, no  mesmo? - ele observa.
- Mesmo assim, voc sabe do que eu estou falando. Estremeo de prazer com o jeito como ele falou. - Com o sol na cabea e tudo o mais.
- S. - Ele concorda com a cabea, amassando o invlucro do peixe com batata e jogando na direo de umas rvores.
Fico um pouco preocupada com a) ter acabado de comer muito antes de ele terminar e b) ter colocado a embalagem vazia na minha bolsa para jogar em uma lixeira depois.
- S que no inverno fica um frio de lascar. Penetra nos ossos. S que eu no preciso ir trabalhar se eu no quiser.  igual quele negcio. Sei-l-o-qu.
- Sei-l-o-qu?
- Tipo os jornalistas. E os paparazzi. Gente que trabalha por conta prpria e os outros contratam.
- Freelancer?
Meu Deus, ele  mais burro do que eu pensava. O que para mim est muito bem. Pelo menos  decorativo. O que me interessa  o que est dentro das calas dele, no 
da cabea.
-  isso a. A Poder dos Pedais  meio assim.
- Ento voc no trabalha exatamente para a padaria?
- No.  uma agncia. E se no quiser trabalhar um dia,  s fazer hora extra no outro. E a grana no  m. Acho que paga pelo perigo que a gente passa. A gente 
arrisca a vida quando anda nestas ruas com uma bicicleta de entrega.
Caio na risada e conto a ele que, da ltima vez que andei de bicicleta, apertei o freio errado quando uma mosca entrou no meu olho. Sa voando por cima do guido, 
ca com tudo de queixo na sarjeta e ainda cortei os lbios com os dentes. Agora  uma histria engraada, mas na poca no foi nem remotamente divertida, apesar 
de Sam quase ter feito xixi nas calas de tanto rir depois de ver que eu estava bem. Mas parece que Nick nem est ouvindo. Na verdade, parece que ele no est muito 
a fim de falar. Em vez disso, comea a esfregar minha perna com urgncia em demasia, do jeito que os adolescentes fazem no primeiro encontro, Isto est um pouquinho 
rpido demais,
at para mim, por isso continuo sentindo a necessidade de tagarelar como uma matraca.
- E quando voc comea a trabalhar? - pergunto, apesar de no dar a mnima para isso, - Voc tem que se apresentar em algum escritrio no comeo do expediente?
- No, - Nick larga a minha coxa um instante, ajeita uma mecha de cabelo atrs da orelha, leva a lata de cerveja aos lbios d de ombros, - Tem uma central de rdio, 
eu ligo para l quando estou pronto para comear. Sabe como . - Ele coloca um rdio imaginrio perto da boca e manda: - "Um seis, um sei. J tomei caf e estou 
pronto para sair," Uma coisa assim. E da eles me falam onde vou buscar a primeira encomenda.
Tudo bem, ento no  to glamouroso quanto ser um RP celebre ou trabalhar na TV, mas ter tanta liberdade assim  timo. E  por isso que cruzo os dedos e toro 
para que a
Comidinhas Caprichadas d certo, Percebo que j estou gostando imensamente de trabalhar para mim mesma,  to melhor do que ter que ficar sentada em uma firma, sendo 
educada com gente com quem eu preferia nem ter que compartilhar o mesmo ar de um elevador se tivesse escolha, precisa fingir que nunca digo a palavra que comea 
com "F" e sem poder peidar.
- No  mau - continua Nick. - Meu pai queria que eu entrasse nos negcios com ele.
- Negcios da bolsa?
- No. Construo. Meu pai e minha me eram muito novos quando se conheceram. Foi uma loucura, Mas ele tomou jeito e ficou no negcio da construo, Ganhou a maior 
grana.
- Que bom para ele. - Dou um gole na minha lata de cerveja e fico um tanto acanhada ao perceber o papel ridculo que estou fazendo.
-  - ele d de ombros. - E ele continua bem bravo porque eu no consegui fazer a mesma coisa.
- Voc no quis fazer? - dou uns tapinhas no brao dele quando comea a percorrer minha coxa mais uma vez. Afinal, no quero que ele ache que eu sou respeitvel. 
Ele pode parar. E isso no seria nada bom.
- No - responde ele. - Eu queria. E para falar a verdade me esforcei bastante. Mas, como eu disse, no consegui. A primeira parede que fiz desabou.
- Nossa.
- Em cima de uns moleques.
- Que merda.
- . Eles no se machucaram, mas depois disso eu no consegui mais me dedicar.
- Sei. - Apio-me nele por um segundo, Ele parece to doce quando faz careta. Igual a uma criancinha perdida. - Voc ficou muito perturbado? -Apio-me contra ele 
mais um pouco, s para dar seqncia s coisas, e ele se vira para o outro lado rapidinho.
- Desculpe. - Sinto-me uma tonta.
- Tudo bem. S que voc estava meio que me esmagando.
Credo. Mulher desajeitada esmaga garotinho frgil e o leva  morte no parque. J estou vendo a manchete.
Mas nem precisava me preocupar. Quando me afasto, rapidinho, Nick me puxa de novo para ele, virando-se na minha direo e colocando dois dedos embaixo do meu queixo, 
puxando meu rosto para perto do dele, at que seus lbios carnudos deliciosos fiquem a um centmetro de distncia dos meus. E, quando se encostam, uma onda de eletricidade 
faz formigar minha espinha e fico toda animadinha por antecipao.
- Tem mais uma coisa que eu preciso contar - diz ele, a lngua passeando lentamente por meu lbio inferior at eu achar que vou gritar de tanto teso.
- O qu? - digo, quase brava. Naquele momento, se ele me dissesse que era filho de dois assassinos em srie, no faria a menor diferena. A nica informao de que 
preciso no momento  o tamanho do...
A no ser que ele venha me contar que no tem. Isso seria um pouco prejudicial, preciso reconhecer.
Fora isso, ele pode dizer o que quiser que eu vou agarr-lo pelos cabelos, puxar o rosto dele na direo do meu e dar uns malhos que o mataro de teso.
- Voc no  gay, ?
- Ah, no. - Ele aperta a minha cintura. -  que... o meu nome na verdade no  Nick.
Ah, meu Deus. Ele  mesmo filho de um assassino.
- No foi voc que soltou aquela bomba no Carnaval, foi?
-  Dudley.
- Dudley? - no consigo segurar o riso. - Essa no  uma cidade do interior?
-  por causa do Dudley Moore. Fui concebido no fundo de um cinema - explica, com a respirao entrecortada, quando passo os dedos na nuca dele. - Meus pais tinham 
ido ver
Arthur.
-Ah.
- Voc no quer mais ficar comigo, no ?
- Muito pelo contrrio. - Sorrio, agarrando um chumao de cabelo dele e apertando sua boca contra a minha. O fato de estarmos fazendo isso ao ar livre faz com que 
eu me sinta completamente vadia, e de propsito. E, no que diz respeito a beijos, o de Nick (ou Dudley)  bem bom. No consigo passar meus dedos no cabelo dele com 
tanto teso como ele faz comigo, porque o dele  todo embaraado, mas coloco as mos em volta
de seu pescoo e mando ver, at que ele me afasta.
- No consigo respirar.
- Desculpe.
Pulamos dentro de um txi e vamos para a casa dele, agarrando-nos como adolescentes no banco de trs, enquanto o motorista olha para a frente e finge no reparar.
- Voc  linda de morrer - Nick me diz. - Quer dizer,  claro que eu tomei um E antes de sair...
- Tomou? - Ento foi por isso que ele ficava esfregando a minha coxa daquele jeito. Talvez ele no goste tanto assim de mim, Que maravilha. Eu podia ser qualquer 
uma. Na verdade, ele s deve ter me ligado porque estava a fim de agarrar algum.
- . Mas voc  um amor.
Ah, que se fada. Ele  homem, no ? E est aqui.
- Mas voc  meio esquisita, viu? - completa.
- Sou? - Vejo a expresso do motorista no espelho retrovisor. Os lbios dele tremem nas pontas, como se ele estivesse tentando no rir.
- Mas voc  um amor. - Nick/Dudley termina seu monlogo. - Tipo aquela Karen lson.
- Quem?
- Aquela supermodelo ruiva. Parece meio extraterrestre.
- Obrigada.
- Tipo uma gata espacial total. Voc me lembra ela.
Quando o txi pra ainda estou confusa, sem saber se aquilo  um elogio. Encosta em frente de uma casa alta em Notting Hill. Depois de gastar seis libras e vinte 
centavos no jantar com cerveja, Nick no tem mais dinheiro, ento, dizendo a mim mesma que no me importo, pego minha bolsinha cintilante pago o motorista enquanto 
Nick abre a porta.
Quando o txi se afasta, dou um passo atrs e olho para a casa.  enorme, Presumivelmente, um cara como ele no ocupa o espao todo. Fico achando que vou entrar 
l dentro e descobrir que ele me arrastou para alguma espcie de quartinho apertado com uma caminha e um aquecedor barato e macarro instantneo queimado no fogo, 
E a cama dele vira sof durante o dia mas que, como qualquer homem, ele no se importou em arrumar, de modo que estar coberta por um lenol imundo e  por isso 
que todo solteiro sempre tem lenis verdes ou azul-marinho,que no deixam aparecer os fluidos corpreos. E nem vai ter uma colcha.
No podia estar mais enganada. Nick mora na casa inteira. Que  to imensa quanto eu imaginava. E a decorao  linda. S hall de entrada j  do tamanho do meu 
antigo apartamento Balham. O cho  acarpetado em amarelinho sedoso e cada sala est cheia de objetos que parecem ter sido agrupados com carinho, em anos de viagens. 
Tapetes indianos e sris enfeitam as paredes de uma sala cor-de-rosa, bem ao lado da cozinha. Esculturas africanas em madeira enchem o estdio. No banheiro do trreo, 
h vrias cabeas chinesas de papier mch e uma bandeira de prece nepalesa. E h fotos em porta-retratos prateado por todos os cantos. Um casal que presumo ser 
seus pais. E vrias crianas fofas, uma das quais deve ser ele. Chupando picol, agradando carneiros em uma fazendinha, andando de trator. Em todas elas, ele tem 
os mesmos olhos cor de caf e sorriso adorvel e maroto.
- Ahhh. - Escolho uma dele na praia. Devia ter uns 7 anos nela. Faltam vrios dentes no sorriso dele e est sentado sobre um burrico preto e gordo, chupando um sorvete 
com cobertura. - O pequeno Dudley no litoral.
- Pare com isso - ele implora, rindo e me pegando pelo pulso, - Vamos l para cima. L no tem nenhuma fotografia para me deixar com vergonha.
- Agora, espere s um pouquinho. - Viro o corpo e o pego desprevenido quando coloco a foto de volta a seu lugar, sobre a lareira enfeitada. - O que voc acha que 
eu sou? Uma qualquer, que vai para a cama logo?
Nick/Dudley parece horrorizado.
- Desculpe - gagueja. - No quis dizer isso. No precisamos, sabe. Podemos s...
- Estou brincando, seu tontinho. - dou risada, empurrando-o na direo da escada e deixando que me conduza para o andar de cima. - Na verdade, j estava achando 
que voc nunca ia me convidar.
Que excelente, Tudo bem, ento no temos nada em comum, a no ser a bebida e a agarrao, mas no precisamos conversar, no  mesmo? De qualquer modo, ele est louco 
para me comer e eu estou totalmente sbria. Vou dar uma trepada absolutamente
insignificante e nem estou bbada.
Nem me sinto culpada.
O quarto de Nick  to maravilhoso quanto o resto da casa. Uma cama francesa com cabeceira domina o centro do quarto. Lenis novinhos e brancos, cobertos com uma 
colcha cor de uva. No tem muita cara de homem solteiro. Alguma coisa no est muito certa aqui. Em algum lugar na minha mente um alarme soa, ainda que baixinho. 
Ele  entregador de bicicleta, pelo amor de Deus. E no dos mais inteligentes.  de se esperar que algum como ele viva em uma pocilga. No neste palcio.
Penso em quando o txi encostou. Ele tinha chave, no tinha?
Quer dizer, no acabamos de arrombar a casa de um estranho completo...
Acabamos?
Caralho. As idias que eu tinha para esta noite eram bem diferentes disto.
Resolvo test-lo.
- Onde  o banheiro?
Ele faz um sinal com a cabea em direo a uma porta que se abre de dentro do quarto, Claro. Uma sute. Bom, isso no quer dizer que ele more aqui. Qualquer pessoa 
(menos eu, obviamente) saberia que uma casa como estas teria um luxo destes, E o banheiro  luxuoso. Tudo  brilhante, caro e tem um certo toque feminino. Frascos 
de produtos da linha Romance de Ralph Lauren enchem a pia. H at um tubo de creme depilatrio no armarinho. Este ltimo item s pode significar uma coisa, entre 
duas opes.
Costas peludas.
Ou namorada que mora com ele.
Sinceramente, espero que seja a segunda opo.
Nick insiste em tomar banho antes de ir para a cama, acabando com qualquer medo que eu tivesse no campo da higiene pessoal. Reparo que ele no usa a sute. O que 
 esquisito. Como se fosse um hbito, vai a um outro banheiro, que sai do patamar da escada. E isso me parece muito estranho, Quando volta, todo limpinho e cheiroso, 
no recende a colnia francesa, como era de se esperar do dono de uma casa destas, mas sim a loo de pinho (ou algum desinfetante de banheiro). Fico feliz de constatar 
que no tem um carpete nas costas.
Ento deve ter uma namorada que mora com ele, A menos que o creme tenha feito maravilhas. Afinal, esta  a casa de um, ou talvez dois, profissionais muito prsperos. 
Nick no pode morar aqui sozinho, de jeito nenhum. A mulher deve sustent-lo.  um caso muito bvio de Namorada Ausente.
Bom, com certeza eu no tenho nenhum problema com isso. Na verdade, para ser honesta, s deixa tudo mais excitante. Estou prestes a transar com um cara que eu no 
conheo na cama da namorada dele. Espero que ela no ligue se eu amassar os lenis,
penso, rindo, enquanto Nick abre o zper do meu jeans, tira meu casaquinho com um movimento rpido e me empurra para cima da cama, cobrindo-me de beijos e colocando 
a mo na minha bunda. Os movimentos dele so vidos, quase como os de um adolescente fazendo sexo pela primeira vez. O que me faz rir. Fico imaginando se ele  assim 
com a namorada, a vaca rica.
Ainda assim, o fato de ele ter namorada j facilita bastante as coisas para o meu lado. Reduz em muito as chances de ele querer repetir a dose. Assim como a possibilidade 
de ele ficar me ligando insanamente como o louco do Max.
Pronto, fui l e mandei ver. S isso.
Consegui alcanar a Trepada Sem Compromisso perfeita. Vou poder cair fora antes de ele acordar e ele no vai dar a mnima. Provavelmente vai ficar feliz, porque 
isso vai lhe dar tempo para tomar banho, se secar e trocar os lenis a tempo de evitar suspeitas.
No decorrer dos acontecimentos, nem dormimos de verdade porque Nick (bom,  muito mais sexy do que "Dudley", no  mesmo?) parece ser capaz de seguir em frente como 
um trem a noite toda. Para ser exata, transamos cinco vezes. E, s sete, quando ele me brinda com mais uma rodada de Croissants para o Caf da Manh, percebo que 
 mais difcil do que eu pensava dar no p, Porque ainda quero mais e acho que no vou conseguir caminhar, quando um carro encosta e Nick pula como se tivesse levado 
um tiro no saco.
- Chiu.
Droga. A namorada dele, j? E bem quando eu estava prestes a ter aquele tipo de orgasmo que faz os ouvidos apitarem. Que atitude mais egosta. Resignada (apesar 
de estar me cagando de medo de ser pega no pulo), tiro meus brincos. No tem nada pior do que um lbulo de orelha cortado, e me preparo para o pior.
Segundos mais tarde, a chave inevitvel tilinta na fechadura e Nick corre pelo quarto como uma galinha sem cabea, ainda com uma ereo em que d para pendurar um 
casaco, recolhendo meus tnis, minha cala e meu casaco e jogando tudo em cima de mim.
- Rpido - ele balbucia, fazendo caretas de terror quando bate a ponta do pau na porta do guarda-roupa aberto. Silenciosamente, tenho convulses de riso em silncio. 
A namorada dele pode ter estragado as minhas chances de um ltimo orgasmo, mas pode esquecer a ao sexual por um bom tempinho agora. At a tarde, o pau de Nick 
vai estar parecendo um chourio.
- Rpido - ele sibila de novo. - V se esconder no meu quarto.
Perdo?
- Seu quarto? - engulo em seco. - Mas este aqui no ...
Sem maiores explicaes, abre a porta do quarto, me empurra (ainda totalmente nu, veja bem) para o patamar da escada e para dentro de um quarto de solteiro coberto 
de psteres do Baywatch e outras coisas do gnero. Psteres de revista. Bate a porta atrs de ns e solta um suspiro de alvio enquanto eu, mais zonza e confusa 
do que nunca, mas me mijando de medo um pouco, me afundo na colcha de Star Trek Next Generation
e espero mais instrues, dividida entre me sentir incomodada e querendo que ele enfiasse a cabea no meio das minhas pernas at que eu me sentisse satisfeita.
- No armrio - ele sibila bem rpido, quando ouvimos passos subindo a escada e a voz de uma mulher chama o nome dele.
Encolho-me como uma aranha morta, xingando-o quando lima luva de beisebol acolhe a minha bunda nua. Estou louca para mijar e no fao idia de quanto tempo devo 
permanecer aqui. Depois do que parece meia hora, tenho coragem de colocar a cabea para fora. O quarto est vazio de modo que, com a idia de fazer um xixizinho 
antes de procurar minhas roupas e sair fora em disparada, vou at a porta na ponta dos ps e abro.
A costa est limpa. Posso mijar em total segurana. Mas espera s um pouco. Esta casa aqui  velha. O assoalho estala bastante. Um passo em falso e sou fortssima 
candidata a levar uma surra de uma vaca, sem falha. E no sou muito de briga. Na verdade, no que diz respeito  violncia, sou meio cagona. Fujo de qualquer situao 
assim em uma frao de segundo. E, com uma iluminao absolutamente genial, percebo exatamente o que tenho de fazer.
Vou rolando.
 isso mesmo. Deito no cho e vou rolando igual a uma lingia at o banheiro. E estou quase l quando meu peito direito bate em alguma coisa.
Um escarpin bem brilhante.
E dentro do sapato tem um p.
Merda.
O mais lentamente possvel, rolo para cima das costas e olho, gelada de medo, dentro dos olhos brilhantes de uma mulher de meia-idade que estava arrumando o armrio 
do corredor.
- Ol, querida. - Ela sorri, aparentemente indiferente ao fato de eu estar completamente nua. - Voc deve estar com um pouco de frio.
- Hm. Um pouco - reconheo.
- Vista isto aqui - diz toda prestativa, entregando para mim uma blusa florida pavorosa e uma coisa que s pode ser descrita como um calolo. E ainda  bege. No 
fao idia de
quem seja esta mulher, mas, se ela mora aqui, seu gosto para roupas no tem nada a ver com o gosto para a decorao. Relutante, fico em p, coloco a blusa para cobrir 
meus seios e me enfio no calolo toda desajeitada. - Melhorou. - A mulher abre um enorme sorriso. - Quem voc  mesmo?
- Katie - respondo, bem idiota com a mo estendida para cumpriment-la. - Katie Simpson.
"Credo, por que voc no d logo para ela seu endereo completo e tambm o nmero do telefone, sua tonta", caoa uma vozinha dentro da minha cabea, quando percebo 
o grau de idiotice da situao.
- Sou a senhora Black - diz a mulher, apertando a minha mo.
- Oi.
Bom, eu continuo sem entender nada, no  mesmo? Quem  ela? A empregada? E se for, ser que  uma empregada legal'? Ser que vai contar para a namorada de Nick 
que ele  um mentiroso e a est traindo, que  um cafajeste adltero? Ou ser que a gente se safou?
- Eu sou a me do Dudley - diz a mulher, prestativa, ao perceber minha confuso. 
Engulo em seco, como um peixe fora d'gua. Me dele?
- Bom, querida, voc deve estar com fome. Vamos l para baixo. Tem bastante caf fresquinho e posso fritar mais um pouco de bacon, se voc quiser.
E sem mais qualquer outra palavra, ela me empurra escada abaixo e para dentro da cozinha, onde Nick (desculpe, Dudley), uma menininha de uns 12 anos e um senhor 
de meia-idade de cala de moletom esto tomando caf.
Olho para o esmalte turquesa nas unhas dos dedos dos meus ps. Isto  mesmo uma tortura.
- Bom, acomode-se, querida - vocifera o homem de moletom que, obviamente,  pai de Nick. - Deixe-me dar uma olhada em voc.
Dou um passo  frente, sentindo-me ridcula com aquela roupa de me. O modelo j seria terrvel sozinho, mas por azar eu ainda sou to alta que a barra da cala 
mal chega no meio da minhas canelas.
- Bom, ela  uma moa legal, no , me? - O pai dele ri, abocanhando uma garfada de gema de ovo e molho com um pedao de po branco. - Sabe, querida, estvamos 
bem preocupados. Achvamos que ele era bicha, mesmo. Nunca apareceu nenhuma moa por aqui, no  mesmo, me?
- No. - A me de Nick sacode a cabea. - Ele j est 18 anos e nunca ouvimos falar de namorada nenhuma.
Pera.
Dezeoito?
Credo. Isso me transforma praticamente em uma pervertida. Em uma corruptora de menores.
Fico brigando com a minha conscincia durante todo o caminho de metr at a minha casa. Depois que engoli meu bacon e dei no p, Nick me levou at a porta com uma 
expresso ansiosa no rosto. E de repente ficou bvio como ele era muito mais novo do que eu. Credo, s vezes eu no tenho a mnima noo mesmo.
- Ser que a gente pode se ver de novo?
Ai credo. No me venha com essa cara de cachorrinho apaixonado. 
"V se foder", dizia minha conscincia.
- Tudo bem - soltou minha enorme boca traidora. - ligue para mim. Quando quiser.
Agora que estou a caminho de casa, amaldio a mim mesma por minha completa incapacidade de concluir uma perfeita ficada de uma noite s.
Veja bem, s porque eu disse que ele podia me ligar, isso no significa que ele vai se dar ao trabalho, no  mesmo? Os caras so assim. No d para confiar neles 
nem um pouco. Afinal, no  exatamente por isso que eu no quero mais saber deles?
Durante todo o caminho at em casa, sinto-me como um monte de frustrao. O Croissants Interruptus que rolou mais cedo me deixou insatisfeita e esquisita. Tento 
me apoiar no suporte de metal no meio do vago, lembrando-me de uma vez que Janice contou ter tido um orgasmo-surpresa por causa da vibrao.
Nada.
Nadinha de nada.
E todo mundo est olhando para mim, imaginando por que diabos eu estou ali parada no meio do trem em p, j que metade dos assentos est vazia. Dou de ombros e me 
dirijo a um assento. Talvez Janice estivesse em uma linha diferente quando aconteceu.
De qualquer modo, no  nada que uns bolinhos e um ou dois minutos com o chuveirinho, em casa, no possam resolver.
Quando afinal atravesso o porto da frente, fico surpresa de ver uma pessoa agachada nos degraus de George e David. No tenho muita certeza a respeito de quem , 
mas, pela maneira como George est parado  janela de cima, olhando para os gernios vermelhos da floreira da janela e jogando coisas para baixo, percebo que  algum 
que no faz muito sucesso.
E ento reconheo a camiseta que ele est usando.
 minha.
E que, devo dizer, eu bem que gostaria de ter de volta.
. Voc j adivinhou.
 a porra do Jake.
- O que  que voc quer?
Minhas entranhas do cambalhotas mais rpidas do que as de uma ginasta olmpica e meu corao usa minha lngua de trampolim, mas eu desvio do tomate-cereja que George 
joga nele e consigo parecer to fria quanto um picol.
Quer dizer, at que Jake se levanta e eu percebo que ele continua to alto e lindo como sempre. Aquele cabelo escuro desgrenhado  to sexy que me deixa sem flego 
e involuntariamente dou um passo atrs, piso em falso e caio de bunda no cho.
Foi bem, Katie. Muito sutil.
- Como foi que voc me achou?
- Sua me disse onde voc estava.
- Disse?
Que porra ela est fazendo? Sabe como , ela sempre gostou do Jake. Ele sempre era to educado quando estava perto dela que ela nunca conseguiu entender muito bem 
por que eu o "larguei", como ela colocou. Claro que fiquei envergonhada demais para contar-lhe os detalhezinhos extras, tipo eu o ter pegado com a Fraser Calcinha 
de Peixe, de modo que ela no ficou com a idia correta. Provavelmente est em casa agora mesmo, imaginando todos os tipos de vol-au-vents que servir no nosso casamento.
George continua na janela do andar de cima, dividido entre tentar no mijar nas calas de tanto rir por causa do meu tombo e parecer absolutamente horrorizado com 
a perspectiva de eu convidar Jake para a casa dele.
O que,  claro, eu vou fazer. Quer dizer, no sou idiota. Eu sei que no devo perdo-lo. Mas bem que gostaria de ouvir o que ele tem a dizer. E, preciso admitir, 
h uma partezinha de mim que espera que ele reconhea que errou.
Claro que, se ele reconhecer, no fao a menor idia do que farei, mas vamos pagar para ver, pode ser?
Sorrio nervosamente para ele enquanto reviro a bolsa procurando a chave. Nesse nterim, um berro histrico vem da janela l em cima.
- O que voc est fazendo, sua megera ridcula?
- Vai se foder, George - digo curta e grossa. - Pode deixar que eu cuido disto.
E a verdade  que eu simplesmente no consigo resistir a Jake. Os olhos brilhantes verdes dele parecem to cheios de maldade como nunca, Para ser honesta, seria 
um duro golpe se ele tivesse perdido esta fagulha. Se os olhos de esmeralda dele tivessem perdido seu brilho verde pelo estresse de ter me deixado ir embora e por 
ter que cuidar da namorada vagabunda e da cria diablica dela. Quer dizer, no tem nada mais legal do que cruzar com algum que lhe deu o p na bunda e ver que voc 
 que se deu melhor na histria toda, no  mesmo?
Deixo que ele entre em casa. Sorrio para ele quando ele sorri para mim. Fao um gesto para que ele se sente na sala de estar imaculadamente branca de George. Depois 
que ele est sentado, percebo que no fao a mnima idia sobre o que devo fazer a seguir, de modo que dou uma checada na aparncia no espelho veneziano em cima 
da lareira e fico horrorizada de ver que me pareo com um panda que tomou herona. Enormes
crculos de delineador preto escorreram at a metade das minhas bochechas e estou pavorosa. Meu modelo florido com cala curta tambm no est ajudando em nada. 
Eu devia ter lembrado de colocar minhas roupas antes de dar no p.
Graham, aquele traidor gordo e ruivo, pula direto no colo de Jake, ronronando igual a um motor. Droga. Ele tambm no devia estar aqui. George vai ter o maior ataque 
se vir isto.
- Ah, Katie - Jake suspira, agradando a cabea de Graham de maneira to carinhosa que desejo ser eu no colo dele, e no o gato. - A vida no  esquisita?
- Do que voc est falando?
-  que eu acho...
- Pois no?
- Quer dizer, no me leve a mal...
- Prossiga.
- Acho que cometi um erro enorme - termina o raciocnio, afinal.
-Ah.
Ser que ele est falando em ficar de novo com a Calcinha de peixe ou de mim? Fico me perguntando.
- Quer dizer, ter filho no  assim to emocionante quanto parece - continua ele.
George, descendo a escada, pega o rabicho da conversa.
- Fico com ele se voc quiser. Quanto voc quer? - pergunta na lata. - A menos que venha com 666 estampado na testa, claro.
- Perdo?
- Posso tirar a coisinha das suas mos. Dependendo do rosto dela, claro. No  gorda, ?
- Ela  perfeita - responde Jake. - Para falar a verdade,  linda. E no d muito trabalho. Eu... quer dizer, ns com certeza no queremos vend-la.
- Ah. - George parece decepcionado. - Tudo bem. Bom, se voc mudar de idia, j sabe onde estamos. Tchau, querida.
Ele me d beijos nas bochechas e aproveita para cochichar: - No faa nenhuma bobagem, querida. No quero que a minha casa esteja cheirando a porra quando eu voltar.
- Aonde  que voc vai? - corro atrs dele em pnico, de repente sem ter muita certeza se quero mesmo ficar sozinha com Jake.
- Vou jantar com a minha me. E tire essa bola de plo ruivos da minha sala antes de eu voltar.
- Posso ir com voc?
- No. - George ri. - Voc pode muito bem ficar aqui e resolver seu assunto com esta porra deste homem infiel. Assegure-se de que ele no esteja mais aqui quando 
eu voltar. E no se preocupe. No me esqueo do seu docinho.
Caio na risada. A boa e velha me de George j estava chegando aos 40 quando seu filho nico nasceu. Quatro anos depois, o pai de George morreu. Desde ento ela 
ficou sozinha, como George faz questo de lembrar toda vez que tento fazer com que ele conte a ela que  gay. Sabe, George, apesar da loucura toda de sua Vida Antes 
de David, sempre foi um filho exemplar, que sai correndo para visit-la em sua casinha em Kent sempre que pode. J me arrastou com ele para l vrias vezes. E a 
me dele, Deus a abenoe, nunca nos deixa ir embora sem ter nas mos algo doce. Um biscoitinho, ou um toffee. Pessoalmente, no me importaria de apostar que ela 
tem total noo a respeito da situao da sexualidade dele e simplesmente no est nem a. No ficaria surpresa se toda aquela implicncia com a solterice dele fosse 
s um jeito de dar corda. Ela  velhaca, essa me do George. No tem muita coisa que ela no saiba. S espero que um dos dois resolva abrir a boca antes que seja 
tarde demais. Seria uma pena se ela nunca ficasse sabendo como George est feliz com David.
- Na verdade - explica Jake quando George bate a porta atrs de si -, estou aqui por causa da Tallulah.
- Tallulah? - pergunto. - Quem diabos  Tallulah?
- O beb.
- Ah, claro, desculpe.
- Voc fez a comida do casamento de uns amigos meus. Em Hampton Court.
- Aquele com uma piscina, onde todo mundo entrou depois de estar completamente bbado?
- Marina e Giles, isso mesmo.
- No devem ser muito bons amigos, j que no o convidaram - solto, rpida como um chicote.
- Para falar a verdade, convidaram. - Ele sorri. - S que a gente no conseguiu bab.
- Bom, se voc est pensando em pedir para mim, nem se incomode. - digo, curta e seca. - Acho que no lhe devo nenhum favor. E no sou muito de fraldas cheias de 
merda.
- No, boba. - Ele sorri, e eu me lembro de como ele era quando nos conhecemos. Costumava dar aquele sorriso indulgente para mim o tempo todo. E apesar de eu saber 
que tinha um toque paternalista nele, fazia com que eu me sentisse desejada. Janice e Sam costumavam dizer que ele tentava fazer com que eu parecesse idiota, mas 
eu no ligava.
Eu estava apaixonada, pelo amor de Deus.
- Queria saber se voc quer fazer o batizado dela - conclui, sorrindo como se estivesse me fazendo um tremendo favor. Vou dizer uma coisa, que cara mais petulante! 
Se ele acha mesmo que vou ficar correndo de um lado para o outro, servindo canaps de pepino para os amigos dele (que, por coincidncia, costumavam ser nossos amigos), 
ele est muito enganado.
 Mas espera a um segundo. Jake, afinal das contas,  absolutamente brilhante no que diz respeito a formar rede de contatos. Ele conhece montes de gente bacana.
- Que tipo de coisa voc tem em mente? - pergunto.
Negcios so negcios, afinal. E, desde que eu no transe com ele, qual  o problema?








DEZESSETE 







- Ento, isso significa que vamos poder transar de vez em quando, com freqncia? - Jake enxuga o pau na minha colcha e ajeita a cala jeans sobre a bundinha linda.
Tudo bem, tudo bem, eu devia estar me sentindo bem idiota agora. E acabada. E provavelmente um pouquinho usada. E George deve voltar a qualquer minuto, e se pegar 
Jake ainda por aqui, vai ficar louco da vida.
E acho que foi um pouco cruel deixar Jake me chupar logo depois de Nick. Mas, bom, eu no sabia o que ia acontecer, no  mesmo? E estava me sentindo toda frustrada.
Claro que voc provavelmente vai dizer que eu tenho um parafuso a menos por ir para a cama com Jake, s porque ele ficou reclamando sem parar que, desde que o beb 
nasceu, nunca mais transou. A Calcinha de Peixe est preocupada demais com absorventes e exerccios plvicos para prestar alguma ateno nele. Deve estar com medo 
de que, se no continuar fazendo exerccios, a bunda dela possa cair quando estiver rodando bolsinha por a.
A viso dela com as pernas levantadas e a regio da diverso dela com aparncia de acidente automobilstico tambm no ajudaram muito a libido dele, explicou, acariciando 
minha bochecha e dizendo o quanto sentia a minha falta. Claro que ela
no tinha nada a ver com isso, alis.
E eu fiquei toda alegrinha.
Na verdade, estava gostando tanto da ateno que esqueci de ser ferina e dizer que nunca entendi o que diabos um cara sexy e inteligente como Jake via em uma mulher 
que tem tanta classe quanto a lojinha de 1,99 da esquina. O fato de ele afinal ter tomado juzo j me basta.
Estou feliz da vida.
Na verdade, estou muito mais do que feliz. De repente, percebo que no ia ser mal ter Jake de volta  minha vida. Nada srio, claro. No sou uma imbecil completa. 
Sei que nunca mais vou poder confiar nele. Mas, e se eu levar a srio a proposta de transar de vez em quando, com freqncia? Ser que teria algum problema?
Afinal, nem vou precisar fazer uma marquinha nova na cabeceira da cama. Ele j passou por l, em todo caso, at comprou a camiseta. E, se houver a mais remota possibilidade 
de eu voltar a me apaixonar por ele de novo, no vou poder fazer nada a respeito. Com certeza no vou poder sonhar com casamento.
Porque eu j vou estar casada. Com David.
E, claro, h O Fator-Revanche. Enquanto a Calcinha de Peixe fica em casa limpando vmito de beb e fazendo papinha, Jake e eu estaremos fazendo sexo srdido e extraconjugal 
pelas costas dela. Tudo bem,  verdade que no d para evitar sentir
Um pouquinho de culpa. Tem um beb envolvido nessa histria no final das contas. E no  culpa da coitadinha se os pais dela so assim to disfuncionais. Mas ento 
digo a mim mesma que a verdade, no estou ameaando nem um pouco a felicidade da pequena Tallulah. Afinal, com certeza eu no quero que Jake largue a Calcinha de 
Peixe para ficar comigo. Ela no precisa saber, nunca, que o pai dela  galinha.
Ento, convenientemente, fico lustrando a memria do sexo com Jake antes de terminarmos. Esqueo que, na maior parte do tempo, o sexo na verdade era to tedioso 
que eu pedia para ele sair da frente para eu poder enxergar a televiso. Porque transar com Jake agora parece algo to natural, to conhecido, que de repente percebo, 
com uma pontada de nostalgia, que  isso que eu quero. Estar com ele de novo, no faz mal se a freqncia no for grande. Quero me sentir segura.
Tenho sentido a falta dele.



Nas semanas que se seguem, ns nos encontramos principalmente aos sbados. George e David costumam sair para danar neste dia da semana. E  fcil para o Jake se 
livrar da Calcinha de Peixe. O que no  to fcil assim, no entanto,  mentir para Nick/Dudley que, contra todas as probabilidades, revelou-se ser o maior meloso. 
O que  uma pena. Ele tinha mesmo potencial para cafajeste. Descobrir que algum to absolutamente incompatvel est completamente apaixonado por mim  a mesma coisa 
que receber um carto delicioso no Dia dos Namorados e perceber que foi a minha me quem mandou.
Ainda assim, resolvo que provavelmente  bom mant-lo na reserva. Afinal,  algum alm de Jake.  bom sentir que eu estou meio que devolvendo a traio. Mesmo que 
ele ainda no saiba disso. Janice compreenderia. S que eu no posso conversar com ela sobre isso porque ela foi passar um fim de semana de Vagabunda Rica em Ipswich 
sem nem me avisar. Foi George quem me contou.
- Tem alguma vagabunda rica em Ipswich? - perguntou a ele, cheia de dvidas. Ns dois estamos sentados na cozinha da casa dele (ainda no consigo pensar que ali 
 a minha casa tambm), comendo iogurte de groselha com colheradas de mel.
- Bom, foi exatamente o que eu pensei - revela ele. - Devem fretar uns nibus e lev-las para l especialmente para a ocasio.
- E o que  que acontece nesse convescote de vagabundas ricas?
- O negcio todo  controlado por umas vagabundas inspidas, puxa-sacos e com hbito de correr atrs de fortunas - ele me assegura. - Falam para voc exatamente 
o que precisa vestir e se comportam com a inteno de agarrar um velho rico. Ensinam a sair de carros em estrias sem mostrar a calcinha. Sabe, esse tipo de coisa. 
E se voc tiver sotaque de caipira, ensinam a voc como falar com sotaque aristocrtico ou ficar de boca fechada. Ela est aprendendo a ser uma dama, para que Jasper 
se case com ela.
- Por que ela no contou que estava indo? - choramingo.
- Ela contou. - George lambe a parte de trs da colher. - S que no deu para falar com voc porque voc anda ocupada demais. E ela ainda est aborrecida porque 
voc inventou aquela histria do Jasper com uma outra mulher.
- Mas eu o vi mesmo com outra mulher - insisto.
- Mas eu no vi - responde ele. - E acho que  melhor no se meter nesse assunto. Voc no acha?
- Ah.
Acho que tenho mesmo estado meio ocupada ultimamente, j que a Comidinhas Caprichadas est indo to bem. A propaganda boca a boca, parece, est se espalhando com 
tanta rapidez j que agora j estou recebendo encomendas para festas no interior.
O batizado de Tallulah, para o qual forneo um enorme bolo em forma de T com uma cobertura rosa-beb e mirtilos pequenininhos e fresquinhos, parece um sonho. Jake 
e eu at conseguimos dar uma escapada e dar uma rapidinha no banheiro quando ningum estava olhando. Bom, eu me sinto culpada. Acho que ele nem pensa que est fazendo 
alguma coisa de errado. E, depois, eu nunca mais posso encontrar meus amigos no sbado  noite porque geralmente estou com Jake. Aparentemente,  muito mais fcil 
para ele escapar naquele dia porque  a noite mais fcil para brigar. A Calcinha de Peixe s quer saber de aproveitar o tempo que tem com ele quando o beb est 
na cama. Isso com certeza inclui assistir a programas horrorosos na TV e comer comida entregue em casa.
- Corno se ela pudesse comer muito - ele observou certa noite. - Est do tamanho de um dirigvel.
At eu preciso ter um pouco de pena dela quando fico sabendo que a coitada da Calcinha de Peixe no pode nem comer o que quer.
Aparentemente, em um sbado normal, o jantar  seguido por um mecanismo ilusrio que, Jake garante,  tpico de "qualquer cara". Ele deixa a Calcinha de Peixe escolher 
o filme. Da se senta para assisti-lo. E da espera. E espera, At que ela pea para ficar com o controle remoto para variar, Ou comece a falar nas partes mais importantes 
do filme. E da ele sai batendo a porta e vem para a minha casa. Onde ns assistimos a TV juntos e pedimos urna comida. E da transamos.
Fcil assim.
Que safado.
Ainda assim, foi a prpria Calcinha de Peixe que preparou a cama dela (sem dvida, com lenis de babado e um guarda-p horroroso), quando os dois brincaram de esconder 
o salame pelas minhas costas, de modo que ela pode muito bem se deitar nela, 
se quer saber a minha opinio. Afinal, no  minha culpa se Jake est achando a monogamia to apetitosa quanto um daqueles shakes de protena de regime, no  mesmo?
Nick, claro, pertence a urna categoria totalmente diferente. E quanto mais me encontro com ele, mais percebo que no temos absolutamente nada em comum, Pelo amor 
de Deus, ele nasceu nos anos 80. Para ele, Milk Way sempre foi Milk Way. Nunca jogou Atari. No sabe quem  Artur, o rob. Tinha uns 4 anos quando "Karma Chameleon", 
do Culture Club, fazia sucesso. No assistia a "Os pioneiros". E nunca comeu Sem Parar quando eram urnas bolinhas.
Ainda assim, sem nenhum ponto de referncia, no preciso me preocupar em conversar com ele. Podemos passar logo ao sexo. O que, devo dizer, pode ser bem excitante. 
O sexo com Nick era do tipo srdido, daquele que a gente faz em um beco escuro. Ele adora fazer ao ar livre, de modo que passamos pouco tempo na cama e muito tempo 
atrs de caambas, em bancos de parque e no quintal dos fundos dos outros. Bom, pelo
menos isso deixa as coisas mais interessantes, pelo menos  o que eu disse a mim mesma com um suspiro certa noite, quando a de trs de urna casa se abriu pela metade 
e urna gorda com um penhoar cor de pssego comeou a gritar palavres na nossa direo e nos jogou um balde de gua fria.
Mas agora, quando George me diz na lata que at Janice, a prpria Senhora Trabalho Antes dos Amigos, acha que eu no tenho mais tempo para ela, de repente me sinto 
deprimida. Lembro que nem tive tempo de fazer as pazes com Sam depois da briga sobre a minha mudana para a casa de George. E de repente fica claro para mim que, 
indiferentemente do que tenha sido dito ou no no calor do momento, Sam e Janice so
meus melhores amigos. E no posso me dar ao luxo de perd-los. Alm disso, l no fundo, eu sempre soube que h algo muito, muito importante que preciso pedir a Sam. 
Ento, sentindo-me ridiculamente nervosa, ligo para pedir desculpa. E pergunto se posso lev-lo para jantar hoje  noite para fazermos as pazes.
- Claro que sim, Simpson. - D para ouvir o sorriso de Sam do outro lado da linha e eu o amo por isso. - Sempre me sinto feliz de aceitar o seu dinheiro.
- Passo a l pelas oito - digo, sentindo-me aliviada.
 uma daquelas noites bonitas e quentes de julho. As caladas prximas a todos os bares por que passo no caminho at a estao de metr Angel esto cheias de garotas 
de shorts e vestidinhos esvoaantes, bebendo vodca, e caras bem urbanos cheirando a loo ps-barba ctrica e roupa que acabou de sair da lavanderia. O ar est espesso 
com tanta promessa de sexo e, quando saio da estao e vou at a casa de Sam, que acabou de ser pintada e com florzinhas roxas e alaranjadas na floreira das janelas, 
percebo que estou nervosa, nervosa mesmo, e no sei por qu. Claro que no pode ser porque eu gosto de Sam, logo ele. Alm disso, mesmo se gostasse, j tenho o bastante 
com Jake e Nick. Realmente, no tenho tempo para incluir um terceiro.
Ainda assim, quando Shana abre a porta, agitando a cabeleira loira, com um vestido de alcinha roxo pendurado em seus ombros ossudos, no posso evitar de me sentir 
um pouquinho incomodada.
- Ah - digo involuntariamente, quando ela aperta os olho na minha direo.
- Estamos quase prontos - declara, com muita nfase no verbo na primeira pessoa do plural. A atitude dela  definitivamente hostil. Mas, no minuto em que ouve os 
passos de Sam atrs de si, recolhe as garras e se transforma em uma gatinha manhosa. Na verdade, ela se parece tanto com uma gata que fico esperando ela sentar no 
cho e comear a lamber a bunda.
Sam vem atrs dela, com sua jaqueta de camura bem gasta preferida em cima dos ombros.
- Simpson, sua velha safada. - Ele sorri e parece muito feliz de me ver depois de tanto tempo. - Que bom v-la.
- Voc tambm. - Devolvo o sorriso, aproveitando o olhar azedo no rosto de Shana quando ele me d um beijo estalado em cada bochecha.
- Eu tenho vodca - diz ele. - Podemos tomar uns cosmopolitans antes de sair.
Shana e eu ficamos sentadas em silncio quando ele entra na cozinha para preparar os drinques. Assim que ele sai do campo auditivo, ela se volta para mim.
- Voc vai mesmo sair assim?
Examino o meu vestido-camisola azul, surpresa.
- Vou - respondo. - O que mais eu poderia usar?
- Nada. - Ela olha para mim com compaixo. - Eu s achei...
- Achou o qu?
- Bom, quer dizer,  como a sua me disse, no ?
- Voc j viu a minha me? - digo, surpresa. - Quando?
- Vrias vezes - conta, toda inocente. - Quando visitamos pai do Sam, ela sempre est por l. Est desesperada para que voc arrume um namorado, sabe como . Discutimos 
a situao detalhadamente.
Repentinamente, tenho uma vaga lembrana de minha me mencionando algo a respeito de educao. Aposto que essa vaca tem falado todo tipo de merda em volta daquela 
mesa de jantar.
- No que ela diria algo para voc, claro.
- Eu sei.
Acho que devo conhecer a minha prpria me melhor do que ela.
- Mas  como ela diz, no  mesmo? - Shana tira um pelinho do casaquinho de mulherzinha dela e olha para mim toca inocente, com seus olhes azuis. - Quer dizer, 
se voc vai ficar andando por a com essas roupas largonas e esses sapates, nenhum cara a um quilmetro de distncia vai se interessar por voc. Quer dizer, ela 
quase caiu no choro porque acha que voc nunca vai vestir nada feminino nem se casar. Vou dizer, Sam e eu tivemos que nos esforar para no falar nada sobre o seu 
casamento. Pareceme uma pena ela no poder estar presente no seu casamento.  muito egosmo da sua parte.
- O qu?
Mas, antes que a vaca nojenta tivesse oportunidade de dizer qualquer outra coisa, Sam volta para a sala com nossas bebidas. A expresso no rosto de Shana muda, como 
se tivesse apertado um boto, de safada para aproveitadora inocente quando ele chega, e eu s posso ficar l sentada, morrendo de raiva. E no s porque, mesmo com 
aquela cala branca apertada, ela conseguiu se livrar do efeito calcinha aparecendo.  porque eu sei a vaca manipuladora que ela . Conseguiu me deixar pouco  vontade 
com a minha roupa no recorde de dois segundos. E fez com que eu ficasse preocupada com a minha me. Sam, obviamente, no tem a mnima noo. No faz a menor idia. 
Mas  claro que no  culpa dele; em parte, por ser homem, tem a desvantagem de s poder pensar pelo pnis. Mas colocou uma boa venda em cima dos olhos. Agora que 
ele est na sala, ela 
s doura e gentileza. S que eu, com minha intuio feminina, sei que, toda vez que se vira para mim, fingindo interesse no que estou dizendo, sei que a base hidratante 
sobre o rosto dela est rachando, de tanto esforo.
Como, diabos, vou pedir a ele o que preciso pedir com ela no caminho?
- Acho que devemos ir, Sam - olho para o meu relgio. - A mesa est reservada para as nove e s faltam dez minutos.
- Certo. - Sam se levanta e pega a jaqueta.
Ns dois olhamos para Shana.  hora de ela se ligar e dar o fora.
- timo. - Ela se levanta, colocando o cardig sobre os ombros, como que para se proteger do meu olhar. - Aonde  que ns vamos? A algum lugar em que voc possa 
comer seu peso em comida gordurosa, hein, Katie? - Ela me d um tapinha no ombro um pouco forte demais. - Sam me contou como voc gosta de comer, sua glutona.
Sam ri, sem perceber como ela est sendo petulante. Eu, no entanto, enxergo tudo o que acontece dentro dela.  to transparente quanto gim tnica. E se ele ficou 
surpreso por ela se convidar para o jantar,  cavalheiro demais para demonstrar. Eu, por outro lado, estou cuspindo fogo. Se eu quisesse que ela fosse junto, teria 
convidado, no  mesmo, porra! E agora vou ter pagar para os dois. No quero ficar com fama de ser uma mo-de-vaca completa.
Especialmente com ela.
Mas pelo menos a minha situao financeira melhorou um pouco com todos os casamentos e batizados que tenho feito ultimamente. Estou quase no azul de novo, graas 
a Deus.
Mas isso no impede que eu me sinta no direito de me vingar. 
- Posso dar uma passadinha rpida no banheiro antes de a gente sair? - pergunto a Sam.
- V l.
D para aprender muito sobre as pessoas olhando o banheiro delas. Tranco a porta atrs de mim e fao um xixizinho rpido antes de remexer nas coisas de Shana. J 
devia saber que ela est tentando se instalar no apartamento dele. E h provas da presena dela em todo lugar.
Duas escovas de dente. Uma preta e uma de plstico transparente, com um monte de coraezinhos cor-de-rosa flutuando dentro do cabo. E a escova de dente no  o 
nico sinal da tomada gradual do apartamento de Sam. Frascos de xampu e de acondicionador caro, perfume Trsor, rmel e batom na prateleira em cima da pia. E o armarinho 
em cima da privada est cheio de absorvente interno, pomada depilatria e barbeadores cor-de-rosa de mulherzinha. Rpida como um flash, antes que tenha tempo de 
pensar nas conseqncias, pego a pomada depilatria e coloco um monto dentro do condicionador dela. Ento, viro-me para o outro lado, recuso-me a me sentir culpada, 
abro a porta e deso a escada, toda saltitante.
Desculpem - digo a eles. - Estava apertada. Vamos?
Shana consegue engolir meia salsicha antes de pousar o garfo e a faca com um estalo e se declarar "cheia de estourar".
- Ufa - diz, dando tapinhas no estmago cncavo. - Isso j me deixou bem satisfeita. Acho que s seria um aperitivo para voc, Katie.
Sam ri, displicente, de ns duas, totalmente sem noo de que ela s quer me diminuir. Olho de vis para ela.
- Espero que todos os seus filhos nasam com os dedos dos ps grudados. - E manchas vermelhas na cara, quase completo. Mas, preocupada por estar levando as coisas 
um pouco longe demais na frente de Sam, fico de boca fechada.
- Katie - reclama Sam, chocado. - A Shana s estava brincando, no estava, Shana?
- Claro que sim.- Ela sorri toda doce, olhando para mim por cima da cabea dele enquanto ele acaricia seus cabelos. -S estou me sentindo bem cheia.
- Bom, espero que voc no engasgue com uma bola de plos.
-  que a Shana come pouco mesmo - Sam coloca panos quentes. - Ela no consegue comer tanto quanto voc.
- No - Shana ronrona. - No consigo me encher de comida igual a voc.
- Neste caso - no consigo me segurar -, posso ajudar enfiando a minha mo na sua goela, se voc quiser.
- Katie - reclama Sam de novo. - No seja desagradvel.
- Desculpe. - Mordo a lngua. No h motivo para despertar a fria de Sam agora. No agora que tenho uma coisa to importante para pedir a ele. Quando, meu Deus, 
quando,
essa vaca vai ter a decncia de ir vomitar no banheiro para eu poder conversar com ele sozinha?
- Tome mais um pouco de gua. - Sirvo um copo para Shana. Se ela tem mesmo "um estmagozinho minsculo", no vai demorar muito at que ela precise ir ao banheiro 
para esvazi-lo.
Afinal, ela se levanta para passar mais um pouco de batom e eu fico com Sam s para mim. Nesta noite ele est especialmente charmoso. Meio arrumado, mas  vontade 
ao mesmo tempo. E, de repente, percebo que  isso que eu mais admiro nele.  a autoconfiana dele. Ele sabe como se vestir, como agir e como se comportar em qualquer 
situao. D para, literalmente, lev-lo a qualquer lugar.
- Sinto muito pelas coisas que eu disse quando sa da sua casa naquele dia - digo a ele. - Quando contei sobre o casamento, Eu estava perturbada.
- Tudo bem. - Ele afaga o meu cabelo com afeio. - Eu tambm estava. Fiquei me sentindo rejeitado porque voc estava planejando morar na casa do George e no queria 
morar na minha. E eu convidei primeiro.
- Desculpe. - Apio a cabea no ombro dele. -  que, se eu ficasse na sua casa, ia parecer caridade.
- Voc est morando na casa do George...
- Mas no faz mal - respondo. - Estou fazendo um favor para eles tambm. Casando com David, sabe como .
- Claro.
- Sabe, comecei este ano com toda a certeza de que ia fazer tudo dar certo. Que no ia mais confiar em homem nenhum.
- Eu sei.
- E agora eu estraguei tudo. - Quero confessar a respeito de Jake. E de Nick. De repente, ficar com qualquer cara j no parece to grandioso nem to inteligente. 
E, apesar de eu morar com dois dos meus melhores amigos, ando me sentindo meio sozinha.
- Mas a Comidinhas Caprichadas est indo to bem. - Ele afaga meu cabelo de novo. - Estou muito orgulhoso do que voc conseguiu.
- Obrigada. E no poderia ter feito nada sem voc, voc sabe.
- De nada, Simpson, mesmo. - Ele vira o rosto e me encara. - Voc sabe disso.
- Nem sem George nem David, claro - digo apressada.
Por alguma razo, achei que ele ia me beijar. Para falar a verdade, eu meio que fiquei querendo que ele beijasse. O que , obviamente, ridculo. Quer dizer, este 
aqui  o Sam, pelo amor de Deus. Meu amigo mais antigo. Alm do qu, voltei a sair com Jake. Bom, mais ou menos. E tem o Nick. J tenho dois caras, ento no devia 
estar me sentindo sozinha, no  mesmo?
- E esse casamento... - ele tenta comear.
_ Voc no vai ficar me dando bronca de novo, vai? - imploro. - Acho que no agento. Sabe, voc  uma parte enorme da minha vida, Sam. Sempre foi.
- E voc da minha - retribui, acariciando minha bochecha.
- Na verdade - arrumo minha posio na cadeira e olho sria para ele -, preciso pedir uma coisa para voc.
- Eu tambm - responde ele.
- Precisa?
- Sam? - Uma voz de repente quebra a intimidade do momento. - Estou cansada. Podemos ir agora?
Shana, de volta do banheiro.
Droga.



DEZEOITO






Parece que eu nunca vou conseguir ficar com Sam sozinha para pedir que ele me entregue a David no casamento.
Sabe, apesar de eu saber que ele no aprova a idia, significa mesmo muito para mim obter a bno dele. Alm disso, George insiste que tem que parecer o mais real 
possvel. Caso o Servio de Imigrao resolva aparecer por l. E nem posso pedir para o meu prprio pai, no  mesmo, j que no fao a mnima idia de onde ele 
est.
Na manh de domingo, acordo cedo com minha preocupao a respeito de Sam e a coisa toda da entrega rodando na minha cabea. Vago pela cozinha iluminada onde George, 
com seus chinelos cor-de-rosa preferidos, bebe caf fresco  mesa e digita mensagens de texto no celular para algum do trabalho sobre os concorrentes para o programa 
de amanh. David, quase nu com o seu shortinho de surfista, est sentado em frente com os ps em cima da mesa, conversando animadamente com a irm Nettie, na Austrlia. 
Pelo que posso apreender, est contando a ela sobre nosso casamento, como se fosse a coisa mais normal do mundo, Obviamente, aqui no h nenhum segredo.
- Voc vai convidar a sua me para o casamento? - pergunto a George quando o telefone dele pra de apitar, assinalando o fim da digitao frentica de mensagens.
- No sei. - Ele parece acabado. - Eu quero muito. Quer dizer, seria legal para ela poder se arrumar toda e ter algum lugar para ir. Mas no sei como explicar isto 
tudo para ela.
- Ela  mais durona do que voc pensa, sabe, George. - Tiro uma xcara roxa do armrio e sirvo caf para mim mesma. - Por que  que voc no experimenta? Ela ficaria 
feliz por voc. 
- Mesmo?
- Mesmo.
- Pode ser. - Ele parece um pouco desamparado. Ento olha para mim e volta a ser o que sempre . - Credo, querida, voc est completamente detonada.
- O que foi? - David acaba de contar  irm tudo a respeito do contedo do ncessaire de maquiagem da Posh Spice e coloca o telefone no gancho. - Aaah. Caf. Delcia.
- A Katie - George aponta com a cabea na minha direo, como se eu no estivesse ali - est um pavor. Qual  o problema, querida? A sua empresa j faliu? Parece 
que voc no dorme h semanas.
- Credo,  mesmo. - David d um gole no caf e parece estar pedindo desculpa. - Sinto muito, querida, mas voc est mesmo um pouco horrvel. Voc poderia carregar 
todas as loes e poes do George nessas bolsas a embaixo dos seus olhos.
- No consigo dormir - digo, honestamente. - Estou nervosa com o casamento. E no sei o que fazer com o Jake.
- Voc est apaixonada por ele?
- Acho que no. - Sacudo a cabea. - E da tem o Nick. Sabe, o cara da bicicleta?
- Sei - os dois dizem em coro, animados com a idia de fofoca. - Sabemos quem  o cara da bicicleta.
- Continuo indo para a cama com ele.
- Aaaah - faz George, todo alegrinho. - Putaria completa. Conte tudo.
- Bom, parece que ele gosta de mim - digo. - Mas ele tem 18 anos. E no temos nada em comum.
- E da? - George d de ombros.
- Ento, estou comeando a perceber que sexo sem compromisso no  assim to interessante quanto eu achei que seria.
- Certo, certo - George diz, com indiferena. - Quer dizer, desculpe se eu parecer insensvel, mas j que nenhum deles est magoando voc, ser que podemos tratar 
de assuntos mais importantes? Tipo o casamento? Bom, ento o tema  NGC.
- H? - pergunto, surpresa.
- No seja burra, querida. - George olha para mim. - Nada de Gente Comum. Mas acho que podemos deixar a Janice vir, apesar de ela ter tomado banho no caldeiro da 
gentalha mais de uma vez. Afinal, ela  a sua melhor amiga. Depois de mim, claro.
- Bom, se ela ainda estiver falando comigo,  - raciocino. - Depois do que eu disse a respeito do Jasper.
- Claro que ela fala com voc - George bebe mais caf.
- No se esquea da surpresa. - David cutuca George.
- Ah. - George sacode as mos, todo animado. - A surpresa. Claro. Ah, Katie, voc nunca vai imaginar O que ns planejamos para voc.
Claro que no posso imaginar. George no consegue se segurar e conta antes que eu possa abrir a boca. E quando o faz, fico chocada.
- Um fim de semana de solteira? - pergunto, s para ter certeza de que ouvi bem.
- Isso mesmo. - George parece to contente consigo mesmo que parece at que acabou de inventar a roda.
- Foi idia da Nettie. - David parece orgulhoso. - Ela diz que, como no pode vir ao casamento, pelo menos contribui com algumas idias.
- Ela pode vir se quiser. No me importo se a sua famlia estiver presente.
- Ela no pode. - David sacode a cabea. - Para comear, vai me chamar de Davo na frente de todo mundo e vo ficar pensando que eu sou um daqueles australianos maches.
- Mas  para pensarem que voc  htero - observo. - Por um dia, pelo menos.
- Eu sei. - David ri. - Mas ela no pode vir mesmo. No pode tirar a Iris e a Isabella da escola. Uma pena mesmo. Eu adoraria v-las.
- Que tristeza. - George prossegue, para tratar de mais assuntos importantes. - Ento. Seu fim de semana de solteira.
- Mas...
- No seja mal agradecida. - George sacode o dedo para mim. - S achamos que voc ia gostar de umas frias, fofa. Afinal, voc no vai poder participar da Lua-de-Mel 
de verdade. Voc j sabe disso, no sabe? Trs  demais, querida, se que voc me entende.
- Mas tenho coisa demais para fazer - fico preocupada. - Tem a Comidinhas Caprichadas, para comear. No vai funcionar sozinha, sabe como . Tenho trs casamentos 
e um batizado s em agosto.  muito salmo defumado e muita torta de fruta. E tem toda a burocracia.
- Mas ns j reservamos. Para cinco. Ento voc tem que vir com a gente.
- No pode ser - observo. - O David acabou de falar com a irm dele.
- Bom, est na nossa cabea agora - George serve mais caf para si mesmo. - Ento  a mesma coisa.
- E cinco? - pergunto. - Por que cinco?
George conta nos dedos.
- Ns trs, Janice e Sam. Sem parceiros.
- Que bom - digo. - No quero nenhuma vagabunda magricela fedendo a verdura crua conosco, muito obrigada.
- Ento, voc topa? - David parece deliciado.
- Vou pensar a respeito.
E vou mesmo. Afinal, um pouco de sol ia me fazer bem. E talvez minha me gostasse de enfrentar o desafio de cuidar da Comidinhas Caprichadas durante um fim de semana. 
Afinal,  s um fim de semana. Ela provavelmente vai gostar da companhia de todos os clientes e tal. Ela deve se sentir sozinha de vez em quando.
- Alis, para onde  que a gente vai?
- Para as ilhas Canrias - George parece estar soltando fascas. 
- Isso no  um pouco...
- Cafona? - George estremece e coloca uma camiseta "Alguns no. Alguns talvez. Eu, sim" estampado no peito em rosa cintilante. - Essa  a idia.  irnico, querida. 
Uma breguice completa. Vamos passar um fim de semana na terra do ovo, das batatinhas fritas e das toalhas com a bandeira do Reino Unido estiradas na areia. Estou 
to animado que nem consigo esperar.
- E prometeram para mim que s vai tocar msica brega, o tempo todo. - David ri.
- Vamos dar uma batida em todas aquelas discotecas horrorosas, querida - George est emocionado. - Onde os ps da gente praticamente ficam colados no cho e o teto 
 cheio de ventiladores. No vai ser uma maravilha?
- Bom...
- Uma mudana bem renovadora, estar o tempo todo com gente que no divide a minha histria brilhante de sucesso. - George acende um cigarro e inspira profundamente. 
- Imagine como vai ser bom estar rodeado de gente cuja idia de satisfao no trabalho  sacudir uma lata no ar e gritar: "Preciso que algum confira o preo do 
feijo."
- No quero ir.
- Quer sim - George diz com firmeza. - Voc vai adorar. E vamos todos estar bem bronzeadinhos para o casamento.
- Duvido muito. Eu s fico quase morena quando todas as minhas sardas se unem.
- Mesmo assim, voc vai estar linda ao lado de todas aquelas mulheres cor de tangerina na praia - George diz. - Com a bunda cheia de celulite e aquelas tatuagens 
vagabundas nos peitos.
- Vc tem tatuagem - David observa.
- Querido, h um mundo de diferena entre uma tartaruga de gosto, cuidadosamente posicionada para ressaltar uma bundinha que j  bem gostosinha, e uma cabea de 
tigre horrorosa no bere de uma proletria - George explica. - Principalmente quando se trata de um bere que era do tamanho de um ovo mas que inflou de tanto que 
a coitada comeu.
David ri tanto que seus chinelos de dedo roxos batem no cho repetidamente.
- Ser que voc pode tentar no se transformar complemente no George antes do casamento? - Imploro. - Voc costumava ser to adorvel, e nem parecia gay.
- To adorvel e to no-gay que voc mesma resolveu tentar a sorte - George caoa.
- Ha ha - debocho. - S no quero que a coisa toda parea gay demais.
- No venha me dizer que voc est ficando nervosa - George experimenta.
- Bom - confesso -, voc est ciente de que o que vamos fazer  crime, no est?
- Ah, fale srio. - George me sacode pelo ombro. -Desencana, fofa. Claro que sabemos.  por isso que queremos recompens-la levando voc direto para o centro da 
breguice, 
para voc ficar do lado de skinheads com a pele vermelha de queimada, gritando na sua orelha.
- E a comida? - pergunto. - Voc sabe que eu sou meio esnobe neste aspecto. Gosto de garons que me recebem com um "Posso guardar seu casaco, senhora?", e no: "Voc 
j participou da colheita?" Alis, voc costumava se recusar a ir a lugares como as Canrias. Voc disse que o governo devia proibir as pessoas comuns de viajar 
para o exterior porque elas estragavam tudo para todo mundo.
- Bom, isso  verdade, em parte - reconhece George. - Quer dizer, vamos nos misturar ao tipo de gente que ganha na loteria. Aquele tipo que no sabe o que fazer 
com o dinheiro quando ganha porque j assinou o pay-per-view dos jogos de futebol e no tem o gosto refinado de mudar para uma marca de cigarro melhor.
- Aquela gente que compra manses Tudor falsas e decora tudo com tapetes vermelhos e torneiras douradas? - David pergunta.
- Essa gente mesmo. - George aperta a mo dele.
- Ento, qual das Canrias em particular ns vamos visitar? - suspiro. - Lanzaroti ou Tenerife?
- Fuerteventura - diz George. - Voc vem com a gente, e fim de discusso.
Fico me imaginando deitada em uma praia sem absolutamente nada para fazer.
Cerveja e batatinha aos baldes.
Livros grossos e vagabundos, uns tijoles cheios de marcas de dedo sujo de coco.
O sol quente pinicando a parte de trs dos meus joelhos. O cheiro de bolo de gengibre fresco na minha pele  medida que o sol esquenta.
- Que se foda - digo a eles. - Estou dentro. Mas s se os outros forem tambm. No vou ficar segurando vela para vocs dois o fim de semana inteiro.



Convido Sam primeiro. Acho que ele deve estar se sentindo um pouco culpado por ter deixado Shana invadir nosso jantarzinho bacana, de modo que ele me deve uma.
Estou certa.
- Olha - comea, assim que ouve a minha voz -, desculpe pelo jantar no outro dia. Quer dizer, de a Shana ter ido com a gente. Eu sinceramente no fazia idia de 
que ela achava que tinha sido convidada.
- E no tinha - respondo.
- O qu?
- Nada no - respondo, - Tudo bem.
- Bom, desculpe. S no achei que valia a pena criar caso, sabe como . Ela  um pouco, bom, insegura, s vezes, e eu no queria urna cena.
- Certo.
Humpft. Desde que ela esteja bem, est tudo certo...
- Mas pelo menos voltamos a ser amigos - continua ele - Voc e eu, quero dizer. Deve ter valido a pena, hein, Simpson?
- Claro - respondo. - Para falar a verdade, preciso de um favor.
- ?
- Bom, dois favores.
-  aquilo que voc queria me pedir na outra noite?
- Bom, um deles .
- Pode falar. - Ele parece ansioso.
- Eu queria que voc me entregasse no altar.
- Ah. - Ele parece frio.
- Sam?
- Estou aqui.
- Ento, voc me entrega?
- Bom - diz ele com cuidado -, voc sabe muito bem o que eu acho de tudo isso. Acho que voc no devia. Voc deveria se casar com algum que a ama de verdade pelo 
que voc . E no estou falando da porra do Jake Carpenter. Ou daquele garoto de 12 anos com quem voc est saindo. No fique achando que eu no sei dele. O George 
tem a boca maior do que um tnel. Encontrei com ele no Cuba Libre outro dia. Ele contou tudo depois de tomar uns Bellinis.
- Ento, voc no vai me entregar? - Meu corao fica apertado. Por alguma razo, no fao a menor idia qual, coloquei essa coisa toda em um nvel to elevado de 
importncia que, se ele disser no, no sei se consigo seguir em frente com essa histria de casamento. Para ser honesta, estou to nervosa a respeito da coisa toda 
que simplesmente preciso sentir que tem algum do meu lado. E no existe mais ningum no mundo para quem eu possa pedir isto.
H um longo silncio. Ento...
- No estou dizendo que no vou entreg-la - acaba por dizer. - Estou falando que preciso pensar a respeito.
- Obrigada, Sam - engasgo.
- Mas voc vai ter que retribuir o favor.
- Claro que sim - respondo. - O que voc quiser,
- Ah,  mesmo, Simpson? - brincou ele, me paquerando de mentirinha, para que eu saiba que tudo vai dar certo. - Qualquer coisa que eu quiser?
- Voc sabe do que eu estou falando. - dou risada. - O que voc quer?
- Na semana que vem,  meu aniversrio - diz ele. - Pensei em fazer um churrasquinho se o tempo estiver bom. Chamar os caras. Bater uma bolinha e tal.
- Voc e o seu futebol- brinco. - Ento, qual  o plano?
- Voc faz a comida? - pergunta. - Claro que eu pago.
- E se eu der um desconto? - estou corada de alegria por ele me pedir isto. - S precisa pagar os ingredientes. Quer dizer, eu j no estou mais to pobre quanto 
antes, mas ainda no d para fazer de graa.
- Feito.
- Era isso que voc queria me pedir na outra noite? Quando paguei um adorvel e caro jantar para voc e voc foi arrastando para casa mais cedo?
- Hmm,  - responde. - Claro, era isso. E desculpe por aquilo, alis.
- Ento, para quando  este tal churrasco?
- No sbado que vem.
- Tudo bem.
- E qual era a outra coisa que voc queria me pedir, Simpson?
- Ah, meu Deus - balbucio. -  uma porra de um fim de semana que os rapazes planejaram. Tipo um fim de semana de solteira nas ilhas Canrias. Em vez de uma lua-de-mel 
para mim.
Voc vem com a gente?
- Bom...
- Por favor.
- Acalme-se, Simpson. Claro que vou - responde, e consigo ouvir o sorriso na voz dele. - Seria timo passar um fim de semana fora. Claro que vou. No perderia por 
nada no mundo.
Coloco o telefone no gancho me sentindo mais feliz do que me sinto h sculos. Tambm consigo dar um jeito em Jake e Nick, agora que meu amigo mais antigo voltou 
para o meu lado.
Foi odioso discutir com ele a respeito de uma coisa to simples como o lugar onde eu moro. E, penso, caridosa, no  culpa dele se sua namorada  uma vagabunda txica 
que no tem nada melhor na vida a fazer do que observar eu me contorcendo sob a lente de aumento dos olhos azuis dela.
Quando termino de falar com Sam, ligo para Janice.
- O que  que voc tem feito? - pergunto. - Faz sculos.
- Eu sei, querida - responde ela, surpreendendo-me com sua gentileza. - Tenho estado muito ocupada com o trabalho. Ganhei uma conta nova. De uma empresa de telefonia 
celular. Com oramento gigante e tudo o mais. Estou acabada. E tenho feito um pouco mais de esforo de visitar a minha me.
- Ah, isso  legal- digo. E estou falando srio. A coitada da me de Janice fica mesmo um pouco largada.
-  - prossegue Janice. - Quer dizer, a nica coisa que ela faz o dia inteiro  assistir  TV. E ficar ouvindo aquela porcaria do Cliff Richard, claro. Alis, ela 
andou decorando um pouco a casa. Pintou a cozinha. Esse tipo de coisa. O lugar j no est mais to sombrio quanto era. De qualquer jeito, passei l algumas vezes 
para bater um papo. Achei que ela podia me falar um pouco mais a respeito do meu pai. Achei que podia
tentar encontr-lo. Caso eu precise dele para me entregar no altar.
- Ah.
- A no ser que ele seja algo terrvel, tipo lixeiro ou bbado. Ento pensei em pedir ao Sam. O que voc acha?
O que eu acho? Acho que ela acabou de me fazer lembrar do meu prprio dilema. De qualquer modo, Sam  MEU amigo. Pode me chamar de infantil, mas se ele vai entregar 
algum, tem que ser eu. Mas no digo nada. Em vez disso, pergunto a ela o que acha de viajar.
- Sei l, Katie - murmura. - E se o Jasper resolver ficar todo romntico e eu estiver na porra do outro lado do mundo? Quer dizer, de acordo com voc, ele j est 
tendo um caso. De modo que no posso me dar ao luxo de abandon-lo, certo?
Credo, ela est dificultando as coisas. Fiquei o tempo todo me preocupando em como pedir desculpa por causa dessa historia toda de Jasper e "a outra". E ela s est 
preocupada consigo mesma. Vou dizer. Estou determinada a falar o que preciso. E  o que fao.
- Ah, isso - diz ela, quando termino. - No estou muito preocupada se ele estava ou no com outra mulher. O pau dele parece um pescoo de peru, ento eu duvido que 
ele esteja usando muito. No. Eu s estava meio puta da vida com aquela historia toda de Paris. Sabe? Achei mesmo que ele ia me dar uma aliana e tudo.
- Eu sei. Ento, voltamos a ser amigas?
- Claro - exclama ela. - Alis, vamos sair para beber. Faz um tempo que no enchemos a cara juntas. E tambm queria pedir desculpa por isso. Eu j devia ter ido 
visitar voc a na casa do George, mas estou precisando cuidar daquele pau pelancudo. Vamos encarar. Ele j est mais para l do que para c. Um dia desses, pode 
bater as botas quando estiver transando.
- Ele podia apagar em cima de voc? - engulo em seco.
- . E eu ia ter que ficar l at a faxineira chegar. E se o controle remoto no estivesse ao alcance da minha mo, a coisa ficaria bem tediosa. Especialmente se 
ela comear a chegar atrasada de novo para visitar o filho na priso.
 - Ah.
- Ah, Katie, voc acha que ele vai pedir a minha mo logo? J tem muito tempo.
-  verdade - concordo. - Se eu fosse voc, estaria preocupada que ele pedisse o seguinte: "Voc se importa se eu vir-la de costas e a comer por trs?".
- Credo. Estremeo s de pensar. Mas no. No  do feitio dele, apesar de todas aquelas calas cargo e aquelas roupas jovial. S queria que ele se apressasse e tirasse 
este pedido de casamento da frente. Vivo com os nervos  flor da pele.
- Viaje conosco, ento - imploro. - Voc sabe o que dizem, que a distncia faz aumentar o amor e tal.
- Voc acha?
- Acho - afirmo. - Quando voc voltar, ele vai estar implorando para que voc se case com ele. E voc vai estar bronzeada e tudo.
- Sabe, Katie, voc est certa. Dane-se. Eu vou.
- timo.
- Mas s se pudermos fazer compras antes. Para levar um monte de roupa legal para a praia.
- S vamos passar um fim de semana l. E primeiro precisamos comprar seu vestido de madrinha.
- S tenha certeza de passar bem longe do look nibus de dois andares desta vez.
Nos duas morremos de rir.
Comemoramos com uma sada. Como antigamente. S ns duas. Jasper foi a uma conferncia nas West Midlands, de modo que Janice no acha que precisa se esforar nesta 
noite.
- Voc est tranqila mesmo com este casamento? - ela pergunta, na fila para o bar, para pedir Long Island iced tea.
- Claro.
- Mesmo?
- No - respondo. - Estou me cagando toda, para falar a verdade.
- Voc est preocupada porque nunca vai poder ter a cerimnia completa, com festa, bolo e tudo?
- Na verdade, no. Quer dizer, no final das contas, os caras so todos iguais, no so?
- So, com certeza. - Levanta o copo para brindar comigo. - Vamos beber esta por nosso casamento falso. Os dois. O meu e o seu, hein?
- Sade.
- Ah, que se foda - exclama. - Vamos encher a cara.
Bebemos litros e litros. E paqueramos caras para ganhar bebidas grtis, apesar de termos todas as condies de pagar ns mesmas. At eu, E no somos exatamente educadas 
com os caras que nos pagam bebidas. Na verdade, uma vez que cedem, perdemos todo o respeito por eles.
- Desculpe - Janice diz a um cara de queixo pontudo que a convida para danar. - Sou membro pleno da LACaN.
- H?
- Liga Anti-Cafajestes Nauseantes, Ento, d o fora.
- E eu acabei de me unir  MuCIT - junto-me a ela. - Mulheres Contra Idiotas Tarados.
 muito bom estar relaxando com a minha melhor amiga depois de trabalhar tanto para fazer a Comidinhas Caprichadas decolar.  quase como estar de novo na faculdade. 
Claro que, se estivesse, eu ficaria com esses caras, s para no ofender ningum. E sairia com eles depois para no incomod-los ainda mais. O que me deixaria to 
deprimida que eu urraria de pena de mim mesma enquanto Janice e as outras pessoas que moravam comigo me trariam xcaras de chocolate quente com marshmallows e se 
sentariam na beirada da minha cama, parcialmente para fazer com que eu me sentisse melhor, mas principalmente por gostarem bastante de toda aquela atmosfera de cabar.
- Credo - dou risada mais tarde, quando entramos no banheiro para retocar o batom e ajeitar a meia-cala. - Estou me sufocando com o cheiro de carro novo ali dentro 
e mesmo assim no consigo achar ningum interessante. Quando resolvi assumir esta histria de ficar solteira, achei que ia ser bem animado, sabe? Um cara novo a 
cada dia e tudo o mais? Nenhum compromisso.
- Um Homem Dirio. - Janice ri, bbada.
- Exatamente. - dou risada. - Com um Homem de Domingo para o fim de semana. Supergrosso e cheio de informao intil.
-  isso mesmo.
- Mas parece que eu acabei com um ex-namorado e um garoto de 12 anos com quem no tenho nada em comum - fao uma careta. - Onde foi que eu errei, Janice?
Ela me d um abrao afetuoso.
- No sei, amiga. Simplesmente, no sei.



Na sexta de manh, deixo Nick na faculdade para ele fazer a prova de matemtica e dou uma passada na casa de Sam, em Balham. Ele tirou a manh de folga para preparar 
o cardpio do churrasco de aniversrio comigo.
- Voc gostou do convite? - pergunta.
- No recebi. - Ergo os olhos da minha agenda, surpresa.
- O qu? - Ele passa a mo pelos cabelos, surpreso. - Mas a Shana colocou no correio h sculos.
- Ser que a caixa de correio em que ela colocou o meu dizia: "Mantenha a Gr-Bretanha limpa"? - dou risada.
- No seja boba, Simpson, a Shana gosta de voc. Ela vive dizendo como voc  tima.
Diz para voc, penso, mordendo a ponta do lpis.
Ele faz uma careta.
- Mas acho que ela queria mesmo ajudar com a comida do meu aniversrio.
- Voc devia ter deixado ela ajudar, ento - minto. - Eu no iria me importar.
S que, na verdade, eu teria ficado louca da vida. Percebo que estou morrendo de inveja do que Shana e Sam tm. Ele cuida dela to bem. Eu no tenho esse tipo de 
segurana. Jake sempre est ocupado demais correndo de volta para a Calcinha de Peixe o beb; e, com Nick, sou eu quem cuida dele. Ele  um garoto, afinal de contas.
- Tudo bem, Simpson - ele sorri para mim. Ele fica mesmo muito lindo quando sorri. Acho que no posso culpar Shana por me querer fora do caminho. Apesar de no haver 
absolutamente nada entre ns. - Voc nunca a viu cozinhar.
-  to mau assim, hein?
Fico ridiculamente feliz ao ouvi-lo critic-la.
- Vamos colocar da seguinte forma: ela preparou um cheesebrguer semipronto uma vez. Sabe, daqueles que vm em caixa. Com o po e tudo o mais.
- Eca. - Eu me contoro toda. - Que nojo.
- Exatamente. - Sorri. - Bom, o queijo parecia suspeitamente brilhante...
- Era do tipo plstico?
- Ah, era. Mas no foi s isso. Ela se esqueceu de tirar o plstico. Eu quase vomitei.
Ns dois nos matamos de rir com a idia de Sam engolindo um monte de celofane.
- Voc vai fazer aqueles negocinhos de carne de porco e manga, no vai? - ele pergunta, srio de repente. - Aqueles no palitinho?
- Se a sua namorada no comer tudo para vomitar depois, com um bocejo multicolorido.
- No seja maldosa.
- Desculpe. No. Eu fao sim, mas com uma condio.
- O que voc quiser. Vendo minha av para conseguir estes negocinhos de carne de porco e manga.
- Preciso comprar meu vestido de noiva amanh _. digo. - A Janice vai comigo, mas uma opinio masculina seria bem til.
- Por qu? Seu futuro marido no vai dar a mnima para a sua aparncia.
- No, mas eu vou. - Acerto-o na cabea com uma almofada de pele de carneiro. - No quero entrar na igreja parecendo um pedao de esterco coberto de tafet, no 
 mesmo? Por favor, Sam.
- Marquei de almoar com a me da Shana.
- Por favorzinho.
- Hmm...
- Carne de porco e manga no palitinho... - aceno com meu trunfo.
- Feito - responde ele. - Vou dizer que preciso trabalhar. Alis, posso at ter a oportunidade de tentar fazer voc desistir dessa idia totalmente insana. Honestamente, 
Simpson, voc se mete em cada roubada que eu vou dizer.
- Bom, eu sou assim. - Pego uma azeitona da tigelinha na mesa. - Sempre pronta para sair voando da cadeira.
-  mesmo? - ele finge levantar minha saia jeans para conferir. - Voc precisa me mostrar isso uma hora dessas. Ah, e tem mais um favorzinho que preciso pedir, j 
que estamos tratando deste assunto.
- O qu?
- Preciso levar a Lucy ao parque enquanto a Sal vai a uma entrevista de emprego.
H dois meses, Sal, irm de Sam (trs anos mais velha do que a gente e absolutamente assustadora quando ramos crianas muito obrigada), foi cerimoniosamente dispensada 
pelo marido do mercado financeiro. Ele se mudou para um apartamento no Barbican para "se encontrar" e ela se viu tendo que cuidar de uma filha de 4 anos e com um 
oramento drasticamente reduzido.
- T-t - digo, com cautela. - Quando?
- Na quinta, daqui a duas semanas. Voc vai comigo?
- No  um encontro amoroso, ? - dou risada.
- Ha ha. S achei que ia ser divertido se voc fosse comigo. E a Lucy ia gostar.
Aposto que sim. Da ltima vez que cuidei dela, ela ficou guichando igual a um porquinho-da-ndia, at que comprei um bambol para ela e fiz com que experimentasse 
todas as minhas maquiagens, gastando todos os meus produtos carssimos no processo. Mas fico feliz por ele ter pedido para eu ir com ele. Ento, digo que sim.
No sbado de manh, estou atarefada preparando canapezinhos para um almoo idiota em Fulham. Um monte de mulheres eltricas sem nada para fazer, que vo ficar bebericando 
Chardonnaye mordiscando meus pezinhos integrais com picles antes de ir ao banheiro botar tudo para fora. Como David escreveu sobre a Comidinhas Caprichadas na edio 
de julho da Suki, as reservas no param de entrar. E Sam, Deus o abenoe, tambm tem ajudado. Ele me contratou para o lanamento da vodca de pepino Nikerzoff, um 
cliente que conseguiu arrancar das garras da empresa em que trabalhava. Um bom passo para urna empresa que est comeando, eu soube. De modo que meu caviare e meus 
coquetis em breve sero saboreados pela elite dos destilados em Londres.
Logo, vou precisar pensar em contratar mais gente. As coisas no poderiam estar melhores.
Sam, de banho tornado depois de um jogo de futebol, chega  minha casa por volta da urna e meia, e s duas Janice nos pega subindo na calada com um jipo, achatando 
um cachorro grande no meio da rua e quase me levando junto no processo.
- Meu carro est na oficina - explica. - O Jasper me emprestou esta idiotice aqui. No estou conseguindo usar o cmbio.
Entramos no carro e vamos para a Noivas Bulmicas, ou qualquer porra dessas, em Covent Garden. Quando entramos, ouve-se urna agitao e urna mulher com delineador 
azul eltrico, batom rosa cintilante e bochechas iguais s de um perdigueiro aparece, com seus escarpins se afundando sobre o carpete cor de creme.
Sam aperta minha mo.
- Tudo bem com voc?
- Tudo. - Engulo em seco, apesar de cada fibra do meu corpo estar gritando: "Corra, Simpson, corra!"
Janice, claro, mal nota meu nervosismo. Est ocupada demais manuseando todo aquele tafet e renda, seda e cetim em todos os tons de branco, creme e off-white.
- Bom, bom, bom - exala a Mulher Perdigueiro, mostrando dentes mais escuros do que se faz necessrio em urna tarde de sbado. Ou qualquer tarde, alis. - Quem  
a sortuda, ento?
- Sou eu - digo, sentindo corno se estivesse em urna espcie de pantomima. A qualquer minuto, Janice ou Sam podem gritar "No, no  ela".
- Que casal mais lindo vocs dois vo formar, - Ela parece estar explodindo de felicidade, - Mas acho que vou ter que pedir para o senhor esperar l fora. - Ela 
pega Sam pelos ombros largos, vira-o com firmeza e o empurra porta afora.
Tenho vontade de berrar: "Olhe para trs!"
- Por que  que ele tem que esperar l fora? - exijo saber.
- O noivo no pode ver a noiva antes do grande dia, no  mesmo?
- Ah, no, ele no ... - comeo a dizer, gaguejando e balbuciando para tentar compor as palavras.
- Acho que no sou o sortudo. - Sam explode em urna risada. -  urna pessoa completamente diferente.
Sorrio para ele, agradecida, Parece que perdi todo o poder da oratria.
Ele pisca para mim, uma piscadela adorvel e simptica que me acalma e me faz sentir toda mole por dentro ao mesmo tempo. Jesus. O que est acontecendo comigo? Claro 
que no posso estar desejando que fosse me casar com Sam, no  mesmo? No, Estou ficando confusa. S estou nervosa, digo a mim mesma. S nervosa. Vou ficar bem 
quando sair deste buraco infernal cor de creme.
- Tudo bem - exulta a Perdigueiro, movendo-se lpida na direo de urna arara do outro lado da sala e tirando alguns vestidos dali. - Quando ser o grande dia?
- Em breve - respondo.
- Bom, isto  bvio, querida. - Olha para mim como se eu fosse retardada. - Mas quando, exatamente? Precisamos ter alguma idia sobre como o clima vai estar para 
que possamos vesti-la apropriadamente, no  mesmo?
- Janice? - peo, Estou to nervosa que at esqueci a data deste meu casamento de mentira.
- No comeo de setembro - Janice informa, prestativa, examinando uma criao em seda em rosa antigo.
- Setembro? - a Perdigueiro parece absolutamente horrorizada. - Mas isto aqui  couture. - Pronuncia com um sotaque bem afetado. - Acho que vai ser impossvel. J 
estamos em julho. Precisamos de pelo menos seis meses de antecedncia. Eles no aparecem em um estalar de dedos, sabe como .
Ela consegue olhar para mim de modo to desdenhoso que me sinto como se fosse uma noiva grvida, casando por obrigao.
- Sabe o qu? - Janice tem uma idia. - Voc devia experimentar alguns s para ter uma idia do que gosta e da a gente pede para o Didier fazer uma cpia. Ele  
muito bom nisso.
Claro, Didier, amigo de George. Por que  que eu no pensei nisso antes? E tambm vai sair muito mais barato para o David. Afinal, ele insistiu em pagar pelo vestido.
- Creio que isto no ser possvel- menospreza a Perdigueiro. - No posso deix-la experimentar nada se a sua inteno no  comprar.
- Ah. - Fico desnorteada. E agora?
- Com licena. - Sam assume o controle, apertando minha mo de novo e olhando a Perdigueiro bem no fundo dos olhos. - A jovem disse que quer experimentar alguns 
destes vestidos e  exatamente isto que ela vai fazer. Esta outra jovem aqui por acaso vai se casar... quando... a alguma altura do ano que vem? - Olha para Janice.
- Isso, definitivamente. - Ela acena com a cabea, em resposta. - Bem no comeo do ano que vem.
- E imagino que no haja muita demanda para vestidos de noiva em janeiro, no  mesmo? - Sam pergunta.
- Hmm, bom, no... - gagueja a Perdigueiro.
- Como eu pensei. - Sam sorri para mim e pisca de novo. - Ento, voc vai ser educada conosco agora e ento talvez apenas talvez, se obtivermos o servio completo 
hoje, voltaremos. Mas isso s depende de voc.
- Claro - balbucia a Perdigueiro, saindo s pressas e voltando com pilhas de vestidos absolutamente lindos. Tomamos belinis de pssego para comemorar meu casamento 
que se aproxima e, pela maneira como ela se comporta, dava at para acreditar que eu fosse a porra da Princesa Diana.
Ou Fergie, pelo menos.
- O que voc acha deste aqui? - pergunta ela. - Ns chamamos de branco-chocolate.
-  creme, porra - Janice cochicha no meu ouvido. - Igual a todos os outros.
- Voc tem alguma coisa que no seja creme? - agora estou comeando a me divertir.
- Bom - a mulher responde -, como eu disse, isto aqui  branco-chocolate.
- Eu estava pensando em rosa-ostra - explico. - Na verdade no vai ser nada tradicional, sabe como .
- Tem certeza, querida? - pergunta ela. - Rosa? Com o seu cabelo...
Ento ela v a expresso de Sam e sai correndo para os fundos da loja.
- Aqui est. - Ela me aparece com a criao mais estonteante do rosinha mais plido, bordada com pontos dourados. - E pensei nisto aqui para combinar. - Ela segura 
uma
linda tiara, feita de quartzo rosa e cristal.  to lindo que eu quero. Com ou sem casamento.
- Experimenta - Sam pede.
E  o que fao.
O vestido cai como uma luva. Ajusta-se perfeitamente a cada parte do meu corpo, dando at mesmo a mim curvas sensuais. Coloco a tiara, abro a cortina do provador 
e...
'I'CHAN-TCHAN-TCHAN-TCHAN!
Dou voltas e mais voltas, segura porque sei que no podia estar mais bonita - para algum como eu, pelo menos.
Silncio da parte de Janice e Sam.
- Vocs no gostaram? - Olho para baixo, acabada. - A parte de trs ficou presa na minha calcinha ou o qu?
- Est perfeito, querida - Janice parece deliciada.
- Voc est linda. - Sam parece ter lgrimas nos olhos. 
Ele me pega pela mo e me conduz at o espelho da parede do outro lado da sala. - Olhe s para voc. Est maravilhosa.
Olho para mim. Ao lado dele. E, apesar de eu ser alta, ele  uns bons 12 ou 15 centmetros mais alto. Ficamos bem juntos. 
De repente, percebo que gosto dele.
S um pouquinho.
Mas aquele sentimento de teso est l.
Droga. E bem agora que estou prestes a me amarrar. Quanta inconvenincia.
- Maravilhosa- repete ele, olhando para si mesmo ao meu lado e depois para ele mais uma vez.
Janice quebra o encanto.
- timo - diz. - E j que serviu to direitinho, ser que ela j no podia levar?
- Bom, como eu disse - explica a Perdigueiro -, no vai dar tempo de mandar fazer um para ela.
- Mas ela no pode ficar com esse a mesmo? - Janice quer saber. - Serviu, no serviu?
- Creio que no, querida. Este  o nico modelo que temos.
- Ah. - Estou absolutamente decepcionada.
- Mas voc pode levar a tiara - diz a Perdigueiro, sempre com sua alma de vendedora. - S custa 500 libras.
- Ah, isso, Katie. - Janice est animada. - Leve.  um luxo.
- No posso - digo por entre os dentes. - No posso gastar todo esse dinheiro em um casamento que nem  de verdade. E uma estupidez.
- Tudo bem - Sam aparece com um carto Visa. - Pode cobrar aqui. Meu presente, Simpson. Pode chamar de minha bno. No lugar de entreg-la no altar.
- Ento, voc no vai...
- Vamos ver, pode ser?
- Mas e o vestido? - quer saber Janice.
- Tudo bem. - Sacudo a cabea. - Acho que vou pedir para o Didier fazer um parecido. Vou l me trocar.
- Espere um minutinho - Sam impede que eu me mova, tirando uma coisa do bolso do casaco. Uma cmera. - Acho que voc no vai se importar se tirarmos uma fotografia, 
vai? - pergunta. - J que ela est to linda nele.
- Bom - a Perdigueiro morde o lbio murcho -, ns no costumamos...
- Bom, tem aquela outra loja ali embaixo de que voc gostou - ele diz olhando claramente para Janice.
- Tudo bem, tudo bem - a Perdigueiro ergue a mo, assumindo sua derrota. - Pode tirar uma foto, se  mesmo necessrio.
- Diga xis - Sam bate meu retrato. - Perfeito.
- Eu no estava pronta - reclamo mais tarde, sentada no carro, agarrando minha nova tiara cintilante com avidez. - Vou sair horrorosa.
- Ah, bom - Sam me abraa -, no faz mal. O vestido ficou lindo.
- Ento ele pode muito bem se casar sem mim.
- Mas falando srio, Simpson, pelo menos agora o Didier vai saber como  o vestido para poder copiar.
- Obrigada. - dou um abrao nele.
Ele parece feliz, apesar de se recusar a beber um drinque de comemorao comigo e Janice depois das compras, dizendo que precisa encontrar-se com Joff no Bedford 
para conversar sobre o jogo Arsenal x Leeds United. Janice e eu o deixamos em casa e Janice diz que, se no vamos sair para beber,  melhor ela devolver o jipe para 
Jasper. Vou junto com ela.
- Podemos at pedir para ele preparar umas bebidas se j tiver voltado - diz Janice. - a martni dele  demais.
- Excelente.
Esperamos uma eternidade at que um Mondeo prata liberasse uma vaga em frente ao apartamento luxuoso de Jasper, na beira do rio (sua residncia na cidade) e ento, 
bem quando estamos prontas para dar r, um idiota em um Porsche azul aparece do nada, zunindo atrs de ns, e entra na vaga antes mesmo que a luz de r de Janice 
tenha tempo de acender.
- Eu estava com a porra do pisca-pisca ligado - ela grita para mim. - D para acreditar na audcia desse filho da puta?
Respondo que no, que o porra do filho da puta surpreendeu at mesmo a mim com tamanha arrogncia.
A porra do filho da puta sai do carro, desfilando como um pavo, abaixando um par de culos escuros de marca da cabea para o nariz.
-  isso a, amorzinho. - Ele sorri, todo exibido. -  assim que se faz quando a gente sabe dirigir.
O rosto de Janice fica enevoado. Por uma frao de segundo, tenho medo que ela esteja pensando em usar as chaves para dar um jeito no rosto dele. Mas nem precisava 
ter me preocupado. Ela tem algo muito mais espetacular em mente. Antes que eu tenha tempo para compreender exatamente o que est acontecendo, ela pisa fundo no acelerador 
e vira a direo completamente para a esquerda, dando uma fina em um parqumetro e dando uma batida de especialista na frente do Porsche. O Porsche se afunda todo, 
dobrando-se em volta da traseira do jipe que no sofre praticamente nenhum arranho, como massa fresca em volta do recheio de pastel.
- Desculpe - ela me diz, achando que eu possa ter me machucado, j que a minha cabea foi jogada para a frente e bateu no painel com um baque. - Precisei usar energia 
nuclear.
- No tem problema nenhum - digo, trmula, conferindo para ver se todos os meus ossos ainda esto no lugar.
Janice abaixa o vidro e pisca toda sexy para o motorista do Porsche, que olha absolutamente mortificado para os restos de seu precioso pnis substituto.
-  isso a, amorzinho - diz, toda doce. -  assim que se faz quando a gente tem dinheiro.
Ento engata a primeira no 4x4 e cruza a rua com calma, procurando outro lugar para estacionar.
- Suas sapatonas desgraadas! - o homem grita para ns. E ento, apontando para mim, completa: - Voc  meio alta para ser mulher, no ? J foi confundida com um 
homem?
Debruo-me sobre Janice e coloco a cabea para fora da janela.
- Nunca. - Mostro o dedo mindinho para ele. - E voc?
Ficamos morrendo de rir at chegar ao apartamento de Jasper onde, depois de apertar a campainha e no receber resposta, conclumos que ele no deve ter chegado.
- S vou deixar as chaves do jipe l dentro. - Janice destranca a porta da frente. - E podemos pegar umas garrafas de vinho, j que vamos entrar mesmo. Vamos comemorar 
um pouco l em casa. Em nome da sua tiara.
- Tudo bem.
Por dentro, o apartamento de Jasper  lindo. Um plano aberto com muita madeira clara e paredes brancas por todos os lados.
- Que estranho. - Janice olha para as chaves e de novo para a fechadura.
- O qu?
- S est fechado com uma volta. Normalmente, quando ele sai, d duas voltas na chave. Est ficando gag. S no perde a cabea porque est grudada no pescoo.
Quando entramos, no entanto, alguma coisa me parece muito esquisita.
- Que barulho  este? - ergo a cabea na direo do teto.
- O qu?
- Esse barulho a.
Ela escuta com ateno.
-  a Nina Simone. A preferida do velho caqutico.
- Est bem alto, hein? - digo. - Parece que ele est dando uma festa ou algo assim.
- Melhor que no esteja. No sem me convidar.
- Voc acha que est tudo bem com ele? - digo. - Quer dizer, ele pode ter cado. Escorregado em uma casca de banana ou algo assim enquanto danava para l e para 
c, sozinho e tristonho.
- Ele tem faxineira - ela lembra. - E no  to velho assim.
Coloco as mos sobre o corao, fingindo pavor.
- Ele pode ter sido acometido por um ataque do corao quando tentava abrir uma simples latinha de ervilhas - digo.
- O pobre coitado.
- No faa isso. - Parece que ela vai ter o maior ataque de riso.
- Ele pode ter apagado quando ia colocar mais uma moeda no aquecedor, s para ficar quentinho - digo. - Ou ento engasgou com um pudim...
- Pare. - Ela segura a barriga. - Vamos l. Vamos ver onde  essa festa. Provavelmente no vizinho de cima. O pessoal que mora l  meio louco.
Parece que a festa est a toda. E, alis, parece que  mesmo no apartamento de Jasper. Quando subimos a escada em caracol, percebemos que a msica vem do escritrio 
dele. Enfiamos a cabea na fresta da porta e deparamos com o traseiro flcido de Jasper. Ele est completamente nu, com a ereo em uma mo e uma cmera na outra. 
E, sentada na mesa dele, com um caderninho e uma caneta em uma mo e as pernas to abertas que d para ver o que ela tomou no caf da manh, uma vadia com um enorme 
piercing de diamante no nariz e peitos que ficam em p sozinhos.
- Caralho - dizemos as duas, ao mesmo tempo.
Ao nos ouvir, Jasper se vira para trs.
- Querida - diz para Janice. - No ouvi...
- Isto est bem claro - diz ela friamente, agarrando a minha mo e me puxando escada abaixo.
- Tudo bem? - pergunto quando samos.
- Tudo - ela responde lentamente. Est branca como uma folha de papel. - Mas acho que vou vomitar.
Entrego-lhe um lencinho de papel, e ela manda ver em cima dos meus sapatos.
- Tente no se preocupar - digo, tentando reconfort-la. Quer dizer, voc s queria ficar com ele por causa do dinheiro no ?
- Bom,  - ela responde. - Claro. Mas estou um pouco chocada. No achei que esse velho fosse capaz de algo assim.
Algo est errado. Ela est estranhamente calma.
Ento, por que est passando mal? Ela nem est to preocupada assim.
- L se vai a minha casa de campo em Winchester - lamenta amarga. - E voc sabe, Katie, j chupei o cara cinco vezes. No foi exatamente divertido.
- Tenho certeza de que no - digo, solidria.
- At engoli duas vezes - reclama. - Imagine como eu estou me sentindo uma idiota completa agora.
Digo que sei que ela est se sentindo idiota. Mas pelo menos no est chorando. Estava preocupada que ela abrisse o maior berreiro. Achei que ia ter catarro para 
todo lado. Mas no,  s o dinheiro. No pode ser to mau assim.
- Na verdade, Katie - ela me olha bem nos olhos -,  to mau assim.
- Por qu? - pergunto. - Voc no est devendo nada para ele, est?
- No.
- Por qu, ento?
Algo na maneira como ela me olha me passa um pressentimento muito ruim sobre a coisa toda.
Um pressentimento muito ruim mesmo.
- Bom, cansei de ficar esperando ele me pedir em casamento e resolvi experimentar uma ttica nova - explica ela, com o lbio inferior tremendo um pouquinho.
- Ah.
-  isso a - ela diz. - Resolvi usar o plano B. E olha que eu acho que deu certo, estou toda inchada.
-- Ah, fala srio, Janice, voc no est gorda. Voc acha que eu iria convid-la para ser minha madrinha se voc fosse uma gordalhona?
- No estou falando de agora. - Olha para mim de maneira depreciativa. - Estou falando daqui a uns meses. Sei meses, para ser exata. Em seis meses, eu vou estar 
do tamanho
de uma casa.
- O qu?
- Estou embuchada. Tenho um pozinho no forno.
- Mas como?
- Transando. - Olha para mim, toda sria. - Desse jeito. Caralho, Katie, O que  que eu vou fazer?
- Ter um filho? - digo com a voz bem fraca.
- Bom, acho que j  um pouco tarde para qualquer outra coisa - responde. - Merda,  a histria se repetindo mais uma vez. Eu me transformei na minha me. Aquela 
coitada daquela vaca.
- Mas voc tem emprego - tento.
- Que eu odeio.
- Pelo menos voc vai ter dinheiro para cuidar dele - continuo. - Voc vai ser uma me tima. S no v vend-lo para o George.
Ela consegue dar um sorriso fraco.
- Voc acha que eu devia largar o meu emprego e viver da previdncia? - pergunta. - No  isso que as mes solteiras fazem?
- Voc pode contratar uma bab.
- Ai, credo. - Ela me ignora. - Eu. Me solteira. Claro que vou ter que mandar furar as orelhas desta criana, mesmo que seja menino. E vou ter que usar uns sapatos 
baratos horrorosos e pintar marcas roxas nas pernas para que as outras mes solteiras no fiquem achando que eu sou exibida.
- Tente se animar. - No consigo pensar em nada melhor para dizer. - O parto no vai doer tanto assim.
- Katie, eu vou tipo ter que fazer passar um melo pelo buraco de uma agulha.
- No se preocupe. O Jasper provavelmente vai mandar um chofer para tirar. E vai vir com piloto automtico e tudo o mais. Vai sair a dez quilmetros por hora, com 
um charuto na boca.
Voc nem vai precisar fazer fora.
Janice consegue dar outro sorrisinho.
- Credo, ele era um imbecil mesmo, no era? - Ela ri. - Que idiota.
- Completamente. - Dou risada, caminhando na direo do jipe e colocando a mo na porta. - Voc ainda est com as chaves?
Janice coloca a mo no bolso.
- Estou.
- Ento pronto - digo. - Acho que voc pode ficar com ele. E ainda tem a penso alimentcia.
- Acho que  o nico tipo de apoio que ele iria me dar.
- Ento, voc no vai contar para ele?
- De jeito nenhum. Voc o viu, Katie. No quero que meu filho tenha um pai daqueles.
- Onde  que voc vai arrumar dinheiro para cri-lo, ento?
- Vou ter que me virar sozinha, no  mesmo?
- Muito justo. - Abro a porta do jipe. - Mais uma razo para a gente esquecer tudo isso. Deixa que eu dirijo, pode ser?
Depois a gente pega o seu carro.
De repente, Janice sorri.
- Katie?
- Sim?
- Eu amo voc do fundo do corao, porra.





DEZENOVE





No dia do aniversrio de Sam, chego  casa dele um pouco antes do primeiro convidado. Claro que Shana j est l. E enquanto me ocupo com temperos e molhos de salada, 
ela se esparrama em cima do canap de veludo azul de Sam e fica me alfinetando com toda sua gentileza. S uma coisa parece estar diferente. Examino com mais ateno. 
 o cabelo dela. A juba brilhante loura foi cortada bem curtinha. No combina.
- Resolveu mudar para o corte Joozinho, ? - provoco, entrando na cozinha para acabar de preparar a comida.
Os convidados se renem no quintal e Sam serve Pimms transbordantes de morango, pepino e hortel. Levo a comida para fora e comeo a arrumar tudo sobre a mesa comprida 
encostada na parede. O sol forte que bate sobre as paredes caiadas do quintal de Sam fere meus olhos depois da relativa penumbra da cozinha, de modo que no consigo 
distinguir bem os convidados. Parece um pouco esquisito servir a comida na festa de aniversrio do meu melhor amigo. Por direito,  claro, eu deveria estar com os 
outros, enchendo a cara de gim.
- Est maravilhoso. - Sam vem de dentro de casa e coloca o brao em volta dos meus ombros enquanto arrumo tigelas da minha salada de batatas especial e bandejas 
de queijo halloumi e kebabs de cebola roxa sobre a mesa.
- Obrigada. - Abrao-o tambm. O cheiro dele  adorvel. De banho e de roupa recm-lavada. - Feliz aniversrio.
 medida que os Pimms so entornados, vou ficando mais relaxada. Os convidados parecem estar se divertindo e, depois que acabo de preparar toda a comida, no h 
muito mais a fazer. Jeff, pai de Sam,  quem vai assar o churrasco, de modo que, se tiver sorte, no vou precisar me preocupar com isso. At tenho chance de comer 
um pouquinho: acho uma cadeira perto de Janice, ao lado do muro do jardim, e admiro os vasos de terracota cheios de flores coloridas e os feijes vermelhos que crescem 
junto  parede. At vejo Bertie, a tartaruga de Sam, mastigando um pedao de pepino sobre um tufo de capim.  dele h anos.
- Tinha me esquecido dela - digo a Janice.
- Do qu? - Janice est mastigando um enroladinho. Faz uma semana que est louca para com-los. Que nojo.
Mas nem d tempo de apontar para Bertie, porque somos interrompidas por urna voz estridente.  Shana, que vem rebolando com urna parte de cima de biquni vermelha 
e branca, quadriculada.
- Aaaah - comea ela, toda mordaz. - Olhe s para voc, Katie, mandando ver com toda essa comida.
- Perdo? - olho para ela bem nos olhos.
- Bom, no cai muito bem, no  mesmo, a responsvel pela comida ficar comendo tudo que v pela frente. Quer dizer, voc no deveria estar na cozinha, limpando tudo?
- Vaca - Janice fala quase para si mesma.
- S que as coisas so um pouco diferentes, no so? - estou determinada a manter urna atitude adulta. - Um pouco mais relax. J que Sam nem est me pagando nem 
nada. Nem sonharia com isso. Ele  meu melhor amigo.
-  o que voc acha, no  mesmo? - insinua ela em um tom de voz tenebroso, do tipo "eu sei de alguma coisa que voc no sabe".
- Perdo?
- Bom, se vocs so to bons amigos assim,  de se pensar que no haveria nenhum segredo entre vocs - continua, toda alegre, quando Sam vem na nossa direo. Ele 
est muito lindo, e eu me surpreendo com este pensamento.
- Que segredo?
- Ah, nada - responde ela. - Oi, querido.
- Oi. - Sam parece confuso.
- Que segredo? - repito.
- Ah, deixa pra l - Shana d de ombros. - Ah, olha s, Katie, l est a sua me. Preciso ir l dar um oi.
E, com isso, d no p, deixando Sam e eu olhando um para o outro.
- Qual  o problema?
- Nada - respondo. Mas  tudo muito estranho.
Logo descubro o que Shana quer dizer. Mais tarde, depois que Sam j soprou as velinhas do bolo, minha me, com quem eu mal falei o dia inteiro, puxa-me pela mo 
e diz que tem uma notcia para me dar.
- O que ? - pergunto.
- Vamos chamar o Jeff primeiro, pode ser? - Ela me conduz na direo da porta da cozinha, onde Jeff est, fumando um charuto de comemorao e sorrindo para minha 
me de um jeito ntimo demais para o meu gosto.
- Pode ir contando, ento - digo.
- Bom - minha me comea, virando-se para sorrir para Sam e Shana, que se postaram ao meu lado. Shana sorri tanto que seu rosto est quase se dilacerando de tanto 
esforo.
O que foi? - pergunto, comeando a ficar preocupada. - No tenho o dia inteiro.
- Pedi a mo da sua me em casamento - revela Jeff, afinal.
- O qu? - estou embasbacada.
- Pedi sua me em casamento. - Repete ele.
- E o resto do corpo dela? - estouro, de repente. - No basta para voc?
No entendo. Sei que estou sendo infantil, mas como  que minha me pode ser to inocente a ponto de se deixar seduzir pelo charme do pai de Sam? Sempre fomos s 
eu e ela. Como  que ela pode pensar em se casar de novo, depois do que o meu pai fez com ela?
O que me deixa ainda mais magoada  que Sam e Shana j sabiam. Ela contou primeiro para eles. E Shana amou isso. Que vaca. Ficar puxando o saco da minha me.
- Voc vai se acostumar com a idia, querida. - Jeff d um tapinha no meu ombro.
- Vou? - fico triste. De algum modo, duvido muito. E o pior  que no consigo parar de pensar em como Sam est lindo hoje. E que vai ser meu irmo.
Que perverso.
- Ele vai me fazer companhia, querida - acrescenta minha me.
- Certo.
- E o jardim da sua me  adorvel - completa Jeff. - Vai ter mais espao para os meus tomates.
- Ah, que beleza, no  mesmo? - cuspo. - Desde que esteja tudo bem com os seus tomates, est tudo uma maravilha.
Estou prestes a sair correndo para clarear as idias quando Shana se intromete na conversa.
- Temos uma notcia nossa para dar tambm, no  mesmo, querido? - ela empurra Sam para a frente, como se ele fosse uma criancinha, meio envergonhado porque tem 
que falar na frente de todo mundo.
- Temos?
No tenho certeza se  uma afirmao ou uma pergunta, mas, claramente, Sam est to confuso quanto eu.
- Ns tambm vamos noivar - exclama ela, exultante.
- Ah' mas que porra, que maravilha - solto.
- Katie. - Sam segura a minha mo.
- Vai se foder.
- Qual  o seu problema?
- No sei.
E  verdade. No sei mesmo. S sei que est tudo errado. No consigo agentar tudo isso. Dois anncios de casamento em um dia s. E nem posso contar sobre o meu 
para minha prpria me.
Droga.
- Vou para casa - digo. - Para a casa do George.
- Mas...
- Nada de mas. Fui.
J estou meio fora da casa, entre lgrimas de risadas histricas frente ao absurdo de tudo isso quando Sam me alcana.
- Qual  o problema?
Olho para o rosto dele, todo lindo e preocupado.
- Como  que voc pode se casar com essa vaca? - desabafo.
- O qu?
- Voc ouviu. Ela  uma vaca. Disse para todo mundo que foi ela quem fez a comida. Eu ouvi.
E  mesmo verdade. Ouvi Joff cumprimentando-a pela maciez do kebab de frango. E ela simplesmente piscou os olhos e agradeceu. Deu vontade de peg-la pelos cabelos 
e sacudi-la no ar, mas resolvi ser uma mulher superior na ocasio.
E aonde foi que isso me levou?
- Ela no faria isso.
- Ah sim, faria sim, porra. Vi quando ela ficou se exibindo por causa do tempero tambm.
Isso j  uma mentirinha, mas no posso perder a oportunidade.
- Agora voc s est sendo ridcula - diz Sam e a expresso no seu rosto muda repentinamente.
- O qu?
- Ridcula e infantil.
- Ento voc no vai querer falar comigo, no  mesmo? - cuspo. - Ento, v se foder.
- Tudo bem, vou fazer isso mesmo. Ligue quando crescer - conclui ele. - E quando desistir desta farsa ridcula que  esta porcaria do seu casamento.
E, sem dizer mais nenhuma palavra, d meia-volta e retorna para dentro de casa.
- Idem - grito de volta para ele. - Porra, seu cafajeste.
E ento eu me viro e vou at a estao de metr batendo O p.
Droga. Agora eu consegui perder meu melhor amigo. E com a minha me se casando e com tudo por que eu passei, eu estava mesmo precisando dele. J que George e David 
esto to apaixonados o tempo todo e com os hormnios de Janice todos fazendo confuso, agora que ela est usando a barriga como prateleira para xcara de ch.
E o pior de tudo  que estou achando que gosto de Sam.
E ele vai ser meu irmo.
Ele me odeia.
Que droga.



Antes de experimentar meu vestido, fico morrendo de preocupao, bem estpida, se Didier vai conseguir ou no fazer um vestido igual ao que eu escolhi. Sam me deu 
a foto assim que a revelou e George a entregou a Didier com bastante antecedncia. Mas odeio pensar que, depois de achar o vestido perfeito, tudo pode ir por gua 
abaixo.
- E quero que o Sam ache que eu estou bonita - choramingo para Janice. - Depois de todo o trabalho que ele teve.
- O Sam provavelmente nem vai ao casamento. - D tapinhas na barriga sem pensar no que est fazendo.
- Como  que voc sabe que ele no vai? - acuso. - Talvez ele v.
- Bom, voc no sabe, sabe? - ela quase grita. - Ento eu  que no vou saber mesmo. Daqui a alguns meses, vou ser me solteira, pelo amor de Deus. O que, puta que 
pariu, me d o direito de no saber nada sobre nada. Daqui para a frente, s vou andar por a com o ombro coberto de vmito e empurrando uma porra de um carrinho. 
E tenho bastante propenso para depresso ps-parto.
- No comea - digo.
- Tudo bem. - Ela d de ombros, cortando para si mesma uma fatia de stilton e cobrindo-a com mango chutney e pasta de amendoim. - Vou poder roubar coisas no supermercado 
e me safar.
E ento, como aconteceu um punhado de vezes nos ltimos dias, de repente ela percebe, de novo, que vai ter mesmo um beb de verdade, vivo.
- Caraaaaaalho - grita a plenos pulmes. - Que porra eu vou fazer com esse pirralho quando ele chegar?
Fao uma careta, tampando os ouvidos com as mos.
- Voc vai deixar o coitadinho com os ouvidos apitando. E ele tambm vai ter sndrome de Tourette. Sua boca est toda suja de mango chutney. Limpe isso a.
Espero at George chegar em casa do trabalho e pergunto quando Didier vai l. Ele est um pouco preocupado com os coliformes fecais que pode ter consumido depois 
de comer um peito de frango borrachudo no refeitrio do trabalho, ento acho que o momento  to bom quanto qualquer outro. No ficou exatamente feliz de ter que 
pedir para Didier fazer o vestido, porque ele certa vez fora para a cama com ele, em um momento de fraqueza, e morre de medo que descubram, Mas acabou aceitando.
- Bom, no quero que voc tenha que ir a urna loja de departamento qualquer e compre o primeiro vestido que encontrar pela frente - ponderou. - Ento, acho que vai 
dar para suportar ele enfiando o nariz na nossa geladeira e desfilando aquele traseiro gordo pela casa durante um nico dia.
A visita de Didier foi marcada para um domingo de manh. Naquele dia, mandei Nick dar o fora assim que acabamos de transar e desci logo para a sala, onde George 
est com seus nervos de noiva  flor da pele, Est preparando ch como se o mundo fosse acabar e andando de um lado para o outro no corredor, como um pai esperando 
o filho nascer. S falta o charuto.
- Ele est a a manh toda - David quase d um ataque quando me jogo no sof. Estou com calor, melada e fedendo a sexo. No sou bem o que se pode chamar de uma noivinha 
corada. - D at para achar que ele est ficando com medo.
- D at para achar que ele  a porra da noiva - digo com firmeza, tirando os ps dos tnis pretos esfarrapados que escolhi para usar naquele dia e fazendo uma careta 
quando Didier, que j chegou e est colossal, com um terno cor de malva, com colete, me manda ficar em cima da mesa de centro e corta minha circulao mais ou menos 
na altura da cintura com sua fita mtrica.
- Cuidado - avisa ele, ajeitando a lapela da camisa cor de malva e franzindo o cenho. - Voc vai rasgar o pano com esse seu pezo. - Dispe montes de material rosa-dourado 
ao meu redor, prendendo e pregando pedaos de tecido com movimentos geis enquanto David nos fornece litros e litros de ch quente e sanduches gordos de bacon, 
cheios de ketchup. - Esta  a cor certa, se no estou enganado?
Sou forada a admitir que, sim, Didier  uma porra de um gnio.  exatamente a cor certa. 
Ele abre um sorriso gordo, as bochechas vermelhinhas de tanta alegria. George faz uma careta, presumivelmente pensando na maldita noite em que dividiu a cama com 
ele.
- Obrigado, - Faz uma mesura ridcula com o corpo. - E devo dizer que  fantstico poder trabalhar com algum que no tem o menor sinal de seio sobre o peito.
-  mesmo? - grito, quando mais um alfinete espeta meu quadril.
- Ah, . - Ele concorda com a cabea, - Voc tem a silhueta perfeita para este modelo. Peites estragam tudo.
- Tenho mesmo?
- Claro. Nada melhor do que um cabide para pendurar roupas. J pensou em ser modelo?
- Prefiro mijar sangue, obrigada. 
- Ah.
- Desculpe - sacudo a cabea -, mas no tenho tempo de ficar imaginando se a minha bunda vai ter celulite ou no ou se o meu cabelo vai ou no ficar perfeitamente 
liso - explico.
- Tenho coisas melhores com que me preocupar.
- Algumas das noivas que voc atende devem querer que voc faa milagres, no, Did? - George diz.
- Querem mesmo.
- Na verdade, algumas delas tm o corpo quadrado, sabe como , Katie - George prossegue. - Parecem uns cubos mgicos e chegam com o dedo em riste, pensando s em 
como querem estar quando desfilarem na igreja. E a gente no pode simplesmente dizer para elas que  impossvel enfiar cinco quilos de salsicha em um saquinho de 
um quilo. Pode?
- No. - Didier puxa as alas do ombro, quase me sufocando. - Respire fundo, querida. No, voc tem toda a razo, Georgie. Meus talentos so bem considerveis, mas 
a gente precisa estabelecer os limites. No d para fazer uma bolsa Pucci com a bunda de um porco, por mais que se tente.
Fico l parada, entediada at os ossos, enquanto Didier alfineta e dobra, costura e tagarela  minha volta. Minha mente est em outro lugar. No consigo parar de 
me preocupar com os bolos de caf e outras delicinhas que preciso fazer para algum tipo de comemorao em Lavender Hill. Quando  que vou achar tempo para fazer 
tudo isso?
- No  uma maravilha? - George est ajudando Didier e ajeitando meu cabelo, todo animado, - Isto aqui  como ter nosso prprio Mundo das Mulheres. Cad aquela tiara 
que voc comprou?
- Est no meu quarto. - George obedientemente vai l em cima busc-la e a ajeita sobre os meus cabelos. Olho no espelho e fico maravilhada com todo o meu brilho.
- Que engraado, no  mesmo? - exclamo quando George, David e eu fazemos uma pausa para tomar nossa dcima xcara de ch. - Quer dizer, no faz porra de diferena 
nenhuma se eu vou estar bonita ou no, j que ningum vai me ver mesmo, j que no temos convidados. Podia colocar minhas calas cargo e minhas botas Timberland, 
no podia?
- Ningum? - George ejacula.
- Ningum? - Didier ecoa.
- Eu no diria que o Mareel no  ningum, no  mesmo, querida? - guincha George. - Ele j fez arranjos florais para a Fergie mais de uma vez.
- E a Davina McCall- acrescenta Didier. - Ela est super na onda.
- Ah, e tem aquela Dorien da novela, alis - completa David. - Ele fez uns canteiros lindos para ela. Parece que ela  uma fofa na vida real. No aquela vagabunda 
que aparece na TV.
- E da tem Fran, o Trans, e a Ermintrude - continua George. - S porque deixaram cortar um pedao no quer dizer que no so ningum, querida. Ficariam muito magoados 
se a ouvissem dizendo essas coisas.
- Elas vo ao casamento?
- Dissemos que elas podiam jogar arroz depois da cerimnia - admite David. - Estavam se sentindo meio por fora, por isso vo fazer uma chuva de ptalas de rosa quando 
voc sair da igreja. E tambm chamamos o Prosper e o Rex para fazer nmero.
- Que nmero? - pergunto, revoltada.
George ergue as sobrancelhas para o cu. Na verdade, ergue s uma. No momento, s tem uma. Uma monocelha. Normalmente, depila o tufinho do meio. Mas a cabea dele 
tem estado cheia demais de pensamentos cor-de-rosa histricos sobre casamento. Tanto que no tem tempo de cuidar da prpria beleza.
- O que voc acha? - pergunta, em tom cansado. - Qualquer coisa para encher o recinto. Convidados, crianas e cachorrinhos, claro. Sei l.
- Mas no vai ter nenhum convidado - reclamo. - Alm de Janice e do Sam, claro.
Na verdade, depois da nossa discusso, ainda no sei se Sam vai. Mas no posso me preocupar com isso agora. Preciso ter pensamentos positivos.
- Claro que ele vai - responde George, lendo meus pensamentos. - E  claro que vamos ter convidados. Convidamos todo mundo em quem pudemos pensar.
- Mas achei que tnhamos combinado...
- Ah, que se dane a nossa combinao, querida - debocha George. - Estou pagando toda esta porra, ento fao o que bem entender, se voc no achar ruim.
- Voc no acha que vai ficar parecendo meio gay? - pergunto. - Com todas essas bichas? E se o Departamento de Imigrao resolver investigar? No vo ficar com a 
pulga atrs da orelha quando virem que os convidados todos parecem integrantes do Village People?
- O Sam vai estar l - David me garante. - Ele no  gay.
-  triste, mas  verdade - comenta George.
Os dois caem na risada.
- timo - reclamo. - O Sam e a Shana. Ele acompanhado de uma tira de linguini no  exatamente uma boa representao para o Clube de Heterossexuais de Londres.
- E voc vai estar l - exclama David. - Com seu vestido rosa de mulherzinha e seus sapatos brilhantes. Bom, se a gente fosse colocar uma roupa de sapatona caminhoneira 
em voc, a dava para entender a sua preocupao.
-  mesmo - concorda George. - E agora voc no pode mais vir com essa de fingir que  machona, querida. No com esse monte de namorados que voc tem.
- No faa com que a gente cancele tudo - implora David.
- No, no faa - suplica George. - Afinal,  o nosso dia Acho que no posso discordar disso. Posso at ser eu que vou assinar o pedao de papel, mas quem est assumindo 
compromisso so George e David, na verdade. Afinal, eles se amam profundamente, no  mesmo?
No  mesmo?
Claro que sim. Ou pelo menos  o que eu espero. Ou ento, por que  que eu iria estar me submetendo a tudo isso?
"Talvez voc esteja fugindo de alguma coisa", cochicha uma vozinha no fundo da minha cabea.
"Ah, ", desafio. "Tipo o qu?"
"Talvez voc esteja com medo de se magoar de novo, ser'?", ela me provoca.
"Ah, , sei", respondo com mais firmeza desta vez. "Acho que j me curei do Jake Carpenter, muito obrigada. Desta vez, est tudo sob controle. Ento, quem  que 
manda agora, hein?"
Mas alguma coisa continua me incomodando, l no fundinho. E, quanto mais penso nisso, a imagem de Sam me vem  mente.
Que coisa mais estranha!
No  Jake. No  Nick. No  nem mesmo o tonto do Max, que no quer largar do meu p.  Sam. Simples assim.
No que eu o deseje, claro. Quer dizer, eu no me interessava por ele quando ele era solteiro, no  mesmo? Quando ele saa com qualquer loira de Londres? Claro 
que no. Eu preferia comer fibra de vidro moda antes de sair com o Sam de antigamente.
Ento, o que mudou?
", voc quer ficar com ele", a voz na minha cabea informa.
"No, no quero nada", reclamo.
"Ah, quer sim", insiste a voz.
"Ah, v se foder", mando. "Isto aqui no  uma porra de uma pantomima."
"Voc quer ficar com ele", persiste a voz, "porque agora voc no pode mais t-lo."
"Merda", digo. Mas preciso reconhecer, eu sempre fui um pouco assim. Sempre querendo o impossvel. Tipo quando eu linha dois anos e queria que a minha toalha de 
banho secasse instantaneamente. No servia uma nova. Isso aconteceu muito antes de existirem secadoras de roupas, e meus pais tentaram me explicar que simplesmente 
no era assim. Mas eu no aceitava. Gritava at ficar com a cara roxa e tinham que me dar
chocolate para eu me acalmar.
Mas com Sam  diferente. Claro que eu no quero ficar com ele. No assim. Mas devo me encontrar logo com ele, para levarmos Lucy ao parque. E no quero decepcion-la. 
J tnhamos combinado antes da briga. Agora eu simplesmente no sei se devo aparecer ou no. George continua tagarelando quando eu desperto do meu sonho acordado. 
Est dizendo algo sobre ter que economizar para o casamento. De quanto vai custar e tudo o mais. 
- Depois de pagar tudo, vou ficar oficialmente pobre - ameaa. - Provavelmente vou ter que abrir mo da minha casa linda e ter que me mudar para a zona oeste. Acho 
que vou terminar em Stoke Newington. Provavelmente. Ou Barking. Talvez v para algum lugar que nem tem metr.
- Ah , com certeza. - Eu me encolho toda quando Didier, rpido como um raio, enfia a mo no meu suti para arrumar a posio de um dos meus mamilos. Parece que 
os dois no so alinhados, e isso est estragando o caimento do vestido.
- Claro que sim, querida - explica George. - Quando chegar o inverno, vamos ter que usar malhas compradas no supermercado. Vamos ser obrigados a adquirir uma panela 
eltrica de fritura e um daqueles aparelhos para ligar a internet na TV, e vamos morar em um edifcio bem alto, de apartamentos populares. Um bem decrpito, com 
cheiro de mijo. Sabe, tipo aqueles que aparecem no telejornal. E todos os nossos vizinhos sero feios e mal-vestidos, querida, e vamos ter medo de sair de casa para 
no sermos assaltados, ento vamos ter que ficar em casa no sbado  noite no nosso sof cor de laranja, assistindo  novela com o som bem alto e comendo Miojo.
Ele s se esqueceu de que tem uma herana suficiente para pagar a dvida externa do Terceiro Mundo.







VINTE 







Sam e Lucy, usando bons azul-marinho combinando, esto me esperando perto da ponte, como Sam disse que estaria. Quando vou me arrastando na direo deles, Sam sorri, 
e Lucy, com jeans cintilantes e tnis cor-de-rosa que acendem quando batem no cho, corre para me dar um abrao.
- A mame disse que agora voc vai ser a minha tia Katie. Voc e o meu tio Sam vo se casar?
Dou risada.
- No. Minha me  que vai se casar com o seu av. O que meio que me transforma na irm nova da sua me e do Sam.
- Ah. - Lucy parece um pouco confusa, mas se anima quase que imediatamente. - Tenho uma pipa. Voc me ajuda a empinar?
- Claro. - Levanto as sobrancelhas para Sam. - Mas s se pudermos comer bolo primeiro.
- Ta bom.
Marchamos at o caf. Temo que Sam ainda esteja de mal comigo depois da nossa briga, de modo que os convido para um ch com bolo. Normalmente, eu no gastaria dinheiro 
com algo assim, mas acho que se faz necessrio sob essas circunstncias.
E quando Lucy j comeu sua fatia de bolo de gengibre e ficou toda animada por causa do acar de um copo de Coca-Cola, sai correndo pelo gramado para se enroscar 
no fio da pipa e peo mil desculpas a Sam.
- Tudo bem. - Ele sacode a cabea e bebe o ch. - Acho que foi meio que um choque para voc.
- Fiquei mal porque voc soube da minha me e do seu pai antes de mim. - Olho para as migalhas no meu prato. - E a Shana tambm. E ela nem  da famlia. Bom, pelo 
menos no por enquanto.
- No. - Sam perde o olhar a distncia, observando Lucy em um borro de purpurina e luz piscante.
- E ento? - digo, j que no acho nada melhor para falar.
- E ento?
- Ento, vocs j pensaram na data?
- Que data? - Ele parece confuso. - Ns quem?
- Para o seu casamento, dh. Ou ser que voc esqueceu?
- Credo. - Coloca na boca mais torta de banana. - Estou to preocupado com a empresa no momento que nem posso pensar nisto. Vou fazer a inaugurao de um restaurante 
novo no Distrito Financeiro na semana que vem.  um evento de alto nvel.
- Que timo, Sam. - Fico feliz.
- Ento, acho - termina de tomar o ch - que devamos falar do seu casamento. Voc no acha? Quer dizer, voc vai se casar muito antes de mim.
- Parece que sim - reconheo, observando quando duas garotas, de pernas compridas e casaquinhos justos, ficam olhando para Sam. - Mas  o maior tdio. Quer dizer, 
no  de verdade, no  mesmo? No tem paixo nem romance nem nada.
- Achei que voc no acreditava em toda essa bobagem. - Sam mexe no meu cabelo.
- No acredito.  por isso que meu casamento vai ser de mentira.
- Sua louca. - Ele sorri, bem quando uma voz de indignao vem de algum lugar a distncia.
- Tio Sam!
- L vamos ns - suspira ele. - Chegou a hora obrigatria do parquinho. Voc vem comigo?
- Acho que vou comer mais um pouco de bolo, obrigada.
- Tpico - rosna, correndo para ajudar Lucy a desvencilhar a pipa de um banco prximo. Um cachorro de algum modo se envolveu na confuso e eu quase engasgo com o 
bolo enquanto assisto Sam se enrolar todo na linha, o cachorro latindo no p lide e Lucy gritando de tanta alegria. Particularmente, acho que criaturas detestveis 
como aquela deviam ser proibidas, mas da fica claro que a dona est sentada na mesa ao lado. Piscando para mim, a senhora ajeita o chapu de abas e assobia para 
o cachorro, que vem trotando obedientemente e enfia o focinho no meu quadril. Sou obrigada a dar tapinhas afetuosos na cabea dele e finjo que acho uma graa, e 
ento ela pisca de novo
para mim e faz um gesto com a cabea na direo de Sam e Lucy.
- Ela gosta do pai, no  mesmo?
- Quem? - ergo os olhos rapidamente.
- Sua filhinha.
- Ah, no. - Dou risada. - Ele no , quer dizer, ela no  nossa filha. Est emprestada para ns.
- A-ha. - A mulher pisca de novo. - Esto treinando, ?
Nem fodendo. Ainda assim, o fato de a senhora do cachorro ter achado que eu e Sam estvamos juntos me deixa imensamente contente por alguma razo ridcula. E a idia 
de filhos e bebs me faz pensar em Janice, que provavelmente est sozinha em casa tricotando sapatinhos. Ou bebendo gim e danando, se eu bem a conheo. Ento, depois 
de mais uma hora de malabarismos com pipas, dou uma passada no apartamento de Janice. Ela parece deliciada ao me ver, porque interrompi um trabalho que da estava 
fazendo para uma marca nova de drinque gasoso.
- Como voc se deu ao trabalho de vir at aqui, seria muita falta de educao mand-la embora, no seria? - Sorri, acariciando a barriga.
- Muita falta de educao.
Jogo-me sobre seu sof imaculado e imediatamente amasso as almofadas de veludo. Janice faz aquela cara de "o que eu vou fazer com voc" para mim e decreta que precisamos 
fazer compras.
- Para qu?
- Para as frias. - Ela se levanta. - Para isto. Vamos l. Voc precisa de um mai novo. No quer que o Sam ache que voc est passada, no ?
- Por que  que eu me importaria com o que o Sam pensa?
- Ah, vamos l. Voc me parece rosadinha demais para algum que passou o dia inteiro com uma criancinha.
- Est ventando.
- E voc est meio derretida.
- No estou.
- Est. Est escrito na sua testa. Agora vamos l. Vamos s compras.
A teoria de Janice  a seguinte: se ela vai se parecer com um ovo poch com torrada nas frias, ento pelo menos vai precisar de uns acessrios de luxo. Pessoalmente, 
ainda nem consigo ver a barriga, mas quando examinamos cabides e cabides de roupas, ela parece to feliz quanto um porquinho na lama.
- Era exatamente disto que estvamos precisando. - Ela examina uma arara de vestidos da Kookai. - Compras sempre fazem com que eu me sinta melhor.
- Qual  o seu problema, ento? Achei que voc j tinha aceitado a idia do beb.
- Aceitei. Mais ou menos. Mas ainda preciso contar para a minha me que ela vai ser av. Estou morrendo de medo.
- Voc acha que ela vai ficar brava?
- Credo, no. - Ela sacode a cabea. - Exatamente o contrrio. Ela vai ficar nas nuvens, porra. Estou morrendo de medo das roupas que ela vai comprar para o pirralho. 
Provavelmente um daqueles chapus de pelcia horrorosos, com orelhinhas. Por que algumas pessoas vestem os filhos igual a cachorros ou ursos e acham fofo, Katie?
- Sei l.
- E ela vai insistir para que a criana a chame de alguma coisa bem brega.
- E da?
- Que porra. - Solta a gola alta cor-de-rosa que est examinando e d de ombros. - Nada disto vai servir em mim daqui a alguns meses. Mas s porque eu vou parecer 
uma astronauta nas fotos das frias, no significa que voc tem que ficar igual. Voc no quer aparecer em todas elas sentada em uma espreguiadeira, com a pele 
queimada, coberta de suor e um chapelo, quer? Voc precisa de um guarda-roupa inteiramente
novo, Um biquni diferente para cada dia.
- Voc no est parecendo uma astronauta. E s vamos ficar um fim de semana l - observo. - Mas voc tambm precisa de roupas novas - digo. - Para o futuro. Voc 
vai engordar sem parar, no esquea.
- Vou mesmo, no ? - diz meio tristonha, olhando para os peitos, que em breve vo se parecer com duas bias nuticas.
Vou ficar a maior gordalhona. No ia conseguir ficar mais gorda nem que tentasse.
- Quando  que o seu umbigo vai sair para fora? - fico curiosa.
- No tenho certeza. - Ela sorri. - Estou ansiosa para chegar nesta parte. Os caras ficam aterrorizados.
- Voc no vai encher o seu armrio com aquelas roupas horrorosas que tm bolsas enormes, parecidas com cangurus, na frente, para segurar a barriga gigantesca, vai? 
- pergunto.
- Credo, no. Vou andar de biquni e deixar tudo solto. Igual  Madonna. E a Posh Spice. E no vou me largar completamente. Enquanto estivermos na Espanha, vou nadar 
o tempo todo. E s vou comer salada.
- Eu no - digo. - Vou ficar na maior preguia comendo s coisas engordativas. Tomar chope no caf da manh, pia colada no almoo e comer tudo com batatinha. Mal 
posso esperar.
E estou mesmo ansiosa pela viagem, engraado, apesar de ainda estar surpresa por George ter resolvido economizar nas frias. Geralmente, pacote para ele  algo que 
se compra na seo de alimentos da Harrods, cheio de pedaos de carne de rena defumada e fatias de salmo selvagem.
Ser que ele no sabe que vos fretados s tm uma classe? 
Se  que d para chamar aquilo de classe.
Como  que ele vai agentar?
Infelizmente, as compras no fazem com que eu me sinta feliz por muito tempo. Quando chego em casa, George e David saram e deixaram um bilhete avisando que foram 
ver um filme, e eu de repente me sinto solitria e aterrorizada por causa do casamento. No momento, estou dormindo em um quarto cheio de calas do David, para o 
caso de o Departamento de Imigrao resolver fazer uma visita-surpresa s sete da manh e no nos pegar desprevenidos, e no estou tendo certeza se estou fazendo 
a coisa certa, ao concordar com esta loucura.
S que vi George e David juntos. E, apesar de serem afetados por natureza, sei que se amam enormemente. Ento, no posso dar para trs agora, no  mesmo? No sem 
mandar David direto de volta para a Austrlia e acabar com a vida de duas pessoas ao mesmo tempo. Mas, apesar de os meus planos de me casar com David no serem exatamente 
convencionais, pelo menos vou deixar os dois felizes. Ento, quando a irm de Sam, Sally, e eu nos encontrarmos para tomar um caf e planejar a recepo do casamento 
de minha me e Jeff, e ela perguntar se eu tenho certeza de que no vou me arrepender, poderei dizer com certeza absoluta que sei que estou fazendo a coisa certa.
- No se preocupe por minha causa, Sal. No preciso retomar razo. J vi como as coisas so. E so chatas, chatas, chatas.
- Sabe, no estou falando s por falar - franze o cenho. -  para o seu prprio bem.
Particularmente, duvido muito. Quando algum diz que alguma coisa  para o seu prprio bem, pode saber que  alguma coisa to agradvel quanto irrigao do clon.
- Para ser honesta, Sal - explico -, essa coisa toda de amor e casamento no cola comigo. Pela minha experincia, os caras s servem para transar, largar e nada 
mais.



O dia de nossa partida se aproxima e resolvo no me dar ao trabalho de dizer nem a Nick nem a Jake que vou passar o fim de semana na ensolarada Espanha (bom, mais 
ou menos na Espanha). Eles que descubram sozinhos. Janice vem at a casa de George para checar a minha mala.
- Ol, ol - ela canta, irrompendo porta adentro sobre saltos com os quais daria para pescar salmo, com um casaquinho cor-de-rosa minsculo e um short branco de 
algodo imaculado.
- Olhe s para isto aqui. - E mostra um trapo amarelo-limo minsculo. -  o meu biquni novo. E olha s este tubinho prateado. Quer dizer, posso at ter um pozinho 
no forno, mas minha bunda ainda no foi tomada pela celulite, de modo que posso exibi-Ia ainda mais uma vez antes que parea feita de cachos de uva. a que voc acha?
- Ah, Janice. - Sacudo a cabea, fingindo morrer de pena dela.
- O qu?
- Nada. - Dou um abrao nela. - Voc sabe que eu amo voc do fundo do corao.
- Eu tambm, querida. - Ela tambm me abraa. - Ento vamos l. Mostre o seu biquni.
- Aqui est. - Seguro um mai bem grando. Praticamente de gola alta,  a nica coisa que me aventuro a usar na praia. Quer dizer, a no ser uma armadura completa.
- Que porra  essa? - ela estrila.
- Qualquer outra coisa me deixava com cara de membro do Pernas e Companhia - explico.
- Mas essa , tipo, a inteno. - Ela sorri. - Sua louca. Ainda acho que voc devia ter comprado aquele azul-clarinho com uns pompons nos seios. Voc ficou linda 
com ele.
Dou de ombros.
- No sei por que a minha aparncia faz alguma diferena. Tenho certeza absoluta de que o meu noivo  uma bicha escandalosa. Vai precisar muito mais do que um trapo 
de lycra e alguns daiquiris de banana para fazer com que ele entre na minha.
Ela ri.
-  verdade.
- E acredite - no consigo segurar o riso -, eu j tentei.
Janice joga a cabea para trs e d uma gargalhada.
- Mas no  exatamente sexy, no  mesmo? - ela reclama quando se recupera do ataque de riso. - O seu mai, quero dizer, no o seu noivo. Que , alis, muito, muito 
sexy.
- Muito - concordo.
-  o tipo de coisa que a gente v mulheres de meia-idade usando na piscina. Aquelas que usam touca de borracha com florzinhas e ficam com a cabea para fora da 
gua para no borra, a sombra.
- Tanto faz.
- Voc comprou protetor 50?
- Peguei um cinco. - Olho para o frasco. - Ser que basta?
- Katie, voc sabe que no pode se queimar - ela me recrimina. - E sardas saram de moda faz tempo. Li na Marie Claire.
Voc quer mesmo aparecer no seu casamento com cara de ligar os pontinhos?
- Compro um bloqueador no aeroporto.
- E voc est levando uns livros vagabundos para a praia? - pergunta ela. - Eu peguei Appassionata da Jilly Cooper e o novo da Penny Vincenzi.
- Estou levando Me pega por trs, da Fawn Starr, e Me come at eu ficar vermelha, da Regina De Vine.
- Srio?
- No.
- Ento, o que voc vai levar?
- O bandolim de Corelli e Memrias de uma gueixa - respondo.
- Eu disse "porcaria" - reclama ela. - Voc est precisando de umas boas compras de uma coisa bem ruim, do tamanho de um tijolo. Vou emprestar um para voc. Agora, 
vamos conferir o resto logo. Toalha de praia?
Pego uma coisa puda, laranja e roxa, que usava na aula de natao da escola. Uma etiqueta com o meu nome ainda est costurada na barra.
- Hmm. Certo. Repelente de mosquito?
- A gente precisa  de repelente de plebe. - George aparece da sala com trs copos enormes de sex on the beach e um suco de laranja para Janice. - Meu Deus, se algum 
inventasse um spray de bolso para manter longe meias brancas e espinhas, j estaria podre de rico.
Enxugamos os coquetis para entrar no clima de frias e entramos em um txi em direo a Gatwiclc. O aeroporto est cheio de famlias, todas ansiosas para passar 
algumas semanas sob o sol. George torce o nariz.
- Esse povo todo deve ter passado o ano inteiro economizando - comenta. - Quer dizer, eu tenho dinheiro para ir, voltar, dar meia-volta e ir de novo, se eu quiser.
- Que esnobe - reclamo.
- Mas  emocionante, no ? - Ele esfrega as mos de satisfao. - No agento esperar para que uma aeromoa de pele alaranjada venha nos perguntar se precisamos 
de ajuda com a bagagem.
Surpreendentemente, conseguimos achar o balco da companhia area sem percalos, ento George declara que no h como fazer o check-in antes de fumar um cigarro, 
de modo que todos ns, obedientemente, marchamos at a rea de fumantes e ficamos l esperando at ele saciar seu vcio por nicotina.
- Cad o Sam? - olho ao redor, preocupada. - Ele j devia estar aqui.
- Sei l - George d uma tragada, - Vou dizer uma coisa - ele d um sorriso devasso para David. - No vejo a hora de entrarmos no avio. Adoro quando o piloto fala: 
"Equipe de
cabine, preparar para a decolagem,"
- Por qu? - fico confusa.
- Porque eles sempre tm aquela voz maravilhosa de "vem para a cama", no  mesmo? - Ele d risada. - Faz parte do treinamento, voc no acha, aprender a falar com 
voz de seda?
- Acho que deve ser. - Reflito a respeito do assunto e concluo que ele deve ter razo. - Quer dizer, a gente nunca pega pilotos com voz esganiada, no  mesmo?
- Exatamente. - Ele assente com a cabea. - Nem com sotaque caipira. Quando foi que voc j ouviu um piloto falar tudo errado?
- Eles sempre tm aquela voz de comercial - concorda Janice.
David ri.
- Podiam ter uma carreira paralela como substitutos do cara que faz a narrao dos trailers de cinema.
- Se ele no tivesse conseguido o trabalho primeiro observo.
- Obviamente.
- E sempre so altos, morenos e lindos tambm, no so? - Janice parece animada.
- Ah, por favor, no v transar com o piloto - imploro.
- Duvido muito. - Ela cutuca a prpria barriga, que ainda no cresceu nem um pouco. - Isso aqui vai atrapalhar um pouco, voc no acha?
- Mas eu sei do que voc est falando - David diz de repente. - Acho que eles devem eliminar as loiras da seleo.
- No combinam muito com o uniforme - George observa.
- E deve ser complicado quando se trabalha para a KLM - diz Janice. - Ou para a Finn Air. No deve ter muitas morenas por l.
- Talvez precisem contratar umas loiras s para completar os quadros - resume George.
Todo mundo comea a rir. Eu caio na risada tambm, apesar de, por dentro, estar em um pnico maluco. Cad o Sam? Ele j devia estar aqui. Quer dizer, sei que est 
muito ocupado com o trabalho, E Shana deve estar furiosa com ele, por ir viajar sem ela, mas ele prometeu. A viagem no ser a mesma sem ele.
- Que se foda. - George entrega nossos passaportes para a moa simptica atrs do balco e diz a ela que, sim, foi ele mesmo que fez a mala, mas que, se tivesse 
dinheiro suficiente, bem que contrataria a porra de um criado para fazer isso para ele, Ela comea a empalidecer sob a base alaranjada.
George insiste que no d mais para ficar esperando Sam. Ele precisa passar no free shop para comprar umas coisas. Estamos escolhendo cigarros suficientes para durar 
todo o fim de semana quando meu celular toca. Como sempre, est bem escondidinho no fundo da minha bolsa.
- Droga - reviro tudo l dentro, tentando pegar o desgraado antes que pare de tocar. - Deve ser a porra da minha me ligando para me mandar tomar cuidado...
- E por que voc acha que ela no devia ligar? - George a defende.
- Bom, o que ela acha que eu vou fazer? - pergunto, ainda revirando a bolsa. - Vou me dar ao trabalho de no tomar cuidado. Vou me jogar do avio no caminho para 
l? Vou pegar malria de propsito?
- No tem malria em Tenerife - Janice observa.
- No vamos para Tenerife, sua burra -lembra George.
- Tanto faz, d no mesmo. - Ela d de ombros.
- Ou talvez ela ache que eu vou ficar com algum cara que anda com um canivete no bolso.
- No acho isso totalmente impossvel- provoca Janice. 
- V se foder. - Olho de vis para ela, e finalmente acho o telefone. - Al?
- Katie?
Merda.
Sam.
Meu corao dispara no peito s com o som da voz dele. Sacudo a cabea. Qual  o meu problema? Sam  s meu amigo. Mas e se ele estiver ligando para dizer que no 
vai conseguir ir? Acho que vou ficar deprimida demais para sobreviver ao fim de semana se o meu melhor amigo no estiver junto.
- Onde voc est? - pergunta ele.
- Estou no aeroporto - respondo. - Onde voc achou que eu estava?
- Merda. Quer dizer que a viagem  agora? Tipo hoje?
- Bom, , obviamente - respondo. - Quer dizer, no vim at aqui para ficar vendo os avies decolarem o dia inteiro. E tambm no vou fazer um documentrio de televiso 
sobre comida de avio. Estou embarcando de verdade. Daqui a mais ou menos uma hora e meia, estaremos rumando para as Canrias.
- Droga.
A linha fica muda.
- Quem era? - Janice percebe minha expresso confusa.
- O Sam.
- O que ele queria?
- S Deus sabe. - Fico olhando para o aparelho como se de contivesse todas as respostas. - Ele no disse exatamente.
- No disse que ama voc loucamente, n? - Ela sorri.
- V se foder.
Por alguma razo, ns duas achamos isto hilariante.
- Ele est a caminho?
- No sei. - Olho para o celular, deprimida.
Ao meio dia e 35, bem quando nosso avio est para ser chamado, ouvimos um anncio pelo alto-falante.
- Senhorita Katherine Simpson, favor dirigir-se ao balco de informaes da Britannia Airways imediatamente.
- Merda. - Olho para o relgio. - Vamos perder o avio.
-  melhor voc ir, querida - aconselha Janice. - Pode ser urgente.
- Deve ser a porra da sua me dizendo para voc ter cuidado - George d risada.
- Muito provvel. - Enfio o passaporte na bolsa e me desloco na direo do balco de informaes. Minha me era bem capaz de quase fazer com que eu perdesse as primeiras 
frias que tenho em quinze anos.
- Senhorita Simpson?
- Pois no?
- Telefone para a senhorita.
 a porra da minha me.
- Al?
- Senhorita Simpson?
-  Pois no?
Merda. Quantas vezes mais?
- Aqui  do check-in. Temos aqui o Senhor Freeman no balco. Ele diz que a passagem dele est com a senhorita.
- O Senhor...
- Freeman.
Ai meu Deus.
Sam.
Ele est aqui.
Ele veio.
Vamos nos divertir muito, afinal de contas.
Mas espere a. Estou com a passagem dele? Ser que eu trouxe comigo? Ah caralho, caralho. CARALHO.
Puta porra que pariu.
No est comigo.
Est sim. Aqui est.
No. Isto aqui  a nota da camiseta preta do Oasis que eu comprei. Merda.
Espera um minuto. Isso. Est aqui.
Beleeeeeeza.
- Est aqui - digo ao homem do outro lado da linha.
Sam est parado, todo vermelho, lindo, na entrada do embarque. O cabelo dele est todo desgrenhado e a camiseta est toda torta na cintura. Quando me aproximo, ouo 
nossos nomes sendo chamados para o vo.
- O que voc est fazendo aqui? - Pergunto quando ele atravessa o porto e me d um abrao. Ele est todo quente e suado. Adorvel.
- Estou saindo de frias. - Ele sorri. - O que voc acha?
- Temos dois minutos para pegar o avio. Achei que voc no vinha.
- Desculpe. Ando ocupado demais no trabalho. Confundi as datas. Sabia que tinha que estar em algum lugar hoje, mas achei que era algum restaurante. E quando cheguei 
l e me falaram que era na semana que vem, lembrei que estava saindo de frias.
- Louco.
- Voc  que  louca, Simpson. - Agarra a minha mo e samos correndo.
Quando embarcamos, bem em cima da hora, de repente me sinto ridiculamente feliz. Meu melhor amigo est aqui. Por alguma razo insana, neste momento to maluco e 
confuso da minha vida, este simples fato significa o mundo para mim.







VINTE E UM








Eu me ajeito em meu minsculo assento de avio e digo a Sam que, agora que ele se lembrou de participar do meu fim de semana de solteira, talvez possa tentar no 
ficar paquerando as aeromoas que passam empurrando os carrinhos de produtos de free shop.
- Vai ser urna desgraa se alguma delas ficar toda distrada e soltar o freio do carrinho sem querer. No queremos que todos os perfumes e cigarros terminem no banheiro.
George e David caem na risada, mas Sam nem est ouvindo. Est ocupado demais olhando pela janela, para conferir se as asas esto na posio correta. E est da cor 
de guacamole.
- Qual  o problema?
- Voc sabe que os avies s vezes passam s a cem metros um do outro? - Ele parece preocupado. - E os passageiros nem so avisados?
- Quase nunca. - Dou tapinhas no joelho dele, lembrando-me de que ele simplesmente morre de medo de andar de avio. Quando viaja a negcios, precisa tornar calmantes. 
Mas est agentando. Por mim.
Abenoado seja.
- O que foi esse barulho?
-  o trem de aterrissagem sendo recolhido, seu trouxa. - Dou risada. - Voc tem tanto medo assim?
- Tenho. - Ele me d urna olhada plida. - No vou nem conseguir comer minha comida quando trouxerem.
- ?
- . Mas no fique achando que vou dar para voc. Vai continuar na embalagem.
Ainda se cagando de medo, Sam apia a cabea no meu ombro. Sinto o cheiro do cabelo dele e me seguro para no lamblo nem ench-lo de beijos, enquanto o resto do 
nosso grupo pega doces e revistas e se prepara para o vo de quatro horas.
- Isto aqui vai ser um horror - grunhe Sam.
- No se preocupe. Vamos nos divertir quando chegarmos l.
-  verdade.
- Desde que voc no estrague tudo nos obrigando a fazer um monte de exerccio. - Eu meio que gosto da maneira como o medo faz com que ele busque aconchego em mim. 
- O nico esporte que praticarei neste fim de semana  levantamento de copo.
- Ou transar com um garom grego. - Janice ergue os olhos da Marie Claire.
- Estamos indo para as Canrias - observa George.
- E da?
- E da que l as pessoas so to gregas quanto voc, sua retardada - solta ele. - L se fala espanhol.
- Tanto faz.
Recosto na cadeira e aproveito o vo, feliz com a proximidade de Sam. Devo ser eu, mas sinto que h urna correntezinha eltrica entre ns, crepitando no ar. Ele 
tem tanto pavor de acidente de avio que eu me aproveito, puxando-o para mais perto pensando em todas as coisas que gostaria de fazer com ele.
Credo. Ainda bem que eu no sou homem. Se no, estaria com o pau bem duro agora.
Na verdade, nunca entendi muito bem por que as pessoas tm medo de avio. Eu adoro todos os aspectos de voar, desde a sensao de importncia que tenho quando me 
perguntam se fui eu mesma quem fez a mala at o batom cor de laranja especial que as aeromoas usam.
Afinal, as pessoas no mundo real nunca usam aquela cor, no  mesmo?
Adoro at a comida de plstico que servem. Na verdade, o nico momento em que fico apreensiva  quando o carrinho passa pelo corredor. Porque fico apavorada com 
a idia de que podem se esquecer de mim. Como  que todo mundo consegue ficar to calmo, s abre a bandejinha e fica lendo at o ltimo minuto? Eu sou bem diferente, 
fico agitada, ansiosa, viro a cabea de um lado para o outro assim que sinto aquele cheiro to familiar de cantina de colgio.
- Posso comer os seus pretze1s se voc no quiser?
Sam me entrega o pacote em silncio.
- No sei por que voc perde tempo olhando esse folheto de segurana - George se intromete.
- George - aviso.
- Bom - comea ele, petulante -, voc sabe o que a Fran diz.
- Quem  Fran? - Sam parece preocupado.
- Fran, o Trans - George responde. - Voc conhece.
- Ah. Sei.
Fran  a nica mulher que eu conheo com plos encravados no rosto e um pomo de Ado saliente demais. Ainda assim, ela conseguiu arranjar um emprego de empurradora 
de carrinho antes que a empresa area em questo certo dia a descobrisse com um saco de cigarros roubados e um pnis.
Para falar a verdade, quando ficaram sabendo do pnis, mostraram-se dispostos a mant-la, j que tinha a altura exigida e no cuspia na comida dos passageiros chatos. 
Mas ela se recusou a pegar leve na maquiagem e usar calas em vez de saia, de modo que a demitiram.
E ela foi embora.
- O que  que Fran, o Trans, diz?
Sam parece aterrorizado.
- Bom...
- George, no - digo.
Tarde demais.
- Quando estavam em treinamento... - continua George, ferino. - Bom, disseram que aquele teatro todo com as mscaras de oxignio e as sadas de emergncia e os coletes 
salva-vidas so uma bobagem completa para deixar os passageiros  vontade. Porque, basicamente...
- Prossiga.
- Basicamente, via de regra, se voc estiver a nove mil metros de altitude sobre o Atlntico e as duas turbinas pararem, fodeu.



Apesar dos medos de Sam, aterrissamos em segurana no aeroporto de Fuerteventura, onde somos recebidos por uma loira oxigenada com uma camiseta de uniforme da Frias 
de Alta Classe. A cor dela  brilhante, de tangerina, e as panturrilhas so musculosas. Os ps esto enfiados em escarpins de plstico azul-marinho.
Ela sorri.
- Bem-vindos s suas Frias de Alta Classe. - S que ela no diz bem "alta", porque seu sotaque a impede de pronunciar o L adequadamente. Janice e eu seguramos a 
risada enquanto ela nos conduz at um nibus que parece estar de p graas a pedaos de barbante e em seguida vamos chacoalhando para l e para c por quilmetros 
e quilmetros de terreno rido coberto de arbustos ressecados at que chegamos ao nosso "resort".
Se eu estava esperando ficar rodeada por gente bonita e alegre, pronta para aproveitar o Sol, o Mar, a Areia e quem sabe um pouquinho de Sexo, parece que cometi 
um erro muito triste. A julgar pelo estado dos nossos companheiros de viagem, parece que, em meados de agosto, o que rola so Crianas Remelentas, Sovacos Suados 
e Chinelos. Ainda assim, reprimo uma sombra de decepo e me foro a manter o otimismo.
Isto , at que paramos no lugar em que devemos descer.
Nosso resort  conhecido como "Osis", que  o nome mais inadequado que eu j vi na vida. Talvez "Pocilga" fosse mais apropriado. Ou ento "Cortio". O lugar se 
parece com um enorme shopping center de concreto, dominado por salas de bingo, mquinas de frutas e o tipo de restaurante que eu costumo associar a ovo, batata frita, 
ch fraco, bitucas de cigarro e estaes de nibus do interior. E s quando somos conduzidos li
nosso quarto  que de repente me lembro da importncia de ler entre as linhas dos folhetos de turismo.  absolutamente vital tomar cuidado com as seguintes frases 
enganadoras e seu verdadeiro significado.
"Muito animado, com agito at de madrugada", na verdade significa: "Bem perto da pista do aeroporto, com avies pousando e decolando a porra da noite inteira."
"Prximo a lojas e servios de convenincia" mais provavelmente quer dizer: "Fossa sptica bem embaixo da sua sacada."
E sacada, claro,  um eufemismo para descrever um parapeito de janela metido a besta.
E pode-se ler "Boa amostra da flora e da fauna local" como "Fungos e mofo esverdeado no banheiro e cozinha cheia de varejeiras, todas atradas pelas delcias gastronmicas 
da fossa sptica local".
Ah, e tem sempre a frase de efeito de praxe: "A maior parte dos resorts que aparecem neste folheto ficam muito prximos de praias espetaculares."
O que, pode ter certeza, significa: "Menos o seu."
Metade do nosso bloco de apartamentos est coberta de andaimes e a vista da janela d para uma pilha de lixo.
Vamos encarar. Est bem longe de ser um osis. E  to extico quanto um bairro suburbano qualquer.
Algo me diz que este fim de semana vai vir recheado de linguagem pesada desde o incio. Bom, pelo menos foi George quem pagou tudo. De modo que eu no devia estar 
nem um pouco preocupada sobre o lugar onde estamos.
 isso a. Foda-se. Vai fazer o maior calor escaldante.
E isso j basta para mim.
 claro que uma ruiva como eu no devia ficar no sol. No faz bem, no  mesmo? Mas eu simplesmente adoro ir l, ficar cinco minutos no sol, suspirar e dizer: "Ah, 
est quente demais aqui. Vou ter que dar uma entradinha na piscina e depois vou para a sombra, tomar uma cerveja e comer uma batatinha."
Afinal,  para isso que o descanso serve.
Sinto-me bem melhor depois que encontramos um lugarzinho bacana para jantar.
Mas  difcil manter o otimismo quando o cheiro de esgoto  to forte que se faz necessrio deixar todas as janelas bem fechadas. E, quando chega a hora de dividir 
os quartos, fico horrorizada ao descobrir que vou ter que dormir com Sam. Como  que eu vou me segurar e no tentar ver o pau dele toda vez que ele sair do chuveiro?
Droga de Janice. Ela insistiu muito para ficar com o quarto de solteiro. Parece que no anda dormindo muito bem. A idia de que logo logo ela vai estar a maior gordona 
est lhe tirando o sono. E no quer impedir que ningum mais durma. Pessoalmente, acho que no h nada de errado com o padro de sono dela. Ela s no quer dividir 
nada.
Depois de darmos uma passada no quarto, nos reunimos na sacada-parapeito para mandar goela abaixo o champanhe que George comprou no aeroporto. E,  medida que vamos 
ficando soltinhos com as bolhas, declaramos que a atmosfera est mais para a Primeira Residncia Suburbana de um Casal Pobre do que para Vila Espanhola. E no  
totalmente piada quando Sam diz que aposta cinco mil pesetas comigo como o som de cigarras que ouvimos  gravado e tocado sem parar por alto-falantes escondidos 
ao longo do caminho no jardim.
O encontro de boas-vindas no ajuda muito para aumentar nossas expectativas. Dee (a representante da empresa com pele alaranjada) nos recebe mais uma vez a nossas 
Frias Da Porra com uma bandeja cheia de copos de plstico com sangria de ontem e aperta a mo de cada um de ns.
Seria minha imaginao ou parece que ela est nos dando os psames?
Ela prossegue e nos avisa para no beber gua da torneira porque, apesar de no fazer mal,  cheia de minerais e tem gosto de ovo podre. Tambm avisa que algumas 
das praias prximas esto cheias de naturalistas, mas eu acho que ela quer dizer naturistas. E da explica que o resort quase no tem verde e parece mais rido do 
que a Elizabeth I porque as ilhas Canrias s recebem quinze centmetros de chuva por ano. Para nossa sorte, a maior parte disso est prevista para os prximos dias.
Enquanto vamos absorvendo essa notcia, ela nos informa, toda alegre, que este resort em particular fica a quilmetros de distncia de qualquer coisa e que no h 
quase nada a fazer por ali, especialmente quando chove, e que seria muito sensato gastar uma pequena fortuna para se juntar a grupos de famlias barulhentas com 
roupas de praia escandalosas em alguns dos passeios que a empresa organiza a locais no muito
interessantes.
- Alguma dvida? - pergunta ela, afinal.
- Sim - berra George. - Voc acha que seria muita falta de educao da minha parte pedir para voc parar de falar agora?
- Isso  piada? - algum pergunta, tentando ajudar.
- A gente ganha Prozac de graa? - pergunta Janice.
- O que voc acha de reformular a descrio desta viagem no folheto? - pergunta George.
- Como assim, reformular? - Dee est confusa.
- Mudar para Uma Viagem ao Inferno.
Como se revela mais tarde, isso no  mentira. No somos vtimas inocentes de um programa de pegadinhas. E, quando samos caminhando a passos incertos para explorar 
os arredores, logo percebemos que "inferno"  uma descrio bastante exata do lugar em que nos encontramos. O resort fica em uma zona desprovida de prazer. Bem do 
lado do nosso complexo de apartamentos, h uma obra do tamanho de um pas pequeno. E no temos capacetes. Dou um pulo quando um cano enferrujado, amarrado em uma 
toalha, d um rasante sobre a nossa cabea. Janice chora quando tropea com seus sapatos Jimmy Choo na cabea de uma boneca abandonada, com os olhos afundados para 
dentro do crnio sem cabelos e a bunda retorcida em um ngulo muito desajeitado.
- Desculpem - guincha. - So os hormnios.
- Tudo bem. - Todos nos apressamos a reconfort-la.
Ainda assim, considero aquilo um mau pressgio.
Os nicos lugares para comer so restaurantes chineses vagabundos e bares esportivos, e tudo vem com batata frita e ervilhas molengas. Quando chega o fim do dia, 
ainda no
conseguimos ver nenhuma verdura fresca e nenhum espanhol, e estou morrendo de fome, tanto que comi um pacote inteiro de anticido.
O bar do resort no  muito melhor. Cheio de famlias barulhentas, nem preciso pedir desculpas por ter achado que ia ter um show do Westlife ali.
- Vamos tentar nos divertir. - Sam coloca sua mo protetora no meio das minhas costas e tento ignorar o arrepio delicioso que sobe pela minha coluna. Meu Deus. Preciso 
me segurar. - Este aqui  o fim de semana de solteira da Katie - ele lembra a todo mundo. - Ela merece se divertir, pensando em tudo que vai ter de abrir mo por 
voc, George.
- Tudo bem - responde George, amuado.
- Obrigado, Katie - David se apressa. - Voc sabe que ns somos muito agradecidos, no sabe?
- Eu sei - respondo. - E, por mim, tudo bem. Mesmo.
E tudo bem mesmo. Apesar de,  claro, eu tambm estar me cagando toda de medo.
Sam vai para o bar.
- San Miguel para todo mundo, por favor - pede, com firmeza. At mesmo Janice  obrigada a dar um golinho para superar a decepo de se encontrar em um recinto de 
compras e no em um paraso tropical.
- S servimos cerveja inglesa aqui - informa o barman, todo orgulhoso. - Vocs podem tomar Heineken, Stripe ou Stella.
- Stella no ... - comeo, mas George me manda ficar quieta.
- Esquece - solta. - A idia dela de ir para o continente  mudar de marca de cigarro.
Passamos a noite bebendo cerveja e jogando baralho at que Janice esfrega as prprias costas e diz que est cansada. Ento todos a acompanhamos at o apartamento, 
para que ela chegue at l a salvo. Afinal, George observa, isto aqui pode ser um resort de frias, mas provavelmente  to perigoso quanto qualquer gueto de Londres.
E ento todos enchemos a cara.
Sam fica estranhamente quieto enquanto David e George fazem aparecer garrafas de licor de melo e champanhe e introduzem brincadeiras de beber na equao. Quando 
vamos para o nosso quarto, Sam aparece com duas vodcas em miniatura, entrega uma para mim e faz um gesto para que eu me sente na cama, ao lado dele.
- Devo uma desculpa a voc, Simpson.
- Por qu?
_ Pela Shana. - Abre uma garrafa de gua tnica.
- O que tem a Shana?
Ele suspira.
- No vai ter casamento nenhum.
Uma onda de esperana enche meu peito. Tento reprimi-la, dizendo a mim mesma que  bvio que no  por minha causa. Deve ter outra razo para o cancelamento do casamento.
- Por qu? - gaguejo.
Sam respira fundo, vira a vodca em um gole e comea a contar.
Parece que, logo antes de eu chegar  casa dele para preparar a comida da festa de aniversrio, Shana soltou uma bomba. Ela disse a Sam que estava grvida. Que j 
estava desconfiando havia um tempo mas ento teve certeza. Uma amiga dela, mdica, tinha feito um teste, e tinha dado positivo. E era dele.
- O que eu podia fazer? - disse, franzindo o rosto. - No podia abandon-la, podia? Seria errado. Apesar de eu no querer exatamente um filho. No com ela.
- ?
- Eu sabia que entre ns nunca haveria nada srio, mas achei que, bom, se no posso ficar com a mulher que amo, vou ficar com a que me ama. 
- Ah.
Ele parece to adoravelmente confuso que  a nica coisa que consigo fazer para no perguntar: "Ento, quem  a mulher que voc ama?" Mas consigo me conter. Porque 
todas as fibras do meu corpo esto gritando: "Tomara que seja eu", e sei que no pode ser. Provavelmente  a Cindy Crawford. De modo que no digo nada.
- E ento papai e a Mary anunciaram que iam se casar, o que  verdade, eu soube antes de voc, e sinto muito por no ter lhe contado, mas achei que eles  que deviam 
dar a notcia - gagueja ele -, e da ela vem e fala que a gente tambm vai casar, bom, eu fiquei mais surpreso do que qualquer outra pessoa. - Ele franze a testa. 
- Mas eu no podia humilh-la em pblico, podia? Como  que eu ia dizer que no fazia a mnima idia a respeito daquilo? No com ela tendo um filho meu e tudo o 
mais. Precisei ficar do lado dela. Ento, s fui na dela.
Sinto uma enorme onda de afeio por ele. Ele  to racional.
- Ento, por que voc mudou de idia? - digo. - O que aconteceu?
- Ela inventou tudo - revela ele.
- O qu? Inventou que queria casar com voc?
- No. - Ele sacode a cabea. - O beb. No tinha beb nenhum. Nunca teve. Ela s queria casar, por isso disse que estava grvida.
- No acredito.
- Acredite.
- Como foi que voc descobriu?
- Por acaso, alguns dias depois, mencionei a histria toda  amiga mdica dela. E ela disse que, apesar de as consultas mdicas serem confidenciais, ela achava melhor 
eu saber que Shana no tinha feito nenhuma consulta com ela. No fazia idia de beb nenhum. Ficou to abismada quanto eu. Ento, confrontei a Shana. E ela confessou.
- Ela chorou? - pergunto.
- Chorou.
-Bom.
- Ah, Simpson. - Sam de repente ergue os olhos e sorri para mim.
- O qu?
- Acabei de lembrar por que eu amo voc do fundo do corao.
"Do fundo do corao." So as palavras que fazem a diferena, no so? A diferena entre "Eu amo voc, quero passar o resto da minha vida com voc" e "Eu amo voc 
como uma boa amiga". Mas Sam me puxa na direo dele e me abraa, de qualquer
jeito, e vamos dormir, encaixadinhos como duas colheres, naquela enorme cama dupla.
Quando acordo no dia seguinte, ele no est l. Tem um bilhete em cima da mesa.
"Fui tomar caf."
Abro as cortinas toda animada, louca para um dia de banho de sol. Fico decepcionada. Est frio, cinzento e cai uma chuva contnua. No consigo evitar o sentimento 
de depresso. Os quinze centmetros de chuva que as Canrias recebem por ano obviamente esto chegando hoje. Coloco uma cala jeans e um bluso de moletom e saio 
do quarto. Sob a chuva, o resort parece ainda mais deprimente do que antes. E, sem sinal de Sam, eu me sinto vazia por dentro. No bar do resort, todos os outros 
hspedes esto assistindo a seriados na TV e comendo salgadinhos. Dou meia-volta e vou saindo, quando vejo George, tremendo  beira da piscina.
- Tudo bem?
- No - desabafa ele, a voz trmula. - Estou um tanto preocupado com a quantidade de jias douradas que tem por aqui. E olhe s para a comida inspida. Meu Deus. 
Eu faria
qualquer coisa por um tomate seco.
Dou uma olhada rpida em volta. Ele est certo. As pessoas aqui so... digamos que so diferentes. Meninas de rosto vermelho do interior que esto ali "em busca 
de encrenca", e uma mulher gorda, de uns 50 anos, com um vestido cor de laranja todo franzido e um sapatinho de plstico para combinar, com bicos pontudos, praticamente 
um tubo de silo de cereais de ponta -cabea.
- Credo - repete George. - Parece uma cidadezinha do interior em miniatura.
- Pare com isso - digo, tentando no rir. Pelo menos ele est animando um pouquinho.
-  verdade. As pessoas que esto aqui provavelmente trouxeram caixas de esterco, porque no conseguem comer merda estrangeira.
Sou poupada de ter que responder por Saro, que aparece todo arrumadinho no bar, com um enorme saco de po quentinho no brao e uma cara toda contente.
- O que voc aprontou?
- Vamos l para o quarto que eu conto. - Ele me pega pela mo. - Voc tambm, George. Tenho uma surpresa para vocs.
Com acompanhamento de po crocante com manteiga e gelia de damasco, Sam conta para todo mundo que conseguiu nos transferir para um hotel do outro lado da cidade.
- Como  o hotel? - George parece cheio de dvidas.
- Ah, fala srio - Janice, ainda com seu chambre atoalhado, olha para ele. - No pode ser pior do que este lixo.
- Faam as malas e vamos ver. - Sam sorri para mim. -  por minha conta.
- Voc est falando que pagou? - pergunto. - Ah, Sam, voc no pode...
- Posso sim. Vamos l, Simpson. - Ele me d uns tapinhas no ombro. -  o seu fim de semana. Voc est fazendo uma coisa altrusta de verdade. Merece se divertir.
- Ah, Sam. - Sorrio para ele. - Obrigada.
- Sempre que precisar - diz ele. - Agora vamos. Vamos para l.
Todo mundo se arruma em um salto. Menos eu, quer dizer. Apesar de tudo, no consigo me mexer. Fico s olhando para Sam, lindo, com um par de jeans desbotados e sem 
camisa. E tenho vontade de abra-lo. Nunca me senti assim antes. Meu estmago est se revirando como um peixe fora d' gua e no sei que diabos est acontecendo.
S sei que tem mais coisa alm de ser a fim dele.
Droga.
No posso estar apaixonada por ele.
Posso?
Por sorte, sou salva de pensar mais profundamente sobre o assunto por Janice, que de repente comea a urrar como uma criatura dos infernos.
- AimeuDeus.
- Chutou? - Corremos todos para colocar a mo na barriga dela.
- No. - Ela nos empurra para longe. - Saiam daqui.  cedo demais para isso. S que eu pensei em uma coisa. E se o beb for gordo? Uma criana horrorosa e gorda? 
Vou ter que coloc-lo de regime e ele vai ficar traumatizado a vida inteira.
- No vai ser gordo - garanto a ela.
- Voc vai gostar dele, independentemente da cara dele. No vai, Katie?
- Como  que eu vou saber, porra? - pergunto.
De repente, ele parece triste, e eu me sinto culpada. Deve estar pensando no filho que achou que ia ter h algumas semanas. Merda. Talvez ele quisesse a criana 
de verdade. Ai meu Deus. Ser que eu fiz com que ele se sentisse pior?
Por sorte, George nos distrai.
- Aaaah - grita ele de repente, correndo para a sacada. David, olha l. L est o fio-dental de oncinha. Na chuva e tudo. Passa aqui o visualizador de bofes.
David passa para George o binculo deles para que possa observar um pedao de carne masculina de primeira que se dirige para o bar.
- Que corpo, - George devolve o binculo.
- Para mim, parece meio alemo - Janice declara.
- Tem certeza? - Eu mesma pego o binculo. - Quantas espreguiadeiras ele matou?
Todos morremos de rir e ento samos correndo para fazer as malas antes que Sam mude de idia a respeito do hotel bacana. Nenhum de ns quer ficar ali nem mais um 
minuto. O bingo ao lado da piscina est prestes a comear, e isso pode fazer com que George tenha um ataque. Quando estamos prontos, vamos procurar Dee. Est sentada 
em um canto do bar obscuro com um copo de chope na frente.
- Bebendo no trabalho? - pergunto. Tenho um pouco de pena dela. Estamos fugindo. Imagine como  ter que morar aqui.
No d nem para pensar.
- Estamos indo embora - digo, tentando ser o mais educada possvel.
Ela d de ombros, olhando em volta do bar, para os outros turistas, com seus filhos que no param de gritar, seus roupes e suas sandlias plataforma com salto de 
corda. Ela no nos culpa, diz. Vai dar o fora assim que acabar o contrato. S est cobrindo uma licena-maternidade. A menina que fazia este servio antes dela ficou 
grvida de um morador local h seis meses e voltou para casa para dar  luz em um hospital decente.
- Mas no faz mal, o lugar em que eu estava antes era muito pior. Estava em Zkinthos, sabe - explica ela. - L no existe comida inglesa decente de jeito nenhum, 
nem que voc pague os olhos da cara. S tinha salada e aquele monte de merda grega. Aqui, pelo menos a gente no precisa nem passar perto de uma paella se no estiver 
a fim. E fazem um omelete com batata frita delicioso no hotel ali mais para baixo. E os caras locais no vm bater na porta de trs toda vez que a gente vai para 
a cama com eles.
- Ela est falando de dar o eu. - George, que aparece atrs de mim com nossas malas, pega s o finzinho do que ela est falando. - De pegar por trs e...
- Certo, muito obrigada, George, eu sei do que ela est falando - digo rapidamente. - Acho que esse tipo de informao no vai servir para mim, na verdade - declaro 
a Dee. -J vi alguns dos locais e acho que no vou oferecer nenhum dos meus orifcios para nenhum deles. Mas obrigada pela dica.
Pegamos txis e vamos para o outro hotel. George e David vo com Sam, e Janice e eu os seguimos com todas as malas. Janice d uns tapinhas afetuosos no meu joelho.
- Tudo bem com voc? - pergunto a ela.
- Mmmm. Estou cansada - responde ela. - Ento, Katie, por que voc simplesmente no conta para ele?
- Contar o que para quem?
- Para o Sam, sua tonta. Conte logo para ele, antes que seja tarde demais.
- No sinto nada por ele - minto.
- Bobagem - exclama. - J vi como voc olha para ele,
- No posso - gaguejo, - E se ele no sentir a mesma coisa?
- No seja cega. - Ela me abraa. Estou tremendo. - J vi o jeito que ele olha para voc quando ele acha que ningum est vendo. Ele faz isso h sculos. E ele vai 
pagar o hotel bacana, no vai? Com certeza voc no est achando que  por causa de mim, no ? Ou do George? Ou do David?
Dou de ombros.
- Sei l.
- Mas voc gosta mesmo dele, no ?
- Gosto - balbucio, com uma vozinha que surpreende at a mim mesma, - Acho que sim.
- Ento, conte para ele. - Ela sacode meus ombros com firmeza. - Antes que seja tarde demais. Ah, e, Katie...
- O que foi?
- O pau dele  de arrasar, falando nisso.
- Como  que voc sabe?
- Aquela Paella me contou em uma noite que enchemos a cara de Pemod. Disse que ele  um verdadeiro garanho.
Com isso, camos na gargalhada. Dois minutos depois, estacionamos na porta do hotel e quase perco o flego.
 lindo. Tem at jardim.  o primeiro verde que vejo desde que chegamos aqui. Quer dizer, sem contar com a cara de Sam quando estvamos voando. Acho que o lindo 
gramado provavelmente se deve a irrigadores e muito desperdcio de gua, mas e da?  lindo demais.
L dentro,  a mesma coisa. Cada quarto tem seu prprio banheiro, cada um deles  do tamanho de um minivestirio, cheio de pilhas de toalhas fofas e frascos enormes 
de leos de banho, loes e poes carssimas. George e David dividem um quarto, Janice tem um para si. Mais uma vez, Sam olha para mim.
- Achei que podamos dividir o quarto de novo. Se estiver tudo bem para voc.
- Claro. - Dou de ombros. - Assim voc economiza, no  mesmo? Ai! - grito quando Janice chuta a minha canela.
Naquela noite, todos ns bem mais relaxados, jantamos sob as estrelas, que afinal apareceram, depois que a chuva parou. s onze e meia, Janice vai para a cama, no 
sem antes me dar o maior chuto por baixo da mesa.  meia-noite, depois de mais dois Portos para cada um, George e David dizem que  hora de ir dormir tambm. Sobramos 
Sam e eu, sozinhos.
E no consigo falar nada. Mas preciso dizer para ele como eu me sinto. Janice tem razo. Se eu no fizer isto, pode ser tarde demais. E s tenho esta noite e a noite 
de amanh antes que voltemos para casa. E de volta a Londres, com a presso do trabalho
e daquele clima horroroso, no vai ser a mesma coisa.
Quando voltamos para o quarto, Sam me puxa pelas duas mos, me coloca de p e me d um abrao de urso.
- Gostou da surpresa?
- Amei - respondo, falando a verdade, e quase acrescentando: "S ia melhorar se eu pudesse transar com voc."
E amei mesmo. Nosso quarto tem portas francesas, que nos conduzem a nosso prprio deck, com uma Jacuzzi borbulhando a distncia e, ao lado, duas espreguiadeiras 
de madeira com um monte de toalhas brancas felpudas. Os frascos de espuma de banho ctrica e de gua de lavanda do banheiro so grtis, e no so daquele tamanhinho 
de sempre: so de litro. O mesmo se aplica s garrafas de gim e de vodca no balcozinho lateral.
Alm disso, a geladeira est lotada de chocolates belgas e de champanhe Veuve Clicquot.
Um paraso.
Eu poderia ficar super-acostumada com isto.
- Voc merece um pouco de luxo. - Ele d de ombros. - Fico feliz por voc ter gostado.
Dou um abrao nele.
- Considere isto o seu presente de casamento - ele ri.
Nos refestelamos na banheira quente durante um tempo, aproveitando o ar agradvel e bebendo a garrafa de espumante que encontramos no gelo (a etiqueta no gargalo 
diz "Felicitaes na sua lua-de-mel", mas resolvemos beb-la de qualquer maneira). Descubro que  quase impossvel ficar assim to perto dele sem dizer como eu me 
sinto. Mas no tenho coragem. E se eu tiver que enfrentar rejeio?
Mas nossas pernas j esto to prximas, quase se tocando, que  uma tortura no esticar o brao e colocar a mo na cintura dele, que j est com um bronzeado mediterrneo 
(e s Deus sabe quando ele teve tempo para isso). Ao lado dele, me sinto
mais britnica do que uma torta de midos.
Acovardo-me e no digo nada, claro, e ocupamos lados opostos da enorme cama dupla. Mas no consigo dormir.
Parece que ele tambm no.
- Como  que voc est se sentindo sobre esta histria de casamento? - pergunta ele de repente.
- Como assim?
- Bom, voc vai se casar daqui a umas semanas, e como voc e o Jake voltaram, eu achei que...
- Eu preciso ficar com algum, no preciso? - Acho graa. - E no posso ir para a cama com o meu noivo. Afinal, ele prefere as entregas pela porta dos fundos.
- Eu me ofereci para ir para a cama com voc - diz Sam. - Se  que voc se lembra.
- Ofereceu? - Eu no me lembro disso. - Quando?
- No seu aniversrio. Mas voc disse que preferia ficar com um careca dentuo.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- No era um velho de peruca?
- No.
- Estou brincando.
E estou mesmo. Mas uma idia no me sai da cabea.
Ele podia pelo menos ter a fineza de me comer agora.
Bom, no podia?
A maior parte dos caras j teria dado uma investida a esta altura. Ainda mais que a gente est viajando e tudo o mais. E est no mesmo quarto. E bebemos um monte, 
ento ele no pode estar tmido.
E alm do mais, cada fibra do meu corpo est gritando. Deve ser extremamente bvio que eu estou a fim dele.
Mas, de algum modo, a alguma altura, devemos ter desmaiado. Porque, quando acordo de manh, fico achando que no aconteceu nada. E eu no estava to bbada assim.
Durante o delicioso caf da manh com manga e melancia, que tomamos ao lado da piscina, lamento minha sina a Janice.
- S depende de voc - aconselha ela. - Voc tem que dar o primeiro passo.
- Por qu?
- Porque ele ainda acha que voc est com o Jake, lembra?
E com o Nick. Ele no pode dar o primeiro passo. No seria apropriado. Ele  educado demais.
- Ele ? - pergunto, surpresa. Pensando bem, acho que  sim. S que nunca pensei nele deste jeito. Quer dizer, estava pronto para ficar ao lado de Shana quando achou 
que a tinha engravidado, no estava? E ele nem gostava dela. Quer dizer, por acaso ele podia ser mais educado? Um cavalheiro tirado das pginas de Jane Austen, porra.
Meu Deus. Pensando bem, ele  mesmo um amorzinho.
Por que diabos estaria interessando em mim?
- Vou dizer a ele hoje  noite - afirmo.
- Muito bem. - Janice volta para sua manga e pede ao garom cebolas em conserva para acompanhar.
- Voc  podre - digo a ela.
Passo o dia todo com Sam. George e David esto tentando andar de windsurf e Janice prefere ficar largada no rasinho, chupando picol, de modo que nos esticamos ao 
lado da piscina e lemos nosso livro. E ainda assim eu me acovardo e no digo nada. Mais tarde, fico me xingando. S falta uma noite. Como  que eu vou conseguir?
Claro que no vou. Estamos na Jacuzzi, comendo um pacote de salgadinho com sabor de presunto e um copo de vinho antes de nos preparar para o jantar, quando Sam de 
repente olha para mim.
- O que foi?
- Preciso fazer uma pergunta a respeito do Jake.
- Tudo bem... - digo, cheia de cautela. Espero que este no seja o incio de um dos sermes de irmo de Sam. Porque, se for, eu vou ter que ficar um pouco emburrada, 
e isso no  exatamente uma introduo muito boa para dizer a algum que voc no o consegue tirar da cabea, no ?
- Voc gosta dele?
Sai vinho pelo meu nariz.
- Credo, no - solto em um ronco. - Acho que nem vou mais me dar ao trabalho de sair com ele quando voltarmos. Ele ficou para trs, basicamente. Acho que s transei 
com ele para me sentir melhor.
- E os outros? Tem alguma coisa sria rolando?
Caio na risada.
- Eu me livrei do Max - digo. - Ele me deixava enjoada. E o Nick tem 18 anos, pelo amor de Deus - lembro. - Quando ele assistiu O casamento de Muriel no DVD, achou 
que o Abba era alguma banda moderninha australiana que ia comear a fazer o maior sucesso. E acho que isso no nos garante muita coisa em comum, no  mesmo? Ento, 
no precisa se apressar para ir alugar o seu smoking para a cerimnia.
- Bom, mas precisa sim, no  mesmo?
- H?
- Voc vai se casar, no vai?
- O qu? Ah, merda. . Acho que vou.
Eu meio que convenientemente me esqueci das minhas npcias que esto por vir. E estaria mentindo se dissesse que no tenho dvidas. Porque estou cheia delas. Dvidas 
enormes e gigantescas. Mas no vou contar isto a Sam.
Ele s vai dizer: "Eu bem que disse."
- Pode at ser que eu v me casar - engulo em seco-, mas no estou envolvida em nenhuma relao. No com o David, no com o Max, no com o Nick, nem com o Jake nem 
com qualquer pessoa, alis. Relacionamentos so um saco. Experimentei alguns e nunca achei nenhum que chegasse aos ps de uma boa barra de chocolate.
 medida que vou dizendo estas palavras, percebo que  verdade. Eu detesto at o comeo dos relacionamentos. A parte em que o casal est em lua-de-mel. Tudo bem, 
e da que a maior parte das pessoas gosta mais desta parte?  nova e excitante, mas tambm  a mais estressante. Talvez as coisas possam ser diferentes com Sam.
Ou talvez no.
Acho que Janice concordaria comigo a respeito do estresse do incio das relaes. A espera pelos telefonemas. A agonia a respeito do que vestir para um encontro. 
O gasto com a compra de acessrios novos o tempo todo. E Janice no conseguiu nem ir ao banheiro no meio da noite para mijar nas primeiras vezes que ficou na casa 
de Jasper. No conseguiria conviver com a idia de que Jasper deixasse de gostar dela depois de ouvi-la esvaziando a bexiga em um jato na privada dele. Ento, ela 
costumava ir ao
andar de baixo e encontrar algum tipo de receptculo (com mais freqncia, um bule de ch) para mijar dentro. Da passava uma aginha e guardava de volta. E ele 
nunca percebeu. Agora morro de rir com a idia de que ele deve ter pensado que ela nunca
precisava mijar.
E cagar? Pode esquecer.
- Mas se voc estivesse em uma relao com a pessoa certa, ia ser melhor do que uma barra de chocolate - insiste Sam.
- , sei - digo, sarcstica. - Tipo a minha vida de repente ia se transformar em um chocolate gigante da Godiva s porque eu teria um namorado legal. Cai na real, 
Sam.
Sabe, eu no sou como a Janice era quando estava procurando o Podre de Rico. No quero um cara que vai me cobrir de Gucci e me levar a algum bar da moda toda noite.
Tambm no quero um que me d vinho e me leve para jantar em restaurantes to silenciosos em que d medo de comer porque os outros podem ouvir voc mastigar.
Eu s quero poder relaxar e aproveitar a vida.
Ah, e acho que quero Sam.
Mas e se eu no quiser? E se ele no me quiser? E se eu atacar e ele me rejeitar? Mas e se eu abrir meu coraozinho para ele e ele disser que se sente do mesmo 
jeito? E da eu descubro que, com Shana fora do caminho, eu de repente no quero ficar com ele, no final das contas? E da, o que acontece?
- E voc, falando nisso? - Acho justo revezar o lugar na cadeira do interrogatrio. - A Shana no era a sua barra de chocolate, era?
- Credo, no. - Ele ri. - Ela no era nem um docinho. E eu detesto docinhos. No dava nem para lev-la para jantar e me divertir. No  fcil, Katie, posso garantir, 
sempre sentir que voc est comendo sozinho porque as garotas com quem voc sai esto de regime.
- Se voc no quisesse sempre sair com garotas que se assemelham a tbuas, talvez voc pudesse encontrar uma namorada com quem se divertir. - Prefiro a abordagem 
implacvel. - Uma que goste de comer e que suje as roupas.
- At parece.
- Uma que goste de ficar na cama domingo de manh fazendo brincadeiras infantis s porque sim.
- O qu, tipo voc?  isso que voc est dizendo? - debocha.
- Bom, no exatamente como eu. - Sim, sim. Exatamente como eu. Eu peido. Na verdade,  isso mesmo, sou eu que voc quer. S eu. Vja se me escolhe.Eu adoro brincadeirinhas. 
- Quer dizer, no ruiva, de qualquer modo - completo, apressada.
Por que caralho eu fui dizer isso? Credo, estou conseguindo ferrar com tudo mesmo, no ? Claramente tenho toda a tcnica de seduo de um porquinho rechonchudo.
- Por que no? - pergunta ele. - Quem foi que disse que tinha alguma coisa errada com as ruivas?
- Elas no so metade da populao da Inglaterra?



Samos e enchemos a cara naquela noite. Mais uma vez, bebo mais do que o normal, provavelmente porque Sam est me deixando nervosa demais. Janice no pra de olhar 
para mim do outro lado da mesa, querendo que eu tome uma atitude.  uma coisa ridcula, a maneira como a presena do meu amigo mais antigo, de quem eu quase tirei 
o crebro com uma pazinha, entre outras coisas, pode fazer, de repente, com que eu destrua as cutculas dos meus polegares como se estivesse roendo ossos de costelinhas. 
E como bebi vinho, e uma ou outra cerveja, e uma vodca sabor marshmallow (ah, e mais um monte de coisa), de repente percebo que estou toda molenga.
Digo que quero ir para o quarto.
- Vou com voc. - Sam se levanta de um pulo. - Tudo bem com voc?
- Tudo. - Olho para Janice. - Voc fica bem aqui? Deixa os rapazes a levarem para casa depois?
- Claro que sim. - George ergue o copo.
Janice me faz um sinal de positivo silencioso. E, ao sairmos, a mo de Sam repousa, protetora, no meio das minhas costas, fazendo com que meu corpo todo formigue. 
Talvez ele de fato sinta a mesma coisa.
E, neste caso, esta pode ser minha chance. Pode ser minha chance.
Quando voltamos para o hotel, Sam faz com que eu sente no bid. Na nossa opinio, bids s servem mesmo para isso, no conseguimos ver qual  sua utilidade. Ento 
ele molha uma toalhinha felpuda com gua fria e passa na minha testa.
- Assim voc no vai ver o quarto girar. No quero que seu crebro fique rodando igual a uma hlice de helicptero, se depender de mim.
- Desculpe - digo quando ele me faz sentar sobre a colcha de linho engomado da cama e ajeita uma mecha de cabelo molhado atrs da minha orelha.
- Sem problema, Simpson. Peso-pena - arremata ele, para demonstrar sua educao.
- Vai se catar. - Bato nele com meu chinelo de dedo.
- Ai.
Ento eu o machuco. Um pouquinho. Mas ele devia estar mais ligado. Quer dizer, no  por acaso que eu ia vomitar no banheiro do Grmio Estudantil s para poder beber 
mais.
- Voc vai ver s uma coisa, Sam Freeman. - Caio na risada, jogando meu outro chinelo de dedo mais ou menos na direo dele.
- Vou ver o qu? - ele brinca.
- No seja folgado - debocho. Mas, de qualquer modo, estou rosadinha de tanta alegria. Pelo menos, acho que estou. No d para saber ao certo, porque, apesar de 
eu estar me vendo no espelho, enxergo tudo em dobro. Ou sero tremores?
- Tudo bem. - Pego uma garrafa de um litro de vodca. O que temos aqui? A saideira, acho.
- Simpson, tem certeza?
- Claro que tenho. - Desatarraxo a tampa e sirvo uma dose mais do que generosa para cada um. - Mande ver, garoto.
E Sam, sempre se pode contar com ele, se une a mim e bebemos metade da garrafa.
No me lembro de ter ido dormir. Mas acordo com a cala jeans pelas canelas, de modo que devo ter tentado tirar a roupa. Abro os olhos lentamente.
- Quem levou o cho embora? - reclamo, tentando sair da cama. Droga. Precisamos ir embora daqui a pouco e nem nos beijamos, imagine s se transamos. Nesta noite, 
voltamos para a glida Londres.
- No fui eu. - Sam, delicioso, usando nada alm de um short jeans desbotado e seu bronzeado, aparece com uma bandeja.
- O que  isso? - pergunto. - E por que voc est to animado hoje?
- Caf da manh - responde ele. - E voc fala quando dorme.
- Falo? - Olho para os croissants gorduchos e crocantes, os morangos frescos, o suco de laranja e o caf cheiroso arranjados na bandeja.
- Voc no devia fazer isso, sabia? - brinca ele, cutucando o meu brao. - Uma moa pode revelar vrios segredos dessa maneira.
Merda. No fiz isso. Fiz? Mas o rosto de Sam no revela nada. Dou uma mordida em um croissant e mudo de assunto.
- Seria timo se no fssemos embora hoje - suspiro. Eu j estava me acostumando com tudo isso.
- Eu tambm. - Ele d uma rodada nos canais de TV No sei por que ele se d ao trabalho. Nenhum de ns consegue entender nem uma palavra do que se diz. E s um blablabla.
De repente, percebo que preciso dizer alguma coisa. Mas no consigo. Minha lngua parece cimento fresco. E ento, repentinamente, Sam fala.
- Na noite passada, antes de voc comear a roncar - conta ele -, estvamos falando sobre...
- Hmmm?
- Voc acha que algum dia vai se casar? Com a pessoa certa, quer dizer.
- No sei, Sam. - Dou de ombros. - Eu j me magoei, voc sabe.
- Eu sei. - Ele acaricia minha bochecha e minhas entranhas quase explodem.
- E voc? - fao a mesma pergunta para ele. - Voc no quer se casar? Ficar quieto?
- Quero.
- No. _ Estou estupefata. - Claro que no. Sam Freeman? O Casanova de Clapham?
-  Balham, para falar a verdade - observa. - E por que no? Todos os meus amigos esto se casando. O Joff ficou noivo daquela moa que voc conheceu no seu aniversrio.
- Quem, a Jabba? - pergunto, sem acreditar. - Quer dizer, a Chantal?
- h-h. A gorda.
- Mas... quando... Por qu? 
- Voc acha que ele no ia querer saber dela porque ela gorda? - pergunta ele. - Nem todos ns somos superficiais, sabe como .
- Eu no... quer dizer... Eu no sabia.
- Bom,  verdade. Parece que ela d a melhor chupada que j deram nele. Ele est totalmente derretido por ela. E tambm, no o culpo. Sa com eles algumas vezes. 
Ela  superdivertida.
- Voc saiu com eles? Quando?
- Como eu disse. Algumas vezes. Ela  tima. Tem um senso de humor fantstico.
- Que bom - digo. E  verdade. Chantal  uma das poucas pessoas de quem eu gostava quando trabalhava na revista. Espero que Joff a faa feliz.
- At o George est se amarrando - completa. - E agora voc vai se casar.
- Mas  um casamento falso - lembro.
- No - Sam comea, e ento suspira. - Voc vai se casar de verdade. Quer dizer, pelo amor de Deus, Katie. Voc encara esta coisa como uma espcie de brincadeira. 
Como duas criancinhas brincando de se casar. Mas vocs vo estar legalmente casados. Isso vai afetar tudo que voc fizer pelo resto da sua vida. E voc pode se complicar 
de verdade se o Departamento de Imigrao descobrir.
- Credo, no seja to quadrado.
- Desculpe. - Sam ergue os braos, assumindo a derrota. - Bom, mas o que eu estava dizendo  que, sim, um dia eu gostaria de me casar. Com a mulher certa, quer dizer.
- No com uma galinha burra parecida com um pirulito?
- A Shana, voc quer dizer?
- Claro. - Caio na risada. - Ser que voc poderia me fazer um favor? Da prxima vez, saia com algum normal. Algum que goste de comer torta.
Ah, pronto! L vou eu, preenchendo todos os critrios mais uma vez.
Ele ri.
- Tudo bem, vou tentar. Preciso sair com algum do meu tipo para variar.
- Bom, qual  o seu tipo?
- Qual  o seu?
- Bom - respondo com cuidado -, acho que, se a pessoa certa aparecesse, eu teria que reconsiderar minha opinio a respeito das relaes. Mas ia ter que ser mesmo 
O Cara Certo, O Cara Mais ou Menos pode ir se foder. At mesmo O Cara Quase Certo pode cair fora rapidinho. A vida  curta demais.
- Como  que voc sabe que ainda no conhece esse cara? E como  que ele seria, O Cara Certo?
- Bom - digo pensativa, pegando um bombom do pacote que ele de repente tirou da bolsa -, ele ia ter que me fazer rir, obviamente. s vezes at eu mijar nas calas 
de tanto gargalhar. E ele no poderia ficar chocado se isso acontecesse. Ele s ia l limpar.
- Est certo. - Sam parece estar se divertindo muito. - Algo mais?
- Ele tinha que gostar de tomar banho de banheira comigo, em vez de ficar falando que eu sempre atrapalhava, como Jake sempre fazia. E ia ter sempre que ficar do 
lado da torneira.
- h-h.
- E ia ter que deixar eu sentar no primeiro banco do andar de cima do nibus sem me chamar de crianona.
- O que mais?
- E ia ter que deixar eu comer bala de goma no banho. E ia sempre comer os bombons de laranja, mesmo que eu j tivesse dado uma mordida. Porque nunca d para saber, 
no  mesmo? Entre os de laranja e os de malte, quer dizer? Sabe, os de laranja me deixam enjoada. Tipo, enjoada de verdade. E ele ia ter que me servir rosbife com 
batatinha e mostarda de caf da manh no Dia dos Namorados porque sabe que  minha comida
preferida. Quer dizer, no sou idiota. No acho que seria um mar de rosas o tempo todo. Eu sei que aquela sensao de novidade acaba depois de uns anos. Mas tem 
que sobrar alguma coisa, no tem? Seno, qual seria o sentido de tudo isto. Ai, eca!
- O qu?
- Bombom de laranja - digo, cuspindo o chocolate na mo.
- Quer?
- Claro.
- E voc? - pergunto. - Qual  o seu tipo?
- O que voc acha?
- No seja idiota - digo, e meu estmago de repente comea a se revirar. - No sei ler pensamento, porra. Quer dizer, voc disse outro dia que no podia ficar com 
a mulher que voc ama, ento ia ficar com a que amava voc. Voc acha mesmo isso?
- No, no acho mais.
- Ento, quem  esta mulher misteriosa? - Porque, vamos encarar, estou morrendo de inveja dela. - Ah Sam, fale logo - peo, com urgncia. - Abra logo a boca. Quem 
 a sua barra de chocolate? Vocs se conheceram no trabalho?
- Voc pode se surpreender - responde ele. - Sabe, tambm quero algum que me faa rir. Algum que eu possa levar para jantar. Que seja capaz de comer alguma coisa 
bem gordurosa, coberta de manteiga, sem se preocupar se vai ou no ficar gorda. E depois, ainda vai pedir uma mousse de chocolate. Com creme extra.
- Voc nunca saiu com ningum assim na vida - digo, surpresa. Sinto uma coisa estranha no estmago, que se recusa a me deixar em paz. No devo ficar achando muita 
coisa disto tudo. Quer dizer,  claro que h um suspense no ar, mas parece que Sam j encontrou sua mulher ideal. Ento esta coisa que estou sentindo provavelmente 
 s porque eu e Sam nunca conversamos deste jeito profundo antes. Tudo bem, houve vezes
que tocamos em assuntos srios, mas nunca assim.
Parece que rompemos algum limite.
- Talvez seja porque ningum assim nunca quis sair comigo.
Ser minha imaginao' ou ele est um pouquinho mais perto de mim do que estava antes?
E por que  que o meu corao est batendo igual a uma gorda pulando na cama elstica de novo?
Falando srio, por que  que as minhas partes baixas esto agitadas como se no houvesse amanh?
Sam provavelmente morreria de rir se soubesse como eu estou me sentindo.
Ser?
De repente, quase imperceptivelmente, ele se aproxima de mim at que nos tocamos de verdade. Ento ele tira uma mecha de cabelo que caiu sobre a minha bochecha.
- Ser que eu preciso dizer com todas as letras? - pergunta ele, quando uma pontada forte e aguda atravessa meu corpo, da ponta dos dedos dos ps at o fim do rabo 
de cavalo, levando minha xoxota para cima com ela. Que diabos est acontecendo?
- O qu? - pergunto, nervosa.
- Eu comi o de laranja, Katie - continua. - No basta para voc?
- O que de laranja?
- O bombom de laranja. - Coloca o dedo embaixo do meu queixo e vira meu rosto de frente para ele. Estamos to prximos que posso sentir seu cheiro. Cheira a cerveja 
de ontem  noite e morangos e ar livre. Delicioso. Por um instante, parece que sou adolescente de novo.
- Eu sempre como os seus bombons de laranja, Simpson. Tenho feito isso desde que temos 6 anos.
- E da?
Merda.
Por que  que meu corao se recusa a bater normalmente?
- Voc, sua louca - diz ele, todo gentil, puxando-me na direo dele at que minha boca quase encosta na dele. - Voc e o meu tipo.
H alguma coisa incrvel e maluca em beijar algum que voc conhece bem de verdade. E quando termina, os dois esto meio acanhados. E no  como aquela vez no casamento 
de Poppy, quando os dois tentaram esconder o que tinha acontecido embaixo do tapete. Quer dizer, daquela vez eu fiquei confusa. Eu no sabia o que eu queria.
Agora eu sei.
E quero Sam.



VINTE E DOIS 






Durante o resto da manh, mal consigo olhar para Sam.  um pouco como quando a gente tem um sonho desconfortvel. Sabe, daquele tipo que voc sonha que est transando 
com algum que conhece muito bem na vida real.
S que, na vida real, voc no  nem um pouco a fim dessa pessoa. Mas quando acorda, depois de sonhar com ela, fica confusa. De alguma maneira, essa pessoa que voc 
v todos os dias, em situaes normais, no trabalho, no ponto de nibus, servindo seu cafezinho, mistura-se com a pessoa que a estava deixando louca na noite anterior.
Ento, s durante um ou dois dias, voc comea a achar que essa pessoa  bem interessante. Estar perto dela a deixa nervosa. E voc descobre que no consegue olh-la 
nos olhos.
Janice uma vez teve um sonho desses com um dos nossos professores. Na vida real, ele cheirava a cheddar azedo, tinha plos no nariz e uma pinta molenga e azulada 
no queixo. Mas, mesmo assim, ela ficou to abalada que, quando ele veio ajud-la em uma
experincia, ela botou fogo na franja com o bico de Bunsen.
E o fato de eu e Sam termos nos beijado hoje de manh quase parece um sonho. E  to surreal que no posso deixar de me sentir toda estranha por dentro.
Mas no posso negar que, cada vez que ele olha para mim, h uma conexo que no existia antes.  uma faceta totalmente nova da nossa amizade que eu nunca, at muito 
recentemente, sabia que existia. Acho que nos pegou os dois de surpresa.
E o que eu fao com minha resoluo cheia de boas intenes? E aquela histria de Aja Como um Homem? Transar e dispensar? Trepar e jogar fora?
E aquela histria de nunca mais permitir que eu me apaixonasse? Nunca?
Bom, j  tarde demais para voltar atrs, digo a mim mesma, enquanto enfio o biquni e o short na mala enorme. Estou feliz. Feliz mesmo, de verdade. Sam olha para 
mim e sorri.
-  esquisito, no ? - sorrio.
- No to esquisito assim. - Ele chega mais perto e coloca as mos sobre os meus ombros.
- No?
- No muito. Eu amo voc. Sempre amei. Acho que desde que ramos crianas. Eu disse hoje de manh.
- Desde que eu abri a sua cabea com aquela pazinha? - sorrio.
- Bom, talvez no naquela ocasio. Naquele dia em particular, eu achei que voc era a maior sacana. Principalmente quando os pontos caram.
- Essa no  uma atitude muito crist - digo. - Ficar guardando rancor desse jeito.
- Talvez eu no seja um rapaz muito cristo. - Ele sorri para mim, lentamente. - Se voc se comportar bem, pode at vir a descobrir isto por si s. Mas, Simpson, 
aquele negcio da pazinha foi mesmo algo totalmente dispensvel. Espero que voc no faa a mesma coisa com o meu pai se a sua me deix-lo sentar no colo dela.
Mas nem estou ouvindo.
- Como  que voc pode me amar? - pergunto, estupefata com o que ele acabou de dizer. - Eu sou ruiva. Como igual a uma porca. E a gente acabou de se beijar pela 
primeira vez.
- Voc  demais - diz ele, abaixando-se com doura para beijar minha bochecha. - Voc  voc. E a gente se conhece h sculos.
- Mas eu no tenho peito.
- Seu peito  adorvel. - Passa a mo em um dos meus seios de modo to gentil que fico achando que vou gritar de teso.
Nunca senti tanto desejo por algum na vida.
- Voc pode transar comigo se quiser - digo. - No vou quebrar.
- Acho que devemos esperar at chegar em casa. - Ele sorri. - Assim ainda vai parecer que  verdade quando voltarmos.
- Certo.
Obviamente, fico levemente decepcionada. Estava louca para descobrir se o pau dele era mesmo tudo aquilo. Mas vou ter que esperar...
Alm disso, nunca ningum jamais me disse que me amava antes de transar.
Quer dizer,  muito mais natural falarem uma coisa dessas bem no meio do ato srdido. Quando estamos mandando ver em um beco escuro. Vamos encarar: tem gente que 
fala bem na hora de gozar.
E pelo menos ele me conhece bem o bastante para compreender que no podemos nos casar. No at que saia meu divrcio com David, de qualquer maneira. E alm do mais, 
ser que precisamos seguir o caminho convencional de casa, casamento, filhos? Ser que no podemos ser apenas ns mesmos? Dois amigos que por acaso fazem sexo, monogmico 
e adorvel. Encarando os acontecimentos, assim  muito menos assustador.
Estou terminando de fazer a mala quando Sam d uma sada e volta com flores.
- Para que isso?
- Queria pedir a sua mo em casamento. Mas aqui no tem nenhum lugar para comprar uma aliana. A no ser que voc queira uma de plstico verde-limo da mquina no 
fliperama.
- Ah, Sam. - Sorrio por causa da doura dele. - Voc sabe que eu no posso aceitar.
- Por que no? - pergunta ele. - No  por causa daquela sua besteira de resoluo de Ano-Novo, ? Toda aquela bobajada de ficar solteira.
- Eu vou me casar com o David daqui a duas semanas explico. - Lembra?
O que acontece a seguir ser uma espcie de borro.
- Achei que... - ele gagueja. - Achei que agora... quer dizer, com a gente junto e...
Honestamente, no lhe ocorreu que eu vou dar prosseguimento ao plano de ajudar David e George ficarem juntos.
Ele permitiu a si mesmo acreditar que, se ns ficssemos juntos, tudo iria ser diferente.
-_Eu nunca disse isso - estouro. No  minha inteno, mas no posso decepcionar meus amigos. Nem mesmo por Sam. Fiz uma promessa. Preciso honr-la.
- E nem precisava dizer - Sam grita. - Quer dizer, se voc me amasse, nem ia precisar pensar sobre isso.
Fico to louca da vida por ele estar gritando que resolvo que ele provavelmente s planejou toda esta situao para me impedir de casar com David. E berro com ele 
por causa disto.
Sam diz que estou falando besteira, dizendo que  lgico que ele me ama, que sempre amou e sempre amar.
- Ento, voc no pode me deixar casar com o David e ficar comigo mesmo assim? - pergunto, desesperada.
Sam fica olhando para mim por um instante, e sinto um lampejo de esperana.
Ento, sempre muito lentamente, ele sacode a cabea.
- No, no posso.  tudo ou nada, acho. Preto no branco. No quero que haja toda uma rea cinzenta em que tudo  confuso. E no posso mesmo suportar a idia de voc 
se casando com algum que no ama.
- Mas eu amo o David - digo, surpresa. - E o George. E fiz uma promessa para eles. Se eu no me casar com o David, ele vai ter que ir embora. E agora que percebemos 
como nos sentimos em relao um ao outro, voc com certeza consegue entender como isso seria horrvel.
- O George s pensa nele mesmo - Sam solta. - E ele est bem feliz de ver voc abrir mo da sua felicidade, no est?
- Pare com isso - digo, amargamente decepcionada. Pare j. O George ainda nem sabe o que est rolando com a gente. Ento, como  que ele pode achar que eu estou 
abrindo mo da minha felicidade? E isso no precisa acontecer. Ns podemos ficar juntos mesmo que eu me case com David.
- No, no podemos. - Sam sacode a cabea. - No quero dividir voc com ningum.
- Ento voc vai ter que esquecer. - Agora estou brava. Brava por ver como ele est sendo egosta. Ser que ele no consegue ver que o meu casamento com David no 
vai mudar nada entre ns dois? Se ele me amasse, compreenderia.
- Esquecer o qu?
- Tudo. Ns dois. Vamos ter que creditar aquele nosso beijo  bebida e ao cenrio. Ainda bem que ainda no tivemos a oportunidade de transar. Eu no teria chegado 
perto de voc se no estivssemos viajando. Sabe de uma coisa, Sam Freeman? Eu preferia...
- Ficar com um careca dentuo. , eu sei - diz ele, tristonho.









VINTE E TRES 







- No vou me sentar do lado dele - toro o nariz queimado de sol e brigo com a comissria de bordo, batendo o tnis no cho para mostrar que estou falando srio.
Janice, apertando-se em seu assento, lana para mim um olhar solidrio. Ainda bem que ela est do meu lado.
Sinto-me a maior idiota. O que eu estava pensando, achando que eu e Sam tnhamos um futuro juntos? Como  que ele pode ser to egosta que nem me deixa casar com 
outra pessoa se eu quiser? Quer dizer, pode me chamar de antiquada, mas...
O que  que aconteceu com o amor incondicional?
Sam simplesmente ergue as sobrancelhas para o cu como se este fosse exatamente o tipo de atitude que ele esperasse de algum to infantil quanto eu. Ento ele assume 
aquele tom de voz dele de "eu sou to razovel" e pergunta ao homem ao lado dele
se ele se importa de pular uma cadeira para ficar entre ns dois.
Tipo um anteparo central.
- Pode confiar em mim, companheiro - ele reconforta o homem que, no  de surpreender, reluta em abrir mo de seu confortvel assento de corredor. - Voc s vai 
ter que ouvi-la reclamando at chegarmos a Heathrow.
- Faz tempo que vocs so casados, hein? - pergunta o homem, em p para permitir que eu passe.
- Meu Deus, vocs so to previsveis que chega a ser pattico - grunho, abaixando-me na frente do homem de modo que possamos dar prosseguimento a nossa conversa. 
- Todos os homens unidos, no ? Encheo  um termo inventado pelos homens para impedir as mulheres de conseguir o que elas querem, sabe como . Como vocs so 
machistas.
Mesmo com o homem sentado bem quietinho entre ns dois, a viagem de volta a Londres  um pesadelo. Para comear, ele  do tipo que abre os cotovelos na hora de comer, 
de modo que sou obrigada a fazer a mesma coisa, apesar de no ser algo que
eu faria normalmente, mas preciso mostrar de algum jeito que no tenho espao bastante para mim.
O que  pior, do outro lado do corredor, um pirralho remelento, com corte de cabelo de skinhead, jaqueta de couro e brinco de ouro est tendo um ataque histrico 
s porque pode.
Eu sei bem como ele se sente.
Para piorar tudo, quando chego  casa de George (ele e David vo passar a noite no hotel Savoy, porque querem), Jake est sentando na mureta do jardim.
Conversando com Nick.
E os dois parecem extremamente bravos.
Fui descoberta.
Droga.
Engato a r no carro e vou para a casa de Janice.
- Vou ficar aqui - aviso a ela. - O Jake e o Nick esto na frente da casa do George. Esto conversando.
- Ah, querida...
- No estou com saco de enfrentar isto agora.
- Voc no acha que  melhor ir l? - Ela se levanta e eu imediatamente me sinto culpada porque ela parece supercansada. No momento, est comeando a se sentir enjoada 
o tempo todo. - Eu vou com voc, se voc quiser.
- Ser que no d s para eu ficar aqui? - Dou uma olhada geral no apartamento dela, que no est to calmo, bacana e arrumado como de costume. Exemplares de revistas 
tipo Pais e Filhos e livros de nomes de bebs cobrem o cho. - Eu podia ficar escondida aqui e ajud-la quando voc estiver do tamanho de uma casa.
- Ah, querida, voc sabe que pode ficar aqui. - Janice me d um abrao. - Mas nada de arrumao. Daqui a alguns meses, este lugar vai estar cheio de fraldas sujas 
de leite e pedaos de plstico de cores primrias. Com sinos.  melhor j ir me acostumando a viver na baguna. Mas voc no acha que precisa resolver essa questo?
- Por qu?
- Para falar a verdade, no sei. Para dar um fim. E poder seguir em frente. Daqui a menos de duas semanas, voc vai ser uma mulher casada. No se esquea disto.
- Ah, meu Deus.
- Ele no vai ajud-la agora. Vamos l. D um fim nisso tudo logo.
Com relutncia, entro de novo no Balde Enferrujado, fazendo uma pausa s para deixar que Janice entre pelo lado do passageiro. Ento nos dirigimos para Islington 
para encarar o problema de frente.
- Ah, olha s - digo, fingindo estar decepcionada quando estacionamos na frente da casa de George. - Os dois foram embora. No faz mal. O fim desta histria vai 
ter que esperar, simplesmente. Tenho biscoitos de chocolate l dentro.
Mas, quando abro a porta, logo percebo que no estamos sozinhas. D para ouvir o barulho das panelas no fogo. A porta da geladeira abrir e fechar. E a voz da minha 
me, clara e alegre, quando vem me cumprimentar.
- Katie - ela sorri -, como foi a viagem?
- Foi tima, obrigada, me. - Fico surpresa por ficar to contente de v-Ia. Ela parece me reconfortar, de certo modo, depois de tudo que aconteceu nos ltimos dias.
- E Janice. - Minha me irradia. - Como vai o pequenino? Meu Deus, voc j est do tamanho de um nibus, no  mesmo?
Na verdade, Janice continua pequenininha, mas esta  s a minha me sendo ela mesma.
- Muito bem, obrigada, senhora S.
- E como vai o Sam? Ele aproveitou bem? Ele disse que ligaria quando voltasse, mas ainda no tivemos notcias dele.
Nadinha.
- Humpft.
- Ah, vocs no brigaram de novo, brigaram? No faz mal. Trouxe um pouco de cozido que sobrou, para o caso de vocs estarem com fome. E cuidei de toda a burocracia 
para voc. E achei estes dois aqui na porta. Olha. Este jovem simptico aqui disse que veio devolver as suas calas.
Droga.
Puta porra que pariu.
Sentados um de cada lado da mesa da cozinha de George, cada um com um prato fumegante de cozido de cordeiro e pedacinhos de massa de minha me, esto Nick e Jake.
- Disse a eles que eram bem-vindos a qualquer momento - ela solta, depois de pegar uma cadeira para Janice.
- timo.
- No se preocupe - ela cochicha no meu ouvido e aponta para Jake quando vou pegar uma xcara para o ch. - Esse a no presta. 
Sorrio. Apesar do estmago embrulhado e da perspectiva de um escndalo, no posso deixar de pensar em como  maravilhoso que a minha me sempre soube como Jake  
na verdade. E eu achando que ele a enganava.
- Tem alguma coisa que voc gostaria de dizer, Katie? - Jake olha para mim, cheio de raiva.
- Tem sim - dou um gole no ch da minha me. - Voc  o maior punheteiro.
Nick no diz nada. Apenas se serve de mais urna pratada de cozido de minha me. O bobalho ainda nem se ligou no que est acontecendo.
- Vim aqui para me oferecer a abandonar a Tracy. - Jake est completamente tomado pela raiva.
Dou de ombros.
- Bom, voc ia ter que cair na real alguma hora.
- Mas parece que voc est saindo com outra pessoa - aponta Nick com a cabea. Nick ergue os olhos de uma montanha de pur de batata e sorri para mim todo fofo.
- Eu disse para ele - confessa. - Espero que voc no se importe. Sabe, o negcio  que eu dei uma passada aqui para devolver as suas roupas. A minha me lavou tudo.
- Hmm, , obrigada.
- Eu meio que estava achando mesmo que no estava dando certo. Tipo eu e voc.  que voc  inteligente demais.
- Bom - balbucio, sentindo uma punhalada de prazer por causa do olhar de fria no rosto de Jake.
- Quer dizer, voc l aqueles jornais grandes e tudo o mais.
- Tudo bem, Nick. - Sorrio para ele. Meu Deus, isto aqui vai ser fcil demais. Nick/Dudley, seja qual for o nome dele, no parece estar nem um pouco magoado. Na 
verdade, desde que eu no me meta entre ele e o prato, acho que ele vai sair daqui to feliz quanto um porco chafurdando na merda.
Jake, por outro lado,  um assunto completamente diferente. Eu realmente no estou nem a para a maneira como ele se sente. E tenho minha me e Janice aqui para 
segurar a minha mo.
- Ento,  verdade? - desafia Jake.
- Bom, voc ouviu o cara - digo. - E ele no  algum ator carssimo que eu contratei s para sacanear voc.
- Achei que ns estvamos juntos. - Jake empurra o prato de comida para longe com desgosto e minha me, ao perceber isto, fica com cara de quem est prestes a acert-lo 
na cabea com a frigideira que est lavando.
- Estvamos - concordo. - Mas eu tambm estava com outras pessoas. Igualzinho a voc. Mas agora eu no estou mais com vontade de ficar com voc. Ento voc pode 
voltar para a Calcinha de Peixe. Vamos l. Sai fora.
Estupefato, Jake levanta, pega o celular e olha para a minha me. Ela cruza os braos como quem diz No se Meta Comigo e ele se dirige para a porta. Janice faz uma 
careta de nojo. Preocupada porque ele pode se sentir afrontado, olho para Nick. Mas ele s ergue os olhos do prato e pergunta se algum se importa se ele comer o 
que Jake deixou.



 medida que Janice vai ficando maior, comea a se sentir cada vez mais enjoada, ento fico no apartamento dela at o dia do casamento; dou umas passadas na casa 
de George s para pegar livros de receita e dar comida para os gatos. Alis, prefiro no ficar na casa deles no momento. Afinal, d azar a noiva ver o noivo antes 
do casamento. E a ltima coisa de que preciso agora  de uma visita do Servio de Imigrao.
Tambm toro para que a companhia constante e a conversa entre mulheres faam com que eu pare de pensar em Sam. Mas at parece. Depois de trs dias tentando me convencer 
de que eu o odeio, resolvo tentar falar com ele.
Porque eu no o odeio. De jeito nenhum. E no suporto deixar as coisas deste jeito.
Vou at a casa dele e toco a campainha. Enfio as mos nos bolsos. No consigo evitar o sentimento de nervosismo. Meu corao est alojado na boca do estmago e eu 
me sinto enjoada.
Ele demora uma eternidade para abrir a porta. Mas afinal ouo passos no corredor e a porta se abre.
 Shana.
- Ah.
- Oi. - Ela sorri, toda doce.
- Hmm. ai.
- Voc quer alguma coisa?
- O Sam est?
- No - ela sorri de novo. - Ele saiu.
- Ah. Tudo bem.
- Ele contou para voc que ns voltamos? - pergunta ela.
- No. 
Sinto-me como se tivesse levado um chute. No estmago, por trs. O choque de saber que Sam tinha ido correndo de volta para Shana  quase demais para suportar. Se 
foi capaz de fazer isso, no me amava tanto assim mesmo.
Amava?
No me dou ao trabalho de dizer mais nada a Shana. Nem consigo esconder como estou perturbada. Vou embora, com lgrimas nos olhos, um caroo do tamanho de Jpiter 
na garganta e minha dignidade em frangalhos. Ento volto a p at a casa de Janice, sem nem mesmo parar na lojinha da esquina para comprar chocolate e cigarro. 
Quando Janice olha para a minha cara, sai correndo para a lojinha da esquina para comprar chocolate e cigarro.
- Cafajeste - ela diz quando conto tudo.
- Cafajeste filho da puta - concordo.
- Cafajeste filho da puta da porra. - Ela enxuga meu rosto com um lencinho. - Eu no achava mesmo que ele fosse assim.
- Claro que ele  assim. - Fungo no meu choro e asso forte o nariz. - Ele  o maior cafajeste do mundo.
- E verdade.



Na manh do meu casamento com David, Janice e eu assistimos a vdeos para acalmar os meus nervos, copo de champanhe em uma mo, um punhado de pipoca caramelizada 
na outra.
Laurence Llewelyn-Bowen, por outro lado, est aplicando um papel de parede de zebra horroroso em cima das paredes cor de carvalho de uma casa de fazenda do sculo 
XVIII em Shropshire.
- Voc no est pensando que queria fazer uma troca de noivos, est? - Janice aperta minha mo.
- Queria mesmo trocar de tero, para falar a verdade - solto. - Estou com uma clica que voc no ia acreditar. Devo ser a nica noiva da histria que vai passar 
a noite do casamento sozinha, de TPM.
- Mas tambm, o noivo vai pass-la trepando com outra pessoa, no vai? - Ela ri. - Se quiser, pode trocar de tero comigo. O meu est ficando meio cheio.
- Mesmo assim, eu prefiro me casar com o David a casar com esse cara a - aceno na direo da TV e tomo um enorme gole de champanhe como que para reprimir qualquer 
dvida que eu ainda possa ter.
- Eu tambm - reconhece Janice. - Ento, nenhum arrependimento?
- Nada de arrependimento - digo. - Nunca fui capaz de manter uma resoluo de Ano-Novo, ento no sei por que deveria comear agora. E no vou me casar de verdade, 
voc sabe. No no sentido de "amarre um colcho nas minhas costas e me prenda  pia com uma colher de pau na mo". Na teoria, vou continuar a ser Linda, Leve e Solta.
- Acho que est mais para Velha, Largada e Burra. - Janice sorri, dando um golo no champanhe dela (s uma tacinha, viu) e voltando sua ateno para a TV, onde Linda 
Barker est passando massa corrida na parede da cozinha de um apartamento do dcimo andar de um prdio popular em Ilford, cor de terracota para dar uma aparncia 
de interior de villa na Toscana.
- Mas eu no estava falando do seu casamento. - Janice coloca o brao em volta dos meus ombros. - Voc sabe do que eu estou falando. E no  de no respeitar suas 
resolues de Ano-Novo idiotas. Estou perguntando se voc gostaria de esperar mais um pouco pelo Intervalo para uma Coca Light.
- Voc est falando do Sam?
- Exatamente. Ou de algum como ele.
- Acho que no. - Respondo. - Pelo menos descobri como ele  de verdade. No d para acreditar que ele voltou correndo para aquela tonta. De qualquer modo, estou 
dando minha contribuio para o amor verdadeiro, fazendo com que David fique no pas para que ele e o George possam ficar juntos. O David  a primeira pessoa que 
o George ama, sabe, alm dele mesmo. E da me dele. Seria muito injusto se ele estivesse a milhares de
quilmetros de distncia, abrindo latinhas de cerveja geladas em uma praia, sozinho.
- Em vez de demonstrar toda a sua utilidade e preparar daiquiris para o David,  isso? - diz Janice, e ns duas temos um ataque de riso como no temos h uma semana.
E rir faz bem.
No menciono que, se George e David no tivessem me dado um quarto, um escritrio e um lugar para ficar, nunca teria conseguido fazer com que a Comidinhas Caprichadas 
decolasse. Eles me proporcionaram uma carreira de que me orgulhar. No posso jogar nada na cara deles, posso?
Tudo bem, convenientemente esqueo que a idia toda foi de Sam, para comear. No posso pensar nisso agora. J tenho muita coisa com que me preocupar, com a forte 
probabilidade de que eu esquea o que tenho de dizer na hora da cerimnia. E com a possibilidade de que o Departamento de Imigrao se ligue no fato de eu estar 
me casando com um gay estrangeiro e resolva dar uma passadinha por l.
E no s para jogar confete.
 legal ver George e David to felizes. E fico aliviada de saber que vai ficar tudo bem com Janice. Ela tirou esta semana de folga do trabalho para me ajudar, enquanto 
eu assava um enorme bolo de casamento cor-de-rosa decorado com coraezinhos, bolinhas prateadas e balinhas adorveis. Juntas, fizemos tortinhas de camaro com gergelim, 
panquequinhas de pato e enormes tonis de sopa apimentada e com creme azedo, frango com castanha de caju e lula com molho de feijo preto.
Aquela ltima visita que fiz a Sam me ensinou algumas coisas.
Que eu com certeza tinha tomado a deciso certa.
Eu sei quem so os meus amigos.
E no vou para a cama com nenhum deles.
Quando coloco meu vestido (um tufo de tecido rosa-dourado, longo e elegante; Didier me deixou orgulhosa) e Janice d os ltimos retoques no meu cabelo e me leva 
para fora, at o txi que espera, esmago as ltimas dvidas que podia ter e resolvo tratar o dia de hoje como uma grande festa.
Minha festa.
E vou chorar se bem entender, porra.
Mas tambm, talvez eu s ria bastante.
Pela maneira como estou me sentindo, quem  que vai saber?
- S uma coisa - Janice cochicha quando entramos no txi preto. - Voc pode estar muito bem se metendo em um casamento sem sexo, mas onde h fumaa, h fogo.
- O qu?
- Lembra quando o Rory Wilsher me deu o p na bunda? - comea ela, consertando uma das alcinhas de seu vestido de madrinha rosa-Barbie. - Eu costumava gastar a maior 
grana com txi. At para ir trabalhar.
- Ah,  - lembro. - Gastava mesmo. Mas achei que era porque voc ficou arrasada demais com a perda, tanto que no conseguia nem mais andar.
- O caralho que era. - Ela sorri. - Ento, sente a. Bem no meio.
Obedeo, movendo-me um pouco para o lado, quase derrubando meu buqu de botes de rosa cor-de-rosa no cho do carro.
- Pronto. Est sentindo alguma coisa?
- Estou - respondo, com um sorriso se esparramando pelo meu rosto. - Acho que sim.
- Ento pronto. Melhor do que um vibrador em um dia de tdio.
Ficamos rindo durante todo o trajeto at o cartrio de Chelsea. Ainda estou um pouco bbada por causa de todo o champanhe que entornei de manh, mas George (Deus 
o abenoe) se lembra de colocar um cobertor na minha cabea quando vamos do carro at o prdio, para que, se a minha me por acaso resolver passar ali bem naquele 
instante, no me veja e no d  luz ali mesmo na calada.
- Todo mundo vai ficar achando que voc  uma pop star - diz ele quando subimos os degraus.
-  disso que tenho medo - balbucio. - Anda logo, ser que  possvel? No estou enxergando porra nenhuma. E no quero chamar ateno.
No final, quem me entrega  um amigo de David, Rigby Htero. Nunca o tinha visto antes, mas ele parece muito legal. E apesar de a coisa toda parecer muito estranha, 
por eu ser a nica heterossexual (alm de Rigby e Janice) no meu casamento, percebo que no faz a mnima diferena.
Pelo menos no tem ningum do Departamento de Imigrao aqui. A coisa toda parece uma gayzice s.
E acho que todo o cor-de-rosa no ajuda em nada. E o confete glitter tambm est um pouco espalhafatoso demais.
Dou uma olhada no pblico e percebo que h alguns outros heterossexuais por ali. Poppy e Seb apareceram. Poppy, grvida e majestosa em um tubinho de seda roxa rosada. 
Seb com um terno escuro e uma gravata roxa rosada combinando com o vestido
dela. Deus os abenoe. Isto aqui no tem nada a ver com ela, mas fico feliz com o apoio deles. E (aimeuDeus), sentada l na frente, do outro lado, piscando para 
mim como se a vida dela dependesse disto, est a me de George. Ela me manda um beijo. Olho para George, que est exultante.
- Eu contei - confidencia.
Meu corao se enche de orgulho. Eu sabia que ele podia contar. E, obviamente, est tudo bem. A boa e querida me dele compareceu ao casamento do namorado.
Eu sabia que ela era legal pra cacete.
A nica pessoa que realmente est faltando  Sam.
Suspiro. Por mais que eu tenha tentado fingir que no, tinha meia esperana de que ele aparecesse e parasse o casamento no meio. Uma batida no cho, ao estilo de 
Quatro casamentos e um funeral, quando chega na parte: "Se algum aqui conhece alguma razo para que este casamento no se realize."
Mas ele no aparece. E alis, a cerimnia  to rpida que eu mal percebo quando acaba. Nada de canes. Nada de leituras.
Em poucos minutos, sou uma mulher casada.
Que caralho.
 hora de beber at cair dura.
O chefe de George nos emprestou seu barco no Tmisa para a recepo do casamento. Est todo enfeitado com dezenas de lanternas chinesas de papel, em todos os tons 
de rosa imaginveis. Rosa tutti-frutti, rosa-Barbie, rosa salmo, rosa de bala, rosa de flor, todas flutuando no ar, junto com as grberas que George pendurou de 
cabea para baixo, espaadas, em um arame esticado em cima do convs. Trs garons de smoking
com gravatas-borboleta cor-de-rosa servem drinques cor-de-rosa em copos altos e vrios convidados j parecem um tanto embriagados.
- Vamos l - anima Janice, pressentindo minha felicidade por no encontrar Sam entre eles. - Vamos encher a cara.
Bom, voc pode - completa, rindo. - Para mim, melhor no. O Jasper Jnior pode no gostar.
- Voc no vai dar o nome dele para o beb! - exclamo, chocada.
- Nunca se sabe. - Ela sorri. - Estou brincando - completa apressada, tendo visto que estou prestes a sugerir que se coloque o bastardozinho para adoo, no final 
das contas. - O nome dele no vai ser nenhum que comece com J. Ento Jerome, Jemima e Jessica tambm esto fora. E Josh.  melhor voc comear a pensar.
- Por que eu?
- Quero que voc seja a madrinha.
- Quer?
- Claro.
- Ah, Janice - digo. - Obrigada.
E ento caio no choro.
- Minha me est contente, sabe? - conta ela. - J comeou a tricotar. No agenta esperar at o beb nascer.
- E voc?
- Cagando de medo. Voc vai me acompanhar no hospital, no vai?
- Claro que vou. - Aceito um drinque e me afundo em urna mesa na outra ponta do convs, esquecendo por um instante que estou de vestido, portanto minhas anguas 
esto  mostra para quem quiser ver. - Vou ficar esperando l fora com charutos grossos e champanhe.
- Ah no, nada de charuto, por favor. - Ela sorri, gentil. - J agentei charutos suficientes para a minha vida inteira. E eu estava querendo que voc fosse l para 
segurar a minha mo.
Olho para a minha melhor amiga. Ela parece um pouquinho assustada. De modo que lhe dou um abrao bem forte, reconfortante.
- Claro que vou segurar - digo. - Voc sabe que eu amo voc do fundo do corao, porra.
- Eu tambm amo voc. - Ela me devolve o sorriso, agradecida.



Definitivamente,  uma festa a ser lembrada. E, muito mais tarde, quando o sol est se pondo sobre o rio e todas as drag queens, ice queens e acid queens que so 
os amigos de George e David j esto indo para casa, David me puxa de lado.
- Obrigado. - Ele me d um abrao bem apertado. - Mais do que tudo. Eu agradeo do fundo do corao. Pouca gente faria o que voc fez hoje. Foi muito altrusta.
Caralho se foi, foi mesmo, pensei. Voc no sabe o quo altrusta.
Mas ele sabe.
- Eu sei do Sam - revela ele. - A Janice contou para a gente. Eu sei como voc abriu mo dele por mim e pelo George. E nunca vou poder devolver o favor. Eu amo voc.
- Eu tambm amo voc. - Dou um abrao nele. - E muito de nada.
 irnico, mesmo. L estava eu no comeo do ano, to determinada a ficar solteira, to determinada a ficar com tantos caras quantos eu quisesse que nem percebi que 
estava me apaixonando por acidente.
Apaixonei-me por Sam por descuido.
E ainda assim, aonde foi que tudo isso me levou? Ele com certeza no me quer mais agora, quer?
Honestamente, achei que ele poderia ter aparecido hoje  tarde. Se no para a cerimnia, pelo menos para a festa. E olha que esta festa foi divertida.
- Eu no teria vindo - concorda George.
- Eu sei que no, seu cafajeste egosta.
Ele sorri.
- A vida  quase perfeita.
- No  to m, ? - digo.
E no , percebo. Realmente no . Posso ter perdido Sam, mas tenho trs amigos que me amam demais.
E vou ter um afilhado.
Que amor.
- Quase perfeita? - pergunta David. - Do que mais voc precisa?
- De um beb? - sugere George. - Katie, querida, voc tem certeza de que Janice no est a fim de vender?
Caio na risada.
- Tenho certeza.
Ele nunca vai mudar.
- E voc? A resposta continua sendo no?
- Vamos dizer que ainda no estou pronta para andar por a com uma placa "tero de Aluguel".
- Que bom ouvir isso - diz uma voz bem conhecida.
Meu corao d um salto.
David e George instintivamente desaparecem no cenrio, e eu fico sozinha.
- Voc se casou mesmo, ento.
Assinto com a cabea lentamente.
- , casei.
- Nenhum arrependimento? - pergunta Sam.
- Nenhum - respondo, falando a verdade. - Estava ajudando a um amigo. Dois amigos. S queria faz-los felizes. Eles dois se amam, sabe?
- Sei - responde Sam. - Pena que as coisas terminaram do jeito que terminaram. Entre ns, quero dizer.
- Sei.
- Voc acha que ainda podemos ser amigos?
- Espero que sim.
- Voc gostaria?
Lentamente, vindo de algum lugar bem l dentro de mim, consigo dar um sorrisinho.
- Gostaria - digo, de verdade. - No temos muita escolha, para falar a verdade, no ? Ns vamos ser parentes, lembra?
- Ah, . - Ele sorri, pesaroso. - Voc vai ser minha irm.
- Ento, talvez seja melhor no, sabe...
- Sei. - Ele me d um abrao. Desta vez, um abrao de irmo. E sinto uma pontada de arrependimento.
Mas bem pequenininha.
- Tchau, por enquanto. - Digo, tentando ser forte. Talvez possamos sair para beber alguma coisa quando isso tudo estiver um pouco mais... voc sabe.
- Sei.
 esquisito voltar para casa sozinha depois do meu prprio casamento. Estou prestes a entrar em um txi em Kew Bridge quando ouo algum correndo atrs de mim.
Sam.
- Posso lhe fazer companhia? - pergunta. - Hoje  noite, quer dizer?
- No sei. - Sacudo a cabea. - No tenho certeza...
- Por favor?
- Tudo bem.
Quando chegamos em casa, me sinto estranhamente acabada. S quero um banho quente e uma cama.
- Voc d comida para o Graham e o Shish para mim?
- Claro.
No quero tomar banho s por causa do banho. Apenas sinto a necessidade de fugir de Sam. Estou confusa, Por que ele est aqui? E cad Shana?
Credo, isto di demais.
Tudo bem, ento somos amigos de novo. E fico feliz com isso. Feliz de verdade. Ns nos conhecemos desde sempre. Teria detestado perd-lo.
Mas quanto tempo vai demorar? Para esquec-lo, quero dizer.
E corno  que eu vou conseguir ser urna boa irm para algum por quem estou loucamente apaixonada?
Especialmente porque vou ter que ficar assistindo a ele e Shana todos felizes juntos.
Deito-me sobre um monte de bolhas com cheiro de sndalo, olhando para minha aliana de ouro branco com um sorriso amarelo. George insistiu para que no fosse de 
ouro amarelo, por que seno pareceria comum.
Fecho os olhos, afundando-me sob a superfcie para lavar todas as dificuldades do dia.
De repente, corno que vindo do nada, sou atingida por pedras.
- Que porra  esta?
Subo  superfcie cuspindo e tossindo.
- O qu...
Sam est entrando na banheira de roupa.
- Que porra voc est fazendo?
- Estou ficando do lado da torneira. O que voc acha?
- No estou entendendo.
- No est? - ecoa ele, gentil, sentando-se de repente, de modo que a gua cai pelas laterais da banheira e se espalha pelo cho.
- E o que  isto? - coloco a mo embaixo da minha ndega direita para ver o que est me incomodando. - Porra, isso machuca. Por que  que voc estava jogando pedra 
na banheira?
E ento, com um pequeno arrepio por dentro, percebo que no  urna pedra.
 urna bala de goma.
Urna bala de goma vermelha.
E h pacotes de batatinha por todo o cho do banheiro.
- Eu amo voc, Katie -- diz Sam, completamente ridculo com sua jaqueta da Diesel, sentado dentro de urna banheira cheia, fedendo a sndalo e rodeado por doces de 
cores fortes. - Voc pode me obrigar a ficar do lado da torneira quantas vezes voc quiser, que vou continuar amando voc.
- Mas voc ainda vai se casar com a Shana.
- De onde foi que voc tirou esta idia?
- Fui at a sua casa. E ela estava l. Trazendo todas as coisas dela.
- Tonta. - Ele d um peteleco e manda um monte de bolhas para o meu nariz. - Ela estava levando tudo embora. Dei a chave para ela porque queria que ela tirasse o 
resto das coisas dela da minha casa. Tinha deixado um monto de coisa por l.
- Ento ela inventou? - pergunto, meu corao de repente ficando leve.
- Claro que sim -- exclama ele. - Estou surpreso por voc no ter percebido. Voc sabe do que ela  capaz.
- Ento, por que voc no foi ao casamento?
- Eu no queria impedi-Ia de fazer o que voc queria fazer, fosse l o que fosse. E no faz mal. Voc estar casada com o David, quer dizer.
- Sinceramente?
- Sinceramente. Pensei que faria, mas no faz. A nica coisa que interessa  que eu amo voc. Casada ou no. Quer dizer, no  corno se voc estivesse casada no 
sentido literal da palavra, ?
- Bom... - comeo; da, vejo a cara dele e comeo a rir. - Estou brincando.
- Ento, voc topa? Podemos?
- Ah, Sam. - Caio na risada, afinal me sentindo completamente feliz. - V l buscar um pedao do meu bolo de casamento que eu vou pensar.








EPILOGO






O beb de Janice nasceu;  menina. Ela queria que se chamasse Katherine (por minha causa), mas consegui convenc-la de que seria um nome tedioso, que ningum nunca 
sabe escrever, ento ela escolheu Lucille. Ela  linda. Parece-se muito com Janice e nada com Jasper. A me de Janice foi morar com elas e cuida de Lucille enquanto 
Janice est no trabalho. A me de Janice adora no precisar morar em um prdio horroroso onde os elevadores j nem funcionam mais. E Janice est saindo com um
cara novo. O nome dele  Ethan e ele tambm tem uma filhinha. Levam as crianas ao parque todo fim de semana. No sei se esto exatamente apaixonados, mas parecem 
bem felizes. Ainda bem.
George passa l para visit-las o tempo todo. Ele  um padrinho exemplar. Parou de trabalhar, de modo que ele e David esto viajando muito no momento, porque tm 
a esperana de comprar um beb em algum pas do Terceiro Mundo. At agora, acho que no encontraram nenhum que combine com o estofamento do carro novo, mas tenho 
certeza de que logo acharo algo adequado.
Revelou-se que o nome de Jasper no era Jasper coisa nenhuma. O nome verdadeiro dele  Archie Higgs e ele  procurado pela polcia por causa de um esquema de prostituio 
que opera em Hampstead j h algum tempo. Eu vi a notcia em um tablide.
Poppy teve as gmeas Molly e Holly em setembro. Sendo Poppy, seu parto foi perfeito e indolor. No como o de Janice, que deixou a sala de parto muito parecida com 
um abatedouro e seu perneo em frangalhos. Elas s choram em circunstncias extremas e quase nunca ficam doentes. Na nica vez que Poppy viu a filha de Janice, Lucille 
regurgitou em cima dela inteira, para a enorme diverso de Janice e minha.
No sei o que aconteceu com Max porque, ainda bem, nunca mais o vi.
Nick e minha me ficaram amigos depois do cozido e ele aparece de vez em quando na casa dela e de Jeff para jantar.
Jake e a Calcinha de Peixe se casaram no h muito tempo. O noivo vestiu Hugo Boss e a calcinha da noiva ficou aparecendo. 
Uma semana dessas, o casamento de Shana com um membro de baixo escalo da famlia real encheu as pginas das revistas de celebridades.
E eu finalmente consegui ir para a cama com algum na noite do meu casamento.
E, sim, o pau dele com certeza no decepcionou ningum.
Minha me est no stimo cu agora que eu e Sam estamos juntos. Ela no pra de falar em sinos de igreja e est difcil esconder dela o meu divrcio, que est para 
sair.
Mas acho que Sam e eu no nos casaremos.
Quer dizer, no d exatamente para casar quando o pai do noivo e a me da noiva formam um casal, no ?
Voc acha que d?




FIM
